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quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

A IMPORTÂNCIA DO SAL PARA A CIVILIZAÇÃO ..

 Salinas do Saara - lugares feitos de sal

Ibin Batuta - comerciante de sal do Saara

                Ao longo dos séculos, o sal temperou toda a história da humanidade. Este precioso produto começou a ser explorado e usado deliberadamente no início do "Período Paleolítico", cerca de 10 mil anos, quando surgiram os primeiros sinais de agricultura, a pecuária e as primeiras comunidades rurais. 
                 Como não poderia deixar de ser, o sal também temperou as crenças e religiões. Para os Hebreus, era a marca da aliança com Deus. O sal era um elemento purificador, símbolo da perenidade da aliança entre deus e o povo de Israel. 
              Desde muito tempo o ser humano viciou-se em sal; além das carnes assadas, ricas em sal, outras carnes e cereais cozidos, mais insossos, precisando assim ingerir quantidades suplementares de cloreto de sódio. Essa quantidade foi gradativamente aumentando, na medida em que as pessoas buscavam mais comodidades e conforto. Os homens passaram utilizar o sal para tudo. Foi então que surgiu a ideia de que o sal faz mal á saúde.
           Acredita-se que foi observando o gado localizar fontes e poços salgados para saciar-se, que o homem descobriu o sal. Como sabemos, os animais com deficiência de sódio em seu organismo, pelo olfato, são capazes de achar águas salgadas. 
              Com tanta dependência, era inevitável que o homem religioso o incorporasse às suas crenças. Na religião judaica, por exemplo, o sal sempre teve forte presença simbólica. No Antigo Testamento a narração sobre o caso da mulher de Lot, transformada em estátua de sal porque olhou para trás ao fugir de Sodoma e Gomorra; segundo a crença de então, destruídas pela ira divina. O ritual da Igreja Católica Romana, em que grãos de sal são colocados nos lábios dos recém-nascidos, reproduz a crença judaica no sal como elemento purificador. 
           As fantasias e superstições dos crentes, incentivadas pelos líderes religiosos proliferaram; a mais conhecida é a que afirma que desperdiçar sal era mau agouro, além de ignóbil, mas, na verdade é que era um produto que tinha o valor do ouro. 
                O historiador grego Heródoto (484 a.C.) já contava das caravanas que atravessavam os mares Mediterrâneo e Egeu rumo às salinas do Egito e da Líbia. 
                Ibn Battuta (1307 x 1377, considerado o príncipe dos viajantes do deserto viajava milhares de quilômetros com seus camelos e seus companheiros para transportar o sal em blocos que retirava nas salinas do deserto Saara. Ele saída de Marrocos em direção a povos e civilizações ricas  financeira e culturalmente, principalmente Mali, onde o seu produto era vendido por valores astronômicos, literalmente a peso de ouro. O sofrimento para atravessar o deserto era imenso. Uma temperatura que chegava a mais de 57º centígrados abalava profundamente a saúde de todos os viajantes. Além disso são comuns as tempestades de areia no deserto que sufocaram muitos aventureiros. 
                  Naquela época o Saara era era uma barreira natural para as "pestes" que assolavam a humanidade. É que os vírus não conseguiam resistir a altas temperaturas.
                 Os relatos das viagens Ibn pertencem, segundo historiadores, ao estágio da Geografia que começa a se definir a partir do século XII e no qual incluem os dicionários geográficos, as cosmografias e geografias universais, as enciclopédias histórico-geográficas e as rihlat.   
                O sal encontrado no deserto do Saara é realmente muito bonito. Tem colorido variado, mas os principais são três. A causa disso é que existem basicamente três tipos de argila, ou barro, encontrado nesta região, e cada uma empresta sua cor à água altamente salgada. Outros motivos são o nível de salinidade e a presença de algas que crescem em algumas poças de água. 
            Mercadores e nômades vão a esses locais para adquiri-lo no estado bruto. Ali o sal é relativamente barato, mas ao chegar aos mercados das grandes cidades da época como Mali, seu preço se multiplicava por 100 vezes. Tal era a razão que os levava a arriscar a saúde e até  a vida  nessa aventura. 
               Os romanos, ao perceberem que o sal servia para conservar, dar sabor á comida e também curar ferimentos, chegaram à conclusão que os cristais de sal eram uma dádiva de Salus, a deusa da saúde, e, em sua homenagem cunharam o seu nome. Dos muitos caminhos que levavam a Roma, um dos mais conhecidos e movimentados até hoje é justamente a Via Salária, a antiga rota por onde circulavam carros cheiros dos preciosos cristais. Essa "vie salariae" atravessa a Europa de Oeste a leste, alcançavam a atual Turquia e desciam pelo Oriente Médio e norte da África. O sal era tão valioso que os mercadores o trocavam por ouro - um peso pelo outro. Na Abissínia, atual Etiópia , na África Oriental e Central, o sal era a moeda do reino. 
             Os romanos foram os inventores da palavra "salário", que hoje é a base para a economia mundial. Parte do pagamento de seus soldados era sempre feita em sal que, como vimos, valia seu peso em ouro. 
                   Muito antes de existir as, hoje tão comuns, "geladeiras" o sal também era utilizado para conservar alimentos. Essa prática, como exclusividade, durou até o século XIX, mas, ainda hoje é utilizada para essa finalidade. "quem não ouviu falar da carne de sol
              O sal mais comum é o cloreto de sódio (NaCI) e pode vir de três fontes: do mar, das minas de sal-gema, que geralmente são depósitos subterrâneo, também conhecidos como salmouras de subsolo, decorrentes da forte concentração de sal de mares ou lagos interiores, como o Mar Morto, que tem tanto sal concentrado que nele quase tudo flutua naturalmente. 
              Em sua famosa obra "A Última Ceia", o genial e irônico Leonardo Da Vinci (1452 x 1519), pintou um saleiro derrubado diante do Judas. Na época havia uma crendice de que se uma pessoa derramasse sal, deveria pegar alguns grãos caídos e jogá-los para trás do ombro esquerdo - o lado que representava o mal. 
               As crendices sempre estiveram presentes, principalmente incentivadas por religiosos. No Brasil tivemos aquela ocorrida em 1792, quando da condenação de Tiradentes; os juízes portugueses mandaram salgar o chão da casa do nosso mártir da Inconfidência para que ali nada mais tornasse a nascer. 
                Mas não foi apenas a ambição dos religiosos e crentes que o sal instigou. Os políticos também se aproveitaram de seu alto valor para cobrar extorsivos impostos. A partir do século XIII, os estados passaram a se ocupar gulosamente dos impostos que o sal podia levar para seus cofres. O produto passou a ser a única mercadoria que podia ser taxada em absurdos .2000% (isso mesmo, dois mil por cento), sem que as pessoas pudessem deixar de consumi-lo. Alguns estados até se deram ao luxo de abrir mão dos impostos cobrados sobre o tabaco compensando a perda com escorchantes impostos sobre o sal. 
           Na Europa, especialmente na França, reinos e impérios financiaram seu luxo e as guerras. A guerra dos 100 anos (1337 a 1453) entre a França e a Inglaterra foi financiada pelos gordos impostos sobre o sal. 
               Hoje os países costumam fazer reservas de dólares, mas naquela época os governos, reinados e impérios acumulavam grandes quantidades de sal como reserva para evitar um possível bloqueio do produto em seu território, que por certo os levaria a capitular em poucos meses. 
              Em 1378, os escorchantes impostos geraram um estado de revolta que instalou-se entre as populações urbanas do norte da França até Paris, além das populações rurais do sul do Maciço Central francês, e ainda entre os artífices e operários das cidades da florença (na França, Bélgica e Holanda). 
               A onda de protestos culminou com a revolta dos açougueiros (grandes consumidores de sal - por razões óbvias) - em 27 de abril de 1413 em Paris que terminou com um código com 259  artigos estabelecendo regrar para a cobrança de impostos, que naturalmente não foi respeitado pelos donos do poder. Mas a ganância dos soberanos franceses não tinha limites nem prudência. Os reis continuaram a fazer do sal a sua maior renda. Pode-se dizer que todo o luxo da corte de Versalhes era garantido pelo sal. Às vésperas da Revolução Francesa, o imposto sobre o produto representava 13% do total das receitas do Tesouro real. Isso só alimentou o ódio popular à monarquia e, por essa razão, teve fundamental importância na deflagração da Revolução Francesa que lançaria as bases da democracia moderna.
          Outro episódio importante foi a luta contra o colonialismo na Índia. Em 1930, em protesto contra o aumento da taxação sobre o sal, imposto pela Inglaterra, o advogado Mahatma Gandhi (líder da não violência) conduziu levas de peregrinos até o litoral para ali fazerem seu próprio sal. Este episódio foi um passo decisivo que culminaria com a independência da Índia em 1948. 
A IMPORTÂNCIA DO SAL NA INDÚSTRIA MODERNA
               Para centenas de atividades industriais, o sal é matéria prima básica. É com ele que se produz a soda cáustica e o cloreto tão utilizado para tornar nossas poluídas águas em potável. É a soda cáustica e o cloro que permitem o clareamento do papel. Tintas, vidros, vernizes, cosméticos, porcelanas e até explosivos são totalmente dependentes do sal para serem produzidos. O cloro e o sódio são de vital importância para a produção de tecidos, películas, aditivos, produtos metalúrgicos e farmacêuticos. O PVC, material básico para  a indústria de plásticos é "cloreto de polivinila". As nossas dores e cirurgias dependem do sal, pois o clorofórmio é a base dos anestésicos. O cloreto de cálcio também está presente nos refrigerantes, fungicidas e combustíveis. Os óleos vegetais, sabão e tecidos são também alguns produtos derivados do sódio. Sem o nitrato de sódio não se poderia produzir fertilizantes químicos, fogos de artifício e até dinamites. 




segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

A IMPORTÂNCIA DO PAPEL PARA A CIVILIZAÇÃO ..




