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quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

O DOMÍNIO BRITÂNICO NA ÍNDIA - CAUSAS E CONSEQUÊNCIAS

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Funeral de Gandhi 



              No início do século XIX, a hegemonia da Companhia Inglesa das Índias Orientais era fato consumado no subconsciente indiano. Cinquenta anos depois,a companhia já era um poder supremo. A terceira Guerra Anglo-Maratha, de 1813 a 1823, pôs fim a mais séria ameaça á sua supremacia. Com a conquista de Sind em 1843, e do Reino Sikh do Punbjab em 1849, o império alcançou as fronteiras naturais do país no noroeste, enquanto no norte, após as guerras com o Nepal de 1814 a 1816, estendeu-se aos contrafortes do Himalaia. No leste, os britânicos entraram em conflito com o império da Birmânia e, em 1885, já haviam anexado seus territórios. dentro do Império Indiano, a Doutrina da Prescrição, de Dalhousie, de 1848 a 1856, resultando  na absorção de Estados autônomos, mas dependentes como Oudh e diversos reinos Maratha, pelos territórios administrados diretamente. 

                 A Índia adquiriu importância vital ao sistema imperial britânico e foi envolvida em rivalidades européias, com as quais nada tinha a ver, especialmente após o avanço da Rússia na Ásia Central. Também a tentativa de tornar o Afeganistão um Estado-tampão, sob controle de emires aliados, provocou guerras que aumentaram a dívida indiana. O pano de fundo para a terceira Guerra Anglo-Birmanesa em 1885, foi a rivalidade com a França no Sudeste Asiático. A segurança do império Indiano motivou o envolvimento da Grã-Bretanha na divisão da África. Da Abissínia a Hong-Kong, o exército indiano era usado para proteger interesses britânicos. 
               Na verdade, a Índia entrou na economia mundial como possessão da Grã-Bretanha. O monopólio da Companhia sobre o mercado indiano foi perdido em 1833, exceto para o ópio e o sal, por pressão de empresas comerciais britânicas, que exigiam melhoria dos transportes nas Índia para facilitar a importação de produtos britânicos e a exportação de matérias-primas. Em 1853, a Índia perdera seu mercado mundial de produtos têxteis e importava produtos de Lancashire. A escassez do algodão de Lancashire, provocada pela Guerra da Secessão nos Estados Unidos, levou a um "boom" do algodão no Decão e à especialização nas culturas indianas. A construção de Ferrovias financiadas por capital britânico e a abertura do Canal de Sues, em 1869, ajudaram a setuplicar o comércio exterior da Índia entre 1869 e 1929. Mesmo diante da concorrência britânica, indústrias modernas foram criadas por empresários indianos. Mas em geral não houve mudanças no caráter da economia. O Produto nacional Bruto aumentou lentamente, mas com o prescimento populacional, após 1921, a renda per capita diminui. Em resumo, a Índia desenvolveu características típicas de uma economia subdesenvolvida, que favoreceu a balança de pagamentos da Grã-Bretanha. 
           Avanços administrativos também ajudaram a incluir a Índia na ordem mundial dominada pela Europa. Sistemas de posse de terra que garantiram o direito de propriedade, moderna rede de irrigação em partes do país, proibição de costumes centenários e idéias humanísticas e desenvolvimento de um moderno serviço judiciário e civil foram as maiores expressões do novo espírito. Provavelmente, os proprietários foram beneficiados por isso, mas em geral às custas dos agricultores. Períodos de fome causaram muitas mortes enquanto a agricultura comercial florescia. Profissionais empregados pela administração colonial e proprietários surgidos do sistema de posse da terra construíram a nova elite da Índia. A educação no estilo ocidental, apoiada oficialmente após 1835, pode ser atribuída às aspirações materiais e culturais desses grupos sociais. O conhecimento do Ocidente gerou movimentos sociais e literários influenciados por modelos ocidentais, mas voltados para as tradições da Índia. O Brahma Samaj, fundado por Ram Mohan Roy em 1823, cuja meta era restaurar o monoteísmo hindu, e o Árya Samaj, evangelizador , são dois exemplos. 
             A consciência de identidade indiana, reforçada pelo racismo britânico, garantiu dimensão política, manifestada por associações locais e agitação pública. O Congresso nacional Indiano, primeira organização política a consagrar toda a Índias, foi fundado em 1885 e logo desenvolveu uma ala extremista que questionou o direito de estrangeiros governarem o país. Em 1905, a primeira agitação de massa, que precedeu a não-cooperação e não-violência de Gandhi propagou o "swaraj" (governo autônomo) foi desencadeada para resistir à decisão de dividir a província de Bengala. Com idêntico objetivo, grupos revolucionários adotaram o terrorismo. A consciência política foi estimulada pela primeira Guerra Mundial e pela Proclamação Ministerial de 1917, declarando que osw britãnicos queriam concretizar uma representação governamental na Índia. O "Indian Councilis Aet" de 1909 estabeleceu uma legislatura provincial e as reformas de Montagu-Chelmsford de 1919 ampliaram os conselhos provinciais. Leis repressivas promulgadas em 1919 autorizaram a detenção sem julgamento. Contra elas, Gandhi usou a arma da "satyãgraha", ou a ação não violenta em massa. A resposta inclui o massacre de Amritsar, causando rancor racial. os indianos muçulmanos desaprovaram o tratamento dispensado pelos aliados ao sultão turco, seu líder espiritual. O Movimento de Não-Cooperação, de 1920 a 1922, cuja meta era reparar erros do Califado e do Punjab e atingir o "swaraj", foi o primeiro movimento de  massas da Índia a envolver os camponeses. Porém, a unidade hindu-muçulmana não sobreviveu muito tempo após o fim do movimento. Eleições para os conselhos provinciais ampliados deterioraram ainda mais as relações. 
                Em agosto de 1947 foi um mês iluminado. A independência da Índia e a saga de Gandhi pela não violência. A estratégia de Gandhi para liderar a libertação de seu país deu certo, além de ter plantado na alma milenar do hinduísmo, mais que um arcabouço religioso, uma extraordinária forma de agir através da paz.
                   Neste sentido, o século XX pode ser condenado por duas guerras mundiais, mas também pode se redimir pelos movimentos surgidos na saga de Gandhi, como o pacifismo, os movimentos antinucleares e ecológicos, além da luta pelos direitos civis nos Estados Unidos, inspirados nos princípios de resistência passiva de Gandhi. 

               Enquanto tumultos corroíam a unidade nacional na década de 20, a ala radical do Congresso, liderados por Jawaharlal Nerrhu e Subhas Chandra Bose, pregava nova ação militar contra os britânicos e induzia o Congresso a adotar a independência total ('purna swaraj") como objetivo em 1929. 
                  Quando Gandhi lançou o Movimento da Desobediência Civil, que durou de 1930 a 1934, para atingir a independ~encia, foi preso com cerca de 60 mil seguidores. |P  movimento,porém, fopi um divisor de águas. Suspenso em 1931 por um encontro com o vive-rei Irwin, foi retomado quando gandhi voltou das fracassadas discussões constitucionais em Londres. A negociação falhou e a política de confronto, defendida pelos jovens líderes, foi reforçada. O "Government of Índia Act", de 1935, parecia pressagiar o curto caminho em direção à independência.
                 A independência definitiva veio com acontecimentos que envolviam a Inglaterra fora da Índia. 
              A Inglaterra desejava manter seus laços com o mundo árabe após o final do regime de mandatos. Primeiro promoveu a formação de uma liga Árabe e depois o pacto de Bagdá, uma aliança militar destinada a reunir os estados Unidos, a Grã-Bretanha, o Paquistão e os países do Oriente Médio que simpatizavam com o Ocidente. Entretanto, as vitórias sionistas na Palestina, que culminaram com a criação do Estado de Israel em 1948, a tomada do poder por Nasser no Egito em 1952 e a invasão deste último país por forças anglo-francesas-israelenses em 1956 somaram-se para diminuir a influência e a credibilidade dos ingleses e dos franceses na região. Os amargos conflitos do Chipre e Aden levaram a Grã-Bretanha a  retirar-se em 1960 e 1967 e, pouco a pouco, os ingleses começaram a reduzir sua presença a leste do canal de Suez; em 1971 muitos dos xeques que possuíam territórios no Golfo Pérsico uniram-se para formar os Emirados Árabes Unidos. A  França, por sua vez, percebeu que era impossível manter conflitos prolongados em mais de um de seus territórios no norte da África. Assim, o Marrocos e Tunísia obtiveram sua independência em 1956, enquanto a Argélia suportava uma longa guerra de oito anos até que os franceses capitulassem em 1962. 
               Como as potências tiveram a tendência de dotar seus territórios coloniais de instituições políticas sem nenhuma ou muito poucas raízes nacionais, não é de estranhar, portanto, que a retirada das colônias fosse muitas vezes acompanhada ou logo seguida de ator de violência revolucionária e da instalação de regimes repressivos. Em  outros casos, as unidades étnicas ou tribais estenderam-se através das fronteiras: as exigências da Indonésia sobre as regiões onde se falava o  malaio nas décadas de 1950 e 1960 levaram a um conflito com a Malásia; a Somália, por sua vez, reclamava territórios do Quênia e da Etiópia. Quando a Bélgica retirou-se do Congo, em 1960, a maioria dos novos Estados Africanos  uniram-se contra as colônias portuguesas que ainda restavam e apoiaram os movimentos guerrilheiros de libertação de Angola e de Moçambique, que também conquistaram a independência um ano depois da queda da ditadura em Portugal, em 1974. A Espanha que ainda ocupava alguns setores no Marrocos, entregou o Saara a este último país e a Mauritânia em 1976, que a partir de então abandonou todas as suas exigências territoriais.
            A Grande História nos mostra que aos poucos a civilização vai entendendo a importância da liberdade, e mesmo os países autoritários são forçados a desistir de suas ditatoriais imposições. 
                   Contudo, a violência vem de onde menos se espera. 
                Em 30 de janeiro de 1948, Mohandas Karamchand Gandhi estendeu-se na conversa com sua nova seguidora, a fotógrafa Margaret Bourke-White, da revista "Life", que registrara sua recente greve de fome, e chegou alguns minutos atrasado ao gramado onde costumava rezar. Eram pouco mais de 22 horas quando o líder pacifista de 78 anos, caminhando com dificuldade e vestindo a túnica branca de algodão que ele mesmo tecera, foi ao encontro do grupo de amigos que o aguardava. 
            No momento em que o líder político juntava as mãos para cumprimentá-los, o extremista hindu Nathuram Vinayak Godse, que se opunha à sua proposta de tolerância religiosa, destacou-se da pequena multidão, sacou a pistola e disparou três tiros à queima roupa, ferindo-o mortalmente no peito e na barriga. 
                 Nascido em 1869 numa família de casta dos Vaísias, de comerciantes e funcionários públicos, Gandhi foi estudar direito em Oxford e, assim que se formou, emigrou para a África do Sul, tornando-se advogado dos compatriotas segregados. Ao lançar a primeira campanha de desobediência civil, estratégia que ele mesmo tinha inventado, defendendo o fim do imposto cobrado dos 150 mil imigrantes indianos no país, foi preso. Nessa época, começou a aprofundar-se nos textos religiosos. 
               De volta a seu país, em 1915, já era famoso e ganhou do poeta Rabindranath Tagore um nome: Mahatma, que significa "a grande alma". Em 1919, fez sua primeira greve de fome. Em 1920, liderou o boicote aos tecidos ingleses e passou quatro anos na cadeia. dez anos depois insurgiu-se contra a lei que proibia seu povo de fabricar sal. Nessa época, o mundo inteiro acompanhava com vivo interesse a luta daquele frágil homem moreno contra o império britânico. Sem armas na mão e de estômago vazio, Gandhi acabou dobrando o inimigo com sua política de não-cooperação e pregação da não violência.
              No entanto, com a emancipação da Índia, em 1947, a coroa britânica promoveu a divisão do país em dois estados ; o hindu e o islâmico (Paquistão), provocando a explosão de conflitos religiosos latentes que, em menos de um ano, tinham resultado em 200 mil vítimas fatais. No dia 13 de janeiro de 1948, o Mahatma começava mais um jejum. Conforme suas palavras, dessa vez a greve só terminaria com a morte ou com a instauração de um novo tempo de tolerância religiosa. Um acordo, então, foi feito entre os principais representantes dos dois lados, e a greve de fome foi interrompida. Mas Gandhi sabia que sua vida não seria poupada pelos fanáticos. No dia 20 escapa ileso de um atentado a bomba. Dez dias depois, a Humanidade perdia seu melhor soldado da paz, num momento em que o século XX mal chegava ao meio e lá já tinha em sua conta duas guerras mundiais. As cinzas de Mahatma Gandhi foram lançadas no rio Ganges, em cerimônia à qual compareceram mais de 500 mil pessoas. 


