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domingo, 31 de janeiro de 2021

AMÉRICA LATINA A PARTIR DE 1930 --

 


             A Grande Depressão de 1929 representou  um duro golpe para a América Latina, cortando o fluxo de capital estrangeiro e baixando os preços dos produtos primários no mercado mundial. Como consequência, muitos países foram levados a implantar  programas de industrialização destinados a substituir importações. Isso provocou situações difíceis em países sem força política para se proteger. A tradicional economia de  exportação primária foi modificada, embora não totalmente,  tanto pela Grande Depressão   como pela Segunda Guerra Mundial. Trabalhadores urbanos perderam confiança em partidos radicais e liberais da classe média, que até então representavam seus interesses, e voltaram-se para líderes populistas - como Getúlio Vargas, no Brasil, e Juan Perón, na Argentina - que acenaram com soluções mágicas imediatas para a situação e aceleraram o processo de industrialização. Com apoio de organizações de trabalhadores, esses líderes cativaram as massas prometendo aumentos salariais, mais empregos e possibilidade de sindicalização (ainda que sob controle do Estado, como foi o caso do Brasil). Mas foram incapazes de opor-se aos interesses dos militares ou de facções da oposição. Em 1954, com o enfraquecimento de sua base de apoio, Getúlio Vargas acabou se suicidando. No ano seguinte, na Argentina, Perón foi deposto pelos  militares. 
           A busca do desenvolvimento econômico e da independência obteve sucesso parcial em alguns países onde foi promovida a substituição de importações. Contudo, a região continuou a depender dos países desenvolvidos para exportação de bens de produção, além da dependência em tecnologia e capitais.
         A perspectiva de reformas começava a minguar até o México, país da revolução. Foi na década de 30 que Lázaro Cárdenas incrementou a distribuição de terras para camponeses e nacionalizou a indústria petrolífera. Nos anos 40, a ênfase dada à industrialização, ao investimento estrangeiro e ao estreitamento dos laços com os EUA enfraqueceu as reformas da década anterior. 
           Em alguns países como Uruguai, México, Brasil e Argentina, as mudanças produziram resultados visíveis. Mas dois fatores limitaram a expansão industrial. Em primeiro lugar, o aumento da população superou o desenvolvimento econômico. Em segundo lugar, com a industrialização durante a Segunda Guerra, grandes lucros foram acumulados, mas pouco sobrou para os trabalhadores, ampliando o abismo entre ricos e pobres. 
          Se a industrialização não resolvia os males econômicos e sociais, o marxismo e o exemplo da URSS forneciam inspiração ideológica alternativa. Os partidos comunistas já existiam na América Latina desde os anos 20, mas tiveram pouca influência até o presidente Árbenz da Guatemala, simpatizante do marxismo, empreender um programa de reforma agrária  em  1951, mas seu projeto teve curta duração. Árbenz foi deposto em 1954 por conservadores apoiados pelos EUA.  A revolução guatemalteca evidenciou  o dilema dos anos 50, de instituir  um estado do bem-estar social sem recursos para sua manutenção. E questionou até que pontos os investimentos em bem-estar social impedem o crescimento econômico em vez de promovê-lo. O problema foi sentido após a revolução nacionalista boliviana, em 1952, quando as minas de estanho foram nacionalizadas e a reforma agrária promovida. Mas a inflação e a queda de produtividade corroeram os ganhos. 
           Em 1959, a revolução cubana buscou conquistar mudanças sociais e crescimento econômico. Durante todo o governo comunista de Fidel Castro, a posse da terras tornou-se coletiva, as empresas foram nacionalizadas, o ensino tornou-se exclusivamente público e a saúde foi disponibilizada para todos. Mas o custo dessas vantagens  foi a perda de liberdade política e a existência de rígido controle centralizador. Apesar dos esforços de Cuba em se industrializar, o açúcar continuou o principal artigo de exportação e cresceu a dependência  de países comunistas. Cuba está falida até hoje.
           Mesmo com o empobrecimento maciço, a revolução cubana tornou-se modelo para movimentos urbanos e rurais na América Latina, no Uruguai, Argentina, Brasil e Bolívia. Na Bolívia, o movimento de guerrilha  rural de Che Guevara representou séria ameaça às forças de segurança  até sua morte em 1967. A guerrilha urbana apresentava um enfoque revolucionário alternativo, mas sua base política era muito limitada para atingir seus objetivos. Ao mesmo tempo, partidos de centro-esquerda tentavam provar  que reforma e liberdade não precisavam ser incompatíveis. Na Venezuela e no Chile, a pressão popular por reformas tornou-se irresistível. Em 1970, a eleição de Salvador Allende, no Chile, significou o retorno de um governo marxista, mostrando que a mudança social podia ser obtida por meios constitucionais. Mas a pressão de latifundiários, da comunidade de negócios e dos EUA resultou num golpe de Estado em 1973 e no regime militar de Pinochet, que durou até 1989. 
            As consequências políticas trazidas pela Grande Depressão foram diferentes em cada país, mas ficou evidente uma tendência para o nacionalismo e para ditaduras de direita ou populistas. Os conflitos ideológicos mundiais, após 1945, refletiam-se nas revoluções da Guatemala, Bolívia e Cuba. A revolução cubana teve seguidores.  Mas nenhum deles foi bem-sucedido. 
          Enquanto isso, a economia dos vinte países latino-americanos passou por mudanças estruturais. Os investimentos na indústria e no comércio se expandiram e as exportações de produtos agrícolas e de mineração perderam terreno. Com isso, outras classes políticas e sociais tomaram o lugar das oligarquias; houve explosão demográfica urbana e a nova concentração de riqueza aumentou as pensões sociais. A dependência da importação de bens de capital, matérias-primas, tecnologia e capitais estrangeiros produziu endividamentos externos que as exportações tradicionais ou de manufaturados não puderam cobrir. Nos anos 70, em diversos países, governos militares combinaram conservadorismo político e social com liberalismo econômico. Regimes mais liberais, como México e Venezuela, governaram com prosperidade econômica graças à elevação dos preços do petróleo em 1973. A queda na demanda de petróleo e gastos excessivos do governo, porém, lançaram uma sombra  sobre seu desenvolvimento. Venezuela, totalmente dependente do petróleo, tentou um regime comunista, mas está totalmente falida. 
             Outros regimes viram suas economias de livre mercado desafiadas pela recessão mundial, após 1973. Dois governos militares (Argentina  e Brasil) reagiram á recessão econômica e à oposição política adotando medidas especiais até os anos 80. Em 1983, fracassou a tentativa da Argentina de ocupar as  ilhas Falklands (Maldivas), em poder da Grã-Bretanha; a pretensão de arregimentar  apoio para uma causa nacional acabou levando à queda do regime militar. 
          Na América central, movimentos de esquerda levaram à derrubada do regime de  Somoza pelos sandinistas, em 1979 na Nicarágua, e a guerra civil em El Salvador, entre o governo apoiado pelos EUA e os guerrilheiros da Frente Farabundo Marti de libertação Nacional (FMLN). Na Nicarágua, os EUA apoiaram os "contras", que buscavam depor o governo sandinista. Em 1989, após acordo, a candidata da oposição, Violeta Chamorro, foi  eleita presidente. 
          Na década de 80, três problemas predominaram na América Latina: a crise das dívidas externas continuou fora de controle; inflação, desemprego e crescimento demográfico ameaçaram com crises os governos  democráticos do Brasil, Argentina, Chile e Peru; e, por fim, a aparentemente insaciável demanda dos EUA e da Europa por narcóticos fez surgir uma economia paralela, que aumentou a tensão entre as áreas de produção e tráfico de drogas: Colômbia, Bolívia, Peru, Panamá e EUA. Em 1989, tropas dos EUA invadiram o Panamá e afastaram o chefe de Estado, Manuel Noriega, para que respondesse num tribunal dos EUA às acusações  de ligação com o tráfico de drogas.              
            O crescimento  demográfico tem sido tão rápido que nem a modernização da agricultura nem a expansão industrial foram capazes de absorvê-lo. A reforma agrária não conseguiu transformar as condições vigentes no campo nem deter a migração das populações rurais para as cidades. 
            Ainda assim, em meados dos anos 90, prevaleceu na América Latina os governos democráticos. No Brasil, o presidente Collor enfrentou um processo de "impeachment" por corrupção. No Peru, o Sendero Luminoso, de extremas esquerda, iniciou uma selvagem guerra civil. O presidente Fujimori suspendeu a Constituição em 1992. O governo do México, após privatizar indústrias-chave, assinou, em 1992, o Acordo de Livre  Comércio  Norte Americano (Nafta), com Canadá e EUA, criando o maior bloco comercial integrado do mundo. Seus efeitos sobre as economias dos três signatários, no entanto, permaneceram incertos. 

Nicéas Romeo Zanchett 
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O MUNDO A PARTIR DE 1990 --