                    A princípio escrevia-se em peles de animais: as cabras, os carneiros, os antílopes, os cães e até as cobras forneceram aos homens primitivos os meios para transmitir-nos memórias e conhecimentos. 
                Milhares de anos transcorreram, desde quando nossos ancestrais procuravam um material adequado para receber a escrita.  Pouco a pouco chegou-se à fabricação do papel, de que tanto uso e consumo fazemos. 
               O homem, sempre engenhoso e movido pela ansiedade de conhecer os infinitos recursos da natureza, estudou pacientemente a maneira de empregar vegetais a serviço da escrita. 
                 A primeira folha de papel vegetal nasceu em Mênfis, em remotíssimo tempo. Tratava-se do papiro (Cyperusd Papyrus); uma árvore com tronco triangular e liso, com altura de 4 a 5 metros terminando em um penacho que, luxuriantemente aparecia orgulhosa nos pântanos do Nilo, fornecendo aos Egípcios uma rica matéria prima. As camadas que formavam a casca desta planta eram postas a secar ao sol; depois ficavam estendidas, uma sobre a outra, como a trama de um tecido, e colada com a própria água limosa do Nilo; finalmente eram prensadas e envernizadas. O Egito fez grande consumo de papiros; estes resistiram ao poder destruidor do tempo, como que para auxiliar-nos a desvendar seus segredos do passado, tão rico e milagrosamente conservados na areia do deserto, e nos revelaram a grandeza de uma civilização que floresceu muito antes da vinda de Cristo. 
              Um rei da família dos Ptolomeus, com ciúmes de Eumenes, rei de Pérgamo, e da riqueza de suas bibliotecas, proibiu que durante seu reinado o papiro saísse de suas terras; na impossibilidade de encontrar em outro lugar a preciosa fibra, os cidadãos gregos recorreram às peles de cabra e de carneiro, como já haviam feito nossos distantes ancestrais, e as tratavam com tanta habilidade, tornando-as tão resistentes, que até podiam usá-las de ambos os lados como um ótimo material para escrever. Nasceu assim o pergaminho.
                  A busca do material ideal para a escrita era tarefa de todos os povos "civilizados" da época. Roma adotou o papiro, preferindo-o ao pergaminho e às tábuas enceradas. A princípio adquiriu papiros já usados no Oriente que, após lavados e livres das escritas anteriores, ficavam aptos a receber os textos latinos; depois, conquistado o Egito, passou a usar definitivamente o papel papiro (papel "macrolola") para sua escrita e (papel "emporético") para embrulhos; distinguiu-se o "macrocola" em vários vários tipos de papel, subdividindo-os com nomes diversos, segundo a localidade egípcia de que provinham e, afinal, instalou-se fábricas para produção em massa do papel do Egito na Itália. 
                  Mas, quando, no século VII, os Árabes se apoderaram do Egito, cessou o comércio de papiro com Roma e com o Império de Constantinopla, e então foi preciso recorrer de novo ao pergaminho. 
                Foram os árabes que introduziram na Europa a fabricação de um novo tipo de papel que, já aperfeiçoado, apresentava a qualidade mais comum e ainda é usado até hoje. 
                Os vários meios usados para escrever até aquele tempo eram tabuinhas, papiros,  e pergaminhos; e eram de tão boa qualidade que conservam intacta a estrutura da matéria prima com que eram preparados. O papel introduzido pelos árabes, ao invés, tal como o que se fabrica hoje, não mais apresentava o aspecto e as características exteriores mas matérias primas fibrosas de que ele é preparado, porque o material empregado era diferente, e sobretudo outro processo de fabricação. 
             Os Árabes tinham aprendido tal processo dos Persas, que por sua vez, haviam conhecido o segredo dos Japoneses e dos Chineses; o processo de fabricação do papel, inventado pelos chineses, e guardado ciosamente dentro de sua poderosa muralha, foi conhecido por acaso pelos árabes. Foram eles que lá pelo século XI, divulgaram na Itália e na Europa. A partir de então iniciou-se a maravilhosa marcha para todo o mundo. 
              Quando, ainda na Ásia e na Europa se debatiam nas extenuadas experiências de fabricação do papiro e do pergaminho, a China, isolada do mundo circundante, pela sua inata desconfiança contra os estrangeiros, já fabricava, desde muito tempo, o papel com materiais dos mais diversos, tal como trapos, resíduos de seda, cânhamo, palha de arroz, cascas de amoreira, etc. O processo empregado pelos chineses permitiu aproveitar grande número de matérias primas, e com grande vantagem econômica. Eles maceravam em água fervente as matérias primas, obtendo com isso, uma pasta densa, e folhas finas, que transportadas para cima de formas apropriadas (chapas quentes de gesso ou feltros) eram postas a secar. Obtidas as folhas com as dimensões e espessuras desejadas, tratavam de colocá-las de duas em duas, pelo lado ainda bruto, a fim de obter um tipo de papel resistente e susceptível de ser usado em ambas as partes. 
                Os Árabes adotaram o processo de fabricação dos Chineses, preferindo como matéria-prima, restos de tecidos de linho e de algodão e, mediante a invenção de um aparelho chamado "pilha de malho", avantajam-se na fabricação pela preparação da polpa de papel. Tamanha foi a aceitação do papel fabricado pelos Árabes, que sua fabricação foi considerada monopólio do governo. 
           Muito colorida foi a indústria de papel no século XIII, onde se fabricava grande quantidade de papel branco, derivado de trapos brancos, pois os Árabes não conheciam, como também nós, nenhum sistema para descolorir a matéria prima reciclada.
              Do ano 1000 em diante, sucederam-se as invenções e aperfeiçoamento deste material que, justamente por ser considerado precioso, ainda não atingira a perfeição. Além disso, o trabalho manual obrigava a processos lentos e conservava bem alto o preço do papel; realmente alto demais para um produto, cujas infinitas possibilidades de aplicação exigiam mais rapidez e menores despesas. 
                  No século XII, os Árabes implantaram as primeiras fábricas de papel na Sicília e na Espanha; entre os primeiros países foi a Itália, no pequeno povoado de Fabriano, que fabricou uma quantidade de papel e introduziu melhoramentos no material e nos métodos de produção. Fabriano foi um dos centros mais famosos na fabricação de papel. Entre os primeiros mestres desta indústria, já então florescente, distinguiu-se especialmente Pace da Fabriano, que em 1340 fundou fábricas de papel em Pádua e em Treviso. 
                Foi o desenvolvimento das indústrias e o consequente ritmo de descobertas, no campo da técnica e da ciência, a perfeição da maquinaria, que determinaram a enorme produção e o imenso consumo que se faz  atualmente do papel. E grande mérito deve-se atribuir ao operário francês Louis Robert, que em 1799 descobriu uma série de engenhos mecânicos capazes de fabricar, em pouco tempo e com mínima despesa, folhas de papel de determinada largura, mas de ilimitado comprimento. Tal invento deu um maravilhoso impulso na indústria de papel, mas acarretou, porém, carestia de matéria prima: os trapos.
                Um alemão, Frederico Keller, estudou os vários tipos e sucedâneos dos trapos e chegou a uma extraordinária descoberta; eles podiam ser substituídos pela própria madeira.  Teve início, então, em 1845, uma nova era nesse ramo da indústria. 
              Com todo esse progresso, estava finalmente aberto o caminho para a produção dos mais diversos usos deste grande responsável pela cultura na civilização. Hoje se fabrica embalagens, livros e tantos outros produtos que a humanidade utiliza no seu dia-a-dia. 

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domingo, 19 de janeiro de 2020

A CIVILIZAÇÃO E A HISTÓRIA DA ESCRITA . .