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quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

A MODERNIZAÇÃO DO JAPÃO

Japão moderno 

A convivência da tradição com a modernidade. 


                   O japão moderno pode orgulhar-se de suas universidades, escolas e monumentos, que nada tem a invejar, quanto à beleza e estilo, aos europeus e americanos. E como, nos usos e trajes hodiernos, pode-se notar uma mescla de antigos e atuais, asiáticos e ocidentais, o mesmo se pode afirmar quanto às artes, literatura e instituições civis. 
                  Deve-se, sobretudo, ao imperador Mutso-Hito e aos seus sucessores se o Japão, é um dos países mais evoluídos. Ele, realmente, após haver transferido a capital de Kioto para Iedo (agora Tóquio), em 1868, renunciou, voluntariamente, aos privilégios que a dinastia imperial gozava já fazia mais de 2.500 anos, e iniciou um vasto plano de reformas aptas a remover as velhas instituições feudais e a dar um feitio democrático à nação. O Governo está realmente constituído de um Parlamento, dividido em duas Câmaras: a dos Pares e a dos Representantes, e possui uma constituição monárquica, semelhante à européia. O novo Governo deu forte impulso à agricultura e à indústria; fundou instituições de instrução pública, vazadas em modelos europeus, abriu novas vias de comunicação e, para limitar a emigração em larga escala, sobretudo para os Estados Unidos, devido ao enorme desenvolvimento democrático, encaminhou a população para as zonas daquelas quatro ilhas, que ainda não haviam sido suficientemente exploradas. 
         As fábricas de tecidos instaladas em Osaka, em 1889, foram o primeiro sinal do renascimento do Japão, de sua marcha industrial. Hoje, suas indústrias mais florescentes são as de tecidos, metalúrgicas, cerâmica, hidrelétricas, charão, papel, automóveis, trens, cerveja e o tradicional "saquê".  Amplamente exploradas, são, também os recursos minerais de que o Japão é particularmente rico, entre eles o cobre, o ouro, a prata, o zinco, o carvão fóssil. 
                 Bastaria percorrer as ruas de Tóquio para verificar quanto caminho percorreu o país nestes últimos anos. Totalmente reconstruído, após o terrível terremoto de 1923, Tóquio, que conta com mais de 12.700.000 habitantes, (censo de 2019), oferece aos visitantes a visão de amplas avenidas, fervilhantes de transeuntes, de arranha-céus e edifícios moderníssimos, de veículos reluzentes, de homens e mulheres modernamente trajados. O antigo e o moderno Japão, hoje, confunde-se, formando uma mixórdia de trajes. As japonesinhas, deixando o quimono, passaram a usar os vestidos e calças ocidentais e já frequentam os cabeleireiros com naturalidade. O encantador mistério e a fragilidade das filhas do "Sol Nascente" já pertencem ao passado. 
                Outras importantes cidades do Japão são o centro industrial de Osaka, recortada por canais, que é considerada a segunda cidade do extremo Oriente, Iokohama, destruída e reconstruída depois do terremoto de 1923, Simonoseki, Nagasaki, Sendai e Hokodate. 
               Com muita habilidade e sua peculiar paciência, na segunda metade do século XIX,  o Japão conseguiu evitar excessiva interferência de potências ocidentais em sua economia. 
                Implementou política bem sucedidas que visaram a uma rápida modernização e ao desenvolvimento econômico. Os próprios países que antes ameaçavam sua independência tornaram-se modelos de desenvolvimento incentivando suas ambições imperialistas. O processo começou na década de 1850 e por volta de 1920, o império Japonês já estava solidamente estabelecido.
               Os novos líderes fizeram reformas, esperando que a economia moderna e o militarismo assegurassem a independência e igualdade internacional do Japão. Aboliram os domínios feudais  e os substituíram por sistema de prefeituras controladas por uma burocracia central. Uma nobreza , um gabinete governamental e um Parlamento bicameral nos moldes ocidentais deram a base para a estabilidade política. O privilégio concedido aos samurais foi abolido,criou-se um Exército recrutado e formou-se uma Marinha equipada com navios modernos. O sistema nacional de educação, hoje um dos mais avançados do mundo, foi instituído em 1872. Em 1900 atingiu a cifra de 90 % das crianças em idade escolar. Foi em 1882  que começaram a ser introduzidos códigos legais baseados nos modelos francês e alemão. 
           A modernização econômica não foi  fácil, embora no início o Japão tivesse mais vantagens que a maioria dos países asiáticos. Em 1863,  já possuía rede de crédito e comércio doméstico e, apesar da falta de terras cultiváveis, a agricultura intensiva ocupava 30 milhões de pessoas. Importante produtor de cobre, o Japão tinha ainda depósitos de carvão e minérios suficientes para suprir a indústria metalúrgica. Estudiosos japoneses iniciaram experiências com ciência e tecnologia ocidentais. Por volta de 1869, um navio totalmente construído no Japão, seguindo os padrões ocidentais, atravessou o pacífico com tripulação japonesa. Daí em diante muitos estudantes partiram para o exterior, ganhando conhecimentos técnicos, econômicos e políticos. O desenvolvimento posterior dependia da adoção de instituições como sociedades anônimas e bancos, de estabilidade social e de um ambiente financeiro capazes de permitir reformas econômicas e políticas. 
              A reforma tributária sobre as terras de 1873, que substituiu os impostos feudais, deu lugar a uma instabilidade agrária e à consolidação de propriedades. No entanto, garantiu uma fonte de renda para o governo, com os impostos sobre a terra representando mais da metade da receita antes de 1900. Mais de um terso dos gastos do Estado destinava-se à expansão do comércio e da indústria. para estimular a transferência de tecnologia e investimento particular, o governo construiu fábricas-modelo em setores estratégicos, como o de aço e têxtil, além de investir em transportes  e comunicações. Também ofereceu subsídios para armadores, indústria naval, controle de qualidade de produtos de exportação, esquemas de treinamento técnico. Após curto período de inflação e crise cambial , chegou-se à estabilidade financeira na década de 1880 e ao estabelecimento de sólido sistema bancário. Neste contexto, o capitalismo logo se propagou na indústria têxtil já na década de 1880 e na indústria pesada depois de 1895, fazendo do Japão um exemplo de industrialização no mundo não ocidental. 
             O segundo incentivo veio do ingresso crescente do Japão nos mercados estrangeiros na Primeira Guerra. O comércio exterior aumentou a partir de 1890, à medida que o Japão explorou mercados na China e nos Estados Unidos. Sua estrutura comercial mudou, tornando-se importador de matérias primas e exportador de manufaturados. 
               Este progresso trouxe mudanças no estilo de vida japonês. A população cresceu de 35 milhões em 1873 para 55 milhões em 1918. Nessa época a metade da população ainda se dedicava à agricultura, quase um terço morava em cidade de 10 mil habitantes ou mais, especialmente nas áreas industriais de Honshu e norte de Kyushu e ao longo da faixa costeira entre ambas. Essas áreas estavam ligadas á maior parte do país por uma rede ferroviária de 10 mil quilômetros, nacionalizada em 1906 e unida a estradas de ferro particulares. 
                  Embora a penetração alienígena tenha introduzido esportes e outros divertimentos nitidamente ocidentais, como o futebol, o teatro e o cinema, sobrevivem, por toda parte apreciadíssimos, os espetáculos de luta, danças e o canto das gueixas, a recitação de poemas antigos e histórias populares, conservadas por hábeis declamadores nos"yoses" (teatros indígenas), jogos de cartas e, finalmente, o jogo dos perfumes, que consiste em adivinhar o nome e a variedade dos incensos, que um dos participantes faz arder num turíbulo.
               O povo japonês é muito amante de festas; além das nacionais, todos os meses, festeja uma flor, entre estas a  ixia, no dia 5 de maio, e o crisântemo, em 9 de setembro. Pode-se dizer que todas as coisas que servem para inspirar um poema são celebrados, pelos japoneses, com uma pompa inimitável e inimaginável para nós. Em 7 de julho, por exemplo, festejam as estrelas, no dia 15, as lanternas, em 6 de junho, os fantoches e, afinal, em 3 de março, as bonecas. Esta última é uma das cerimônias mais geniais. Cada menina tira de seus guardados as bonecas e as alinha à porta de sua casa, "para tomarem ar", depois lhes serve o chá e exibe diante delas uma inteira série de reverências e movimentos dignos dos mais altos personagens imperiais. E são inúmeras as bonecas que cada menina possui, pois, de acordo com a tradição, as mães as transmitem às filhas, desde tempos remotos. 
                 Tal é o aspecto do povo japonês; trabalhador incansável, escrupuloso e atento, súdito fiel à tradição de seus antepassados, cônscio de que a grandeza de sua pátria repousa nas sólidas bases da disciplina, da ordem e da crença religiosa.
                Na sociedade japonesa, rigidamente hierarquizada, as pessoas não eram designadas por seu primeiro nome, mas pela posição que ocupavam na família ou grupo social a que pertenciam. 
               As mulheres desempenhavam um papel secundário nesse Estado militar. O homem tinha o direito de desposar uma segunda mulher, caso a primeira não lhe proporcionasse "herdeiros masculinos".  Elas eram responsáveis por determinada práticas rituais, como a cerimônia do chá e a arte de arranjos florais (ikebana) e vestiam-se com distinção, superpondo vários vestidos de seda multicoloridas, substituídos pelo kimono, no século XVII. 
               As gueixas, "pessoas que praticavam a arte", tinham por função divertir as reuniões dos guerreiros nas casas de chá. Para tanto, elas recebiam uma educação esmerada de canto, música,poesia e eram educadas na arte de bem servir. 
                Já o teatro era uma área de atuação exclusivamente masculina. O zen-budismo influenciou a criação do teatro , no século XV. Caracterizado pela economia de gestos, uma linguagem poética simbólica e um cenário apenas sugerido, o  era apreciado pelas elites. 
           De apelo popular eram o teatro de marionetes, originário da Ásia Central, e o Kabuká, uma sátira da realidade japonesa nos grandes centros urbanos, como Tóqui e Osaka, onde surgiu no século XVII.
             Também a arquitetura das casas japonesas expressava os valores desta cultura. Feitas de madeira, palha e papel-arroz, com suas divisórias móveis e seu mobiliário baixo, as residências eram de resistir aos constantes tremores de terra que assolavam o arquipélago.
               Hoje os hábitos mudaram. O teatro continua apresentando peças como antigamente; uma forma saudável de reviver o passado que nunca mais voltará. 
                 As mulheres se vestem na maneira das ocidentais, embora muitas ainda resistam às mudanças e, em casa mantém os hábitos tradicionais.  
              As belas casas, nos centros econômicos, foram substituídas por prédios, onde os apartamentos são músculos, chegando a medidas inacreditáveis de 2  por 3 ms²; verdadeiros cubículos. Isto ocorre devido á necessidade de morar em centros superdesenvolvidos, perto do trabalho. As pessoas se submetem a este sacrifício e  usam seus pequeninos apartamentos  apenas para ter um lugar próprio para dormir. 
           
