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segunda-feira, 30 de março de 2020

O HOMO SAPIENS E O OURO



              Em todo o mundo o ouro é proclamado como o rei dos metais. Ele é protagonista de muitas fábulas e lendas, as quais, naturalmente refletem a importância que este lindo metal sempre teve na vida dos indivíduos e dos povos. Embora os homens sempre lhe houvessem ambicionada a posse, nem sempre gozou de boa fama.  Realmente, lendas e fábulas, condensando a experiência amarga de séculos , representam-no como um autêntico semeador de males. Da ingênua história da galinha encantada, que botava ovos de ouro, à trágica epopeia dos Nibelunges , que custodiam o "Ouro do Reno", da mítica empresa de Jasão, que conquista o Rosão de Ouro, ao tormento do ávido rei Midas, que transforma em ouro tudo quanto toca, as vicissitudes do nobre metal estão sempre entremeadas de castigos, desilusões, dores, lutos e crimes. Se tais são as fábulas, não se pode dizer, todavia, que a realidade seja muito diferente. 
              Mas quais são os motivos por que o ouro foi proclamado de maneira tão unânime, o rei dos metais? Antes de tudo, ele é belo; possui esplêndida cor amarela brilhante. É bastante pesado e também muito flexível e maleável. Pode ser laminado até se obterem folhas de espessura de dois milionésimos de milímetro. É inalterável ao ar; a a ferrugem, que destrói o próprio ferro, não o afeta. 
             As moedas e as jóias, restituídas à luz pelas escavações dos túmulos e das cidades sepultadas, e os escritos dos historiadores antigos e poetas nos dão uma ideia bem clara da importância que o ouro teve nas civilizações orientais  do passado e mediterrâneas. 
           No antigo Egito, ouro e dinheiro eram sinônimos; objetos de ouro se encontram espalhados a granel, nos fabulosos tesouros dos faraós, cujos belíssimos adereços demonstram a grande habilidade dos artifícios egípcios. Homero fala de baixos-relevos executados em chapas de ouro, que decoravam as paredes do palácio de Menelau. Plínio e Heródoto referem-se a estátuas, todas de ouro maciço, também de dimensões colossais, existentes nos templos da Grécia e do Oriente. 
                 Em Roma, no ano 215 a.C., foi promulgada uma lei que proibia às mulheres usar mais de quinze gramas de ouro nos ornamentos pessoais. A austeridade dos costumes corria parelha com a modéstia dos cidadãos. Mas, em seguida às vastas conquistas, que proporcionaram enorme presa de guerra e também a posse de numerosas minas, os imperadores e os ricos exibiram, em matéria de objetos de ouro, um luxo e uma abundância compráveis somente à magnificência das cortes orientais. 
                 É certo que o Oriente parecia ser a terra mais rica em ouro, mas os Etruscos, e mais tarde os Romanos, dedicaram especial atenção à extração do precioso metal. Na Naturalis História", Plínio diz que, no "agro vercelês", era proibido empregar mais do que 5.000 homens no trabalho das areias auríferas. 
               Os povos bárbaros amaram grandemente o ouro e exibiram colares maciços, braceletes e fivelas, para ornamentar seus chefes. Todavia, suas invasões, com a exaustão das jazidas e a pobreza dos comércios, causaram rarefação e dispersão do ouro, cujo prestígio diminuiu sensivelmente. 
                   A produção do ouro na Idade Média foi mínima, em face da antiga. Foi uma época de muito pavor devido às mortes praticadas por fanáticos religiosos que queimavam as pessoas consideradas hereges. As minas foram quase abandonadas totalmente e somente os Árabes as reativaram, na Espanha.  Mas, se diminuiu a quantidade do ouro, não diminuiu seu encanto. De fato, os alquimistas demonstraram bastante afã na procura da famosa pedra filosofal, que poderia transformar em ouro os vis metais. Contudo, se os alquimistas não conseguiram encontrá-loem seus alambiques, encontraram-no os grandes navegadores, atirando-se à descoberta de novas terras. 
               Dois objetivos visava a viagem de Cristóvão Colombo: propagar a fé e encontrar ouro. Talvez Martim Afonso Pinzon e seus companheiros não houvessem seguido o grande genovês se não estivessem atraídos pela miragem de atingir o distante Cipango, onde se dizia ser o ouro tão abundante que era empregado para cobrir os tetos dos templos e dos palácios. 
               Mas devíamos chegar ao século XIX, para assistirmos à corrida do ouro. Na Califórnia, em 1579, já Sir Frances Drake, o corsário tornado almirante da marinha inglesa, vira o ouro misturado com areia. Muito ocupado, porém, para demorar-se naquelas terras, não o apanhara. Cerca de três séculos depois, dois homens descobriram, involuntariamente, o precioso metal, quase no mesmo lugar. O primeiro deles foi G. Augusto Sutter, nascido na Alemanha e emigrado para a América em busca de fortuna. Atraído pela fertilidade daquela zona, estabeleceu-se no vale do Sacramento, com o intuito de formar uma grande colônia agrícola. Bem cedo se tornou o homem mais importante do lugar. Mas, um dia, um seu jovem carpinteiro, James Wilson Marshall, ao controlar um canal de descarga, onde deixara a água correr a noite inteira, viu brilhar algumas palhetas entre a areia levada: o ouro!
               Wilson Marshall comunicou imediatamente a descoberta a Suter e ambos, de comum acordo, resolveram manter segredo, para não convulsionar a tranquila existência da colônia. Mas foi um segredo de breve duração. Misteriosamente, difundiu-se a notícia de que, no vale do sacramento, havia ouro, e, pouco tempo depois, uma enorme multidão de buscadores de ouro acorria à Califórnia. 
                Daquela improvisada e fabulosa riqueza, foi vítima Sutter; expropriado de suas terras, morreu na maior miséria em 1880, distante do lugar que ele sonhara tornar tão propício à agricultura. Em 1849, começou, pois, a corrida do ouro, em todas as terras onde se descobriam novas jazidas: a Califórnia, a África do Sul, o Canadá, a Austrália, ficaram sendo a meta de inúmeros aventureiros, que para lá acorriam de todos os pontos do mundo. Suas histórias estão repletas de fadigas e perigos, de rapinas e lutas, de riquezas conquistadas á custa de sacrifícios inauditos e perdas, às vezes, em poucas horas, nas casas de jogo que ali pululavam. 