                  O homem pré-histórico figurou, com desenhos mais ou menos rudes, executados nas paredes das cavernas, suas caçadas,seus combates, seus ritos. Estes desenhos foram a primeira "escrita", que nos transmitiram nossos ancestrais. Na mente do homem primitivo, surgiu vivo o desejo de deixar aos posteres os traços de sua passagem pela vida terrena e, então ele recorreu aos símbolos, para descrever os fatos mais importantes de sua existência e, pouco a pouco, encontrou na escrita o meio mais adequado de expressão. 
              A história da escrita tem pelo menos seis mil anos. Durante metade desse período o centro dos negócios humanos, ao que sabemos, foi o Oriente Próximo. Por essa expressão aqui significamos todo o sudoeste da Ásia ao sul da Rússia e do Mar Negro, como também o oeste da Índia e do Afeganistão e do Egito. A agricultura e o comércio desenvolveram-se nesse palco fervilhante de populações.  Com ele vieram também o cavalo e o carro (biga), a cunhagem de moedas e as letras de crédito, as artes e as indústrias, a lei e o governo, as matemáticas e a medicina, o calendário, o relógio e o zodíaco, o alfabeto e a escrita, o papel, os livros, as bibliotecas e as escolas, a literatura e a música, a escultura e a arquitetura, a cerâmica vidrada e o belo mobiliário, a poligamia, os cosméticos e a joalheria, o xadrez e os dados, o jogo de bola e o imposto sobre a renda, as amas de leite e a cerveja. É donde as culturas europeias e americanas derivam, via Grécia e Roma. Os arianos não criaram a civilização - tomaram-na da Babilônia e do Egito. A Grécia não começou a civilização, mas herdou-a, foi o receptáculo de três milênios de arte e ciências trazidas do Oriente Próximo pelo comércio e pela guerra. Portanto, o povo do Oriente Próximo foi o grande fundador da civilização ocidental. De fato, para fazermos justiça ao falar em civilização, precisamos nos curvar à sabedoria sumeriana a quem muito devemos. 
              Em meio a muitas lutas, essas variadas cepas raciais misturavam-se inconscientemente, talvez até involuntariamente, e cooperavam para produzir a primeira civilização da história - uma das mais criadoras e originais. 
             A exumação dessa esquecida cultura  é um dos romances da arqueologia. Para os gregos, romanos e judeus era desconhecida. O próprio sábio Heródoto não a menciona. Berosio, historiador babilônico de 250 a.C., entreviu a Suméria sob um véu de lenda. Descreveu-lhe o povo como uma raça de monstros, chefiada por um Oanes vindo do Golfo Pérsico, que introduziu a agricultura, a metalurgia e a escrita; "todas as coisas que melhoraram a vida", diz ele, "foram introduzidas por Oanes, e desde esse tempo nenhuma outra invenção apareceu".  Em 1850 Hincks admitiu que a escrita cuneiforme proviera dum povo de língua não-semita; e Oppert deu a esse hipotético povo o nome de "Sumérios". Por esse tempo Rawlinson encontrou, nas ruínas da Babilônia, tabletas com vocabulário da língua sumeriana, com tradução interlinear em velho babilônico. Em 1854 dois ingleses descobriram o sítio de "Ur", Eridu e Uruk; e exploradores franceses revelaram os remanescentes de Lagash, com tabletas em que vinha a história dos reis sumerianos. Há pouco tempo o americano Woolley e outros exumaram a cidade de "Ur", em que os sumérios alcançaram alta civilização em 1.500 a.C. Os trabalhos continuam e é de esperar que a exumação da Suméria se aproxime, em proporções, da do Egito - tão opulenta em achado. 
               Sem dúvida, o mais importante passo para a civilização foi a escrita. Fragmentos de cerâmica da era neolítica mostram linhas pintadas que os estudiosos interpretam como sinais. Achamos a interpretação  bastante duvidosa; mas é possível que a escrita começa com marcas na argila mole, para identificação do produto. Nos primitivos hieroglifos da Sumeriana pictografia de pássaros mostra sugestiva semelhança com a decoração também de pássaros da antiga cerâmica de Susa, em Elam; e a mais antiga representação pictográfica do grão vem diretamente da geométrica decoração granária dos vasos de Susa e da Suméria. A escrita linear da Suméria (3.600 a.C.) é aparentemente uma forma abreviada dos sinais e pinturas da primitiva cerâmica da Mesopotâmia e de elam. A escrita, como a pintura e a escultura, foi na origem um produto da cerâmica; começa sob a forma de desenho e gravação, e o mesmo material do objeto, do escultor e do construtor, passa a ser usado pelo escriba. Destes começos à escola cuneiforme da mesopotâmia, o desenvolvimento aparece logico e intangível. 
               Os mais velhos símbolo gráficos são os que Petria encontrou nos vasos e pedras dos túmulos pré-históricos do Egito, da Espanha e do Oriente Próximo, aos quais ele dá a idade de sete mil anos. Esta "Sinaria Mediterrânea" compunha-se de trezentos sinais, pela maioria os mesmo em todas as localidades. Não passavam de marcas mercantis, ou seja, marcas de propriedade, de qualidade e outras; não eram letras, mas representações de palavras internas ou ideias, muitas se assemelham extraordinariamente às letras do alfabeto fenício. Conclui Petrie que nos tempos primitivos um vasto corpo de sinais foi gradualmente entrando em uso para vários propósitos. O comércio os espalhava de terra em terra... até que um conjuntos de doze sinais triunfou e se tornou propriedade comum dum grupo de comunidades mercantis, enquanto outros permaneceram locais e por fim desapareceram. Que esta "sinaria" foi a fonte do alfabeto constitui uma interessante teoria que o professor Petrie teve a honra de sustentar sozinho.
               Qualquer que tenha sido o desenvolvimento dos primeiros símbolos comerciais, deles saiu uma forma de escrita, ramo de desenho e de pinturas, destinada a transmitir ideias por meio de representações gráficas. os rochedos do Lago Superior ainda conservam restos das rudes pinturas com que os índios americanos orgulhosamente narravam a travessia do grande lago. Uma similar evolução do desenho em escrita parece ter ocorrido no mundo mediterrâneo no fim da Idade Neolítica. Em 3.600 a.C, e talvez antes, Elam, Suméria e o Egito desenvolveram um sistema de símbolos ideais ou hieroglifos, assim chamados por serem de uso sacerdotal. Sistema similar aparece em Creta, em 2.500 a.C.  Veremos adiante como estes "hieroglifos", representando idéias, foram, pela corrupção do uso, esquematizados e reduzidos a silabários, isto é, a uma coleção de sinais indicando sílabas; e como, por fim, os sinais passaram a indicar apenas letras, ou o som inicial da sílaba. Tal escrita alfabética data de antes de 3.000 a.C., no Egito, e em Creta aparece apenas em 1600 a.C.  Os fenícios não criaram o alfabeto, mas espalharam-no; levaram-no do Egito a Creta e outros centros do Mediterrâneo.  No tempo de Homero os gregos estavam assimilando esse alfabeto "fenício", ou Aramaico, passando a conhecê-lo pelo nome de semítico das duas primeiras letras (Alfa e Beta - ou em hebraico,  Aleph e Beth). 
               A escrita parece ser um produto da conveniência comercial; aqui e ali a cultura percebe o quanto deve ao comércio. Quando os sacerdotes organizaram um sistema de desenhos com que fixar suas formular mágicas e a isso se restringiram os seculares, sempre em conflito, ligaram-se por um instante e criaram a coisa mais fecunda para os destinos humanos depois da fala. O desenvolvimento da escrita criou a civilização provendo o meio de fixar e transmitir os conhecimentos, e só assim a civilização poderia encetar a sua marcha para frente. 
                Os humanos sempre tiveram o desejo de deixar suas marcas para conhecimento das futuras gerações.
                   Os Maias representavam os números desenhando cabeças; cada cabeça representava um número. É de se imaginar a quantidade de cabeças e o quanto esta forma de expressão deveria  ser complicada numa simples soma. 
                 Na mente do homem primitivo surgiu vivo o desejo de deixar aos pósteros, os traços de sua passagem pela vida terrena e, então, ele recorre aos símbolos, para descrever os fatos mais importantes de sua existência e, pouco a pouco, encontrou na escrita o meio mais adequado de expressão. 
                Quando os egípcios descobriram a possibilidade de escrever nos papiros, deram início a uma nova forma de escrever, mais simples e mais rápida: a escrita hierática.  
                 Muito fraca, de fato, é nossa memória, para que a ela se possa confiar a veracidade dos fatos, das nossas ideias, de nossos sentimentos. Entretanto, comunicar com os homens que vivem em nossa época e que viverão depois de nós, vencer o tempo e a distância, dando forma duradoura ao pensamento, é uma das necessidades que, em primeiro lugar, se manifestou nos homens. O miraculoso prodígio, que faz com que os mortos sobrevivam na recordação dos vivos e que os distantes se aproximem, transpondo a barreira do tempo e do espaço, foi conseguido pela escrita. Nós, homens modernos, que desde tanto tempo possuímos o segredo de escrever, na forma mais exata, aquilo que sabemos dizer, não podemos deixar de sentirmo-nos, ao pensar nos primeiros homens que se empenham na busca de uma forma de escrita e no trabalho daqueles antiquíssimos ancestrais nos parece heroico e benéfico ao  mesmo tempo. O homem primitivo, para traduzir de maneira indelével o próprio pensamento, não escreveu, mas desenhou nas paredes das cavernas, nas rochas expostas à intempéries, nas lajes de pedra dura; ele apresentou, por meio de um desenho mais ou menos rude, os fatos mais importantes da sua vida: suas caçadas, seus seus combates, suas crenças e ritos; em seguida, aos poucos, firmou-se em sua mente a ideia de transcrever tais fatos de maneira mais rápida e mais concisa. Seu cérebro, nesse ínterim, já evoluíra, sua linguagem se enriquecera notavelmente e muitos pensamentos não se podiam representar, agora, com apenas símbolos. Para significar "manhã", por exemplo, desenhou um sol radioso; para exprimir a ação de comer, serviu-se da figura de um homem levando a mão à boca; para dizer "nada", representou um homem de braços abertos, e para dar maior clareza ao próprio pensamento, não lhe era mais preciso representar a cena inteira, mas sim, apenas indicar o gesto do homem numa certa circunstância. Poucas figuras bastavam, assim, para transmitir uma narrativa, para sugerir os versos ao cantor, ou para ensinar ao caçador as operações que deveriam ser executadas durante a caçada. Depois, também esta forma de escrita mudou, tornando-se ainda mais rápida e complexa; para escrever "caminhar", por exemplo, não foi mais necessário um homem andando, mas apenas desenhar um pé; a princípio, fiel ao verdadeiro, e depois simplificados, isto é, estilizado. 
         As grandes civilizações da era antiga usaram este tipo de escrita simbólica"; empregaram-na todos, Chineses, Sumerianos, Hititas e Egípcios, embora os sinais por estes usados fossem diferentes, porque diferente era sua linguagem e o material empregado para escrever e sobre o qual escrever;  os Sumerianos e os Assírios, por exemplo, a diferença dos Chineses e dos Egípcios, em pleno florescer de sua civilização, confiaram suas memórias à pedra e a certos tijolos de argila, secos ao sol ou cozidos ao fogo, e inventaram, portanto, a escrita "cuneiforme", própria para ser "incisa" na pedra. Os Egípcios, ao invés, quando descobriram a possibilidade de escrever em papiro, modificaram sua escrita de "hieróglifos", própria também para pedra, e deram forma a um novo processo, mais simples e rápido: a escrita hierática. A escrita hieroglífica surgiu no Egito entre os VI e IV milênios a.C.; antes também os Egípcios representavam o homem, suas ações, os animais e os vegetais, de modo bastante real; em seguida, recorreram aos símbolos e, mais tarde, foram além, dando o primeiro passo para a escrita fonética, ou seja, aquela que usamos. Eis aqui um exemplo que explicará isso melhor: para simplificar "casa", um homem primitivo esforçar-sei-a por desenhar uma casa; o egípcio não traçou uma figura semelhante à casa, mas estabeleceu um sinal que indicasse, porém, em artigo egípcio, casa. Como os Egípcios não usavam sinais para vogais, mas somente para consoantes, este sinal ficou tendo valor de "pr". Necessitando de escrever  outras palavras que iniciassem ou contivessem o grupo "pr", o Egípcio recorreu ao símbolo que antes indicava apenas a palavra desejada. Com os Egípcios, chegou-se pois, a uma escrita completa de sílabas, não em simples consoantes e vogais, como hoje fazemos; o mérito da descoberta do alfabeto cabe a outros povos, talvez aos Fenícios, que o aprenderam, provavelmente, do povo hebraico, e que o ensinamento aos Gregos e aos Itálicos.
              A escrita chinesa moderna, que conta cerca de 40.000 sinais, é assas semelhante à escrita chinesa antiga. 
              Lenta e progressivamente a escrita modificou-se sempre mais, os sinais transformaram-se, tornaram-se mais fáceis, mais claros, mais diferentes entre si, porque os homens logo lhe compreenderam a importância. Na época moderna, na Renascença e no século XVII, sobre tudo, os homens dedicaram-se, com grande empenho, à escrita, este meio tão importante para comunicar e instruir, para transpor os limites que o tempo e o espaço nos impõem. E chegou-se, assim, ao moderno alfabeto, ao nosso tipo de escrita. 
              À amorosa e paciente diligência dos monges beneditinos, na Idade Média, devemos a transcrição e conservação de numerosas obras literárias da antiguidade. 
                Deixar um traço de nossa passagem pela terra, essa necessidade que o homem sentiu e que sentirá sempre, encontrou na escrita o meio mais adequado, mais rápido e mais difuso de expressão. 
                 Em nossas escolas elementares, a criança é inciada nos mistérios, passando, tais como nossos pais, dos sinais simples às letras. 

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sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

O HOMO SAPIENS E A RELIGIÃO ..