 
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terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

O COLAPSO DO IMPÉRIO CHINÊS E A REPÚBLICA DA CHINA


 Para julgar é preciso conhecer a história. 
No império houve 10 milhões de mortos de fome por inanição. 

Neta de Mao tsé Tung

            A partir de 1793, os ingleses, desejosos de assegurar o mercado dessa nação para suas manufaturas, quiseram estabelecer ali relações diplomáticas, ideia que foi repelida pelos chineses . Naquele momento havia um desenfreado crescimento do comércio do ópio e isto precipitou os acontecimentos. Tratava-se de um tráfico ilícito e a China realizava grandes esforços para deter esta prática. Os chineses comuns trocavam, com os traficantes,   chá e seda por ópio e isto estava viciando a população de maneira descontrolada.  Nos anos de 1839 x 1842 aconteceu uma guerra entre os dois países, na qual as forças chinesas foram vencidas pelas inglesas de maneira decisiva. Devido a essa derrota, a China teve de ceder Hong Kong e, em virtude do Tratado dos Portos, abriram-se cinco portos nos quais era permitido aos residentes estrangeiros comerciar livremente, ficando liberados da jurisdição Chinesa. Posteriormente, a China assinou tratados com a França e os Estados Unidos. depois Xangai substitui a cidade de cantão como centro de comércio e zona de influência estrangeira, enquanto as exportações de chá e seda floresceram e o tráfico de ópio seguia aumentando. 
              Podemos observar que os chineses não compreenderam o significado do novo desafio comercial das potências ocidentais porque, até o século XVII, a China foi superior ao Ocidente em muitos aspectos. Durante o século XVII, o Império Manchu alcançou sua maior prosperidade e estabilidade, enquanto seus exércitos conquistavam um novo e vasto império no interior da Ásia. Entretanto, nesse período de grande auge, a China foi ultrapassada perlo rápido crescimento da Europa. Ainda quando o império segui sendo auto-suficiente, viu-se obrigado a negociar com as potências expansionistas do Ocidente, as quais adquiriram uma superioridade tecnológica e uma maior riqueza e capacidade de organização graças à Revolução Industrial. À medida que avançava o século XIX, a classe dirigente chinesa, educada em uma tradição de supremacia cultural jamais questionada, não foi capaz de entender este novos desafio nem de modernizar o país. Em consequência, a China foi ficando cada vez mais atrasada em relação ao contexto internacional. Inclusive, caso o governo manchu reagisse perante esta situação e se dispusesse a modernizar o império, não seria muito o que poderia fazer, porque os acontecimentos internos o mantiveram envolvido em uma desesperada luta pela sobrevivência. A derrota chinesa na Guerra do Ópio enfraqueceu a autoridade imperial e, quando o  comércio de exportação transladou-se de cantão para Xangai, exacerbaram-se os problemas econômicos no sul. Em 1850 eclodiu uma rebelião em Kuangsi, que logo se converteu em em uma insurreição total contra a dinastia, liderada pela seita t'ai-p''ing. Os rebeldes, avançando rumo ao norte pelo vale do Rio Yang-tsé, apoderaram-se de Nanquim em 1853 e tomaram o controle de grande parte de China central. A rebelião somente foi sufocada em 1864. 
               A rebelião dos t'1ai-p'ing foi a mais grave das grandes rebeliões que ocorreram nas décadas de 1850 e 1860 e que afetaram grande parte do império. A última delas só foi dominada em '1878. 
               As rebeliões provocaram terríveis baixas no extenso território chinês. Somente as dos t'ai-p'ing e Nien deixaram 25 milhões de mortos, enquanto as insurreições muçulmanas despovoaram vastas áreas de Yunnan e do noroeste. Por décadas a rica região ao redor de nanquim não pode recuperar-se. Em 1877 x 1879 houve uma espantosa fome no norte, durante a qual, pelo menos 10 milhões de pessoas morreram de inanição.
               Estes graves acontecimentos favoreceram os regimes estrangeiros, que não podiam ainda manter relações diplomáticas e comerciais normais com a China. Quando em 1856 as aproximações para negociar foram repelidas, os ingleses e os franceses declararam guerra à China, que terminou com a ocupação de Pequim. O posterior acordo de paz assegurou, finalmente, a representação diplomática em Pequim, abriu mais portos em virtude de tratado e outorgou aos missionários estrangeiros uma maior liberdade de movimento dentro do país. Entretanto, os russos aproveitaram-se da situação para ocupar a região do Rio Amur em 1858 e, dois anos mais tarde, a Província Marítima. Em 1871, ocuparam o Vale do Ili no Turquestão e somente se retiraram em 1881, quando a China lhes pagou uma indenização. Nos anos de 1884 e 1885, os chineses sofreram uma nova derrota perante os franceses na Indochina. A última humilhação foi imposta pelo Japão, que, enfrentando com o mesmo desafio, começou a se  transformar em uma potência industrial moderna, e já havia intervindo em Taiwan, nas Ilhas Riukiu e na Coréia. Finalmente, em 1894 e 1895, o Japão esmagou as forças chinesas em uma guerra total, que culminou com a anexação de Taiwan. 
             Esta derrota, incontestavelmente, convenceu os chineses de que era inevitável realizar mudanças drásticas. Em 1898, o jovem imperador e um grupo de reformadores introduziram um vasto programa de reformas, mas os conservadores manchus, liderados pela imperatriz herdeira, deram um golpe de Estado para evitar que este fosse levado adiante. Contudo, as potências estrangeiras convencidas de que a China se encontrava à beira do colapso, uniram-se para provocar numerosos conflitos e obter maiores direitos e concessões, formando esferas de influência e arrendando territórios como bases de operações. Isto produziu uma onda de xenofobia que inspirou a "Rebelião dos Boxers" no noroeste da China. Primeiro os rebeldes atacaram os missionários e, em seguida, as legações estrangeiras em Tientsin e Pequim. As potências estrangeiras enviaram tropas ao norte da China, enquanto a Rússia invadia grande parte da Manchúria. O acordo final arrancou ainda maiores concessões dos chineses e lhes impôs enormes indenizações. 
              Depois de 1901, finalmente, reconheceu-se que as mudanças eram imperativas, adotando-se uma série de reformas: modernizou-se a estrutura do Estado, criaram-se assembleias eleitas; as Forças Armadas foram modernizadas; atualizou-se o código legal, realizaram-se reformas educacionais e se aboliram os exames para ingressar no serviço civil, que foram os grandes responsáveis pelas atitudes ultraconservadoras da burocracia. No plano econômico, se introduziram modificações igualmente radicais. As ferrovias, a mineração, o sistema bancário e a indústria experimentaram um rápido crescimento. Entretanto, a modernização concentrou-se nos Portos do Tratado, onde não existia a intervenção estatal. Ali floresceram também a imprensa, as editoras e os modernos colégios e, junto a eles, os partidos revolucionários e reformistas. 
                A partir da década  de 1890, um grande número de jovens foi enviado para estudar no estrangeiro, sobretudo no Japão, os quais regressavam convertidos às ideias políticas ocidentais. Em meados do ano de 1910, muitos deles estavam participando do governo nos negócios, na educação me nas Forças Armadas. Contudo, começou a evidenciar-se que os conservadores manchus, apesar das reformas, estavam decididos a manter-se no poder. Sobreveio um descontentamento geral com a autoridade imperial, e as ideias revolucionárias substituíram as políticas de reformas. Os grupos revolucionários proliferaram em todas as partes. En 1911, os Ch'ing estavam desprestigiados em todas as partes, apesar de suas reformas, e os grupos revolucionários haviam proliferado. Quando em 1911 em Wu-ch'ang, o governo manchu fugiu e no decorrer de dois meses quase todas as províncias declararam sua independência. Praticamente não houve confrontos armados. O O partido revolucionários T'ung-men'hui instalou um governo provisório em Nanquim, onde proclamaram seu líder Sun Yat-sen em 1º de janeiro de 1912. 
                No início da década de 1920 observou-se na China  um ressurgimento da atividade revolucionária. Tanto os revolucionários como o nascente Partido Comunista viram-se favorecidos pela reação popular generalizada contra a intervenção estrangeira, as injustas condições da Conferência de Paz de Paris, que fortaleceu a situação econômica do Japão em Shantung, e a exploração econômica. Em 1919 o nacionalismo eclodiu  no Movimento de 4 de maio, do qual surgiu uma nova força política formada por uma geração de estudantes e intelectuais com educação ocidental junto com os trabalhadores urbanos, que obrigou o governo a abster-se de assinar o Tratado de Versalhes. 
                O partido revolucionário de Sum Yat-sen estabelecera um poder regional em Cantão. A partir de 1923, com a ajuda e assessoria do Komintern. Sun reorganizou o Partido Nacionalista (Kuomintang) e seu exército, aliando-se a ele o ainda minúsculo Partido Comunista. Sum morreu repentinamente em 1925 e nesse  ano a xenofobia alcançou uma intensidade desconhecida até então, com greve e boicotes em todos os setores, aos quais aderiram trabalhadores. A influência comunista expandiu-se rapidamente às cidades industriais. Em 1926, Chiang Kai-cheh, o general mais importante do exército do Kuomin-tang, organizou a "Expedição ao Norte" com o propósito de eliminar os caudilhos e reunificar o país. Ainda que os nacionalistas dominassem agora toda a China e fossem reconhecidos como governo nacional, os caudilhos não estavam totalmente eliminados. Inclusive depois que os mais poderosos, Yen Hsi--shab e Fen Y"u-hsiang, foram derrotados eram uma importante guerra entre 1929 e 1930, muitas províncias conservaram um grau de autonomia bastante grande e permanentemente se produziam confrontos armados com os exércitos provinciais. O governo de Chiang manteve um controle central muito firme sobre as ricas províncias do baixo Yang-tsé, onde modernizou a administração e o Exército, construiu uma eficiente rede de estradas  e ferrovias e criou novas industrias, apesar da depressão mundial e a constante pressão japonesa.  Contudo, grande parte do desenvolvimento concentrou-se nas cidades, especialmente em Xangai e Nanquim. 
                    Os comunistas constituíram uma importante ameaça para Chiang. Após as batalhas de 1927 e uma série de insurreições frustradas,, o poder do Partido Comunista nas cidades foi sistematicamente destruído e seus dirigentes se refugiaram nas regiões montanhosas mais distantes, onde estabeleceram regimes locais. O mais importante foi o soviet de Kiangsi, com sede em Jui-chin, onde, a partir de 1929 até 1934, o Partido Comunista dominou uma região de vários milhões de habitantes e levou a cabo programas de reformas como um partido camponês, e não como partido do proletariado urbano, segundo o modelo russo. Os exércitos de Chang atacaram Kiangsi reiteradamente  e em 1934, os dirigentes comunistas decidiram abandonar a região. A "Longa Marcha" que empreenderam a seguir os levou ao noroeste, onde se formou em 1930 outro pequeno bolsão comunista em Pao-an. Finalmente,  na Conferência de Tsunyi, durante a "Longa Marcha", o setor camponês do partido, dirigido por Mao Tse-tung, assumiu a liderança. Mao pôs em prática  suas políticas numa região comunista em torno de Yenan. 
                Portanto, a primeira prioridade de Chiang era esmagar os comunistas e seus rivais provinciais, em vez de opor resistência aos japoneses. Entretanto, viu-se obrigado em 1936, sob penas de ser deposto ou inclusive assassinado, a formar uma frente única contra o inimigo comum. A resposta dos japoneses foi a invasão da China e, no final de 1938, ocuparam a maior parte do norte e centro do país, junto com os principais portos do litoral e todos os centros industriais modernos. Os nacionalistas retrocederam para as inexpugnáveis montanhas de Szechwan e o sudoeste, a a luta perdeu intensidade até que, em 1944, os japoneses voltaram a atacar, caindo outras regiões em seu poder. 