         No início da década de 90, uma profunda mudança estrutural transformou o sistema político internacional, levando à reorganização da economia mundial. O principal acontecimento foi o fim da Guerra  Fria com o colapso do bloco soviético em 1989 e a desintegração da própria URSS em 1991. Os EUA já não dominavam a economia  mundial. Esta estava cada vez mais globalizada, contribuindo para isso a redução de barreiras ao livre fluxo de capital e o incentivo à distribuição e à produção em larga escala, graças ao desenvolvimento das comunicações e da computação. No entanto, uma tendência ao regionalismo produziu a incipiente "tríade" de blocos comerciais, centralizada na América do Norte, Europa (Comunidade Européia) e Japão. Desigualdades na distribuição da riqueza continuaram e se agravaram com o advento de tecnologias avançadas, que marginalizaram a economia dos países em desenvolvimento. 
       Apesar do aumento sem precedentes da prosperidade após a Segunda Guerra, entre 1960 e 1992, dobrou em todo o mundo a diferença entre os 20% mais ricos e os 20% mais pobres. O fraco desempenho econômico dos países em desenvolvimento pode ser atribuído, em parte, ao rápido crescimento da população, não acompanhado de um adequado crescimento da renda. O crescimento populacional perdeu força no final da década de 80, mas, a longo prazo, permanece preocupante. Cuidados com a saúde reduziram as taxas de mortalidade infantil e aumentaram a expectativa de vida, mas em áreas de alimentação escassa, como a África subsaariana, a fome crescia no início da década de 90.  
        O processo resultante da globalização afetou o mundo em desenvolvimento, especialmente porque a concorrência econômica deslocou-se, no final dos anos 80, do comércio para o capital. Entre 1984 e 1989, o fluxo de Investimento Externo Direto (IED) aumentou em 29% ao ano - três vezes mais que o comércio - para alcançar um total de U$$ 1,5 trilhão. O crescimento do comércio mundial de mercadorias, por outro lado, caiu de 8,5% em 1988 para 3% em 1991, o pior resultado desde 1983.
         O investimento externo direto - em atividade produtiva em outro país - implica na estabilidade e na economia do país anfitrião e é indicador-chave  das tendências de desenvolvimento. No início dos anos 80, os países em desenvolvimento perceberam ser cada vez mais difícil atrair IED e financiar dívidas com exportações.
             Fluxos de Investimento Externo Direto (IED) revelaram que a globalização da economia mundial tem sido limitada aos países mais ricos, organizados progressivamente como uma "tríade" de blocos econômicos. 70% do IED da "tríade" foi destinado a outros países desses blocos, o que reflete a falta de confiança em projetos de crescimento econômico  sustentado a longo prazo em outros países. Ao se comparar o fluxo das drogas e o IED, vê-se que a eliminação do tráfico  de drogas será difícil sem a redução da demanda em países ricos, o que faz o tráfico ser tão lucrativo, especialmente para países onde é difícil atrair investimentos a longo prazo.  
            Durante as décadas de 60 e 70, os países em desenvolvimento atraíram grandes somas de IED, principalmente pelo baixo custo da mão-de-obra. Com as inovações reduzindo os ciclos de produção e com uso de máquinas computadorizadas, o baixo custo da mão de obra ficou em segundo plano. Esse fator e a política das multinacionais para acesso aos mercados das economias da "tríade" levaram o IED nos países em desenvolvimento a níveis reduzidos - de 25% do total mundial no início dos anos 80 para 17% entre 1985 e 1990. À medida em que ocorria a integração econômica entre os países da "tríade", barreiras econômicas externas restringiam o acesso aos mercados mundiais, penalizando os países em desenvolvimento com perdas de U$$ 500 bilhões  por ano.  
         Alguns países em desenvolvimento tinham vantagem competitiva na produção e distribuição de drogas ilícitas, um negócio  de U$$ 500 bilhões anuais (números da ONU de 1992), perdendo somente para o comércio mundial de armas. O comércio ilegal de drogas prosperou numa economia mundial integrada, com a desregulamentação financeira facilitando a "lavagem" de dinheiro. Em 1988, cerca de USS 85 bilhões  originários de tráfico foram "lavados" nos EUA e Europa. Em 1992, esse número subiu  para U$$ 250 bilhões. 
          A produção de drogas é fonte vital de dinheiro e emprego. Na Bolívia, nos anos 90, cerca de 400 mil dos 6,5 milhões de habitantes trabalhavam com o comércio  de drogas. Atualmente o país tem cerca de 10 milhões de habitantes, e grande parte da população ativa continua trabalhando no cultivo de drogas. Embora  o crime organizado seja o mais beneficiado, os indivíduos também lucram. No Peru, cultivadores  de coca ganham em média  de U$$ 1,500 mil a U$$ 2 mil em 1990. Seu faturamento bruto por acre foi dez vezes maior que o de um produtor de café. Em 1991, a Colômbia exportou cerca de 200 toneladas  de cocaína para a Europa. As apreensões europeias de cocaína saltaram de 1,5 tonelada em 1986 pata 16  toneladas em 1991. 
        A transição pós-comunista para economias de mercado e o controle menos rigoroso das fronteiras estimulou a produção de drogas na Europa Oriental e na Rússia e abriu novas vias de acesso para fornecedores tradicionais. Em 1992, agricultores da URSS cultivavam cerca de 3 milhões de acres de maconha e um número crescente de acres de papoula. Na Ucrânia, agricultores pobres cultivam esses produtos até em "zonas proibidas"ao redor do reator de Tchernobil, local de explosão nuclear em 1986. Nem todos os governos pós-comunistas ratificaram a convenção de Viena de 1988, que considerou crime a "lavagem" de dinheiro e declarou os anos 90 como a década da ONU de combate às drogas.  
       As Nações Unidas também se destaram na luta contra a degradação ambiental. A Conferência da ONU sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, realizada no Rio de Janeiro  em junho de 1992, foi um divisor de águas. A Eco 92 teve a adesão de mais governos (185) e a participação de mais chefes  de Estado (131) do que qualquer outro encontro internacional anterior. Os resultados da conferência foram variados, mas a preocupação com a poluição e a mudança do clima colocou o desenvolvimento sustentável na agenda internacional. 
          A emissão de poluentes e de gases que provocam o efeito-estufa, resultantes da dependência de combustíveis fósseis como fonte de energia barata, colocam a possibilidade de aparecimento desastroso do clima terrestre. Os países industrializados, que produziram grande parte da atual contaminação , estão mais aptos a adaptar-se  a tecnologias menos poluentes. Mas os países em desenvolvimento, também responsáveis  por essa contaminação, temem criar obstáculos onerosos a suas economias em crescimento e, na falta de compensação por parte dos países ricos, muitos relutaram em alterar suas estratégias de desenvolvimento. Na realidade, os países mais ricos do hemisfério Norte deram cerca de U$$ 55 bilhões de ajuda ao mundo em desenvolvimento (0,45% de sua renda). As Nações Unidas propuseram U$$ 125 bilhões (ou 0,7% da renda) apara apoiar o desenvolvimento sustentado, mas essa diretriz tem pouco apoio no hemisfério Norte.    
            A estagnação econômica, e a repressão  política em algumas regiões levaram ao crescimento de migrações fronteiriças  e a deslocamentos internos de populações. A maior parte desses movimentos ocorreu no mundo em desenvolvimento, onde em 1992 cerca de 30 milhões de pessoas permaneciam deslocadas, contra apenas  8  milhões no mundo desenvolvido. 
          Dois acontecimentos centralizaram a atenção nos refugiados: a avalanche de alemães orientais para a Alemanha Ocidental, após a abertura da fronteira, em 1989, e a fuga dos curdos do Iraque para escapar da repressão governamental após a derrota  iraquiana Guerra do Golfo, em 1991. O primeiro caso precipitou a reunificação das Alemanha, em 1990; o segundo ameaçou a estabilidade do Oriente Médio, onde os curdos formam o quarto maior grupo étnico, mas permaneceram dispersos por quatro países que se opõem à formação de um Estado curdo independente. A gravidade do êxodo curdo para a Turquia, onde 400 mil pessoas morreram de fome e frio, levou a comunidade internacional a intervir nos assuntos internos do Iraque, ficando claro que a divisão entre as políticas interna e externa de um país não é absoluta.  

Nicéas Romeo Zanchett 
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sábado, 30 de janeiro de 2021

A GUERRA FRIA - DE 1949 A 1990 --



           O "termo" Guerra Fria  foi cunhado em abril de 1974 por Bernard Baruch, estadista norte-americano, para definir a crescente tensão entre EUA e URSS, cujos antecedentes eram anteriores ao final da Segunda Guerra Mundial.          
       A divisão do mundo  em dois campos armados, deu origem à era da bipolaridade  e consequentemente a Guerra Fria.  A URSS temia que os EUA tentassem restaurar o sistema  político-econômico liberal na Europa Oriental, enquanto os norte-americanos receavam que os soviéticos dominassem a Europa Ocidental. Os dois buscavam defender-se através da formação de alianças. Os EUA procuravam conter a URSS criando bases militares (especialmente para seus bombardeiros nucleares) em torno do perímetro soviético. Mas o desenvolvimento  de sistemas de lançamento e orientação de ogivas nucleares tomou tal política obsoleta. A rigidez dos blocos monolíticos começou com intensidade, especialmente após 1958, quando a rança, no governo do general De Gaulle, recusou-se a aceitar a liderança política norte-americana, e em 1960, quando o conflito sino-soviético veio à tona. 