                  Quando o homem descobriu a morte sentiu medo, mas também esperança. Ele percebe que é finito, mas não se conforma e busca uma solução que possa garantir-lhe a eternidade. Era o medo pelos acontecimentos cósmicos que poderiam por fim à sua vida. A expectativa era pouco mais de 20 anos.  Já nessa fase evolutiva ele passou a procurar uma maneira de contornar tudo o que originava seu pavor, e buscou ajuda nos sinais celestes onde, imaginariamente, encontrou deuses que controlavam tudo na terra. 
                  Estava formada a base para o surgimento de crenças e religiões, cujos pilares têm sua sustentação, não na ciência, mas na fé. Esse medo da morte fez surgir as mais estranhas crenças religiosas pelo mundo todo.
                   A vida em sociedade é feita de regras e leis; e quando os seres humanos passaram a viver em tribos, ou seja, em sociedade surgiu a necessidade de uma organização com leis e normas para garantir a ordem e o respeito entre seus membros.
               Quando o rei Hamurábi (1750 ou talvez 1730 x 1665 a.C.) criador do Império Babilônico, criou as primeiras leis de que se tem notícia. Seu "Código de Hamurábi" é uma das leis mais antigas da humanidade e está gravado em uma estela cilíndrica de diorito, descoberta em Susa e conservada no Museu do Louvre. Foram leis feitas para proteger a propriedade, a família, o trabalho e a vida humana. 
                 Mas não são apenas as leis criadas pela sociedade que garantem uma convivência harmoniosa.  Existem leis que são regidas pela natureza e também pelos acontecimentos do dia-a-dia. 
                 Contudo, as leis humanas não são instrumentos capazes de garantir a ordem num mundo tão complexo e com tanta diversidade. O homem sempre teve uma natureza rebelde e só respeita a lei por temor, e assim, para complementar estas leis civis, surgiram as leis divinas que garantem que a justiça será feita por um poder superior que nunca pode ser enganado. As religiões criaram suas leis para doutrinar os povos e orientá-los a não cometer crimes (pecados), incutindo em seus membros que, mesmo crimes não conhecidos serão punidos por Deus. Dessa forma ficou muito mais fácil manter sob controle a crescente massa humana, cuja expansão demográfica não podia ser ordenada apenas pelas frágeis leis que só atingem crimes conhecidos. Com as leis divinas descritas por "sábios" nos livros sagrados, o homem passou a respeitar as ordens supostamente vindas de um poder supremo, que lhe garante saúde, paz e prosperidade. 
                  Para o homem simples é mais fácil acreditar no sagrado do que compreendê-lo. Ele procura passar a responsabilidade para outro e é por isso que sempre diz: "foi Deus que quis assim".  Bem poucos são os que conseguem reunir os conhecimentos necessários que lhes permitam ver mais longe e assim o cárcere que os aprisionam a convicções e superstições continuam até nossos dias. É mais cômodo esperar a recompensa de uma vida melhor após a morte, mas para isso é necessário obedecer as  leis divinas. 
                  Os babilônios não se interessavam por literatura; seus escritos eram um instrumento para facilitar os negócios. Apesar disso, foram encontrados fábulas em versos, hinos divididos em linhas e estâncias; uns tantos versos profanos, rituais religiosos que pressagiavam o drama, embora não dessem importância a eles. Mas não podemos julgar uma civilização pelos simples fragmentos que se salvaram do naufrágio do tempo. Esses fragmentos são sobretudo litúrgicos, mágicos e comerciais. Seja por acidente, seja por pobreza cultural, a Babilônia, bem como  a Assíria e a Pérsia, pouco nos legaram em literatura, em comparação com o Egito e a Palestina. 
                  Os sumérios e babilônios, povos mesopotâmicos , têm sua fé preservada em obras literárias como os poemas de Gilgamesh e Enuma Elis; nelas a criação é representada em um processo de procriação, em que os deuses seriam elementos naturais que formam o universo. 
                   A serpente era dorada por muitos povos como símbolo da imortalidade, por causa do seu aparente poder de escapar á morte com a mudança da pele. 
                   Os sumérios adoraram uma deusa mitológica chamada Ishtar; era deusa dos acádios ou Namu, dos antecessores sumérios, cognata da deusa dos filisteus, de Ísis dos egípcios e da Astarte dos fenícios. Quando passou a ser parte da mitologia nórdica ficou conhecida como a deusa do amor e seu nome era Easter.
                   O culto aos deuses, ainda hoje, sempre é feito por rituais. No caso de Ishtar (deusa do amor), muitos rituais tinham caráter orgiástico porque ela  representava a deusa da fertilidade.
                 Na China, em muitos lugares, ainda se acredita que  a entidade mítica Pan Gu deu origem a todas as coisas. Para eles, no começo não havia nada; depois de longas eras o nada se transformou em uma unidade que ao longo do tempo se dividiu em duas partes: feminina e masculina para unidas darem origem à vida. 
                A mitologia Hindu descreve que tudo era caótico e escuro. Nos versos do  livro sagrado Rig Veda, temos a seguinte descrição: "No começo não havia existência; não havia atmosfera, céus e reinos celestiais; não havia nada além de Deus."  Para o Hindus o mundo está sempre sendo recriado e o deus Brahma é o grande criador e tudo se dá a partir de um "ovo dourado". Vishnu preserva e Shiva destrói tudo para que o círculo recomece. 
                   Para os Incas a criação do universo envolve vários mitos. A maior parte desses mitos estão vinculados ao seu deus criador Viracocha.
                    Para os Maias o processo de criação do mundo estava sujeito a um cadeia cíclica de eras cósmicas de criação e destruição do Universo dando origem ao mundo e ao homem atual. 
               Na mitologia nórdica a criação do mundo também tem início com o nada. Segundo ela, do caos foram criadas duas regiões distintas. A região sul, repleta de luz e calor que era governada pelo fogo cósmico, e a região norte que era dominada pelas trevas e governada pelo gelo cósmico. 
              Os gregos tem vários mitos sobre a criação do mundo, mas o mais conhecido e considerado o mais didático é o descrito em Teogonia, de Hesíodo. Segundo ele, no princípio só havia o Caos (o Universo). Dele surgiu Gaia (Terra) e outros seres primordiais e divinos, com Eros (atração, amor) e Tártaro (mundo inferior). Do Caos também nasceram Érebo (escuridão) e Nix ( a noite). Da Noite nasceram Hemera (o dia) e Éter (o ar). Gaia, sem interferência de um ser masculino, deu à luz a Urano (o céu) que em seguida fertilizou. Da união do Céu e Gaia nasceram os Titãs, formados por seis homens e seis mulheres (Oceano, Céus, Créosim, Hiperião, Theia, Reia, Têmis, Mnemosine, Febe, Tétis e Cronos. 
                 Os egípcios possuíam diversos mitos. Em seu panteão, cerca de dez deuses são associados à criação do mundo. Conta-se que antes existia apenas Trevas e a água primordial (Nun), semelhante ao Rio Nilo, que continha todas as sementes da vida. A partir de Nun surgiu Atun, que teve um casal de gêmeos. O filho Chu representava o ar seco, enquanto a filha Tefnut representava o ar úmido. Os dois uniram-se e separaram o céu das águas e criaram Gebv, a terra seca, e Nut, o céu. 
                  Apesar da aparente ingenuidade ou fantasia de muitas dessas explicações, elas contém valores de sociedades de diversas culturas. A Filosofia, a Tecnologia e a própria história tem muito de seus fundamentos nessas lendas e mitos. 
               Para os judeus e cristãos o mundo foi criado por um Deus em seis dias.  O livro sagrado dos judeus , o Torá, assim como a Bíblia dos cristãos nos versículos 1 a 19 do primeiro capítulo do livro Gênesis, nos relata a criação dos céus e da Terra. Javé, o único e onipotente Deus, teria criado o mundo em seis dias e descansado no sétimo. 
                    O estudo do fenômeno religioso, comum aos povos, sempre teve grande influência na evolução da sociedade humana, assumindo aspectos e praticas diferentes segundo as diversas civilizações. 
              A guerra e o desenvolvimento das navegações pelo mundo, exerceram grande influência sobre as religiões. Essa nova possibilidade de contato entre povos permitiu a influência sobre a vida e também sobre as crenças religiosas de todos. 
                A ciência, a partir de então, também teve enorme influência dos egípcios; dela se ocuparam apenas os "livros sagrados", que além dos dogmas e cerimônias da religião, continham conhecimentos acerca do sistema do mundo, da geografia, do Sol e das estrelas. Em tudo intervinha a magia; isso produziu uma enorme regressão, não só no Egito, mas em todo o mundo que hoje conhecemos como "civilizado". As lendas falam de homens piedosos e sábios, que eram grandes feiticeiros e autores de textos mágicos com palavras de deuses. Especialmente no cristianismo fala-se muito na palavra de Deus e isso vem influenciando a permanência de superstições até nossos dias. 
                 O cristianismo é uma religião muito recente, mas hoje domina a maior parte do mundo civilizado. Foi criado e idealizado na Judeia, região habitada pelo povo semita, buscando informações nas lendas e mitos de crenças antigas. Grande parte delas foram criadas a partir das lendas egípcias. O povo semita  foi um grupo étnico que disputava com os sumérios as regiões mais férteis da Mesopotâmia e impunha novos sistemas de vida e de pensamento filosófico. Embora o cristianismo não tenha sido criado por Jesus Cristo, ele é o centro de toda a fé cristã. Essa religião teve seu grande crescimento e poder graças ao Imperador  Romano Constantino. Com a queda do Império essa religião passou a ser a principal herdeira do poder romano, tornando-se a mais poderosa e hoje é  multinacional e tornou-se uma das maiores empresas financeira do mundo. Ela investe na indústria do petróleo, de produtos farmacêuticos especulativos e até na lucrativa indústria armamentista, como também nos negócios da Máfia italiana. Mas sua grande sustentação ainda é a fé de seus fiéis que continuam contribuindo com dízimos pelo mundo todo. 
                 Na evolução da espécie, o homem aos poucos vai tomando consciência da dependência mútua pela qual as influências circulam entre o universo e o corpo humano. Tentando a todo o momento intensificar a vida, experimenta o encontro com seu interior, como uma vida de maior profundidade e riqueza. 
               O começo, tanto do tempo como da criação, permanece no centro e a partir deste ponto irradiam manifestações em círculos concêntricos.  Essa experiência universal encontrou sua expansão através de incontáveis danças e ritos religiosos celebrando as mais diversas tradições sagradas de toda a Terra. 
               O espaço sagrado facilita a orientação do devoto no tempo e no espaço cósmico, enquanto proporciona o marco central no "Axis Mundi" ou centro do mundo, para o culto que transforma o caos em cosmos e torna possível a vida. 
                O homem sente-se como medida de todas as coisas e no encontro consigo mesmo, busca a revelação divina que nele adquire forma e cor. Vendo seu copro como instrumento para encontro com o deus, segue as regras ditadas pelos "pseudos sábios" que considera em estágio superior de evolução que lhes orienta e dá direito a um contado direto com o divino. 
                  A anatomia humana, com seus seis pontos de orientação no  espaço, dispõem de um sétimo ponto, invisível, onde se cruzam os eixos, o centro no homem, - lugar do coração - que serve de campo de batalha para as duas forças da vida: o bem e o mal. Através de rituais, o homem atinge um estado que o torna útil em sua tarefa de vida, o que implica na morte para posterior ressurreição num estágio superior de bem estar e bem servir ao "poderoso do universo". O tema da morte como vida discorre como um fio através da história das tradições sagradas em todas as partes da terra. O núcleo de todos os cultos está no grande ciclo da vida, do nascimento à morte. A morte seguida da vida aparece como transformação de uma força indestrutível e única. A ideia fundamental é que a morte é a fonte de uma nova vida que consiste na ressurreição da matéria. Em termos religiosos isto significa o auto-sacrifício periódico em vista de uma vida superior. Até nos documentos do cristianismo o apóstolo Paulo teria dito: "Se semear um corpo natural, surge um corpo espiritual". 
                    Em todas as crenças o criador é encarado como Deus que dita os princípios da ordem e justiça. No mundo cristão, o mal surge exclusivamente do mundo criado, finito, o qual se submete à justiça divina. A obediência e sacrifício constituem elementos fundamentais das religiões com expressão total ao divino. A viajem tortuosa dos mortos é consequência primordial para a entrada no mundo superior. 
                  Na sociedades matriarcais venerava-se o feminino sob a forma de grande deusa, cujo corpo, em matéria tecida pelo tempo, dava continuidade ao universo inteiro. Era o símbolo de todos os processos de transformação, pois nele se uniram a terra, a água, o ar e o fogo. As ocasiões do nascimento, matrimônio (união sexual) e da morte eram consagrados e celebrados em sua honra. O fato da mulher ter o poder de criar uma vida em seu ventre sempre incomodou os lideres da religião católica; por essa razão sempre a consideraram impura. A própria Maria mãe de Jesus só passou a ser venerada recentemente e mesmo assim na forma de virgem para não ser considerada impura. 
                  Durante muitos século acreditou-se que o homem era produto do sobre-natural e que a maioria dos animais tinham origem na geração espontânea. Aos poucos foi-se comprovando que, numa ordem de dimensões crescentes, cada ser vivo tem seus próprios progenitores. A ideia de que a vida tem como base o sobre-natural faz parte de quase todas as religiões e é defendida em todos os movimentos idealistas. Mas essa é mais uma forma de garantir poder e arrecadar dinheiro dos fiéis. 
              O problema da origem da vida ocupa um lugar central em todas as perguntas biológicas e filosóficas. Esta questão é de fundamental importância quando se fala da vida extra-terrestre. São inúmeras as teorias que tentam explicar esta origem, mas podemos sintetizar em três: 
  1. A vida não pode ser descrita em termos físicos e nem químicos, pois seria de origem sobre-natural;
  2. A vida teria origem na geração espontânea e a partir da matéria inerte, podendo surgir em qualquer lugar onda haja combinações químicas que permitem sua existência; 
  3. A vida seria eterna, assim como a matéria. Nessa condição, ela teria surgido de uma espécie de combinações químicas progressivas.
                    A vida é um poder invisível, mas todos sabem que existe e é real. Não se pode confundir corpo com vida. Não haverá dificuldade de entender nossa origem e nosso destino se aceitarmos o fato de que somos simples energia em constante transformação. Portanto, somos parte da mente cósmica universal que sempre foi e sempre será vida. 