               Ao terminar a Segunda Guerra Mundial, em 1945, o governo nacionalista regressou a Nanquim. Durante a conflagração, começou a depender cada vez mais da assistência e ajudaeconômica norte-americana, chegando a converter-se em governo reacionário e corrupto. Em 1945, estava muito desprestigfiado, com uma inflação fora de controle e a Forças Armadas desmoralizadas. Após a rendição do Japão, os nacionalistas e comunistas correram a tomar posse dos territórios que estiveram em mãos dos japoneses até então; os comunistas apoderaram-se de grande parte do norte e da Manchúria, que foi ocupada pelos russos em 1945. Durante algum tempo continuaram as negociações para chegar a um acordo político e formar um governo nacional, mas as hostilidades entre as forças nacionalistas e comunistas continuaram e, em 1947, terminaram em uma guerra civil declarada. Em 1948, a iniciativa passou às mãos dos comunistas, que derrotaram os exércitos nacionalistas na Manchúria e entraram em Tientsin e Pequim em janeiro de 1949. Entre novembro de 1948 e janeiro de 1949, travou-se mais ao sul uma grande batalha nas cercanias de Hsú-chou, na qual participaram meio milhão de homens de cada lado. Os nacionalistas foram derrotados; Nanquim caiu em abril, Xangai em maio e Cantão em outubro de 1949. No dia 1º de outubro de 1949, fundou-se a república Popular da China. Em maio de 1950, o governo nacionalista refugiou-se em Taiwan. 
             A guerra civil completou a destruição que iniciou-se na época dos caudilhos e continuou durante a guerra com o Japão. Em 1949,a maioria das indústrias estava em ruínas; o centro industrial japonês da manchúria foi saqueado pelos russos; grande parte da rede ferroviária fora de uso. Anos de hiperinflação destruíram a moeda, o sistema bancário e o comércio urbano. Entretanto, pela primeira vez desde 1911, o território da China teve um governo forte e com uma planificação, já provada em algumas regiões, para a reorganização da economia e a transformação do país. 
             Do dia 21 a 30 de setembro de 1949, celebrou-se em Pequim a primeira sessão plenária da Conferência Consultiva Política do Povo Chinês, com a participação de representantes dos diversos partidos, organizações populares e círculos sociais. Ali definiu-se um programa comum com caráter de Constituição provisória, elegeu-se o Conselho do Governo Popular Central com Mao Tsé-tung como presidente e Chou En-lai como primeiro-ministro.
             Os três primeiros anos da república Popular  constituíram um período de reorganização econômica: confiscaram-se as empresas, levou-se a cabo uma reforma agrária e foi impulsionado o desenvolvimento da indústria pesada. A década que cobre o período de 1957 a 1965 foi de um desenvolvimento acelerado. Em 1965 conseguiu-se um auto-abastecimento de petróleo, surgiram numerosas indústrias e a agricultura recebeu o apoio da tecnologia. 
             Contudo, nesses anos apareceram severas falhas nas políticas que regiam o Partido Comunista. No plano político, a repressão dos direitistas foi excessiva e, no econômico, buscaram-se rápidos resultados. 
            A conhecida "Revolução Cultural" de Mao iniciou-se em maio de 1966 e pretendia liberar a China das reminiscências do passado, eliminando a forma de governar, pensar e viver herdada da velha sociedade feudal e da burguesia. No IX Congresso do Partido Comunista de 1969, que reiterou a tese maoista da continuidade da luta de classes, inclusive nos países  com regime socialista, reafirmou-se a crítica a URSS por ter se afastado da pureza doutrinária stalinista. Assim, em meio ao contexto de uma clara bipolaridade mundial, a China pretendia reservar para si uma identidade política-ideológica que considerava indispensável para salvar sua autonomia: afastar-se da estreita pressão exercida pelas duas superpotências nacionalistas da Segunda Guerra Mundial. 
                No dia 1º de outubro de 1949, os revolucionários comunistas haviam conseguido destruir os últimos focos de resistência dos nacionalistas. Nascia a República Popular da China. O líder Mao se manifestou dizendo: "O povo chinês está de pé". Diante da multidão na Praça da Paz Celestial ele prometeu a liberdade de pensamento, discurso e religião, além de direitos iguais para as mulheres. Filho de camponeses, um de seus primeiros objetivos era transformar as cidades consumidoras em produtoras. Chegava ao fim a longa Revolução Chinesa, que teve quatro etapas principais: de 1919 a 1927, com a "revolução nacionalista"; do final de 1927 a 1935, com a "revolução agrária"; de 1937 a 1945, quando assumiu caráter de luta de "libertação nacional"; de 1945 a 1947, com a "revolução popular" contra o regime de Chiang Kai-Shek. 
             O conflito resistira à invasão japonesa ao país (desde 1931) e à Segunda Guerra Mundial, que chegara ao Oriente em 1941, após o ataque do Japão à base americana Pearl Harbor, no Havaí. Acreditando que os Estados Unidos derrotariam o Japão na guerra mundial, o presidente Chiang Kai-Shek deu mais importância à derrota final dos guerrilheiros comunistas que à dos japoneses. Entretanto, o confronto entre a China e o Japão, ao contrário do previsto, favoreceu à vitória comunista. Quando ocorreu a rendição japonesa em 1945, quase todas as suas guarnições , que ocupavam parcialmente dois terços do território chinês, estavam cercadas pelas tropas revolucionárias, preponderantes na zona rural. 
                A interferência americana em favor dos nacionalistas não impediu que a guerra civil continuasse. O general americano George Marshall foi enviado à China para negociar uma trégua e um acordo, entre nacionalistas e comunistas, mas os dois lados descumpriram o trato. O conflito tornou-se ainda mais intenso em 1946. 
              Apesar de as tropas oficiais serem quatro vezes maiores que as dos revolucionários e de estes não contarem com nenhum tipo de força aérea, os comunistas venceram, seja por possuírem um exército disciplinado e convicto de seus ideais, por tratarem a população com honestidade ou por terem conquistado os camponeses como seus libertadores. Já os soldados de Chiang Kai-Shek, mal remunerados ou até mesmo sem salários, eram autorizados e estimulados a saquear cidades e povoados. Isso os levou a perder apoio popular. 
              De janeiro a junho de 1947, batalhas violentas aconteceram na Manchúria. No fim do ano, o exército regular havia perdido metade do território conquistado e foi cercado na região. 
             En 1948, os comunistas tomavam sua primeira grande cidade, Tsinan, capital de Shentung,e trocaram a tática guerrilheira pelos combates convencionais. Pequim o Tientsin caíram em janeiro; Nanquim, em abril; Xangai, em maio; e cantão, em outubro. Nos últimos confrontos, os nacionalistas estavam fracos e desmoralizados. Lider chinês por 22 anos Chiang Kai-Shek fugiu para a ilha de Formosa, onde fundou a China Nacionalista. 
                A liderança de Mao Tsé Tung se firmou no Partido Comunista Chinês em polêmica direita com estas concepções "aventureiras". Portanto, é curioso que ele tenha se tornado o protagonista de guinadas "esquerdistas" e "aventureiras"  nas políticas da nova Replública Popular.
              Mao Tsé Tung acelerou bruscamente o ritmo de coletivização da economia chinesa via a montagem de "Comunas Populares" que deveriam combinar produção agrícola com peuqne produção industrial (ambas socialistas). Os resultados foram desastrosos, sobretudo na agricultura. A produção caiu 23 % entre 1957 e 1960, resultando em milhões de mortes por desnutrição.  Do ponto de vista político, esses resultados enfraqueceram a liderança de mao e fortaleceram a autoridade dirigente como Liu Shoashi e Deng Xiaoping.
              A "Grande Revolução Proletária" foi deflagrada  em 1966 como um movimento político para desalojar o núcleo articulado em torno do então presidente do Estado, Liu Shaoshi. O estopim foi uma crítica, aparentemente inócua, publicada num jornal de xangai no final de 1965. A peça do historiador Wu Han tinha como personagem principal um assessor do imperador da China na dinastia Ming que, ao ser exonerado, ia viver no campo, deparando-se com injustiças sociais. Era uma clara crítica ao comportamento de Mao no período do "Grande Salto", o que detonaria um movimento cultural com fortes conotações políticas.
               Em fevereiro de 1966, a atriz Xiang  Xing, então mulher  de Mao Tsé Tung, organizou o "Forum sobre o Trabalho de Literatura e Arte nas Forças Armadas. O encontro concluiu que a China vivia sob a ditadura de uma "sinistra linha "anti-socialista"  e lançou um apelo para o "aprofundamento da grande revolução socialista na frente cultural". O fórum aproximou dois grupos que desempenhariam papeis políticos decisivos: O Grupo Central da Revolução Cultural, integrado por Xiang Xing, e o grupo de Lin Piao, um dos comandantes militares da "Longa Marcha" que se firmou com dirigente do Exército Popular de Libertação. Na função de presidente do PC, Mao encaminhou as resoluções do fórum de Xangai para o Comitê central do partido e deflagrou uma luta pelo poder, lançando a China numa espiral de violência. 
           Sob o lema de que "a grande desordem na Terra levará à grande ordem", Mao conseguiu aprovar uma circular no Comitê central conclamando as massas a criticar, repudiar e expurgar os "representantes da burguesia" infiltrados no Partido do Governo, no Exército e em todas as esferas da cultura. Assim, grupos de "guardas vermelhos", compostos majoritariamente por jovens e estudantes, começaram a luta. O sistema de ensino médio e universitário foi paralisado, com as aulas suspensas para que os estudantes pudesse "fazer revolução". Professores e alunos que discordassem eram taxados de "contra revolucionários", julgados por "tribunais populares" montados pela próprias organizações de guardas vermelhos,e punidos, às vezes executados. As ações praticadas pelos "guardas vermelhos" tinham o apoio de Mao, que os saudava em gigantescas manifestações em Pequim, onde muitas vezes reuniam mais de um milhão de pessoas. 
               Mao lançou um apelo para que a juventude fosse para o campo para ser "reeducada ideologicamente", e mais de 16 milhões de jovens saíram dos centros urbanos para trabalhar nas Comunas Populares. Toda essa turbulência da Revolução Cultural não tardaria a transbordar para a economia: o plano econômico nacional de 1967 foi abandonado, e o de 1968 nem chegou a ser elaborado. A produção industrial e agrícola caiu 9,6% e 4,1%, respectivamente, nesses dois anos. 
           A partir de 1967, guardas vermelhos passaram a lançar ataques armados contra organizações locais e regionais do PCC e do estado chinês em diversas partes do país. "Comitês revolucionários" foram montados no vácuo político deixado perlo colapso dessas organizações. Enquanto isso, os guardas vermelhos se dividiram e subdividiram em facções rivais. A situação beirava a anarquia. 
              O Exército popular de Libertação desempenhou um papel decisivo no restabelecimento da ordem no país. isto fortaleceu a liderança política do seu principal dirigente, Lin Piao, que já vinha organizando um culto à personalidade de Mao Tsé-Tung mas fileiras do Exército , tendo sido responsável pela complicação do seu famosos livro vermelho de citações no início dos anos 60. Om prestígio político alcançado por Lin Piao era tão elevado que o Congresso Nacional o nomeou "sucessor" de Mao na liderança do partido. Sua movimentação política, no entanto, suscitou temores entre os demais dirigentes (incluindo o próprio Mao) de que ele estaria preparando uma espécie de golpe ao estilo de Bonaparte. 
               Num episódio cercado de mistério, Lin Piao morreu num acidente de avião em 1971, supostamente tentando fugir da China após uma fracassada tentativa golpista. Era o início do descenso da Revolução Cultural. A autoridade do PCC foi gradativamente restabelecida e dirigentes expurgados voltaram a ocupar postos de comando. Um dos reabilitados foi Deng Xiaping, que mais tarde viria a ser o sustentáculo do crescimento da China.O núcleo mais "esquerdista", articulado em torno de Xiang Xing, tentou reeditar a ofensiva Cultural em 1975 e 1976 , sem sucesso. Após a morte de Mao, o grupo foi desbaratado e seus dirigentes presos. A herança da Revolução Cultural só foi definitivamente enterrada em 1979, com a consolidação de Deng Xiaoping e o lançamento do programa das "Quatro Modernizações", estratégia que deu certo e comanda a Chia até hoje. 