           O primeiro conflito entre Estados Unidos  e Rússia ocorreu no final do século XIX, envolvendo as políticas dos dois países em relação à China. Após a revolução russa de 1917, incorporou-se a rivalidade geopolítica  o fator ideológico. Além de inimigo imperialista na Ásia Oriental, o novo Estado soviético, comunista, era ameaça ao sistema capitalista mundial que os norte-americanos passavam a liderar. 
          Dois fatores evitaram o agravamento do conflito no período entre as duas guerras mundiais. De um lado, EUA e URSS estavam envolvidos com problemas internos. De outro, os dois países enfrentavam ameaças  externas iminentes: a Alemanha nazista e o Japão imperial. Durante a Segunda Guerra, EUA e URSS se alinharam contra esses dois inimigos comuns, mesmo os soviéticos tendo declarado guerra ao Japão somente no último mês do conflito.   
        Com esse passado hostil, o termino da aliança entre os dois países após 1945 não surpreendeu. As demais potências mundiais estavam tão debilitadas pela guerra que EUA e URSS viram-se elevados à condição de superpotências (outra expressão inventada nos EUA, pelo escritor William Fox, em 1943), com interesses sempre conflitantes.
            Entre 1946, quando as forças britânicas e soviéticas se retiraram do Irã, em 1955, o Oriente Médio foi pouco afetado pela Guerra Fria entre as superpotências.  Após o Pacto de Bagdá, em 1955 - que a União Soviética considerou uma ameaça às suas fronteiras meridionais - e a guerra de Suez, em 1956, a situação mudou. Quando os Estados Unidos intervieram no Líbano, em 1958, a URSS retaliou oferecendo apoio à Síria. Moscou também ajudou os Estados árabes contra Israel durante a guerra árabe-israelense, em 1967, e concentrou forças navais no leste do mar Mediterrâneo na tentativa de contrabalançar o poderio da Sexta frota norte-americana. Embora a instabilidade da política praticada pelos países árabes tenha impedido a formação de alianças duradouras, a Guerra Fria dividiu o Oriente Médio em grupos pró-Ocidente, pró-soviéticos e neutros, esses últimos buscando não se envolver em alianças com uma das duas superpotências. 
           O conflito ganhou força porque cada um  dos lados acreditava que o outro fosse totalmente hostil. Diferenciou-se de conflitos internacionais anteriores por caráter global e representar, com o advento das armas nucleares, a possibilidade real do fim da maioria das formas de vida na Terra. O caráter global da Guerra fria revelou-se com a disputa pela influência na China, Oriente Médio e Europa e, mais tarde, no restante  da Ásia, América Latina e África. Na Europa, a situação logo estabilizou-se, mas em outras regiões mostrou-se mais instável. Muitos países-independentes  do Terceiro Mundo, liderados pela Índia, procuraram não se comprometer e adotaram  uma política de neutralidade. A URSS parecia ter obtido enorme vantagem com a vitória comunista na guerra civil chinesa, em 1949. Mas por volta de 1963, russos e chineses  divergiam sobre  território e ideologia. A China, potência nuclear desde 1964, já não estava entre os aliados da URSS. As alianças lideradas pelos EUA no sudeste da Ásia (Seato) e no Oriente Médio (Centro), estabelecidas em 1954 e 1959, respectivamente, foram desfeitas na década de 70 pela saída de vários países participantes. A Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) sobreviveu ao fim da Guerra fria em 1990.   
               Em janeiro de 1961, dois anos após a revolução cubana, Washington rompeu relações diplomáticas com o governo de Fidel  Castro. Três meses depois, falhou a invasão de Cuba por exilados cubanos  da Flórida, patrocinada pela Agência Central de Inteligência (CIA). Após uma missão aérea norte-americana de reconhecimento ter descoberto mísseis e bases de mísseis russos perto de San Cristóbal, em 14 de outubro  de 1962, o presidente Kennedy bloqueou Cuba, ao mesmo tempo em que advertia o dirigente soviético Kruschov de que os EUA imediatamente retaliariam se os mísseis tossem disparados. Em 26 de outubro, Kruschov concordou em retirar os mísseis de Cuba. Mas a ameaça de um holocausto nuclear foi um momento decisivo na Guerra Fria. A partir de então, EUA e URSS evitaram a confrontação direta e os riscos que ela implicaria. 
          A fraqueza inicial soviética foi substituída pelo "equilíbrio do terror" nuclear, que contribuiu para evitar que as duas superpotências se enfrentassem de fato. O maior perigo  de conflito aberto ocorreu em outubro de 1962, quando URSS tentou instalar mísseis  nucleares de médio alcance em Cuba. Os EUA responderam com um bloqueio naval  da ilha, levando a URSS a concordar com a retirada dos mísseis em troca da promessa norte-americana de remover da Turquia alguns mísseis da OTAN. Os dois países, porém exploraram ou se envolveram em conflitos localizados, cada um armando, equipando e treinando a parte aliada. Em três ocasiões importantes lutaram contra os que consideravam representantes do inimigo: Os EUA contra Chineses e norte-coreanos na Guerra da Coréia (1950/53); os EUA contra Vietnã do Norte na segunda Guerra da Indochina (1961/75); e URSS contra os rebeldes na guerra civil do Afeganistão (1979/889). Além disso, ambos interferiram para influenciar e, se necessário, subverter processos políticos em outros países por meio de suas mais importantes agências de informações, a CIA dos EUA e o KGB da URSS. 
            Com o objetivo de evitar a ameaça representada pelas táticas bélicas inimigas, convencionais ou nucleares, as superpotências precisaram de eficazes sistemas de informação, os clamados sistemas de inteligência, que podem ser divididos em uma série de categorias. O Humint (inteligência humana) engloba todas as informações colhidas por espiões; o Comint (inteligência aplicada às comunicações) envolve a interceptação de todos os tipos de comunicações; o Sigint (inteligência aplicada aos sinais) destina-se à interceptação de mensagens criptográficas; o Elint (inteligência eletrônica) destina-se à interceptação e análise de todos os tipos de emissão eletromagnética (radar, pontos de controle de mísseis etc); e o Imint (inteligência aplicada às imagens), que tem por objetivo fotografar as atividades do inimigo. Essas fotografias podem mostrar, por exemplo,  a construção de um porta-aviões nuclear em qualquer parte do mundo. A foto tirada por um satélite espião norte-americano do porta-aviões nuclear em Nicolaiev, Ucrânia, sendo construído secretamente,  mostra bem a atividade desenvolvida pela URSS. 
          A decisão dos EUA de lançar duas bombas atômicas sobre o Japão, em agosto de 1945, inaugurou nova era na história bélica. Por quatro anos, os EUA mantiveram o monopólio das armas nucleares. A URSS testou sua primeira bomba nuclear em agosto de 1949. O primeiro teste norte-americano da bomba de hidrogênio, ou termonuclear (770 vezes mais potente do que a de Hiroshima), aconteceu em novembro de 1952. Os soviéticos explodiram a primeira  bomba termonuclear em agosto de 1953. 
          Inicialmente, tais armas só podiam ser lançadas de aeronaves, o que dava vantagem  aos EUA, por disporem de acesso a bases próximas à URSS. Mas depois os dois países desenvolveram mísseis balísticos para carregar ogivas nucleares. Os mísseis balísticos de alcance internacional (ICBMs) e os mísseis balísticos lançados de submarinos (SLBMs) - ambos disponíveis no início da década de 60 - permitiram à URSS equiparar-se aos EUA. Em meados da década de 80, o arsenal nuclear das duas superpotências foi "enriquecido" com o desenvolvimento das ogivas multidirecionais, equivalente a cerca de 9 bilhões de toneladas de TNT - o potencial explosivo das bombas atômicas lançadas sobre o Japão  foi equivalente a 35 mil toneladas de TNT. 
           O desejo de se limitar o desenvolvimento de armas nucleares levou a um tratado parcial de proibição de testes, em 1963, e o Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares, em 1968.Mas nem todas as potências nucleares ou países candidatos a esse "clube" assinaram esses acordos (por exemplo, França, Chaina, Índia), enquanto outros países acabaram abandonando o compromisso assumido (por exemplo, o Iraque).
          Apesar das esperanças (falsas) surgidas  coma morte de Stálin, em 1953, dos acordos de limitação de armas estratégicas e dos acordos de Helsique, em 1972 e 1975, a Guerra Fria continuou. Seu fim foi, sem dúvida, precipitado pelas dificuldades econômicas e políticas enfrentadas pela URSS. Na visão de Mikhail Gorbatchov, líder soviético de 1985 a 1991, essas dificuldades só poderiam ser resolvidas com a redução do peso das despesas militares. Finalmente  em 90, após a queda dos regimes comunistas na Europa Oriental, tanto a OTAN quanto o Pacto de Varsóvia declararam não mais ser inimigos um em relação ao outro. Logo surgiram acordos para a redução dos arsenais bélicos - convencionais e nucleares. 
            A liderança soviética em mísseis de longo alcance  (ICBMs), evidenciada pelo Sputinik, em 1957, e a dependência norte-americana  do bombardeiro tripulado prejudicaram os EUA quando agitações políticas no exterior colocaram em risco suas bases. Mas os EUA logo desenvolveram  seus ICBMs. Na época do mais sério confronto da Guerra Fria a crise cubana, o equilíbrio nuclear era de 5 para 1 a favor dos Estados Unidos. 

Nicéas Romeo Zanchett 
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sexta-feira, 29 de janeiro de 2021

ESTADOS UNIDOS A PARTIR DE 1933 --

 


             O "NEW DEAL" do presidente Franklin Roosevelt, de 1933 a 1940, fracassou objetivo de restabelecer nos EUA os níveis de emprego e produção industrial de 1929. Mas os investimentos públicos a reestruturação da economia e, acima de tudo, a convivência da população com as novas diretrizes econômicas prepararam o país para assumir, diante do mundo, o papel que lhe impôs a Segunda Guerra Mundial, trazendo-lhe a vitória e a recuperação econômica. 
           A exigência de maior produção em tempo de guerra resolveu o problema do desemprego. A atividade econômica para atender ao Exército, à Marinha e aos aliados foi gigantesca. Isso mostrou que as possibilidades econômicas, se aproveitadas, podem conduzir à prosperidade e ao poder.
           A paz não interrompeu essa tendência ascendente por mais vinte anos. O Produto Nacional Bruto, entre 1950 a 1980, quase triplicou, enquanto a renda per capita quase duplicou. Para isso contribuíram inúmeros fatores, entre eles o crescimento demográfico; os avanços tecnológicos acompanhados do surgimento de novos bens de consumo; estímulos de reconversão econômica da guerra à paz; e os programas de rearmamento ligados à "Guerra Fria" e à Guerra da Coreia (1948 a 1953). Com base nessa riqueza, a população norte-americana começou a mudar seu modo de vida.  
         As expectativas de progresso formaram uma verdadeira força revolucionária. Houve um "baby boom" um grande incentivo à demanda, iniciado na Segunda Guerra Mundial, e uma segunda migração para o oeste norte-americano. Após 1945, a imigração cresceu. Nos anos 80, os imigrantes  de língua espanhola eram o grupo predominante do sul e sudoeste. Miami tornara-se uma cidade latino-americana. Mas a mudança mais notável foi talvez a expansão dos subúrbios. Crédito  fácil e combustível barato (para residências e carros), construção de casas e fabricação em massa de automóveis e implementação pelos governos federal e estadual de programas para a construção de estradas estimularam milhões de norte-americanos a se mudarem das fazendas e centros urbanos para os subúrbios. Assim, embora a população das principais cidades tenha crescido de 48 milhões para 64 milhões entre 1950 e 1970, a população dos subúrbios cresceu de 21 milhões para 55 milhões no mesmo período. O total da população passou de 132 milhões em 1940 para quase 250 milhões  em 1980. 
          O rápido crescimento dos subúrbios levou à união de áreas urbanas antes separadas , criando "supercidades", nenhuma tão surpreendentemente quanto a de Los Angeles. Um sistema de auto-estradas interestaduais, totalizando cerca de 64.400 quilômetros (por volta de 1980,  facilitou a movimentação de pessoas  vindas de locais distantes e a ampliação  de uma complexa rede residencial e de áreas comerciais.  
           A população das fazendas caiu de 30,5 milhões em 1940 para 9 milhões em 1974. Mas devido aos aumentos excepcionais de produtividade, os Estados Unidos permanecem como o maior fornecedor mundial de alimentos. 
          Dese a Segunda Guerra Mundial, uma intensa migração fez da Califórnia o Estado mais populoso dos EUA. Os Estados industrializados  detém a renda média mais alta, enquanto os Estados do sul mostraram ser os de menor renda e menor crescimento populacional. A população negra mostrou tendência de crescimento mais rápido do que abranca. 
         Na base dessa prosperidade, de um lado, estavam o dólar forte, amplos recursos nacionais e investimentos do governo em pesquisas e educação; de outro lado, minando essa mesma prosperidade, estavam o insaciável "apetite" da sociedade de consumo norte-americana; a tendência dos capitalistas dos EUA de gastarem seus lucros em vez de reinvestir; a tendência dos operários de reivindicarem aumentos salariais e melhores condições de trabalho sem levar em conta os efeitos sobre os preços e a competitividade internacional da indústria norte-americana; e a crescente incapacidade de camadas favorecidas do país em acreditarem que as coisas poderiam vir a ser diferentes. Essa última característica levou os responsáveis pela política e os cidadãos  a certa imprudência, que quase colocou um risco a posição do país. A Guerra do Vietnã (de 1965 a 1973) já seria por si só inflacionária, mas  o foi ainda mais devido à recusa dos governos  Johnson e Nixon  em frear rendimentos e consumo. O resultado foi a grande crise  de 1973, quando o cartel formado pela Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) tirou proveito da demanda norte-americana para aumentar os preços em cerca de 250%. A indústria dos EUA teve de submeter-se e baratear seus produtos diante de exportadores estrangeiros mais agressivos, para equilibrar as exportações em queda com as importações. A derrota no Vietnã e a incerteza na economia fizeram com que o final dos anos 70 fosse conturbado. O nacionalismo, a revolta dos contribuintes e um desejo de bem-estar e tranquilidade levaram Ronald Reagan à presidência, em 1980. Com a concordância de seus eleitores, ele cortou os impostos em um terço - ampliando o poder aquisitivo - e aumentou os gastos em armamentos, criando o maior déficit da história do país. Reagan  nada fez para sanar os defeitos estruturais da indústria norte-americana, desviando o poder de compra para os produtos importados e provocando também um déficit sem precedentes no comércio exterior. Ao mesmo tempo, as tentativas bem-sucedidas do Fed (o banco norte-americano) de combate à inflação facilitaram a entrada do capital estrangeiro, financiando déficits e mantendo um florescente comércio doméstico e internacional.  
          A política econômica de Reagan contribuiu para a queda nas Bolsas em outubro  de 1987 e para uma corrida por dólares. A administração George Bush, de 1989 a 1993, deu continuidade ao programa de Reagan. Apesar do sucesso de empreendimentos externos, como a Guerra do Golfo (1991), cresceu nos eleitores a preocupação com problemas econômicos básicos, com a rapidez da decadência urbana e com problemas ambientais. Bill Clinton, eleito em 1992, assumiu um governo com muitos desafios. 
            Esses 60 anos, porem, trouxeram conquistas notáveis: vitória da Segunda Guerra Mundial; reconstrução da Europa Ocidental através do Plano Marshall; programa de exploração do espaço; avanços nos direitos das minorias com a aprovação da Lei dos Direitos Civis, em 1964, e da Lei dos Direitos  Eleitorais, em 1965; e a resistência ao expansionismo soviético sem nenhuma grande guerra e o fim da Guerra Fria. 
          A alta tecnologia e as técnicas de administração, que ajudaram os Estados Unidos a se manterem como a potência industrial mais sofisticada do mundo, ficaram demonstrados pela rapidez com que o país respondeu  à liderança inicial dos soviéticos na área dos foguetes. Propulsionados pelo foguete Saturno 5º, os astronautas norte-americanos desembarcaram na Lua em 20 de julho de 1969. 