                    O Cristianismo e Jesus de Nazaré - histórico
                    Na Palestina havia uns dois e meio milhões de criaturas, das quais talvez 100 mil em jerusalém. A maioria falava o aramaico; os sacerdotes e sábios conheciam o Hebreu; os funcionários e estrangeiros, bem como a maior parte dos autores, usavam o grego. O povo compunha-se sobretudo de camponeses que lavravam a terra, cuidavam dos pomares, dos vinhedos e do gado. 
                   No tempo de Jesus a Palestina chegou a exportar um pouco de trigo; suas tâmaras, seu vinho e seu óleo, eram encontrados em todo o Mediterrâneo. 
                   A religião para os judeus era a fonte da lei, do Estado e a grande esperança de todos; deixá-la dessoar-se na onda do helenismo seria, na opinião deles, o suicídio nacional. Daí o ódio mútuo entre judeus e pagãos, sentimento que conservou o pequenino país numa perpétua luta racial e política. Ademais os judeus da Judeia desprezavam os galileus com gente atrasada, como os galileus desprezavam os da Judeia como escravos manietados na tela da Lei. E havia também o perpétuo atrito entre judeus e samaritanos; diziam estes que o monte de Gerizim, não o de Sião, fora escolhido por Jeová para sua morada, e repudiavam todas as Escrituras, exceto o Pentateuco. Mas as várias facções concordavam num ponto - em odiar o poder de Roma, que fazia pagar um preço muito pesado pela paz à força. Aguardavam a vinda de um Messias que estabelecesse na terra o comunismo igualitário do Reino do Céu (Malchuth Shamayim), no qual só entrassem os homens de vida perfeita.
                   Saduceus, fariseus e essênios eram, uma geração antes de Cristo, as principais seitas da Judeia. Os escribas (hakamin - cultos), que Jesus frequentemente ligava aos fariseus, não constituíam uma seita e sim uma profissão; eram homens instruídos na lei, que sobre ela prelecionavam nas sinagogas, que a ensinavam nas escolas, que a debatiam em público ou em particular e a aplicavam no julgamento de casos específicos. Alguns entre eles eram sacerdotes, em número maior saduceus e em grande maioria fariseus; correspondiam nos dois séculos anteriores a Hillel ao que os rabinos passaram a ser depois deles. Os verdadeiros iurisprudentes (juristas) da Judeia, cujas opiniões legais, selecionadas pelo tempo e transmitidas verbalmente de professores a discípulos, tornavam-se parte daquela tradição oral que os fariseus honravam conjuntamente com a Lei escrita. Sob a influência dos escribas o Código de Moisés desdobrou-se em mil preceitos minuciosos, designados a atender a todas as circunstâncias. Nenhum povo na história jamais lutou tanto pela liberdade e contra tantas dificuldades como o judeu. De Judas Macabeu a Simeão Bar Cocheba, e ainda nos tempos de hoje, a luta dos judeus pela reconquista da liberdade muitas vezes os dizimou, mas nunca lhes quebrou o ânimo nem lhes matou as esperanças. 
                    Existiu Cristo realmente? Não será a história daquele, que muitos consideram o criador do cristianismo, um produto da ficção, da imaginação e da esperança humana - um mito comparável às lendas de Krishna, Osíris, Atis, Adônis, Dionísio e Mitras?  
                  O que a história tem provado é que nenhuma religião tem duração eterna. Hoje o Cristianismo continua em evidência. Mas ele existe há dois mil anos devido ao fato do imperador romano Constantino tê-la imposta como a religião oficial do império. Com a queda do Império Romano, os papas assumiram a liderança e continuaram impondo a religião pela espada por todo o mundo conhecido da época. Criaram uma organização administrativa e um sistema muito inteligente de arrecadação de seus fieis que hoje está em muitos lugares. Dessa forma o paganismo foi pouco-a-pouco sendo substituído pela nova religião. No início os papas dominavam toda a Itália, mas hoje estão confinados ao Vaticano. Até quando, ninguém sabe. O que fica bem evidente é sua contínua decadência.
                No início do século XVIII a roda de Bolingbrook , chocando ao próprio Voltaire, discutia na intimidade  e hipótese da não existência histórica de Jesus. Volney revelou a mesma dúvida nas Ruínas do Império Romano, em 1791. E encontrando-se em 1808 com o sábio Wieland, Napoleão, em vez de assuntos de guerra e da política, perguntou-lhe se acreditava na historicidade de Cristo. 
                     Uma das atividades do espírito moderno de maior projeção foi a "Alta Critica" da Bíblia - o impetuoso ataque à autenticidade e veracidade desse livro, ao qual se opôs a heroica tentativa de salvar os fundamentos históricos da fé cristã; os resultados podem, com o tempo, mostrar-se ainda mais revolucionários que o próprio Cristianismo. O primeiro assalto nessa guerra de duzentos anos operou-se em silêncio; por ocasião de sua morte em 1768 foi encontrado nos papéis de Hermann Reimarus, professor de línguas orientais em Hamburgo, um manuscrito de 1400 páginas sobre a vida de Cristo. Seis anos mais tarde Gotthold-Lessing, apesar do protesto de seus amigos, publicou trechos dessa obra no Wolfenbittel Fragments. Reinarus arguía que Jesus não pode ser considerado como fundador do Cristianismo, pois é apenas a figura final e dominante da escatologia mística dos Judeus, isto é, Cristo não pensou em estabeleceu um novo credo, mas em preparar os homens para a iminente destruição do mundo e o julgamento final de todas as almas. Em 1796 Herder assinalou as irreconciliáveis diferenças entre o Cristo de mateus, Marcos e Lucas e o Cristo do Evangelho de São João. Em 1828 Heinrich Paulus, resumindo a vida de Jesus em 1.192 páginas, propôs uma interpretação racionalista dos milagres - isto é, aceitá-los como ocorridos, mas produzidos por causas e forças naturais. No seu livro Vida de Jesus que fez época (1835 x 1836), David Strauss rejeitou essa proposta; os elementos sobrenaturais dos evangelhos, dizia ele, devem ser classificados como mitos, e a verdadeira vida de Jesus tem que ser reconstruída sem, de nenhuma forma, recorrer a esses elementos. Os maciços volumes de Strauss fizeram da crítica da Bíblia o núcleo central do pensamento germânico por uma geração. No mesmo ano Ferdinand Christian Baur atacou as Epístolas de Paulo, rejeitando-as como falsas, com exceção das que falam dos gálatas, corintos e romanos.  Em 1840 Bruno Bauer deu começo e uma série de obras apaixonadamente críticas , tendentes a mostrar que Jesus era um mito, forma personalizada de um culto que no século II emergiu da fusão das teologias judaicas, romana e grega. Em  1863 a Vida de Jesus de Ernest Renan alarmou milhões de pessoas com seu racionalismo e encantou outros milhões com a sua prosa; Renan reunia os resultados da crítica alemã e punha o problema dos evangelhos diante dos olhos de todo o mundo educado. A escola francesa atingiu o seu clímax no fim do século, quando o padre Loisy submeteu o Novo Testamento a tão rigorosa análise que a igreja Católica se sentiu compelida a excomungá-lo - a ele e outros "modernistas". Nessa ocasião a escola holandesa de Pierson, Naber e Matthas levou o movimento às extremas com a laboriosa negação da realidade histórica de Jesus. Na Alemanha Arthus Drews deu a esta negação a sua forma definitiva; e na Inglaterra W.B. Smith e J.M. Robertson concluíram por uma negação semelhante. O resultado de dois séculos de discussão parecia ser a aniquilação de Cristo. 
                 Mas quais as provas da real existência de Cristo?  A mais remota referência não-cristã ocorre nas Antiguidades dos Judeus,de Josefo (ano de 93 d.C.). 
            Ele assim se refere: " Nesse tempo viveu Jesus, um homem santo, se homem pode ser chamado, porque fez coisas admiráveis, e ensinou aos homens, e alegremente recebeu a verdade. Era seguido por muitos judeus e muitos gregos. Foi o Messias."
                Pode haver verdade nessas estranhas linhas;  mas tão alto louvor dado à Cristo por um autor sempre atento em agradar aos romanos e aos judeus - dois povos em guerra contra o Cristianismo naquele tempo - torna a passagem suspeita; os eruditos cristãos repelem-na como um evidente enxerto. também há referências a "Yeshua de nazaréth" no Talmude, mas muito tardias e com probabilidades de serem um eco do pensamento cristão. Lembrando que Cristo era Judeu. A mais remota menção de Cristo na literatura pagã, temo-la em Plínio -o Moço - no ano 110 d.C., na carta em que pede o parecer de Trajano sobre o tratamento a ser dado aos cristãos. Cinco anos mais tarde, Tácito descreve a perseguição dos Cherestiani (cristãos) em Roma feita por Nero no ano 64 d.C, e pinta-os como já numerosos em todo o Império; O parágrafo é então de Tácito no estilo, na força e nos preconceitos, que de todos os críticos da Bíblia, só Dews duvidou da sua autenticidade. No ano 1235 foi encontrado um escrito de  Suetônio que refere-se à mesma perseguição, e conta o banimento (ano 52 d.C.), no tempo de Claudio, dos judeus que, agitados por Cristo, estavam causando perturbações públicas, passagem bem de acordo com os Atos dos Apóstolos quando menciona o decreto de Cláudio manando que "os judeus deixassem Roma. Isso, segundo a história foi no ano 52, mas Cristo teria morrido por volta do ano 30 da nossa era. Portanto, essas referência provam mais a existência de cristãos do que de Cristo; mas a não ser que admitamos Cristo, somos levados à improvável hipótese de que Jesus foi inventado em uma geração para atender a interesses políticos; além disso temos de supor que para merecer a atenção de um decreto imperial, a comunidade cristã em Roma tinha de ser estabelecida alguns anos antes de 52. Lá pelo meio do século I um pagão de nome Thallus, num fragmento  preservado por Júlio Africano, opina que a estranha obscuridade sobre a morte de Cristo foi um fenômeno puramente natural e uma coincidência; de nenhum modo o argumento põe em dúvida a existência de Cristo, mas  há dúvidas sobre sua crucificação. A negação dessa existência parece não ter ocorrido nem mesmo aos mais severos oponentes do novo credo, judeus ou pagãos. 