Quando se estuda a China de nossos dias, devemos sempre levar em conta a sua imensa população. Cada chinês tem seu próprio pensamento sobre as atuais dificuldades diariamente enfrentadas pelo governo. Por isso devemos sempre ter em mente como é difícil governar um país dessas dimensões. Portanto para julgar é preciso, antes de tudo, conhecer sua história. 

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domingo, 16 de fevereiro de 2020

O AUGE DOS XOGUNS NO JAPÃO IMPERIAL

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              O Japão é um arquipélago vulcânico, sujeito a tremores de terra e furacões. A natureza hostil, aliada à pequena área de solo cultivável (3/4 do país são recobertos por montanhas e florestas), ajudou a moldar o caráter do povo japonês: guerreiro e persistente. 
                 Xogum é a abreviação do termo japonês Seii Taixogum; um título militar usado no período Feudal que era concedido diretamente pelo imperador ao general que comandava o exército. Até 1192 este título possuía nomeação temporária. 
                  Enquanto a maior parte do sudeste da Ásia estava sob a influência cultural da Índia, mais ao oriente, no Vietnã do Norte, Coréia e Japão, a China era a força cultural e politicamente dominante. 
                   Nos primeiros séculos da era cristã, a sociedade japonesa era muito influenciada pelas civilizações orientais mais antigas. A escrita e a arte de trabalhar o ferro, originárias da China, assim como a religião budista e o cultivo do arroz, praticados na Índia, foram assimilados pelos diversos clãs que habitavam o arquipélago.
               Os clãs estavam permanentemente em guerra uns com os outros, cada qual buscando controlar o poder político. Por isso, a casta dos guerreiros ou samurais, que significa "queles que servem", era muito prestigiada. 
                A fidelidade aos superiores e a rigorosa disciplina física e mental eram alguns dos valores supremos de um samurai. 
               O termo samurai corresponde à elite guerreira do Japão feudal. Na época dos xogunatos, a posição do samurai consolidou-se como um grupo seleto da sociedade. As armas e armaduras  que usava eram símbolos de distinção e a manifestação de ser samurai. Foi assim que os forjadores de sabres  e os fabricantes de armaduras dedicavam seu talento à produção destes objetos, combinando funcionalidade com beleza. 
               Porém, para armar um samurai era necessário mais que um sabre e um traje de metal. Parte de seu equipamento era psicológico e moral; eram regidos por um código de honra muito preciso, o bushido (o caminho do guerreiro), no qual a coragem e a lealdade eram fundamentais. 
           O sabre era considerado a alma do samurai. Existem vários tipos; entre eles o Katana (sabre longo), wakisashi (sabre médio), e tanto (sabre curto usado pelas mulheres). O sabre era usado no cinturão e era o símbolo-distintivo do samurai. 
             A Kabuto ,  Ou capacete japonês tem forma de domo e é composto de lâminas rebitadas entre si, o que lhe dá uma grande rigidez, leveza e resistência aos golpes do sabre. Simbolizava a coragem e honradez de seu dono. Havia também o Tsuba ou guarda-sabre do período Edo, século XVIII. Esta guarnição metálica cumpre com o objetivo prático de proteger a mão do guerreiro, mas também simboliza a personalidade, dignidade, força e estirpe do samurai. A bainha ou saya é de madeira com elaborados trabalhos em laca. Ocabo ou tsuka também  é de madeira forrado com pele listrada e envolvido com fio de seda trançado. O cabo termina da Tsuba. 
               O chamado 'feudalismo japonês estendeu-se dos sécvulos XII ao XIX e conheceu três dinastias de generais: os Minamoto, os Ashikaga (entre os séculos XIV e XV) e os Tokugawa
                 O nome Japão é de origem chinesa e significa "Sol Nascente". Efetivamente, a China exerceu grande influência sobre os pescadores e agricultores que habitavam aquele pequeno arquipélago, transmitindo-lhes sua forma de governo imperial, baseada na autoridade religiosa. 
                   No século X, a corte dos imperadores Fujiwara, instalada na cidade de Kyoto, tornou-se alvo de sucessivas rebeliões internas, organizadas por famílias de nobres que disputavam o poder político. 
              A fim de conter essas ameaças, a dinasdtia Fujiwara valeu-se dos exércitos de dois clãs: os Minamotos e os Tairas. Foi tão grande o prestígio alcançado por essas milícias em Kyoto que, no século XII, elas próprias passaram a lutar pelo poder. Yoritomo, comandante dos Mina motos, saiu vencedor e, no ano 1192, se fez proclamar Shogun - uma espécie de imperador e chefe militar. 
                Era o início de uma etapa da história japonesa - o shogunato - que, sob muitos aspectos, assemelhou-se ao sistema feudal dominante na Europa, no mesmo período. As relações dos samurais com os daimios (nobres proprietários) assemelhava-se às relações de suserania e vassalagem  existentes entre os cavaleiros e os senhores feudais da Europa ocidental. Os samurais, como os cavaleiros, prestavam um juramento de fidelidade aos daimios, comprometendo-se a defender e lutar por suas propriedades. Em troca, os daimios os recompensavam com uma parte das terras. 
                No Japão, o código de honra ou bushido ainda implicava um grande sentido de dignidade pessoal, a ponto de os samurais cometerem suicídio - o ritual de seppuku - se faltassem com o cumprimento de seus deveres ou se fossem tomados como prisioneiros. 
               Os amurais usavam duas espadas como armas principais. Alguns utilizavam também arco e flechas ou uma vara longa com uma lâmina curva na ponta, a maginata. Suas armaduras eram feitas de placas separadas, unidas por um fio de seda ou couro. O capacete de metal era guarnecido por uma bainha para proteger o pescoço.
             Por ocasião da guerra, os exércitos inimigos perfilavam-se um diante do outro e expunham as razões da luta. O início da batalha era marcado por duas flechas incendiadas, lançadas ao ar. dava-se início, então, a um combate corpo a corpo. 
              Os samurais, contudo, não viviam só para a guerra. Diferentemente dos cavaleiros medievais europeus, os guerreiros japoneses eram letrados: aprendiam a escrita chinesa, a arte da caligrafia e valores espirituais. 
               A doutrina zen-budista teve grande aceitação entre os samurais, por sua proposta de autocontrole das emoções. Essa doutrina foi formada pela assimilação dos princípios do budismo, de origem hindu, ao culto tradicional  dos "espíritos da natureza", shintô de origem japonesa. 
                 Um ditado popular da época demonstra a importância que os japoneses davam à paz de espírito, para adquirir autoconfiança na luta: "Praticar as artes da paz na mão esquerda, e as artes da guerra na direita". 
               Além da classe de guerreiros, a sociedade medieval japonesa era composta, em sua grande maioria, de camponeses que trabalhavam a terra na condição de servos, em troca de proteção. 
                    Também nessa época havia artesãos e comerciantes. os primeiros eram prestigiados pelo seu trabalho primoroso na fabricação de espadas e armaduras. Já os mercadores gozavam de pouco prestígio social, pelo menos até o século XIV, quando passaram a reunir-se em associações e a manter relações comerciais com a China. 
               No século XII, a autoridade dos imperadores japoneses foi muito reduzida. Indicados para o trono ainda crianças, os imperadores eram forçados a abdicar quando atingiam a maioridade ou passavam a viver enclausurados em conventos budistas. Quem de fato controlava os negócios  do estado era o shogun, sempre às voltas com a necessidade de vigiar outros grandes proprietários  de terrar rebeldes - os daimios.
               Os daimios recusavam-se a pagar impostos ao poder central, pois esses era cobrados proporcionalmente á quantidade de terra que possuíam. 
                 Quando não combatiam o shogun ou lutavam entre si, os daimios enfrentavam inimigos externos, como os piratas e impérios vizinhos. 
                A China Tang teve um impacto decisivo no desenvolvimento do primitivo Estado Japonês. Este foi fundado ao redor do ano 300 d.C., e até o ano 700 havia estendido sua hegemonia sobre a maior parte dos país. Um governo burocrático e centralizado, de acordo com o modo chinês, foi implantado durante o período Nara (710 x 784). Os palácios e as cidades capitais foram traçadas segundo o plano quadricular e em grande escala, imitando a capital Tang em Ch'ang-an. O palácio de Heijo, do século VIII, em Nara, cobria mais de um hectare e a cidade ao redor deste estendia-se sobre vários quilômetros quadrados. Estima-se que a cidade alojou uma população de 200 mil habitantes, principalmente aristocratas e funcionários empregados na corte. O palácio de Heijo era o centro da hierarquia administrativa que dominava em estado japonês dividido em cerca de sessenta províncias. 
             Os quatro séculos após a transferência para kyoto são conhecidos como o período Heian (784 x 1185) e foram marcados por um colapso gradativo do poder imperial. A administração imperial centralizada desapareceu finalmente em 1185, dando passagem a um sistema de governo feudal, o xogunato, no período Kamakura (1185 x 1333). 
               Em 1274, o imperador mongol Kublai Khan partiu da China para conquistar o japão. Embora numericamente superiores, os mongóis tiveram de recuar diante de uma violenta tempestade     que se abateu sobre sua esquadra. No ano 1281, Kublai Khan voltou a atacar o Japão e foi novamente rechaçado. Desta vez, o exército do imperador mongol foi abatido por um tufão de outono, apelidado pelos japoneses de Kamikase, que significa "vento divino". 
            Afastado o perigo externo, recomeçaram as lutas internas.
                   O shogunato controlado pela dinastia Tokugawa estendeu-se por aproximadamente 250 anos. A unidade política conseguida pelos três generais: Oda Nobunaga, Toyotomi Hideyoshi e Tokugawa Ieysu, fez com que as batalhas entre os shoguns diminuíssem e que a casta dos guerreiros, aos poucos, perdesse prestígio. 