Nicéas Romeo Zanchett 
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quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

O DESENVOLVIMENTO DA UNIÃO SOVIÉTICA DEPOIS DE 1939 --

 


           As Repúblicas Socialistas Soviéticas Autônomas (RSSA) foram criadas para abrigar importantes grupos de diferentes nacionalidades dentro das Repúblicas Socialistas Soviéticas (RSS): a finlandesa da Carélia tornou-se RUSSA e a RSS da Crimeia foi incorporada na RSS da Ucrânia, enquanto a RSSA alemã do Volga foi dissolvida. As regiões orientais estão na República Federativa Socialista Soviética Russa (RFSSR) e abrangem duas Repúblicas autônomas: a RSSA da Burátia (Capital Ulan-Ude) e a RSSA da Yokútia (capital Iakutsk).
           No final de 1939, após ter lançado o primeiro plano quinquenal de industrialização  em 1928, Stálin iniciou o processo de coletivização forçada da agricultura, transformando o conjunto de pequenos proprietários rurais em Enormes fazendas do Estado e em fazendas coletivas. O resultado foi desastroso. Sem condições de alimentar o gado, os camponeses abatiam os animais. As sementes do trigo eram confiscadas e colocadas à venda no mercado internacional, a preço irrisório, para financiar a compra de máquinas estrangeiras. As fazendas coletivas não funcionaram: o maquinário era insuficiente (278 mil tratores em 1934), os camponeses recebiam baixos salários e estavam desmoralizados. Isso resultou na grande fome de 1932/33, principalmente na Ucrânia, matando milhões de pessoas. Essa tentativa comunista resultou num verdadeiro genocídio. 
           Na década de 30, a catástrofe rural provocou o êxodo do 40 milhões de pessoas para as cidades (em especial para a construção civil), elevando enormemente as taxas de crescimento da economia soviética no primeiro e segundo planos quinquenais (1928/32 e 1933/37. Mas a economia ainda se baseava em indústrias e Know-how do reinado do último czar, quando a Rússia era a quarta maior potência econômica mundial. Assim, um programa para desenvolver tecnologia foi implementado. Maquinaria estrangeira foi adquirida com recursos da exportação de cereais e de operações como a venda de 40 telas do Museu Hermitage a milionários dos EUA. Nos últimos dias dos anos 30, alemães e norte-americanos concederam empréstimos que estimularam os setores do carvão, ferro e aço. Por volta de 1940, a indústria metalúrgica estabelecida em 1928 na Ucrânia e Urais Centrais, foi ampliada e modernizada. Criaram-se dois novos centros de ferro e aço - um próximo à reserva de minério de ferro de Magnitogorsk, no sul dos Urais, e outro na zona de mineração de carvão de Kuzbass, em Stalinsk (Novokuznetsk).
           Mas esse crescimento teve que se basear no controle da força de trabalho. Yezhov, chefe da NKVD (Comissariado do Povo para assuntos internos), lançou em 1936 o "Grande Terror", movimento que enviou milhões de pessoas aos campos de trabalho forçado ou de execução, e matou dois terços dos oficiais, enfraquecendo o Exército Vermelho. Assim, quando a Alemanha atacou em 1941, a URSS parecia fadada à derrota. 
           Mas grande parte do desenvolvimento industrial nos primeiros planos quinquenais ocorreu nas regiões orientais, fora do alcance alemão, fator fundamental para a sobrevivência soviética. Durante a Segunda Guerra, acelerou-se a industrialização dessas regiões, enquanto as áreas ocidentais eram devastadas. O setor agrícola, já pouco desenvolvido, assistiu à destruição de propriedades e equipamentos. 
       Uma notável recuperação econômica ocorreu após a guerra. A produção da indústria pesada cresceu na década de 50 e a indústria de bens de consumo também progrediu. Reservas siberianas de petróleo, gás  e minério foram descobertas e exploradas. Hidrelétricas e termelétricas surgiram no leste da Sibéria e no Cazaquistão. A economia soviética estava ligada às economias de Estado satélites, no Leste Europeu, cujos produtos de alta tecnologia  foram valiosos para o progresso tecnológico da URSS. 
           Mas após a morte de Stálin, em 1953, seus sucessores foram forçados a reconhecer a magnitude do problema agrícola: uma população crescente esperava pela prometida melhoria do padrão de vida, enquanto a agricultura permanecia quase tão pouco produtiva quanto antes da revolução. A produção de grãos somente cresceu no governo Khruschov e foi Brejnev quem, em 1965, colocou em prática medidas para melhorar as condições das fazendas coletivas. 
         Na década de 60, a URSS e os EUA foram reconhecidos como superpotências, com um nível comparável de poderio militar. Embora o Produto Nacional Bruto estivesse abaixo do de seu rival, a URSS superou os EUA na produção de minério de ferro, cimento, aço e petróleo e descobriu as maiores reservas  mundiais de gás natural. A economia soviética começou  a entrar em crise no final da década de 70, com a intensa situação da corrida armamentista, que afetou mais a URSS do que os EUA. O alerta econômico disparou quando os EUA ameaçaram implantar seu sistema de defesa antimíssil "Guerra nas Estrelas". Em 1985, Gorbatchov assumiu o poder com um programa de reformas que visava promover uma revolução dentro da revolução. 
          De 1985 a 1990, Gorbatchov ampliou as relações  com a China e com o Ocidente para garantir condições externas necessárias à reconstrução. Introduziu a "glasnost" (transparência) para encorajar a crítica aberta aos problemas da economia e da sociedade. Implantou uma limitada democracia  na expectativa de introduzir mudanças  com apoio popular. Mas as cidades tiveram que enfrentar alta de preços e escassez de víveres; aumentou a dependência de alimentos  e de ajuda técnica do exterior. Gorbatchov limitou o papel do Partido Comunista e ampliou os poderes presidenciais; nas Repúblicas, porém, novos Legislativos resistiram ao poder do estado central, tornando difícil a implementação das reformas econômicas. Sem alternativas, a URSS retirou-se da Europa Oriental e Central, esperando reduzir custos e melhorar a situação  interna. Mas o ressurgimento do nacionalismo em muitas Repúblicas que constituíram a URSS colocou a União em perigo. 
           Essas medidas irritaram a velha guarda do partido e a oposição a Gorbatchov cristalizou-se após 1989. Em agosto de 1991, uma coalizão de conservadores do governo tentou um golpe de Estado. Foi o rival de Gorbatchov, Boris Ieltsin, quem desafiou os conspiradores e liderou o presidente. Como em 1917, uma tentativa contra-revolucionária precipitou a nova revolução. No final da 1991, essa revolução anticomunista presenciou a ascensão de Ieltsin ao poder e a dissolução da URSS. O governo Ieltsin  continuou as reformas econômicas e procurou salvaguardar o que restava de integração política e econômica da ex-URSS. Mesmo assim, a Comunidade de Estados Independentes (CEI), resultante desse processo, mostrou ser apenas uma sobra do Estado que a precedera. A própria Rússia foi vítima de conflitos entre nacionalidades, mantendo incerto o sucesso das reformas econômicas e, com ele, a existência de formas democráticas de governo. 

Nicéas Romeo Zanchett  
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segunda-feira, 25 de janeiro de 2021