                  As provas cristãs começam com as cartas atribuídas a São Paulo. Algumas são de autoria incerta; outras, anteriores ao ano 64, são quase universalmente tidas como genuínas na substância. Ninguém jamais duvidou da existência de Paulo e de seus repetidos encontros com Pedro, Tiago e João; e era com inveja que Paulo admitia terem aqueles homens conhecido Cristo em carne e osso. As epístolas aceitas frequentemente se referem à Última Ceia e á crucificação. 
                A matéria já não é tão simples quando abordamos o Evangelho. Os quatro que chegaram até nós os sobreviventes de um número muito maior, que circulavam entre os cristãos dos dois primeiros séculos. O termo inglês Gospel (godspel, boas novas no Velho inglês) equivale a uma tradução do evangelion grego, que é a palavra de abertura do de Marcos; significa "boas novas", isto é, que o Messias tinha vindo e o Reino do Céu estava à mão. Os evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas são "sinóticos"; o conteúdo e os episódios permitem a disposição em colunas paralelas e o "exame juntos". Foram escritos no Koiné grego do falar do povo, e não eram modelos de acabamento literário; não obstante, o direito e a força daquele estilo simples, o vívido poder das analogias e cenas, a profundez do sentimento e a intensa fascinação da história dão a esses rudes originais um encanto único, imensamente realçado para o mundo inglês pela incorreta, mas senhoril versão feita para o rei Jaime. 
               As mais velhas cópias dos evangelhos que sobreviveram são do século III. As composições originais foram aparentemente escritas entre os anos 60 e 120, ficando, portanto, sujeitas a dois séculos de erros nas transcrições e a possíveis alterações para ajeitamento à teologia ou alvo da seita do copista ou dos tempos. O escritos anteriores ao ano 100 citam o Velho Testamento, nunca o Novo testamento. 
                  É claro que há muitas contradições entre um evangelho e outro, muitas afirmações históricas dúbias, muita semelhança suspeita com as lendas em curso dos deuses pagãos, muitos incidentes na aparência prepostos a provar a realização das profecias do velho Testamento, muitas passagens que talvez visassem estabelecer uma base histórica para futuras doutrinas ou futuros rituais da Igreja. Os evangelistas compartilhavam com Cícero, Salústio e Tácito da concepção da história como veículo de ideias morais. E presumivelmente as falas reportadas nos evangelhos estavam sujeitas às deficiências de memórias incultas e a erros e alterações de copistas. 
              Diz um dos grandes mestres judeus, talvez com exagero: "Se para a história de Alexandre  o Grande ou César tivéssemos fontes antigas como a dos evangelhos, não lhe oporíamos nenhuma dúvida".  Klauser, De Jesus a Paulo.
                 Mateus e Lucas aceitam Jesus como nascido em Belém, cinco milhas ao sul de Jerusalém; de lá, dizem-nos eles, a família mudou-se para Nazaré, na Galileia.  Marcos não faz menção de Belém e chama Cristo de "Jesus de Nazaré" Seus pais deram-lhe o nome muito vulgar de Yeshua (o Joshua em inglês) "o ajudante de Jeová"; os gregos diziam Iesous, e os romanos Iesus.
                   Aparentemente  Jesus pertencia a uma família numerosa, porque seus vizinhos, espantados com o vigor dos seus ensinamentos, perguntavam: "Donde lhe vem essa sabedoria e o poder de operar maravilhas? Ele não é o filho do carpinteiro? Sua mãe não se chama Maria, e não são seus irmãos Tiago, José, Simão e Judas? E não vivem entre nós as suas irmãs? "
                  Lucas conta com alguma arte literária a história da Anunciação e põe na boca de Míriam - Maria - aquele Magnificat que é um dos grandes poemas do Novo Testamento. 
                   Maria, a mãe de Jesus, depois de seu filho, é a mais comovente figura  do drama até hoje não totalmente compreendido. Cita seu filho com todas as dores e júbilos  da maternidade, orgulhosa de sua sabedoria juvenil, mas preocupada com seu destino naqueles tempos politicamente tão difíceis. Mais tarde, quando percebe  o alcance da doutrina de seu filho Jesus, deseja afastá-lo da multidão de seguidores; quer trazê-lo para junto da família, onde teria a paz da casa.
                Naquele tempo, principalmente entre os hebreus, a mulher não tinha influência e era totalmente dependente da vontade do seu marido. Mas Maria parece ter sido muito decidida, independente e liberal. Sempre tinha bons argumentos e talvez tenha sido essa a principal herança genética que deu a seu filho pregador. 
                  Certos críticos suspeitam que Lucas e Mateus escolheram Belém, como a cidade de Jesus para fortalecer a pretensão de que ele era o Messias e provinha, como fora profetizado pelos judeus, da casa de Davi, cuja família tinha morado em Belém; mas esta suspeita não tem nenhuma prova a seu favor. 
                Os evangelistas pouco falam da juventude de Cristo. Conta-se que com oito anos foi circuncidado. Era José, seu pai,  um carpinteiro e por algum tempo Jesus tinha se dedicado a ajudá-lo nos trabalhos artesanais. Conhecia os artesãos da sua aldeia, os proprietários, os criados, os inquilinos e escravos das redondezas; a eles se refere com frequência. Era muito sensível à beleza natural do campo, à graça e cor das flores, à serena frutificação das flores. Tudo indica que a história de sua disputa com os sábios do templo foi verídica, já que tinha espírito claro e inquisitivo e no Oriente Próximo um menino de doze anos é quase um homem feito. Jesus deixara a casa dos pais para juntar-se aos sábios judeus no templo. Maria e José foram à sua procura e foi ela que  lhe interpelou: "teu pai e eu te procuramos aflitos". Mas Jesus não teve educação formal. "-Como é", perguntavam os vizinhos, "que esse homem (menino) sabe ler se nunca esteve em escola?" Frequentava a sinagoga e com evidente gosto ouvia ler as escrituras; os Profetas e os Santos calaram-lhe fundo na memória e contribuíram para a sua formação. É bem provável que tenha lido livros de Daniel e Enoch, porque em seus últimos ensinamentos aparecem as visões do Messias, do Juízo Final e do próximo Reino de Deus. 
                Com uma vida totalmente dedicada à pregação, tudo em redor de Jesus revivia a excitação religiosa. Nessa época, milhares de judeus aguardavam ansiosos a vinda do Redentor de Israel. Magia e feitiçaria, demônios e anjos, "possessão" e exorcismo, milagres e profecias, astrologia e adivinhação eram coisas aceitas em toda parte; Muito provavelmente a história dos reis magos foi uma concessão necessária às crenças astrológicas da época. Taumaturgos - operadores de maravilhas - andavam de cidade em cidade. Nas peregrinações anuais que, por ocasião da Páscoa, todos os bons judeus faziam a Jerusalém, Jesus deve ter aprendido alguma coisa dos assêmios e de seu viver semi-monástico, praticamente budístico; Ashoka tinha enviado os seus missionários budistas até o Egito e Cirene; e muito provavelmente também ao Oriente Próximo. 
              Josefo conta com minúcias a história de João. Existe a tendência de descrever o Batista como um velho; mas, na verdade, era mais ou menos da mesma idade de Jesus. Marcos e Mateus descrevem-no na sua testemunha, vivendo de gafanhotos secos e mel e localizado à margem do Jordão, onde conclamava as pessoas para o arrependimento. Cultivava o asceticismo dos essênios, mas diferia deles no achar um só batismo suficiente; seu nome de "Batista" parece equivaler à palavra grega "essene", ou "aquele que banha". Ao rio essênio de purificação simbólica, João acrescentava uma severíssima condenação da hipocrisia e da vida solta; insistia com os pecadores para que se preparassem para o Juízo Final e proclamava o breve advento do reino de Deus. É bem provável, também, que tivesse ouvido falar duma seita de "nazarenos" existente além do Jordão, em Pereia,  que repudiava a adoração no Templo e negava o caráter congregante da lei. Mas, certamente, a experiência que mais despertou o fervor religioso de Jesus foi a pregação de João, o filho de Isabel, primo de Maria. 
               Logo depois do quinto ano do governo de Tibério, diz Lucas, Jesus veio ao Jordão para ser batizado.  Estava então com  cerca de trinta anos; este passo mostra a aceitação do ensinamento de Batista por Jesus; o seu ensino seria essencialmente o mesmo, mas o método e o caráter de Jesus eram diferentes; ele não batizava ninguém e não vivia no deserto, mas sim na sociedade local. Logo depois do encontro de Jesus e João, segundo a história oficial, Herodes Antipas, tetrarca (governador de quatro cidades) da Galileia, ordenou a prisão do pregador Batista. Os evangelistas atribuem essa prisão à crítica que este  fazia a Herodes pelo fato dele ter-se divorciado de sua mulher e, logo em seguida,  casar-se com Herodias estando ainda viva a esposa de seu irmão Felipe. Josefo atribui essa prisão ao medo de que, sob disfarce de reforma religiosa, o Batista estivesse fomentando um levante político. Marcos e mateus contam a história de Salomé, filha de Herodias; tão sedutoramente ela dançou em sua presença que, em agradecimento, o tetrarca ofereceu-lhe o que ela quisesse. Por sugestão de Herodias Salomé indicou a cabeça de João Batista; Herodes, então, relutantemente, teve de cumprir a palavra. Não há nada nos evangelhos sobre algum amor de Salomé por Batista, e Josefo não se refere à coparticipação da jovem na tragédia. 
 