                O xogunato Kamakura havia governado o Japão desde o século XII e organizado com êxito a defesa da nação contra o Exército Mongol de Kublai Khan, no século XII. Porém, em 1333 entrou em colapso, vítima de intrigas políticas, devido a seus antiquados costumes e à gradativa erosão dos tradicionais laços de lealdade pessoal sobre os quais se havia baseado o sistema feudal de Kamakura. 
               Seus sucessores, os xoguns da família Ashikaga, nunca conseguiram estabelecer um controle efetivo sobre todo o país. Durante grande parte do período compreendido entre 1350 e 1600, o Japão esteve envolvido em guerras locais e provinciais, e o último século do governo Ashikaga ficou conhecido, com muita razão, como a "Era dos estados Beligerantes". Os governantes locais do sul e do oeste acumularam fortunas através do comércio e da pirataria, principalmente à custa dos chineses, e os senhores das comarcas centrais usurparam gradativamente o poder que em algum momento fora exercido pelo governo central. Ao redor de 1560, cerca de dez famílias principais haviam formado alianças, constituindo um clã que cobria a maior parte do Japão e competiam abertamente pelo poder supremo: Oda, no centro; Takeda e Hojo no norte; Otomo e Shimazu, no sul. 
               A desorganização e corrupção no Japão atingiu o limite nos meados do século XVII, justamente no momento em que os primeiros europeus chegaram ao país. Quando os primeiros portugueses entraram em contato com os japoneses, durante o período Nanban, em 1543, estes descreveram as condições japonesas comparando o imperador ao papa romano,  que possuía grande autoridade  simbólica, mas pouco poder político, e os xuguns aos governantes europeus seculares, como por exemplo, o Sacro Imperador Romano. Com essa ideia, os portugueses chegaram a se referir ao xogum Toyotomi Hideyoshi como "Imperador Taicosama" (de taiko e do sama honorífico). 
              Para complicar mais inda a situação os europeus trouxeram consigo o cristianismo, pregado por missionários, tais como Francisco Xavier, e armas de fogo, que os japoneses logo aprenderam a fabricar. 
                Depois disso, a difusão de canhões do estilo ocidental revolucionou rapidamente a arte da guerra no Japão, como havia acontecido na Europa, tornando necessária a construção de sólidos castelos de pedra, capazes de resistir aos bombardeios. Entre os anos 1570 e 1630 foram erguidas 200 novas fortalezas, muitas delas de surpreendente beleza e todas com baluartes, cidadelas e fossos, do norte de Honshu  até o sul de Kyushu. 
               Nesse período chegou ao fim a era das guerras interiores graças à obra de três notáveis unificadores. Em 1568, Nobunaga, caudilho do clã Oda, capturou Kyoto, a capital imperial. Em 1573 depôs o último xogum Ashikaga que nessa época foi assassinado por um rival. Já no ano 1582, Nobunaga havia obrigado a quase todos os outros senhores a obedecerem suas ordens. No transcurso de uma década, o mais capaz de seus generais, Toyotomi Hideyoshi, de origem camponesa, conseguiu consolidar a obra de Nobunaga, reorganizando o sistema tributário e redistribuindo a terra para obter recursos suficientes para atender suas ambições políticas. Morreu em 1598 como senhor indiscutível de todo o Japão. Outro dos generais de Nobunaga, Tokugawa, estabeleceu em 1603 a dinastia dos xoguns que governaria o Japão até o século XIX. Sob os Tokugawa houve paz nas ilhas durante dois séculos e meio obtendo-se resultados não igualados por nenhuma outra sociedade equivalente. Porém, isso teve um preço. A vida da maioria da população era extraordinariamente  dura, com  um estrito controle governamental sobre pensamentos e atos e um sistema legal draconiano. Nessa nova forma de governo o Japão ficou isolado de todo o contato com grande parte do mundo exterior. Ainda que no início do século XVII certo número de barcos mercadores japoneses viajavam anualmente para os principais portos do Sudeste Asiático, a partir da década de 1630 foi declarado ilegal o comércio ou visita a países estrangeiros para todos os súditos do xogum. Ao mesmo tempo, foi restringido o comércio dos estaleiros no Japão. 
                    As épocas de alto refinamento costumam ser breves, porque repousam na excessiva concentração da riqueza; uma súbita oscilação econômica pode destruir tudo. A extravagância da corte acabou por arruinar o Estado japonês; a exaltação da cultura acima da capacidade encheu a administração de poetastros incompetentes, que com o nariz na nuvens não percebiam a corrupção em redor de si; por fim os cargos passaram a ser entregues a quem mais dava. A criminalidade entre os pobres na mesma proporção em que o luxo avultava entre os ricos; salteadores e piratas infestavam os caminhos e mares e imparcialmente preavam tanto a fazenda do povo como a do imperador; os coletores de impostos eram despojados nas estradas. Grupos de bandidos se organizavam nas províncias e até na capital; por algum tempo os mais notórios  bandidos japoneses, como os novos viveram claramente no esplendor; eram muito poderosos para ser presos ou incomodados. o desdém pelos hábitos e virtudes, ou pela organização da defesa, deixou o governo exposto aos assaltos de qualquer aventureiro audacioso. As grandes famílias formavam seus próprios exércitos, o que deu origem a um tempo de terríveis lutas civis para a disputa do trono. O próprio imperador tornava-se dia a dia mais impotente e vulnerável, à proporção que se alteava o poder  dos grandes chefes de família. E  mais uma vez a história se moveu na sua antiga oscilação entre o poderoso governo central e o regime feudal descentralizado.  
                  Diante de tanta desordem, era natural que uma classe de ditadores militares emergisse e  se estabelecesse,  assumindo  o poder em várias seções  do arquipélago, reconhecendo o imperador apenas como a divina fachada do Japão, digna de ser conservada, mas a um mínimo preço de custeio. Os camponeses, já não protegidos contra os salteadores pela polícia imperial, passaram a pagar taxas aos shoguns, ou generais, em vez de ao soberano, porque só os shoguns podiam dar-lhes a defesa que eles pediam. 
                  Por volta de 1192 um membro do clã Minamoto, de nome Yoritomo, reuniu um exército de vassalos e estabeleceu uma autoridade independente com o nome de  Kamakura Bokufu. A palavra bokufu, significava dum posto militar, indicava brutalmente a natureza do novo regime. O grande Yoritomo morreu subitamente em 1198. (conta a lenda que estava a cavalo, tanto ele como o cavalo sentiram um grande pânico ao verem o fantasma dum irmão que, Yoritomo havia assassinado; o herói morreu meses mais tarde em consequência do tombo que levou. Esta versão é a contada por seus inimigos.) sendo sucedido pelos seus filhos, muto fracos para o alto cargo. Há um ditado japonês que diz: "os grandes homens não produzem sementes." Uma família rival em 1199 estabeleceu a regência Hojo, que durante a34 anos governou os shoguns,  os quais por sua vez\ governaram o imperador. Kublai Khan , então soberano da China , aproveitou o ensejo para tentar a conquista do Japão, que astutos coreanos medrosos da invasão, lhe descreveram como país riquíssimo. Kublai mandou construir uma esquadra tão grande , que os poetas chineses descreviam as montanhas a chorarem as florestas arrasadas para aquele fim. Num heroico cálculo retrospectivo, os japoneses põem o número de naus em 70.000;historiadores menos patriotas contentam-se com 3.500 e 100.000 homens de tripulação. Essa colossal esquadra apareceu nas costas do Japão em fins de 1291. Os japoneses saíram-lhe ao encontro na improvisada e pequena frota de que podiam dispor; mas, como no caso de uma menor porém mais famosa Armada, um grande vento se ergueu, o qual esmagou os navios de Kublai Kahn de encontro às pedras, afogou 70.000 marinheiros e permitiu que o resto fosse escravizado pelos japoneses. 
            A vez dos Hojos sobreveio em 1333. Também eles haviam sido  envenenados pelo poder, e alinha hereditária passara das mãos de gênios e bandidos para a de idiotas ou covardes. Tokatoki, o último da série, tinha mania de cães; aceitava cães em pagamento de taxas, e juntou de quatro a cinco mil desses animais; mantinha-os em canis decorados de ouro e prata, alimentava-os com peixes e aves, e levava-os para tomar ares em palanquins. O imperador desse tempo, Daigo, viu na degeneração dos seus guardiões uma oportunidade para readquirir o poder imperial. Os clãs de Minamoto e Ashikaga a ele se reuniram e venceram. Tokatoki e 870 de seus vassalos e generais se acolheram a um templo, beberam uma última taça de sake e praticaram o hara-kiri. Esta história sinistra foi contada por um deles enquanto arrancava, com as próprias mãos, os intestinos e dizia: "Isto dá um fino gosto ao vinho". 
               Ashikaga Takauji voltou-se contra o imperador que ele havia ajudado a restaurar, soube resistir aos exércitos mandados contra ele e acabou substituindo Daigo pelo imperador bonifrate Hogon; assim se firmou em Quito o shogunato Ashikaga, que governou o japão por 250 anos de caos e intermitente guerra civil. Precisamos acentuar que parte dessa desordem era devida ao que havia de mais nobre nesses governantes: o amor às artes. Yoshimitsu, cansado de luta, voltou-se para a pintura e tornou-se um dos bons artistas da época. Ioshimasa protegeu muitos pintores, subsidiou todas as artes e tornou-se um tão refinado conhecedor, que as obras de arte por ele e seus associados escolhidas são hoje as mais disputadas pelos modernos. Entrementes, a prosaica tarefa de organizar a administração era desprezada, e nem os ricos shoguns, nem os empobrecidos imperadores conseguiam manter a paz e a ordem pública. 
                Do caos surge um trio de bucaneiros famosos: Nobunaga, Hideroshi e Iyeyasu, que resolveram restaurar o país, e solenemente os três juraram obedecer ao que conseguisse empolgar o governo. Nobunaga tentou-o e fracassou; Hideyoshi tentou em seguida e morreu no caminho. por fim Iyeyasu venceu e fundou o shogunato Tokugawa, inaugurando um dos mais longos períodos de paz e uma das mais ricas eras de arte da história humana. 