A EUROPA DEPOIS DA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL --






       A partir de 1945, em consequência da gerra mundial, o cenário da Europa era de desorganização política e prostração econômica. Deslocamentos de população em larga escala, agravavam a situação. O panorama era desolador; a incerteza política, instigada pelo antagonismo entre EUA e URSS, tolhia os esforços de recuperação.
             A Alemanha pós-guerra não apenas perdeu territórios; em 1945 para a Polônia e URSS, como também foi dividida em zonas britânica, norte-americana, soviética e francesa. Berlim foi dividida  em quatro setores, com cada um governado por uma das potências de ocupação. Os vencedores pretendiam tratar  o país como uma unidade, mas em 1948 a cooperação entre eles havia se deteriorado. Grã-Bretanha e EUA já haviam unido suas zonas em 1947 e, junto com a França, começaram a preparar a formação do governo da Alemanha  Ocidental. A URSS reagiu por meio de um bloqueio, tentando forçar as potências ocidentais a abandonarem Berlim. Mas esse bloqueio foi  rompido através de uma ponte, que levou suprimentos para Berlim Ocidental em 1948/49. Em 1958, os soviéticos fizeram nova tentativa  de bloqueio. A crise culminou, em agosto de  1961, com a construção do Muro de Berlim. 
            Com o fim do Terceiro Reich de Hitler, em 1945, foram libertados milhares de prisioneiros de guerra e trabalhadores escravos encarcerados na Alemanha durante o conflito. Cerca de 5 milhões de prisioneiros russos, refugiados, militares e homens a serviço do governo foram repatriados à força. A expulsão dos alemães de alguns de seus territórios anteriores à guerra, especialmente na Europa Oriental, e de terras anexadas no fim da década de 30 constituíram movimentos populacionais marcantes. Outro movimento populacional, no fim do conflito, foi resultado da expansão da URSS para oeste, particularmente a anexação dos Estados bálticos: Estônia, Letônia e Lituânia.  
             O desmantelamento da "Nova Ordem" alemã e a reconstrução política da Europa ocorria à sombra do conflito americano-soviético. As fronteiras da Europa foram estabelecidas nas conferências de Yalta e de Potsdam, entre URSS, Reino Unido e EUA, em fevereiro, julho e agosto de 1945, respectivamente. A Alemanha e a Áustria -  a"Anschluss "(anexação) de 1938 foi anulada - foram divididas em zonas de ocupação sob controle de quatro potências.  Só em 1955 a Áustria ressurgiu como Estado independente e a Alemanha Ocidental  recuperou plena soberania. Havia ainda um Conselho de Controle Interaliado em Berlim que, embora dentro da região soviética, era dividida em zonas. Isso criou problemas para as potências ocidentais, culminando nas crises da "ponte aérea" de 1948/49 e 1958/61, quando os soviéticos tentaram anexar a parte ocidental de Berlim para transformá-la em cidade "livre" desmilitarizada. A última crise culminou na construção do Muro de Berlim, em agosto de 1961.  
             Os dois novos Estados alemães foram constituídos em 1949. A Alemanha Ocidental (República Federal da Alemanha - RFA) juntou-se à Comunidade Européia do Carvão e do Aço (Ceca) em 1952 e à Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) em 1955. A Alemanha Oriental comunista (República Democráticas da Alemanha - RDA) juntou-se ao novo Pacto de Varsóvia em 1955. Por muitos anos, as potências ocidentais recusaram-se a reconhecer a RDA. Em 1972, a Alemanha concedeu o reconhecimento seguida em 1975 pelas demais potências ocidentais. 
            As duas partes da Europa se  desenvolveram de modo diferente: na Ocidental, democracia e avanço sem precedentes de consumo, com os problemas decorrentes; na Oriental, opressão, privação e miséria. Desde 1947, quando os EUA lançaram o Plano Marshall para recuperação econômica, a Europa Ocidental viveu um milagre econômico. Nesse processo - liderado pela Alemanha Ocidental, forçada a reconstruir suas  indústrias-, integração de mercados, mobilidade de mão-de-obra e respostas flexíveis à tecnologia asseguraram a prosperidade.  
          Os seis países da Ceca, formada em 1952,  reuniram-se para construir, em 1957, a Comunidade Econômica Européia (CEE), que depois se tornou a Comunidade Europeia (CE), à qual se juntaram, em 1973, Reino Unido, Irlanda e Dinamarca. A CEE sustentou o renascimento da Europa Ocidental. Entre 1958 e 1962, o comércio entre países membros cresceu 130%. Em sete anos, a produção industrial italiana cresceu 103%. Mas os benefícios se restringiram aos países centrais. Permaneciam atrasados países de áreas periféricas, como a Grécia e países ocidentais não-participantes da CEE, como Espanha e Portugal. Havia também bolsões de depressão persistentes. A Irlanda do Norte, próspera depois da grande guerra, foi atrasando-se após 1969, com a escalada do terrorismo. Na França houve agitação na Bretanha, onde a renda média era de apenas 60% em relação à registrada em Paris; o mesmo ocorreu na Córsega. O crescimento foi refreado em 1973, quando o petróleo barato, que sustentara a prosperidade do Ocidente, subiu 250%, um aumento imposto pela Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP). 
              A Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN, em 1949) é mostrada em confronto com o Pacto de Varsóvia de 1955. As organizações  econômicas foram a CEE, formada em 1957, e o Comecon, organizado em 1949. 
          Entre 1960 e 1981 houve muitas mudanças na estrutura econômica da Europa. Houve considerável declínio  no número  de trabalhadores dedicados à agricultura. Mesmo nos lugares em que a principal  fonte de emprego, no início de 1960, essa atividade foi mais tarde superada por setores industriais e de serviços. Embora no bloco oriental  e em outros países, antes predominantemente  agrícolas, tenha aumentado o número de empregados na indústria, a maior parte da Europa Ocidental sofreu uma depressão industrial  com o aumento dos empregados no setor de serviços. Mesmo onde  não era a principal fonte de emprego, esse setor  cresceu muito após a guerra.  
            Apesar das dificuldades de suas economias centralizadas, a Europa comunista também registrou altos índices de crescimento. Não foram acompanhados, porém, de surtos de consumo e a população provocada por indústrias pesadas tornou-se um problema sério em muitas regiões. Além  disso, ocorreram agitações contra dirigentes comunistas no Leste e contra a presença soviética. Esta levou a revoltas violentas.  Em 1953 na Alemanha Oriental; em 1956 na Polônia e na Hungria, onde a repressão foi mais sangrenta; em 1967/68 na Tcheco-Eslováquia  e em 1970 outra vez nas Polônia. Todas foram esmagadas pelo Exército soviético ou polícia e Exército locais. 
            Em 1970, ainda dividida em três blocos - ocidental, comunista e neutro -, a Europa havia, politicamente, entrado em novo período. As antigas tensões estavam afastadas e nova era de cooperação foi inaugurada.  
             Os regimes fascistas surgidos antes da  Segunda Guerra Mundial sobreviveram  até os anos 70 em dois países europeus: Portugal e Espanha. A democracia foi restaurada nesses dois países no espaço de  um ano: em 1974, em Portugal, em consequência da derrota nas guerras coloniais na África; em 1975, na Espanha, em decorrência  da morte do general Franco. O processo de mudança foi mais fácil na Espanha onde, apesar da tentativa de golpe da direita em 1981, o rei Juan Carlos exerceu um poder  moderador. A Espanha entrou na OTAN em 1982; em 1986, os dois países ingressaram na Comunidade Européia (EC). O ano de 1974 também testemunhou a restauração da democracia na Grécia, até então governada  por uma junta de direita que tomara o poder em 1967. A Grécia juntou-se à CE em 1981. 
             Essas mudanças no sul da Europa foram pequenas se comparadas aos acontecimentos  na Europa Oriental no final dos anos 80, incluindo a desintegração da URSS e a queda do compromisso na Iugoslávia e Albânia. Tão notável quanto o fim de um sistema que parecia permanente foi a criação, no vazio deixado, de 15 novos países. 
            As razões de mudanças tão imensas foram políticas e econômicas. Nas décadas de 70 e 80, as economias do bloco comunista sofreram rápido declínio. Taxas de crescimento zero e dívidas volumosas decretaram a falência econômica. Sem condições de garantir a sobrevivência dos aliados, a URSS os abandonou. Em abril de 1987, em Praga, Gorbatchov declarou que "todo o sistema de relações políticas existentes entre os países socialistas pode e deve ser construído de maneira inabalável sobre os alicerces da igualdade e da mútua responsabilidade. Nenhuma nação tem o direito de exigir privilégios especiais no mundo socialista. A independência de cada partido, sua responsabilidade para com seu povo, o direito de resolver de forma soberana, questões relativas ao desenvolvimento do país - esses são para nós princípios inquestionáveis". Não poderia haver indicação mais clara para os líderes da Europa Ocidental de que deveriam agir por conta própria. A doutrina Brejnev, formulada após a invasão soviética da Tcheco-Eslováquia em 1968, através da qual a URSS reivindicava o direito de intervir nos assuntos internos dos Estados-satélites caso ameaçassem romper com Moscou, passou a ser repudiada. 
              A sucessão de fatos que levou à queda do comunismo começou em agosto de 1988 com greves e manifestações na Polônia, exigindo o reconhecimento do sindicato Solidariedade. Até por volta de 1991, houve eleições livres nos países da região, inclusive na URSS, e as duas Alemanhas foram reunificadas. Exceto na Romênia, a mudança foi pacífica, embora a tentativa de golpe na URSS, em agosto de 1991, tenha ameaçado deflagrar uma guerra civil. Era inevitável que mudanças tão rápidas trouxessem problemas: instabilidade política, com ex-comunistas buscando assegurar sua autoridade; conflitos étnicos, com velhos nacionalistas procurando reafirmar-se; e crises econômicas, com novos governos buscando recuperar as economias de seus países, passando do comunismo ao capitalismo. 
             A rapidez com que o comunismo se deteriorou na Europa Oriental e na própria União Soviética depois de 1988 foi extraordinária. O que foi interpretado como um sistema definitivo provou ser uma ilusão. Após a dissolução formal da URSS, em dezembro de 1991, a grande experiência de Lênin chegou ao fim. Entre os fatos que se seguiram, destacando-se a quantidade de novos países formados e os conflitos étnicos sobretudo na antiga Iugoslávia, que reapareceram  quando antigas identidades puderam manifestar-se livremente. A reconstrução da região tem sido dificultada por serias crises  econômicas em cada ex país comunista, pela fragilidade das novas instituições democráticas e pela tentativa de muitos ex-comunistas em recuperar a autoridade perdida. A luta pelo controle dos enormes arsenais convencionais e nucleares da ex-URSS contribuiu para a instabilidade.  
           A mudança foi mais avassaladora na Iugoslávia que, em 1991, se desintegrou sob pressão de rivalidades até então contidas entre os grupos étnicos. Em junho de 1991, a independência da Eslovênia e da Croácia foi seguida por uma guerra civil de sete meses entre croatas e sérvios. Em janeiro de 1992, irrompeu a guerra envolvendo sérvios, croatas e muçulmanos na Bósnia-Herzegóvina. Diante da luta feroz e da evidência de "limpeza étnica", novo nome para a remoção sistemática e, às vezes, extermínio de etnias rivais, a ONU impôs sanções à Servia. Tentativas de acordo fracassaram. Na Tcheco-Eslováquia, a eleição de junho de 1992 revelou tensões entre tchecos e eslovacos e, no final daquele ano, o país dividiu-se em dois, a República Tcheca e a Eslováquia.  Mesmo na ex- Alemanha Oriental sustentada por seu parceiro ocidental e onde a queda do Muro de Berlim gerara entusiasmo em relação ao futuro, o retorno à democracia foi doloroso. Apesar do desejo de sucesso da democracia e das reformas econômicas, permaneceram insolúveis problemas decorrentes da reestruturação de sociedades empobrecias pelo comunismo.
          Os antigos países comunistas visavam, a longo prazo, a participação na Comunidade Europeia, que continuou a expandir-se nas décadas de 70 e 80. As primeiras eleições diretas para o Parlamento Europeu aconteceram em junho de 1979. Em 1985, na tentativa de garantir futuro próspero, a CE estabeleceu um cronograma de trabalho que previa a criação de um mercado comum europeu, em que a CE seria uma única zona de livre comércio. Alguns países membros quiseram avançar mais rapidamente para a integração e, em 1989, propostas para uma união monetária e uma carta de direitos sociais foram colocadas em discussão. Apesar do temor da substituição da soberania nacional por uma burocracia autônoma, ainda que bem intencionada, que sufocaria a competitividade internacional dos países  da comunidade, os membros da CE concordaram, em Maastricht, em dezembro de 1991, em empenhar-se na integração econômica e monetária e no estabelecimento de políticas comuns  de relações exteriores e segurança. Apesar de os dinamarqueses terem rejeitado  tal proposta no plebiscito de 1992 (voltaram atrás na decisão em novo plebiscito, um ano depois) e do ceticismo de alguns ex-entusiasmados defensores da ideia, a CE  manteve seu objetivo. Os problemas enfrentados resultaram de dificuldades em atingir a "convergência" econômica entre os países membros. O Sistema Monetário Europeu, vinculado as moedas existentes na comunidade a bandas cambiais preestabelecidas, essenciais, para a existência de uma moeda única, quase fracassou com a saída do sistema da Itália e Grã-Bretanha, no segundo semestre de 1992. Do mesmo modo fracassaram tentativas de formular uma política  comum de relações exteriores. A euforia  dos meses que se seguiram à queda do Muro de Berlim deu lugar à incerteza e ao temor: recessão, conflitos étnicos e guerras civis voltaram à Europa.  
               O  terrorismo tem atormentado parte da Europa intermitentemente desde 1973. Em nenhum lugar tem sido tão implacável quanto na Irlanda do Norte. Posições profundamente arraigadas, tanto da parte dos nacionalistas, principalmente do IRA - que exige a união com a república da Irlanda - quanto dos legalistas - determinados a manter as ligações da província com a Grã-Bretanha -, estimulam a violência sectária , resistente a qualquer acordo político. Enquanto outras organizações terroristas na Europa foram desmanteladas as da Irlanda do Norte estão enraizadas na estrutura da vida  da província. 
              Os diversos pedidos de admissão na Comunidade Europeia comprovam sua importância econômica na Europa. Os países da Associação Européia de Livre Comércio, menos Suíça e Islândia, pediram sua admissão em 1994/95, República Tcheca, Eslováquia, Hungria, Bulgária e Romênia também se candidataram à admissão. Acordos comerciais já existentes com Turquia., Malta e Chipre também podem levar esses países a integrar a CE. A Ucrânia foi o único ex-Estado soviético a pedir admissão, mas outros já fizeram consultas informais sobre a questão. 
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Nicéas Romeo Zanchett  
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domingo, 19 de julho de 2020

VIDRO - A DESCOBERTA E SUA IMPORTÂNCIA PARA A HUMANIDADE

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                A história do vidro está mais do que nunca mergulhada na distante lenda e sua fabricação se encontra repleta de dificuldades e estudos infatigáveis.
               Os povos que disputam a primazia da invenção do vidro são os Fenícios e os Egípcios. Os Fenícios contam que, ao voltarem à pátria, do Egito, pararam em Sidon. Chegados às margens do rio Belus, pousaram os sacos que traziam às costas, que estavam cheios de natrão. O natrão era carbonato de sódio natural, que eles usavam para tingir lã. Acenderam o fogo com a lenha, e empregaram os pedaços mais grossos de natrão para neles apoiar os vasos onde deviam cozer os animais caçados. Depois, comeram e deitaram-se; adormeceram e deixaram o fogo aceso. Quando despertaram, ao amanhecer, em lugar de pedras de natrão encontraram blocos brilhantes e transparentes, que pareciam enormes pedras preciosas. 
            Os fenícios caíram de joelhos, acreditando que, durante a noite, algum gênio desconhecido realizara aquele milagre, mas o sábio Zelu, chefe da caravana, percebeu que, sob os blocos de natrão, também a areia desparecera. Os fogos foram, então, reacesos e, durante a tarde, uma esteira de líquido rubro e fumegante escorreu das cinzas. Antes que a areia incandescente se solidificasse, Zelu plasmou, com uma faca, aquele líquido e com ele formou uma ampola tão maravilhosa que arrancou gritos de espanto dos mercadores fenícios. O vidro estava descoberto!