O Islamismo
                 A segunda das grandes religiões do mundo, quanto ao número de fiéis, é o Islã; palavra que  significa submissão; de fato, a base da religião de Maomé, está a total e inelutável submissão à vontade do deus islâmico, Alá.Islamitas ou Muçulmanos (a raiz  é a mesma) são adeptos desta fé, "aqueles que se submetem". 
              Desde a fuga de Maomé para Medina, ocorrida em 622, no período de poucos decênios, a nova religião realizou progressos gigantescos e desenvolveu-se com uma velocidade impressionante. A força que levou o islamismo a difundir-se sobre metade do globo, conquistando para mais de trezentos milhões de fiéis, está contida na própria simplicidade de sua doutrina, que não é apenas ensinamento teórico, mas, sobretudo, uma síntese de pensamento e ação. A religião, já em 2010 contava com cerca de u bilhão e 600 milhões de adeptos, espalhados sobre o globo, cuja fraternidade não leva em conta nem limites nacionais nem raças.
               Já há poucos anos da morte de Maomé, o entusiasmo dos primeiros fiéis dera início à formação do imenso império árabe e à vastíssima difusão da religião islamita. Atualmente, são islamitas as populações da África ocidental e oriental, e também as populações a noroeste da Índia. Milhões de islamitas vivem nas ilhas da Indonésia, e também na Europa, os Turcos, muitos dos Bosnianos e dos Albaneses seguem a religião de Maomé. 
                 O Islã possui uma pátria de origem, a Arábia, e sua era (Héjira, que significa migração) teve início em 622 depois de  Cristo, ano da fuga de Maomé da Meca. Atualmente, a Héjira se aproxima do término de seu XV século de vida. 
              Maomé não foi homem de cultura, mas sua eloquência, ardente e apaixonada, arrebatou massas. Ele conseguiu dar um exemplo único na história, conduzindo à conquista do mundo uma gente primitiva, que permanecerá fechada durante milênios nos limites de sua própria terra. 
                Para compreender o significado e a origem do Islã, será conveniente mencionar o que foi a antiga religião dos Árabes. Esta foi considerada uma estranha mistura de fetichismo e de naturismo, variável de tribo para tribo, porquanto algumas adoravam os astros e as forças da natureza, ao passo que outras acreditavam em determinadas divindades locais, representadas em forma humana ou de animais. Cada um destes ídolos tinha seu templo. O mais importante de todos era a Caaba (Ka'bak, que significa cubo), o grande sacrário que surgia em Meca, aonde, uma vez por ano, as tribos iam para adorar, além dos seus cem ídolos tutelares, também a pedra negra, um grande meteorito, que diziam ter sido enviado a Abraão pelo arcanjo Gabriel, para que ali fundasse um templo em honra ao deus supremo (Alá). 