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A INDEPENDÊNCIA E OS NOVOS TEMPOS DA ÍNDIA




                 Os mongóis não foram os primeiros muçulmanos que governaram a Índia. Na verdade o islão havia alcançado as comarcas fronteiriças no princípio do século VIII, ainda que sua expansão tivesse sido contida pela resistência hindu por quase 500 anos. O momento decisivo aconteceu em 1206, quando a poderosa dinastia muçulmana do Afeganistão conseguiu conquistar a Índia Setentrional estabelecendo o sultanado de Deli. Assim, a vitória obtida pelo invasor mongol Babur, em 1526, foi mais uma vitória sobre outros muçulmanos do que sobre fiéis de outra religião.  Entretanto, na Índia peninsular, o hinduísmo, e não o islamismo, dominava durante a Idade Média. 
                     Politicamente fragmentados, os reinos hindus do sul - chola, rastrakuta e chalukya - surgiram e desapareceram guerreando entre si; mesmo assim, nenhum chegou a ter mais que uma ascendência temporária sobre seus iguais. 
                 As rivalidade entre as dinastias mais importantes se revelam arqueologicamente através dos seus diferentes estilos de templos. Essa época não foi somente a grande era da arqitetura hindu; a literatura e a filosofia também floresceram durante esses séculos. No século IX, Sankara, um brâmane de Kerala, começou a eliminar da antiga filosofia védica os elementos mais obscuros acumulados com o tempo, propagando também a filosofia monística de Advaita, que sustenta que o mundo é uma ilusão. Na mesma época, o budismo tântrico, com sua ênfase na magia e na substituição de divindades femininas por masculinas, adquiriu maior influência. Cruzando as águas, no Sri Lanka, o hinduísmo somente pode enraizar-se no norte da ilha, já que a religião dominante era o budismo. Enquanto o budismo declinava na Índua continental diante das invasões islâmicas no norte e renascia o hinduísmo no sul, o Sri Lanka tornava-se a base de uma vigorosa cultura insular. No século XII, a antiga capital da Anuradhapura foi substituída por um novo centro em Polonnaruwa.
              Babur, o quinto sucessor na linha dinástica desde Tamerlão, entrou na Índia em 1523 vindo do Afeganistão. Com sua vitória em Panipat, em 1526, estabeleceu o Império Mogol, embora tenha levado algum tempo para assegurar suas bases. 
            Depois da sua morte, os mogóis foram expulsos do meridiano de Bihar do Sul pelos afeganes, sob seu líder Sher Shah. Foi necessária uma nova invasão em grande escala, consolidada de forma brilhante pelo neto de Babur, Akbar (1556 x 1605), para reinstaurar seu governo. Este ampliou seu domínio até Bengala, no leste, e Godavari, ao sul, como também à Cachemira, Beluchistão, Sind e Gujarat. A maioria dos príncipes rajputs converteu-se em vassalos, e o imperio, dividido em subahas (províncias), era administrado por uma nova classe de burocratas, os mansabdars, organizados em uma hierarquia militar planificada durante o efêmero governo de Sher Shah. Um sistema tributário padronizado e a tolerância em relação à maioria não-muçulmana ajudaram a fomentar o grande florescimento da civilização hindu, especialmente na pintura e arquitetura.  O reinado de Akbar é considerado como uma das idades de ouroi da Índia. Ao contrário dos seus descendentem que eram meio hindus, dada à política  de alianças matrimoniais com famílias principescas rajputs,  Akbar era um estrangeiro na Índia. Mas seu sentido de identificação com a vida e a cultura do país conquistado foi total. A aclamação popular "Dillisvaro va jogadisvaro va"- "o governante de Deli é o Senhor do Universo" - testemunha o entusiasmo das massas por seu benevolente governo autocrático. Os artistas e sábios de sua corte recordavam, na imaginação popular, as glórias da mítica corte de Vikramaditya com suas "novas jóias" (navaratna). A escola mogol de pintura de miniaturas, que combinava as tradições das escolas persa e rajput, floresceu sob seu mecenato. Da mesma maneira, sua capital, construída com pedras arenosas vermelhas em Fatehpur Sikri, expressava uma surpreendente síntese das tradições hundu e islâmica na arquitetura. O novo estilo alcançou seu apogeu nos dias de seu neto, Shah Jahan, que construiu o Taj Mahal. 
              Akbar legou a seus sucessores uma política de espansão territorial, especialmente em direção ao sul. Sob o regime de Shah Jahan (1627 x 1656) estavam fomentando a oposição em todas as frentes. No ano 1700 os maratas assolavam a Decãoe as províncias orientais, os antigos aliados rajputyanos estavam em guerra e, perto da capital, os Sijs, os Jatis e os Satnamis rebelaram-se. 
               Duranto os 150 anos de paz e prosperidade dos mogóis, o comércio exterior despertou um novo e crescente interesse da Europa pela Índia. Depóis da primeira viagem de Vasco da Gama a Malabar em 1498, os interessados em especiarias portuguesas logo adquiriram territórios - Goa, Damão e a Ilha de Diu -, dos quais tentavam monopolizar o comércio de especiarias e têxteis, assim como as peregrinações a Meca. No século XVII, a eles se uniram as menos impopulares companhias holandesas, inglesas, francesas e dinamarquesas, toda desejosas de estabelecer centros comerciais litorâneos para para exportar têxteis, assucar, índigo e salitre a mercados tão longínquos como o Japão e o Novo Mundo. 
               Pouco depois da morte de Aurangzeb, as localidades de Oudh e o Decão, mas as províncias orientais, independentizaram-se definitivamente, guardando somente uma lealdade nominal a Deli. Os peshvas, primeiros ministros oficiais da Casa de Sivajil, presidiram uma coalizão de chefes maratas, que incluía os sindhias, gaikwars, holkares e bhonslas. Seus territórios se estendiam pelo norte, oeste, centro e leste da Índia, ao passo que no sul, Misore, sob os regimes de Haidar e Thimpu, se converteu em uma grande potência. Em fins do século XVIII, o imperador mogol caiu sob a proteção dos sindhias. Nesse momento, os maratas pareciam destinados a suceder os mogóis.
                Durante a Guerra da Sucessão Austríaca (1740 x 1748), as companhia comerciais francesas e inglesas entraram em conflito ao longo da costa de Carnatic. Com a morte do governador local, o nizan, eclodiu uma guerra aberta (1744 x 1763), terminando com a vitória britânica e o ocaso das ambições da França na Índia. O triunfo de RobertClive em Plassey em 1757, estabeleceu o domínio inglês em Bihar, Orissa e Bengala, onde a Companhia das Índias Orientais estabelecera seu novo centro comercial de Calcutá em 1690. Já em 1768, os sarkars do norte ficaram isolados do nizam, Benares e Gazhipur foram arrebatados a Oudh no ano de 1755.
                   A supremacia britânica só foi assegurada depois de uma série de batalhas de resultados frequentemente incertos com os maratas e misores. Entretanto, as colônias da Companhia se expandiram de forma ininterrupta, principalmente com a vitória sobre Tipu em 1792 e sua queda em 1799; no fim do século, formavam um bloco contínuo de Malabar a Coromandel. 
                  Em 1805 a hegemonia da Companhia Inglesa das Índias Orientais no continente  indiano era um fato consumado. Nos cinquenta anos que se seguiram, a Companhia constituiu-se no máximo poder da região. A Terceira Guerra anglo-marata (1813 x 1823) marcou o fim da ameaça mais séria à sua supremacia. Com a conquista do Sind em 1843 e do reino sikh do Punjab em 1849, o império era delimitado com as fronteiras naturais do país no noroeste, ao passo que no norte, as guerras com o Nepal (1814 x 1816) estenderam seus limites ao Himalaia. A leste, os britânicos enfrentavam-se com o Império Birmanês e, em 1885, anexaram todos os seus territórios. Dentro do império, a Doutrina Dalhousie (1848 x 1856) levou à incorporação dos Estados autônomos mas dependentes, como Oudth e vários reinos maratas, aos territórios administrados diretamente. 
               A Índia incorporou-se à economia mundial como uma dependência da Grã-Bretanha. O monopólio da Companhia sobre o mercado indiano foi abolido em 1833 devido à insistente pressão dos comerciantes e empresários britânicos, que também influíram para que se criasse um sistema de transporte para a Índia e assim facilitasse a importação de produtos ingleses e a exportação de matérias-primas. Em 1853, a Índia perdeu o mercado mundial para seus têxteis e estava importando produtos de Lancashire. A escassez de algodão em Lancashire, por causa da guerra civil norte-americana, levou a produção de algodão na região do Decão a um aumento explosivo, e com ele a especialização em certos tipos de cultivos na Índia. 
                O desenvolvimento de ferrovias financiado com capitais britânicos, e a abertura do Canal de Suez em 1869 contribuíram para aumentar em sete vezes o comércio internacional da Índia entre 1869 e 1929. Apesar da dura competição britânica, os empresários indianos criaram uma série de indústrias modernas; mas na maioria das regiões a estrutura econômica e a agricultura tradicional não experimentaram mudanças significativas. A partir de 1921, o produto nacional bruto aumentou lentamente, mas, devido ao acelerado crescimento da população, a renda per capita caiu. Em resumo, a Índia desenvolveu todas as características de uma economia subdesenvolvida, enquanto dava uma contribuição considerável à balança de pagamentos britânica. 