             Esta é a versão, um tanto lendária, que nos transmitiram as narrativas de Plínio (historiador romano). mas, notícias mais verossímeis sobre o conhecimento do vidro surgiram lá pelo ano 4.000 a.C., após descobertas feitas em túmulos daquela época. Entre os tesouros de inestimável valor, que eram postos ao lado das múmias dos faraós e dos grandes sacerdotes, foram encontradas, também, pérolas de vidro de muitas cores, magnificamente trabalhadas,que até imitavam pedras verdadeiras. Julga-se entretanto que os egípcios principiaram a soprar o vidro em 1.400 a.C., dedicando-se, acima de tudo, à produção de pequenos objetos artísticos e decorativos, adquirindo, na sua elaboração, uma aperfeiçoada tecnologia de cores, como foi apurado ante as amostras descobertas nos túmulos de tel-El-Amana. Os Egípcios e os fenícios, tornados mestres consumados e competindo entre si na produção e comércio das vidraçarias, absorveram os mercados então conhecidos e forneceram aos poderosos reis e graciosas princesas colares e adornos que nada tinham a invejar, dada sua perfeição e luminosidade, às pedras preciosas. 
               Acredito que as duas versões podem ser verdadeiras, pois as grandes descobertas da humanidade aconteceram, muitas vezes por puro acaso. 
             O Império Romano, naquele tempo, principiava a expandir com aquela marcha possante de exércitos que ninguém conseguia obstacular e, após sujeitar também o Egito, reduzindo-o a uma província de Roma, fez-se pagar uma grande parte de tributos em objetos de vidro e em mão de obra, transferindo os melhores mestres vidreiros para a Itália (Roma). 
           O gosto pelo belo e pelo requintado começou a espalhar-se também nas severas casas romanas, e os patrícios competiam entre si, para revestirem paredes com chapas resplandescentes. Parece estranho que, mesmo usando o vidro para múltiplas finalidades, não tivessem compreendido a utilidade de aplicá-lo nas janelas, que permaneceram, mesmo nas mansões mais luxuosas, simples buracos com chapas fixas de vidro, ou amplas aberturas, que se fechavam com persianas inteiriças de madeira. O uso de janelas de vidro surgiu no fim do século I. 
             A estrada triunfal do vidro, considerando unicamente artigo de luxo, continuava, levado pelos Romanos, á medida que ocpupavam novas terras. Gália, Espanha, Reno, Portugal, Bretanha, floresceram de indústrias, mas, com a queda do império romano ocidental, no século IV, o preparo do vidro transferiu-se para o Oriente, especialmente perto do porto de Bizâncio (ultima cidade romana que se manteve por longos séculos, depois da queda do império ocidental); esta manteve-se até aos albores da Idade Média e mais além. A Síria consolidou sempre mais o rendoso comércio e é bastante provável que os venezianos, geniais e intrépidos navegantes que eram, tivessem aprendido dos sírios o segredo do difícil e preciosos preparo do vidro. A primeira indústria de Veneza nasceu no século V e teve seu maior esplendor no século XIV. Pelos fins do século XIII, o Conselho dos Dez ordenou que as fábricas fossem relegadas à ilha de Murano, a fim de evitar que os segredos da fabricação fossem divulgados. A profissão de oficial vidreiro, transmitida de pai a filho, tornou-se um título honorífico e assumiu força de celebridade, quando um veneziano inventou o sistema de fabricação de espelhos, lá pelo ano de 1317.
               Mas os países nórdicos não permaneceram indiferentes a esta nova indústria, tão rica, e um emissário do rei de da França, pagando regiamente a um mestre vidreiro, conseguiu descobrir os processos de fabricação. Da França, à Alemanha, à Boêmia, o segredo foi-se expandindo e surgiram novas e poderosas indústrias em concorrência com Murano, cuja decadência coincide com o início da nova era histórica. 
                 O vidro não ficou sendo unicamente uma prerrogativa dos ricos,pois, quando, no ano de 1876, o americano Weber inventou uma máquina para produção semi-automática das garrafas, todas as famílias puderam ter, para uso doméstico, vários objetos de vidro. 
               Hoje o vidro é produzido em larga escala pelo mundo todo. Continuamente novas máquinas são inventadas e, assim, a produção aumenta, possibilitando um menor custo e massificação do produto. 
  

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terça-feira, 14 de julho de 2020

OS PRIMÓRDIOS DA CIVILIZAÇÃO RUSSA E SUA HISTÓRIA

                       