                  

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quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

FATORES QUE MOLDARAM A CIVILIZAÇÃO ..


               Segundo os estudiosos, as sociedades de cultura mista não são características do Período Neolítico inicial, mas o foram na sua última fase. Seriam sociedades já estratificadas, divididas entre governantes e governados, em que a organização não era mais baseada no clã ou parentesco. Em lugar de uma única cultura neolítica, registra-se um conjunto de culturas, muito provavelmente distintas entre si. Por certo, havia tradições gerais, traços comuns que as identificavam; mas a aplicação regional dava expressões diferentes a esses princípios comuns; o cultivo, a olaria, a construção de choças, o aguçamento do machado pelo polimento. As comunidades em geral eram pequenas, aldeias ou vilas de extensão variável entre meio e três hectares. As choças eram de caniço, madeira ou pedras, recobertas de barro. 
                 Cada aldeia se auto-abastecia com os recursos existentes dentro de seus limites ou redondezas, sem intercâmbio com outras aldeias e comunidades. Essa auto-suficiência e a ausência de especialização das funções constituem as primeiras características restritivas do Período Neolítico. Entretanto, nas aldeias  e tumbas neolíticas mais primitivas, foram achados materiais trazidos de grandes distâncias. Isso prova quer a auto-suficiência não era tão completa como se pensava. E nem sempre eram artigos tão essenciais, como por exemplo a pedra de cortar (obsidiana), da Ásia anterior e Europa central, também foi encontrada em outras regiões bem distantes das primeiras.     
                    Isso indica que também existiam alguns rudimentos de especialização intercomunal. Em várias partes da Europa e da Ásia anterior, foram exploradas pedreiras, e dessa atividade nasceram grupos mineiros, com técnicas complexas de perfuração de poços e abertura de galerias subterrânea. Do produto extraído se fabricavam machados melhores, depois distribuídos por extensas zonas. É provável que grupos mais primitivos tenham convivido com outros mais evoluídos e estabeleceram relações de troca. Assim, apesar da inicial auto-suficiência, estabeleceram-se entre vários núcleos um certo comércio de artigos não essenciais, num sistema de trocas. Nas cavernas de Dordonha, na atual França centro-ocidental, encontram-se, por exemplo, cunhas mediterrâneas trazidas do Sul.   
                  Os grupos mais desenvolvidos relacionavam-se de modo mais intenso do que os grupos coletores. Mas o contato com o mundo exterior era sempre acidental e ocasional. Durante a maior parte do tempo, tiveram que adaptar seu modo de vida a um ambiente limitado. E as culturas se diversificavam porque cada ambiente oferecia a cada comunidade perspectivas peculiares de descobertas e invenções.  
                       Ao que parece, a a estrutura do clã e do parentesco, nas comunidades, prevaleceu durante a revolução neolítica. A terra é propriedade do clã que a cultiva, enquanto as pastagens pertencem a todo o grupo. Em grupos estritamente cultivadores, o parentesco era fixado pela linha materna de descendência, graças ao importante papel que a mulher desempenhava na economia coletiva. Era  o poder do matriarcado.  Quando predominaram as atividades de produção (construção em geral, olaria, metalurgia, além da agricultura), a liderança econômica e social passou para o homem e surgiu o patriarcado. Todas essas instituições advieram da cultura mista. 
                Aos poucos, a dupla direção da economia (agricultura e pecuária) trouxe contradições. O aumento da população tornou necessária a expansão territorial. Só se poderia alimentar um maior número de indivíduos se fossem cultivadas novas terras, e descobertas novas pradarias para os rebanhos e manadas. Tinha-se domínio sobre as provisões e o ambiente, era até possível fazer previsões; em compensação, secas, inundações, tempestades e pragas podiam frustrar irremediavelmente os planos. Também as reservas eram reduzidas demais para uma situação dessas. 
                   Foi justamente nesse ponto da civilização que surgiram as primeiras disputas. As antigas ferramentas utilizadas para o cultivo passaram a ser usadas em combate contra os adversários que disputavam as terras mais férteis. Mais tarde essas ferramentas foram aperfeiçoadas para a guerra. 
                  Expandindo-se em busca de novas terras férteis, grupos diferentes acabavam muitas vezes se encontrando. E, à media que escasseavam as terras de fácil  cultivo, a competição pelos territórios nem sempre se dava pacificamente. 
                  Na realidade, a economia neolítica não oferecia nenhum estímulo material para produzir mais do que o camponês e sua família necessitavam até a próxima colheita. A comunidade pode sobreviver sem produzir excedentes, o que restringe sua produção, e portanto sua evolução. 
             As contradições só seriam superadas com o advento do excedente, ou seja, de uma produção superior às necessidades. Isso foi obtido através de um processo técnico e em especial pela utilização do metal (de início o cobre), com a consequente introdução da metalurgia. 
                Como consequência disso tudo, as atividades e a organização social sofreram mudanças substanciais. Outros setores de produção, extra-alimentares, são revistos e repensados. Concretiza-se e acelera-se o processo de divisão do trabalho, em gestação desde a sociedade neolítica comunitária; a  primeira distinção nítida foi a que se verificou entre as funções espirituais e as materiais. 
               Já na sociedade neolítica, o guardador dos celeiros, o distribuidor de alimentos, enfim, o responsável pela subsistência da comunidade, tinha dentro dela um papel próximo ao de sacerdote. Como tal, encarregava-se do estudo do tempo de plantação e colheita, engendrando práticas mágicas para garantir seu prestígio. Aos poucos, sua atividade se apura cada vez mais até constituir prerrogativa de uma figura destacada das outras: o sacerdote. Quando o metal foi incorporado ao acervo da humanidade, surgiu nas comunidades uma classe inexistente até então: os metalúrgicos, que são os primeiros especialistas, os "técnicos" primitivos. Os "mistérios" do ofício eram transmitidos em herança, seu conhecimento é patrimônio de clãs privilegiados. É que a metalurgia é a primeira ocupação não-doméstica, destinada a satisfazer a demanda de toda a sociedade. Por conseguinte, os que a ela se dedicam devem viver do excedente de produção do restante da coletividade. Depois dos sacerdotes, talvez seja essa a primeira camada social a se afastar da mera produção de alimentos. Se a nova classe depende dos agricultores para subsistir, em troca ofereciam os utensílios que produziam para facilitar a produção de alimentos. 
                   A adoção de ferramentas abala o regime de auto-abastecimento restrito. Cada indivíduo sacrificará sua independência, em troca de ferramentas que não pode produzir, e que só consegue obter pela troca. Nesse momento ficou evidente que era preciso produzir um excedente alimentar para que ele possa funcionar como objeto da troca pelos utensílios. 
               O mesmo se dá com a aldeia. O minério geralmente está localizado em montanhas áridas, e a matéria-prima quase sempre deve ser importada; seu uso regular cria um comércio de trocas de produtos essenciais. Numa unidade regional se vê na necessidade de obter materiais do exterior; é levada a intensificar a produção de alimentos, para manter os seus especialistas e para trocar com materiais de outras. 
                     O homem já conhecia a importância das armas, tanto para garantir a proteção de seu território como para defender-se de invasores que, principalmente em épocas de secas, tentavam apoderar-se de seus suprimentos alimentares. Portanto já conhecia a guerra. Agora, com a evolução da economia, recorre a ela cada vez com mais frequência e ardor. Os guerreiros, antes escalados para proteção dos acampamentos lavradores, passam a formar uma camada social isolada. O metal foi ainda mais valorizado, porque as armas que dele se faziam eram mais eficazes. 
                     A divisão do trabalho, além de fixar as atribuições de cada indivíduo ou grupo social, sinônimo de especialização,  acarretou a partilha dos frutos do trabalho, sinônimo de propriedade.  A partir daí, a histórias da civilização dispara; surge a roda, o caro de boi, o burro de carga, o barco a vela, e as novas invenções vão se sucedendo. 
                  Os vales do Rio Nilo, do Tigre-Eufrates e do Indo foram o berço do fenômeno da produção, há mais de 5 mil anos. É nessa época que se registra a existência das primeiras cidade da história. Isso porque a produção agrícola assegurava condições de vida a uma população de artesãos especializados, comerciantes, sacerdotes, funcionários. 
            Vestígios da cidade mais antiga conservaram-se em Jericó, nas proximidades do mar Morto, na palestina. Eles testemunharam a superposição de cidades no mesmo espaço. A primeira delas, cujos edifícios e muros eram de barro, entrou em declínio; outra foi erigida sobre suas ruínas; outra sobre essa, e o processo repetiu-se várias vezes. Há depósitos de ruínas com 13 metros de altura, servindo de base a outros edifícios; são os "tel" (colinas), ainda frequentes em vários pontos de Israel e da Jordânia. 
                Nas diversas e sucessivas camadas dos "tel" podem ser analisadas as radicais modificações da cultura. Elas são o mais eloquente atestado da sedentarização dos povos.                      Os principais fatores que moldaram e continuam moldando a civilização, indubitavelmente são as condições geográficas, geológicas, econômicas, raciais e psicológicas. 
                  A civilização é a ordem social que está permanentemente promovendo a criação cultural. 
                       São quatro os elementos que constituem a formação civilizatória: 
  1. A provisão econômica; 
  2. A organização política; 
  3. As tradições morais; 
  4. O acumulo de conhecimento e as artes. 
                      Tudo começa quando o caos e a insegurança chegam ao fim. Quando o medo é dominado, a curiosidade e a construtividade se vêem livres, e por impulso natural o homem procura a compreensão e o embelezamento da vida. 
                      O homem sempre teve que obedecer à natureza. As cidades foram construídas com permissão dos terremotos e vulcões, por exemplo; eles podem simplesmente destruir tudo com a maior indiferença. 
             Certos fatores condicionam a civilização, podendo estimulá-la ou embaraçá-la. Primeiro, as condições geológicas. A civilização é um interlúdio entre as eras glaciais; a qualquer momento a corrente de congelação pode retornar a encurralar a vida num segmento da Terra. Esse fator, em nossos dias, está cada vez mais presente devido ao descontrole ambiental e consequente aquecimento climático. 
                As condições geográficas têm enorme influência. O calor dos trópicos e os inumeráveis parasitos que os infestam revela-se hostis à civilização; a letargia, a doença e a precoce maturidade desviam das coisas não essenciais as energias que fazem a civilização e as enfocam unicamente no comer e no reproduzir-se; nada sobeja para o pábulo das artes e do espírito. A chuva é necessária  porque a água é o médium da vida, mais importante ainda que a luz do sol; o incompreensível capricho  dos elementos pode condenar à seca regiões outrora florescentes, como Nínive e Babilônia, ou pode dar força e riqueza a cidades aparentemente fora das principais linhas de transporte e comunicação, com as da Grã  Bretanha ou do Estreito de Puget. Se o solo é fértil em produtos agrícolas e minerais, se os rios oferecem fácil via de transporte, se a linha costeira é provida de portos bem abrigados, e se, acima de tudo, uma nação está situada no trajeto duma rota comercial, como Atenas ou Cartago, Florença ou Veneza, então a geografia sorri e nutre a civilização, embora não a crie.  
                  As condições econômicas são mais importantes. Um povo pode possuir excelentes instituições, um nobre código moral, e mesmo o senso das ates, como os índios americanos; mas se se perpetua no estágio da caça, se para existência depende da precariedade dos animais nativos, esse povo nunca passará da barbárie à civilização. Um povo nômade, como os beduínos da Arábia, pode ser excepcionalmente vigoroso e inteligente, pode revelar qualidades de caráter, como a coragem, a generosidade, a nobreza; mas sem o sine qua non da cultura, que é a continuidade da alimentação, essa inteligência se desperdiçará nos perigos da caça e nas tricas mercantes, e nada ficará para as amenidades, as artes e os requintes da civilização. 
                    A primeira forma de cultura foi a agrícola; quando o homem se fixou para cultivar o solo. Nesse estágio passou a acumular provisões para o incerto dia de amanhã, e acha tempo e razão para civilizar-se. Dentro deste estreito círculo de segurança - bom suprimento de água e alimento - o homem constrói sua cabana, seus templos e escolas;     inventa instrumentos de trabalho, domestica o asno, o cão, o porco, o boi, o cavalo e por fim a si mesmo. Aprende trabalhar  com regularidade e ordem e, então, passa a viver mais tempo e transmite mais completamente aos filhos a herança mental e moral da raça.    
               A cultura sugere a agricultura, mas é a civilização que sugere a cidade. Sob um aspecto,  a civilização é o hábito da civilidade; e a civilidade é o refinamento só possível na cidade. (A palavra civilização vem do latim - civilis - que pertence aos cidadãos civis e é comparativamente nova. Não aparece no dicionário do Johnson   de 1772, ali ele preferiu usar a palavra civility). Para o bem ou para o mal, é para a cidade que refluem a riqueza e o cérebro produzidos pelo campo; na cidade a invenção e a indústria multiplicam o luxo, a comodidade, e o lazer. É na cidade que os mercadores se encontram e trocam mercadorias e ideias; nessa mútua fecundação dos espíritos, a inteligência se apura e é compelida a criar. Na vida urbana alguns homens se conservam fora do campo material e produzem ciência, filosofia, literatura e arte. Portanto, a civilização começa na cabana do camponês, mas só floresce nas cidades. 
                Estas são, portanto, as condições da civilização que independem da raça. Podem aparecer em qualquer continente e em qualquer cor; em Pequim ou Déli na Índia, em Mênfis ou na Babilônia, em Paris ou Londres, no Peru ou na península de Iucatã no México. Isso prova que não são as grandes raças que fazem uma civilização, mas sim as circunstâncias geográficas e econômicas que criam a cultura, que por sua vez, cria os novos tipos. Os ingleses não fizeram a civilização inglesa, esta é que fez o povo inglês; se ele a leva para onde vai, e se põe um "smoking" para um jantar no Tumbuctu (cidade no centro de Mali), isso não quer dizer que ela está impondo sua civilização; está apenas admitindo que é a sua civilização que dirige seus atos. Qualquer outra raça faria o mesmo, se fosse beneficiada pelas mesmas condições materiais que beneficiaram os ingleses; o Japão, por exemplo, reproduz no século XX a história da Inglaterra no século XIV. Portanto, a civilização se liga à raça unicamente no sentido de ser com frequência precedida pela fusão de várias estirpes, que gradualmente se assimilam num povo relativamente homogêneo.  
                   Essas condições físicas e biológicas não passam dos pre-requisitos da civilização; não a constituem, não a geram. Sempre entram em jogo fatores psicológicos muito sutis. É preciso haver ordem política, mesmo que quase se aproxime do caos, como em Florença e Roma durante o Renascimento; os homens têm que sentir que há mais alguma coisa no mundo além da morte e dos impostos que são inevitáveis. É preciso que haja alguma unidade de língua, para mediação do intercâmbio mental. Por meio da Igreja, da família, da escola ou do que seja, é necessário que exista um código moral unificador, algumas regras do jogo da vida, aceitas mesmo pelos que as violam, que deem à conduta alguma direção e estímulo. Talvez também seja preciso unidade de fé, pode ser uma fé qualquer, utópica ou sobrenatural, que ele a moralidade de mero cálculo á devoção, e que, a despeito da sua brevidade, dê nobreza  e significado á vida. E finalmente,  deverá haver educação, que é o meio de transmitir a cultura. É graças à iniciação, imitação ou instrução, transmitidas pelos pais, professores ou orientadores,  que a herança mental da tribo transfere-se às novas gerações, como o instrumento que elevou o homem acima da pura animalidade. 
               O desparecimento destas condições pode destruir uma civilização. Um cataclismo geológico ou profunda mudança climática; uma epidemia impossível de ser combatida, como a que abateu a metade da população do Império Romano sob o reinado dos Antoninos, ou a Peste Negra que pôs fim à Era feudal - (aqui lembro das superbactérias que pouco a pouco estão se firmando); a exaustão das terras ou ruína da agricultura devida à exploração exagerada dos campos pelas cidades, o uso indiscriminado de agrotóxicos que contaminam e tornam imprestáveis rios e terras cultiváveis, resultando em precária dependência da importação de víveres de fora; a escassez de recursos naturais como combustíveis e matérias primas; uma mudança nas rotas comerciais, que deixa uma nação em desvantajosas condições de tráfego; a decadência mental e moral devido ao urbanismo desordenado com a consequente queda da disciplina e a escalada da criminalidade. Podemos considerar também a alteração étnica com uma desordenada permissividade sexual ou uma filosofia pessimista ou quietista; a inferiorização da elite dirigente em virtude da esterilidade e do controle de natalidade pelos mais aptos, a relativa pequenez das famílias que melhor poderiam contribuir para a elevação da raça; uma patológica concentração da riqueza que determine guerra de classes, revoluções e exaustão financeira; eis alguns dos caminhos que levam as civilizações á morte. 
              Uma civilização não é coisa ingênita e imperecível, mas algo tem de ser de novo adquirido em cada geração, qualquer colapso no seu custeio ou na sua transmissão pode levá-la ao fim. O homem difere dos animais unicamente pela educação, a qual podemos definir como a técnica de transmitir civilização. 
               As civilizações são gerações de alma racial. Como a família liga as gerações e passam a herança dos velhos para o moços, assim também a escrita, a imprensa, o comércio e os meios de comunicação ligam as civilizações entre si, e preservam para as culturas vindouras todos os valores adquiridos. Antes que a morte sobrevenha, reunamos a nossa herança e oferecemo-la aos nossos filhos. 

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