                 As mudanças administrativas também contribuíram para que a Índia se integrasse na nova ordem mundial dominada pela Europa. os funcionários públicos ingleses, inspirados nas ideias do filósofo Bentham, não vacilaram com respeito à sua interferência na ordem social do país. Sistemas de posse da terra que garantiam a propriedade, uma moderna rede de  irrigação em algumas regiões, a proibição dos costumes que iam contra as ideias humanitaristas e o desenvolvimento de um moderno serviço judicial e civil foram as principais expressões do novo espírito. As consequências práticas destas politicas ainda constituem motivo de debate. Possivelmente os proprietários rurais se beneficiaram com estas mudanças, mas, com frequência, o custo teve de ser pago pela grande massa dos demais produtores. As fomes periódicas seguiram custando muitas vidas, enquanto a agricultura comercial florescia.
                 Osa grupos profissionais, os empregados da administração colonial e os latifundiários convertidos  ao novo sistema de propriedade permitiram o surgimento a uma nova  elite colonial na Índia. A educação de estilo ocidental, oficialmente apoiada somente a partir de 1835, teve de responder às exigências materiais  e culturais deste novos grupos sociais. O conhecimento do Ocidente fomentou os  movimentos sociais e literários influenciados por modelos ocidentais, mas de forma seletiva com suporte nas antigas tradições indianas. O Brahma Samaj, fundado por Ram Mohan Roy em 1819, que inspirava o restabelecimento do monoteísmo hindu, e Arya Samaj, que era partidário declarado do ressurgimento hindu, representavam os dois exemplos mais relevantes deste novo pensamento. Esta nova consciência de uma identidade indiana, reforçada pelo racismo inglês, adquiriu rapidamente uma dimensão política, que inicialmente se expressou através das associações políticas locais e das manifestações públicas sobre problemas específicos. O Congresso Nacional Indiano, a primeira organização política exclusivamente indiana, foi fundado em 1885, com a anuência oficial, como uma válvula de escape para o crescente descontentamento. O que começou como uma tranquila reunião anual de abastados homens públicos converteu-se depois em uma ala extremista que começou a questionar o direito dos estrangeiros de governar a Índia. Em 1905, o primeiro protesto geral, que já antecipava o movimento ossífico de Gandi de não-cooperação e de difusão do suvaraj (o autogoverno), foi organizado para opor-se à decisão de dividir a província de Bengala, enquanto grupos revolucionários adotavam o terrorismo para conseguir o mesmo fim.A consciência política aguçou-se e as expectativas aumentaram coma Primeira Guerra Mundial e com a Proclamação Ministerial em 1917, que declarava que a meta do governo britânico na Índia era a instauração de um governo responsável. A Lei de Conselhos Indianos de 1909 estabeleceu uma legislatura provincial e as reformas Montagu-Cheslmsford de 1919 ampliaram províncias. Entretanto, as leis repressivas promulgadas em 1919, que autorizavam a detenção sem julgamento, pareciam contradizer estes objetivos. Gandi usou, então, sua arma da satyagraha ou manifestação pública pacífica, que utilizou pela primeira vez em sua luta contra a legislação racista da África do Sul. A resposta não tardou em chegar com o massacre de "Amritsar", que causou um profundo ressentimento racial. Os indianos muçulmanos sentiram-se ainda mais provocados com o tratamento que deram os aliados ao sultão da Turquia, seu califa ou chefe espiritual. O movimento de Não Cooperação (1920 xz 1922) , destinado a reparar "o dano que foi infligido ao califa", e conseguir o swaraj, foi o primeiro protesto geral exclusivamente indiano, no qual participara também alguns camponeses. 
                 Enquanto os distúrbios comunais desgastavam  a únidade nacional em meados dos anos 20, uma ala rtadical do Congresso, sob a liderança do jovem Jawaharlal Nehru e de Subhas  Chandra Bose, pressionava para aumentar a ação militante contra o rajá e induziu o Congresso a propor o objetivo da independência total em 1929. Quando mahatma Ghandi iniciou em 1930 seu "Movimento de Desobediência Civil (1930 x 1939) para conseguir a purna swaraj (independência total), ele e cerca de 60 mil de seus seguidores foram detidos. Entretanto, o movimento significou uma reviravolta na situação. Suspenso em 1931 por causa de um acordo com o vive-rei Irwin, Ghandi o reorganizou quando regressou das abortadas discussões constitucionais da Conferência de Mesa Redonda em Londres. As negociações fracassaram e fortaleceu-se a política de confrontação adotada pelos líderes mais jovens. 
                  Jawaharial Nehru, mais conhecido como o pandit Nehru (1889 x 1964), aderiu com veemência  ao movimento liderado por Gandhi na luta pela independência do povo indiano para o qual desejava um regime socialista.  Uma vez obtida a independência de seu país, em 1947, foi primeiro ministro até sua morte, mantendo uma política de equilíbrio em relação às potências ocidentais e a União Soviética. 
                 A Índia, após sua emancipação da Grã-Bretanha, passou por momentos difíceis buscando o equilíbrio político. À esquerda, uma das grandes personalidade da Índia contemporãnea foi Indira Gandhi (1917 x 1984). Filha do pandi Nerhru, sucedeu a Shastri na chefia  do governoem 1966, sendo confirmada como primeira ministra nas eleições de 1967 e 1971. Voltou a ocupar o cargo em 1980 e, em março de 1983, substitui Fidel Castro na presidência dos Países Não -Alinhados. Morreu assassinada por membros de sua guarda pessoal, pertencentes à seita sitkh. Os sikhs integram uma seita religiosa da Índia fundada no século XVI por Nanak. Baseados na primazia do guru para dirimir os problemas doutrinais e dotados de certa organização militar; eles lutaram contra os príncipes indianos e contra o domínio britânico. 
                  Todos os países da Ásia Meridional foram perturbados pela situação tão especial das minorias e os grupos regionais, para não mencionar os persistentes problemas sociais que surgiram da intocabilidade que ainda existe na sociedade indiana, apesar da legislação que estabelece o contrário. O governo indiano, desejoso de fomentar o hinduísmo, logo enfrentou as exigências de que se formassem novos Estados divididos por razões linguísticas, de maneira que, a partir de 1953,a alternaram os limites dos Estados. Contudo, a afinidade linguística continuou sendo um poderoso sentimento, sobretudo no estado de Madras, no sul da Índia, que foi rebatizado como Tamil Nadu. Em Assam, diversos grupos tribais, especialmente os nagas, começaram a exigir sua independência ou então que lhes fosse outorgada a condição de Estado. 
                Os crescentes problemas nas fronteiras entre a Índia e a China culminaram em uma guerra, em 1962, na qual a Índia foi derrotada. à medidas que as relações sino indianas  se deterioravam, melhoravam as relações sino-paquistanesas. Em 1965, o Paquistão tentou infiltrar tropas na região de Caxemira, dominada pela Índia. Este fato provocou uma guerra na qual a Índia obteve algumas conquistas, mas no acordo assinado posteriormente em Tashkent, sob auspícios da União Soviética, ambos os países aceitaram voltar ao status quo. Entretanto, as relações continuaram tensas e pioraram rapidamente em 1971, quando o então presidente militar do Paquistão, Yahya Kan, reprimiu com crueldade as demandas de autonomia no leste, o que induziu 10 milhões de refugiados a cruzarem para a Índia. Finalmente, em dezembro de 1971, a Índia apoiou os guerrilheiros de Bangladesh, que contavam com uma poderosa força militar, derrotando o Exército paquistanês em duas semanas. Após estas ações, criou-se o novo estado de Bangladesh, sob direção do xeque Majib-ur Rah-man. 
                   Todos os Estados da Ásia Meridional tentaram organizar governos democráticos parlamentares, mas pouco s pouco as instituições parlamentarias fdoram minada. O Paquistão e a Birmânia caíram sob regime militares  em 1958. Bangladesh descartou a democracia parlamentar após o assassinato do xeque Majib-ur, em 1975. O Paquistão, após um breve período de governo civil sob a direção de Bhutto, seguiu governado por um regime militar. Na Índia, a primeira-ministra Indira Gandhi exerceu o poder sob decretos de emergência entre 1975 e 1977, mas autorizou a realização de eleições, nas quais foi derrotada. Seu partido foi reeleito na eleições seguintes. Entretanto, os conflitos entre o governo central e as administrações provinciais permitiram o aparecimento de uma atividade guerrilheira entre os extremistas separatistas sikhs. Em 1984, o Exército indiano apoderou-se do Templo Dourado de Amritsar, lugar sagrado dos sikhs, convertendo-o em sede de extremistas. Em vingança assassinaram Indira Gandhi, mas seu filho Rajiv assumiu o cargo de primeiro ministro. Os distúrbios no Punjab continuaram; as dificuldades que teve Rajiv Gandhi com as minorias e os arraigados interesses econômicos persistiram apesar do otimismo inicial. Contudo, a Índia conseguiu uma taxa de crescimento industrial bastante alta e durante vários anos pode auto-abastecer-se de alimentos em grão. Apesar da baixa renda per capita , existe uma importante classe média com excelente educação que ajudou a deter as forças centrífugas. Apear dos ocasionais surtos de violência intercomunal e as exigências de autonomia dos sikhs no Pubjab, a Índia continua sendo a maior democracia funcional do mundo. No Ceilão,bem como na Índia, o governo parlamentar sobreviveu, apesar do poder exercido por um partido político único,, que inibe os processos democráticos . Tanto na Índia como no Paquistão houve um importante desenvolvimento industrial. Atualmente a Índia é uma das principais potências industriais, porém, como a renda per capita segue sendo muito baixa e a distribuição da renda é deficiente, existem ainda enormes grupos que vivem na pobreza abominável. 

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