               Os russos são um povo europeu de raça branca que se converteu ao cristianismo por volta do ano 1.000. No decorrer dos séculos foram muitas as contribuições da Rússia para a civilização. As escavações arqueológicas trouxeram à luz do dia em toda a planície sármata inúmeros objetos fabricados pelos habitantes primitivos no Paleolítico e no Neolítico, da Idade da Pedra, do Ferro e do Bronze, o que confirma a pática da criação de gado, do cultivo dos campos e de diversas atividades artesanais nessa época pré-histórica. 
               Esses criadores de gado e agricultores tornados sedentários criaram uma arte própria em que se conjugavam harmoniosamente formas animais e geométricas, inspiradas tanto no Oriente como nos gregos. Na arte dos citas, revelam-se o culto de uma deusa mãe e um conflito de forças obscuras; representam-se festas e cenas de guerra. Impressiona em especial a representação de pessoas que revelam uma semelhança espantosa com os habitantes da Rússia de um passado próximo: Os mesmos rostos bárbaros, o vestuário solto, mas preso com um cinto, e as calças largas que terminam em botas folgadas.
              A floresta, a estepe e os grandes rios navegáveis foram os elementos mais importantes do seu ambiente natural. Ainda hoje a paisagem da Rússia central é caracterizada por um vasto horizonte ladeado por florestas  azuladas. E do mesmo modo não se modificaram os vastos  campos e estepe do sul. Em nenhuma outra parte da Terra existe um país tão grande, tão uniforme, que pela sua simples ambiência tanto convide o o homem a um trabalho quase perpétuo. Todo o passado da Rússia, desde o início do cristianismo até hoje, é a história da exploração dos seus campos, dos Cárpatos ao oceano pacífico. 
             Muito além do Danúbio, além do Vístula, nas imensas planícies cobertas de florestas nas vastas estepes como o oceano, junto aos rios de lento e interminável curso, numa região sem limites, que o inverno sepulta sob um manto de nove e o verão faz resplender sob um glorioso fulgor de cores, viviam, outrora, homens de rosto selvagem e rudes costumes, nômades e rebeldes a qualquer espécie de autoridade. Citas e Sármatas, chamavam-nos os Gregos, que ele, os louros e bárbaros nórdicos, encontravam com espanto em suas migrações para o sul, na península de Querosolene, a quem hoje chamamos Crimeia. Lá floresceu, durante séculos, uma numerosa colônia  ateniense; naquela terra, e mais adiante, até o mar Cáspio e ao Cáucaso, avançaram as legiões romanas provenientes da Dácia, isto é da România.
                  Por volta do fim do século VIII a.C., aparecem nas estepes do sul da Rússia os citas de língua iraniana, que rapidamente suplantam seus antecessores cimérios e que, com a ajuda da sua invencível cavalaria, erigiram um reino poderoso. Heródoto deixou-nos um pitoresco relato dos seus costumes e usos, assim como da gloriosa resistência contra Dario, o rei dos Persas. Os arqueólogos desenterraram dos túmulos dos chefes citas, sepultados com suas mulheres e cortesões, inúmeros objetos que comprovam uma alta cultura. Os citas viviam como nômades ou agricultores, em harmonia com as colônias gregas que se haviam formado desde mo século VI em Olbia, Quersoneso, junto dos Bósforos e em outros lugares junto da margem norte do mar Negro. 
             Na Crimeia e em toda a Rússia meridional, até às margens do Cáspio, chegaram os legendários e os mercadores romanos; foram os primeiros contatos que a Europa teve com os povos selvagens das estepes asiáticas. 
                Hunos e Aváricos sucederam os italianos no domínio da região; no século VII, os eslavos, em seu grande ímpeto expansionista, ocuparam as imensas planícies  entre o  rio Volga (no planalto de Volgai) e o Vístula, indo misturar-se, ao norte, com os Fineses, dos quais assimilaram, em parte, os hábitos. E vemos, mais tarde, no século IX, aparecer , também nessa extrema ponta da terra da Europa, um povo muito nosso conhecido, o mais forte e genial da Idade Média, os Normandos. Em 862, o príncipe Rurik da Noruega teria fundado Novgorod, a primeira e mais importante cidade russa; o próprio nome Rússia derivaria justamente de Rurik e de seus descendentes. Colônias normandas foram, além de Novgorod, Rostov, Esmolensco, ou melhor, as únicas aglomerações humanas que então mereciam o nome de cidade. Kiev, situada na zona mais rica da Rússia, ao centro da fértil planura da Ucrânia, favorecida por clima mais suave e pela vizinhança com o vivíssimo mundo bizantino, conquistou logo uma posição de permanência. A própria Bizâncio, sob muitos aspectos, foi a matriz da civilização russa; de lá veio, entre outras coisas, o alfabeto cirílico, corrupção do alfabeto grego, que ainda é usado e que deve seu nome ao monge Cirilo, evangelizador dos Búlgaros. 
                  Mas quem são esses russos, esses fundadores de um grande império, que assimilaram de modo tão infeliz certos elementos de uma civilização primitiva? Uma vez que pertencem a um ramo oriental de raça eslava, devem ter ido para a Europa juntamente com os outros indo-germanos na época das migrações. Supõe-se que ocuparam inicialmente as vertentes norte dos Cárpatos e daí se expandiram pouco a pouco pelas planícies orientais, até o curso superior do Oka.  Depois de terem se deparado nas florestas virgens com tribos ugro-finesas, é provável que tenham se dirigido para o sul, uma região mais fértil, onde vieram a encontrar os citas. 
                   Em relação à formação do Estado russo, os escritos de alguns monges, cronistas ou historiadores da Idade Média firmaram durante muito tempo a convicção de que o ano de 862 correspondia à da fundação do Estado russo. Essa fundação era entendida com um ato criador ex nihulo - a formação espontânea de uma administração altamente organizada, de inspiração progressista, surgindo numa região habitada por tribos semi-selvagens. 
                  Segundo essa versão, uma comunidade eslava da região correspondente à atual de Novgórod ter-se-ia dirigido a um caudilho guerreiro varengo (isto é, escandinavo) chamado Rurik, para organizarem em comum a defesa dos seus domínios contra os povos vizinhos: "Venham e governem, a nossa terra é vata e fértil,mas falta-nos organização". Os descendentes do legendário príncipe Rurik  teriam seguido então para o sul, a fim dese estabelecerem  definitivamente  em Kiev, junto do rio Dniepr, e nessa região fundaram a capital de um grande reino. 
             Os largos rios da Rússia, que correm suavemente, não ameaçam a navegação nem com tempestades nem com rochedos perigosos; eles constituem vias de ligações naturais entre as povoações. O clima rigoroso,o longo inverno gelado e a luta contra a natureza determinaram certos traços do caráter russo: Uma coragem passiva,mas decidida, perseverança, considerável capacidade de resistência perante sofrimentos de toda a espécie, sentido prático, e uma certa melancolia. 
              Sabemos hoje que Kiev foi apenas uma etapa numa longa série de formações de estados no Sul da Rússia, e que já existiam relações entre os povos que viviam junto ao Dniepr e os habitantes das regiões do Danúbio, do sul latino, do norte germânico e do Império do Oriente, isso na época da fundação dos Estado Russo, ou mesmo anteriormente. 
             Tendo crescido em potência, os príncipes de Kiev ousaram desafiar o poderio de Bizâncio, mas a frota de Igor, que chegara até perto das muralhas de Constantinopla foi destruída pelo fogo grego, a famigerada arma criada pelos cientistas bizantinos em 941. Os descendentes dos Citas ainda não estavam em condições de enfrentar a culta e rica |Bizâncio, de onde chegara à Rússia o primeiro germe de civilização. 
                Ao nome do sucessor de Igor, Wladimir, cognominado, "o Grande", está ligado um fato capital da história russa: a conversão ao cristianismo. A Rússia adotou, a princípio, o rito grego, depois, definitivamente, o búlgaro-eslavo: o "metropolita", isto é, o bispo primaz da Rússia, dependia do patriarca de Constantinopla e permaneceu, a seguir, sempre separado do papado de Roma. 
       A Rússia apresentava, então, o aspecto de uma conglomeração de principados independentes, situação que foi uma das principais causas de muitos de seus males e que derivava do hábito dos soberanos bárbaros (essa mesma situação já aconteceu entre os Francos e os Germanos) de dividir o próprio território entre os filhos. Daqui, as lutas entre os herdeiros e sua substancial fraqueza ante os inimigos externos. 
             Em redor dos príncipes, vivia a grande nobreza dos campos, a classe dos Boiardos, senhora quase absoluta  de homens e bens; na cidade, dominavam os conselhos  de maiorais, que representavam a autoridade comunal. 
           Decaída no século XII, a autoridade de Kiev, afirmou-se a importância comercial de Novgorod, que permaneceu, depois, durante séculos, como o maior mercado russo, a cidade para onde afluíam mercadores de todas as raças, desde noruegueses aos tártaros. data deste tempo a primeira infiltração na Rússia de colonos germânicos que, embora hostilizados, conseguiram ali se instalar habilmente. 
               Pouco antes da nossa era, acelerou-se a migração de novas tribos para as estepes do sul da Rússia, e a mistura dos "bárbaros" na antiga região dos "citas" tornou-se cada vez mais complexa. Os getas, os iassenses, os roxolanos, os alanos, os bastarnas e os dácios substituem pouco a pouco os sármatas e formam entre o Dniepr e o Danúbio reinos extensos, mas pouco duradouros. Os romanos, por sua vez, irão alargar as suas fronteiras em direção ao oriente e ocupar a Dácia. 
           As grandes escavações recentemente efetuadas em várias regiões por arqueólogos soviéticos trouxeram à luz vastas informações muito exatas. Assim, sabemos da existência de uma arte florescente, nitidamente superior à arte contemporânea da Europa ocidental. Também foi descoberto  um grande número de aglomerados urbanos e indícios reveladores de uma estrutura social muito desenvolvida; ao lado dos campos de propriedade  comum existiam também as propriedades  privadas dos boiardos (influentes e abastados membros da sociedade em cujas sepulturas se encontram jóias e peças de ouro de fabrico local ou de origem oriental ou romana, o que prova a existência de desenvolvidas relações comerciais com essas longínquas paragens.
              A poligamia estava muito difundida, especialmente entre as classes superiores. Os povos que habitavam a norte de Kiev, o uso de "jogos demoníacos", no decurso dos quais uma mulher, após combinação prévia com o seu eleito, era raptada. Somente o povo dos polochanos, que habitavam a planície já desbravada ao redor de Kiev, abandonara tais costumes bárbaros; entre eles era hábito conduzir a noiva na véspera do casamento, numa solene procissão, para junto do noivo. 
                 Desde o século I a.C. os missionários gregos exerceram a sua atividade junto às tribos eslavas do antigo domínio romano junto ao Dniepr, assim como na Crimeia. Sabemos que em Bizâncio, em meados do século IX, foi nomeado um bispo cristão para os rhös do mar Negro. O Evangelho, traduzido para a língua eslava pelos santos irmãos Cirilo e Metódio, foi traduzido pelos búlgaros  para Kiev, onde substitui a tradução gótica de Vulfila. A princesa Olga, avó de Vladimir, bem como outras princesas russas, aceitaram o batismo. 
               Vencedor dos povos eslavos livres e das irrequietas tribos vizinhas, o príncipe Vladimir, um dos "santos"  da igreja russa ortodoxa, deve ter contribuído para essa evolução. Seu batismo em Kiev, realizado com grande pompa ocorreu em 989, após o casamento dom uma irmã do imperador de Bizâncio, representa, apesar de tudo, uma data importante na história do povo russo. 
                A  partir desse momento e durante séculos, vão constituir ligações íntimas e contínuas com o reino bizantino.
               No campo da arte, o povo russo revela uma capacidade receptora e um dote criador verdadeiramente dignos de admiração. Kiev se orgulha das treês cúpulas douradas da sua catedral, dedicada a Santa Sofia. 
               No governo do príncipe Iaroslav, sucessor de Vladimir, a capital, erguida sobre os rochedos do Dniper, ultrapassa em beleza a resistência dos primeiros Capetos da França. 
                A situação geográfica de Kiev, na encruzilhada das rotas comerciais que ligam desde as mais remotas eras a Europa e a Ásia, facilita o rápido desenvolvimento da troca de mercadorias. Essa evolução favorável permitia ao príncipe de Kiev manter relações em pé de igualdade com outras nações européias. Princesas russas tornam-se esposas  dos reis da Hugria, Noruega, Inglaterra, e uma será mulher do imperador alemão. Ana de Kiev, filha de Iaroslavi casou-se com Henrique Capeto, tornando -se rainha da França. 
               Na poca do início do domínio feudal ainda é considerável o número de camponeses livres (smerd).Mas o trabalho nas propriedades dos nobres é executado por homens dependentes, servos que provém das fileiras dos prisioneiros de guerra (kholop), ou camponeses que venderiam a sua liberdade pelo direito de cultivarem uma pequena parcela de terra. Mas os smerd livres, que pagam pesados tributos e dispõem de poucos animais de trabalho, vêem-se cada vez mais explorados à medida que as condições se modificam. É verdade que possuem terra para cultivar, mas tem de entregar um juro pré-capitalista sob forma de produtos agrários. 
              Em todos os centros surge uma cidade que fornece à região circundante os produtos dos artesãos, cada  vez mais especializados. Nas margens das grande vias surgem ricas cidades  como Novforod, Smolensk, Tchernikov. O seu número é tão grande que os escandinavos chamam a todo o país Gardaricyk (reino das cidades). Cada uma das cidades tornam-se o centro de um principado no qual os boiardos e os ricos mercadores formam a aristocracia. O artesanato floresce; segundo documentos da época, existiam mais de quarenta ofícios especializados, entre os quais os de oleiro, ferreiro, caldeireiro, armeiro, ourives e joalheiro, que produziam verdadeiras obras-primas. 
              Os principados menores também participam do comércio internacional, embora menos do que Kiev. Ocasionalmente vendem prisioneiros de guerra  como escravos, por vezes com as respectivas mulheres e filhos. No entanto, os principais objetos de troca comercial são as peles, o linho, a cera, o mel e certos produtos manufaturados, como finas cotas de malha. E compram-se artigos de luxo (panos, armas ricamente guarnecidas, objetos de culto, frutos meridionais) tudo para os senhores feudais, que, graças a uma balança comercial positiva, continuam a se enriquecer. 
              As grandes cidades russas, a maioria edificadas á margem de rios e rodeadas de fortes paliçadas de madeira, já nessa época oferecem um aspecto bastante imponente. No interior, erguem-se, ao lado de muitas casas de madeira, igreja de pedra, assim como as casas de pedra dos ricos, rodeadas de jardins e com telhados dourados, como os das igrejas.  A maioria das casas dos trabalhadores, com melhor renda, eram construídas perto das praças de mercado com madeira rústica (troncos de árvores). Por outro lado, nas regiões pobres em madeira, as paredes são construídas de argila, tipo pau-a-pic. 
                No início do século XIII, uma verdadeira catástrofe  histórica provoca a fim brusco do principado de Kiev e da sua promissora civilização. O feudalismo, que pouco a pouco se expandira, revelava uma característica desconhecida no Ocidente: todos os senhores feudais pertenciam a grande família dos Rurik. O príncipe Vladimir, que se considerava senhor de toda a Rússia, antes de morrer, dividira o país entre seus doze filhos, e ao primogênito, a quem os outros irmãos se mantinham subordinados, legara Kiev. A cada morte de um pequeno senhor, os parentes lançavam-se  em tremendas querelas sucessórias acerca da herança. Isso levava a lutas implacáveis. Um monarca posterior, Vladimir Monônaco, tentou em vão terminar com as querelas familiares mediante a fundação de um conselho de família, mas após a sua morte as inimizades renasceram. 
                  A tudo isso se acrescentou o perigo externo: na estepe, diante de Kiev, continuava a migração de povos. Os godos e magiares haviam encontrado uma pátria na planície do Danúbio e mais além; São Vladimir ocupara a região até o Volga e, nessas longínquas paragens da Rússia, submeteu o poderoso reino dos czares (que estranhamente haviam se convertido ao judaísmo), mas continuavam a rolar contra o Dniepr ondas de povos desconhecidos. As fortalezas de caráter primitivo erigidas ao longo da fronteira não conseguiam reter o avanço dos pechenegues e polovtsianos. Estes povos invadiram a região de Kiev, incendiaram as aldeias circundantes, roubaram o gado e raptaram mulheres e crianças. Os camponeses sobreviventes procuraram a sua salvação na fuga e se instalaram em regiões  menos expostas, a norte e oeste. Foi nessa época que a Rússia de Kiev começava a se despovoar e assim permaneceu durante os últimos anos do século XII. 


              Eis-nos, agora, diante de um novo e terrível acontecimento, que ameaçou por momentos não só a Rússia, mas a inteira civilização européia: a invasão dos Mongóis. 
               Descendo dos Urais, baixaram hordas de Mongóis, sob as ordens de Gengis Khan, conquistador da China e da Ásia central, fundador de um gigantesco reino cujas fronteiras se estendiam cada vez mais para o ocidente.  Os seus cavaleiros atingiram o mar Cáspio, venceram o Cáucaso e surgiram na planície russa.  Vinham dos desertos do Turquestão para assinalar sua passagem com horrendo sulco de sangue. Derrotando o exército dos príncipes russos, às margens do rio Kalka em 1223, eles avançaram qual um flagelo , destruindo estuprando e matando. Somente a morte de Gengis Khan poderia salvar a Rússia e a Europa. 
             A resistência oferecida ao redor de  Kiev pelos príncipes russos desavisados não foi suficientemente decidida. Apesar do apoio dsos seus antigos inimigos polovtsianos, foram totalmente derrotados em 1221 junto às margens do Kalka, ao norte do mar de Azov. 
             Após a morte de Gengis Khan em 1227, os seus herdeiros dividem entre si o imenso reino, e a parte ocidental  cabe ao seu filho Baty, que se dedica a novas expedições guerreiras. Conduzindo os exércitos para o norte, apoderam-se de Riazan e Vladimir, arrasa o principado de Susdal e para perto de Novgórod. No inverno seguinte, conquista Kiev, a Volínia, a Galícia, assom como parte da Polônia e da Hungria, até atingir a costa da Dalmácia, onde destrói Kotor e Dubrovnik. A morte do irmão mais velho e as disputas sucessórias obrigam-no a regressar à Ásia e a desistir da maioria das suas conquistas. 
              No decorrer dos dois séculos seguintes, a Rússia fica isolada em relação ao Ocidente. 
             Contudo, os suecos e os Cavaleiros Teutônicos, vizinhos ocidentais da Rússia, aproveitam-se da fraqueza do  país para tentar aumentar os domínios,  e obrigam o mais competente dos chefes russos dessa época, Alexandre Niévski, a empregar toda a sua energia para repelir os ataques. O próprio papa manda embaixadores falar com os senhores mongóis, que escravizavam a Rússia cristã. 
             A conquista de Kiev  dá origem a um horrendo banho de sangue, durante o qual os tártaros aniquilam praticamente toda a população. Em recentes escavações foram encontrados mais de 4.000 esqueletos numa vala comum da época. 
             Após a queda de Kiev, acelera-se a emigração russa. Muitos habitantes da região se refugiam nos Cárpatos ou na Galícia. Foi, então, que a miscigenação com a população polonesa dá origem ao povo da Ucrânia, e o grande principado da Lituânia estende o seu território por toda a margem direita do Dniepr. Outros russos instalam-se nos contrafortes sul dos Cárpatos e ficam sob o domínio dos húngaros. 
             Muito tempo antes da destruição, o centro do poderio russo havia se deslocado para o curso superior do Volga e do Oka. Esses descendentes da família  dos chefes haviam aí erigido os principados de Rostov, Vladimir e Susdal. Em 1169, o príncipe Andrei Bogoliubski entrega ao irmão0 a cidade de Kiev, que acabara de reconquistar, e muda a sua residência para Vladimir. Com esses acontecimentos, toda a nação russa modifica sua maneira de viver. Os próprios príncipes pouco mais são do que grandes lavradores, mais preocupados com o arrendamento das suas propriedades do que com querelas  relativas a heranças. 
               Mas os príncipes de Susdal são também vassalos dos tártaros. Tem de se deslocar às longínquas residências dos chefes mongóis para lhes demonstrar submissão. Estes exigem pesados tributos e obrigam por vezes os homens em idade de serviço militar a tomar parte nas suas expedições guerreiras. 
             Apesar dos raptos de um considerável número de mulheres e de alguns casamentos mistos, não surge uma raça mestiça de conquistadores e conquistados. o costume da segregação das mulheres que vai se alastrando entre a classe elevada russa, deve-se à influência oriental. 
             Os tártaros mongóis não eram selvagens, possuíam um Estado forte e um exército bem organizado. Mas a sua cultura era muito primitiva., não conheciam a civilização urbana e toda a sua economia se baseava exclusivamente na criação de gado. Eles conquistaram a Rússia, mas não lhes ofereceram nem a álgebra nem Aristóteles;portanto não tinha cultura desenvolvida. 
             O primeiro resultado da conquista da Rússia foi a decadência geral do artesanato, até aí florescente; certas profissões, como por exemplo, a do joalheiro de aldeia, despareceram totalmente. Outros artífices, como os fundidores, regridem a uma técnica mais primitiva; a arquitetura se desvia do tipo de construção tradicional. 
            A mudança da população para o norte, devido à incursão dos nômades, conduz a importantes modificações na estrutura social da nação. Nas regiões cobertas pela floresta, os príncipes asseguram para si enormes propriedades, cujas dimensões ultrapassam as de Kiev. Os nobres que se encontram a serviço dos príncipes seguem esse exemplo e se apossam igualmente de enormes territórios. A luta de classe torna-se aguda; muitos camponeses resistem às ordens de seus senhores e destroem o gado e as propriedades dos latifundiários; já os servos fogem para regiões desabitadas e surge então, pela primeira vez,  as ameaças de castigos para que não abandonem as propriedades. 
            Depois de Alexandre Niévski ter defendido Novgórod doa ataques dos suecos e dos Cavaleiros Teutônicos, a cidade começou rapidamente a se enriquecer e em breve surgiram muitos monumentos religiosos, mosteiros e igrejas, criando-se um estilo próprio, notável sobretudo pelos seus ícones e afrescos.  
               Apesar da infelicidade  da invasão mongol, a nação russa preservou a sua alma. O medo e o pânico provocados pela incursão dos nômades vão sendo esquecidos lentamente. 
                No século XII, quando Partis, Roma, Londres e Viena já eram grandes cidades florescentes, Moscou compunha-se de poucas cabanas no meio da vasta floresta russa. 
                Apesar das muitas catástrofes (incêndios destruidores e repetidos ataques por parte dos tártaros), a população de Moscou e arredores cresce rapidamente. Os camponeses sentem-se bem mais protegidos nesse forte domínio do que noutras regiões, o que leva os pequenos chefes vizinhos a se colocarem sob a proteção do príncipe, que procura erigir uma comunidade  de interesses a serviço da grandeza de Moscou. 

A expansão russa na Europa e Ásia
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                  Depois de falarmos dos primórdios dessa civilização, passaremos a tratar da sua expansão na Europa e Ásia no período de 1462 a 1815. 
               Após a invasão mongol do século 13, as terras russas, antes parte da Rússia de Kiev, foram divididas. O leste ficou sob o domínio mongol, do qual o principado de Moscou se aproveitou para dominar os vizinhos e, finalmente livrar-se do jugo tártaro. O oeste foi absorvido pelo principado da Lituânia, que por fim juntou-se à Polônia. 
              O Estado criado pelos Grandes Príncipes de Moscou, no nordeste do território russo, conhecido como Moscóvia, expandiu-se por cerca de 350 anos, às custas da Suécia, Polônia e Lituânia a norte e oeste, dos tártaros e do Império Otomano ao sul e das tribos nômades do interior da Ásia a leste. 
         A Moscóvia estava isolada em 1462: quase todos os contatos com o Ocidente estavam cortados pela hostilidade de seus vizinhos, sendo impossível compartilhar os progressos da Europa. Não experimentou nem a Renascença nem a Reforma, embora influências culturais e artísticas tenham se infiltrado na Corte e na Igreja. O isolamento cresceu com  o aumento do cisma religioso entre cristãos orientais e ocidentais. Desde 1.54, a Igreja Ortodoxa russa tinha restrições ao catolicismo romano e, e, 1448, com a eleição de bispo próprio, separou-se de Constantinopla, que logo depois foi tomada pelos turcos otomanos.
                O crescente poder da Moscóvia manifestou-se na cruel anexação da cidade-república de Novgorod por Ivã II, em 1478, seguida da proclamação da independência do poder tártaro em 1840. No século 16, a República de Pskov foi anexada e a Moscóvia iniciou avanço para leste , com a conquista dos canatos de Kazan, em 1552, e Astrakhan, em 1556, o que permitiu o controle do baixo Volga e do mar  Cáspio. A Moscóvia não estava a salvo dos tártaros da Crimeia, que saquearam Moscou em 1571, e falhara na tentativa de estender seus domínios ao Báltico,nas guerras livonianas conduzidas por Ivã IV, o Terrível. Mas obteve êxito em outras áreas. O comércio lucrativo de peles, desde 1580, permitiu aos russos entrar na Sibéria; diversos fortes foram construídos (Tobolsk, Eniseisk, Yakutsk, Nerchinsk), estabelecendo o controle russo sobre o norte da Ásia e abrindo caminho para o comércio de seda com a China (comércio também desenvolvido com a Pérsia ao longo do Volga). Em fins do século XVI e no século XVII, a colonização russa se espalhou para o sul , perto do rio Oka, e os ucranianos migraram para leste, a partir da Polônia. Postos fronteiriços foram fixados, mais tarde transformando-se em cidades, como Orel, em 1564, Kursk e Voronej, em 1586. 
              Em 1613, após conflitos, que duraram de 1598 a 1613, que se seguiram à extinção  da antiga "casa real moscovita", Miguel, o primeiro da dinastia Romanov, foi eleito czar. Até o fim do século XVII, os moscovitas se dedicaram à conquista das terras perdidas para Lituânia, Suécia e Polônia e, apesare dos reveses, tiveram, entre 1640 e 1686, substanciais ganhos territoriais. Em 1648, os cossacos da Ucrânia levantaram-se contra a Polônia e declararam lealdade ao czar, inaugurando longo período de conflitos armados, em que Polônia, Rússia, Suécia e otomanos participaram até 1686, quando foi assinado tratado entre Rússia e Polônia confirmando a cessão de Kiev e das terras do médio Dnieper para a Rússia. 
              O isolamento ainda era o maior problema da Rússia. Havia potencial de comércio estrangeiro para os produtos florestais russos, mas as comunicações da Moscóvia com a Europa, por mar e terra, estavam bloqueados por suecos, poloneses e turcos hostis. Mercadores britânicos tinham aberto, através do mar Báltico, uma rota para Arkhangelsk (fundada por Ivã IV em 1584); mas, com condições climáticas desfavoráveis, a rota era navegável só no verão. 
                Tendo fracassado no avanço para o mar Negro, Pedro I, o Grande, após 1700, concentrou-se na obtenção de uma janela para o oeste. Após longa guerra, marcada pela vitória de Poltava em 1709, arrebatou Estônia e Livônia da Suécia pelo Tratado de Nystad, em 1721. Adquiriu o antigo porto de Riga e fundou o porto de São Petersburgo em 1703. O novo status da Rússia ficou claro à Europa quando o título de czar foi formalmente mudado para o de imperador, em 1721. 
               Os sucessores de Pedro retomaram sua política de expansão no mar Negro, bem sucedida no reinado de Catarina II, a Grande, na primeira entre 1768 a 1774 e na segunda entre  1787 a 1792, período das guerras turcas. O canato tártaro da Crimeia foi anexado e a Rússia passou a controlar a costa norte do mar Negro, desde o Dniester até o Cáucaso. Odessa, fundada em 1794, tornou-se o principal porto das exportações russas para o Mediterrâneo.
                  Entre 1772 e 1815, a fronteira terrestre  russa avançou de 900 Km dentro da Polônia. Com as partilhas ocorridas entre 1772 e 1793/95, a Rússia obteve boa parte de antigos territórios poloneses e lituanos e, após a queda de Grande Ducado de Varsóvia, constituído por Napoleão, o Congresso de Viena concordou em fazer do czar o soberano do reino polonês reconstituído. 


As guerras do século XVIII exigiram indústrias de armamentos e grande base de produção metalúrgica. Esta foi criada por Pedro I, principalmente nos Urais, onde havia jazidas de ferro e cobre e extensas florestas que permitiam a produção de carvão vegetal . Pedro I fundou fábricas, incentivou investimentos, encorajou negócios e estabeleceu um espécie de servidão industrial. 
          

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