                    Na época do descobrimento do Brasil, os portugueses tinham todo o interesse voltado para os presumíveis metais preciosos da nova colônia. E, enquanto essas riquezas sonhadas não brotavam da terra, a coro decidiu a exploração agrícola do solo brasileiro. 
           Somente no fim do século XVI apareceram ouro, prata e outros metais, em pequena quantidade, na Capitania de São Vicente. Mas, somente quando se descobriram maiores jazidas, ao sul de São Vicente, é que Portugal se animou a organizar uma exploração sistemática e bem aparelhada. Entre 1586 me 1604, uma verdadeira multidão de mineiros, fundidores, ferreiros e outros trabalhadores especializados aportaram no Sul do brasil, devidamente equipados para exercerem suas funções. Nessa época, as lavras de São Paulo, Curitiba e Paranaguá desempenharam um papel preparatório para a grande idade do ouro no Brasil. 
               Quando a exploração do ouro começou alguns trabalhadores garimpeiros se viam, de uma hora para outra, donos de importantes jazidas. Foi o que aconteceu a um certo Miguel Sutil, modesto comerciante nas cercanias de pequenas lavras do sertão de Mato Grosso. Enviou ele dois escravos em busca de mel e recebeu de volta pepitas de ouro, achadas por acaso. 
              As lavras de Cuiabá formavam, juntamente com outras próximas, o primeiro núcleo minerador de fama. Sua celebridade atravessou os limites do Brasil e chegou a Portugal, chamando as atenções para a colônia. Pessoas de várias classes e tipos afluíram às lavras de Miguel Sutil: pobres e ricos, nobres e plebeus, negros, brancos, escravos e índios. A terra tornou-se campo de arrojadas aventuras, e nela a vida era um ofício altamente inseguro e perigoso. Raro era o dia que acabava sem um crime. A morte era fato comum, e o modo mais banal de morrer era assassinado ou de fome. O roubo não causava espanto. Roubavam os negros, os brancos, os índios. Até os padres roubavam. A desordem chegou a tal ponto que só os viajantes munidos de passaporte podiam entrar em Cuiabá. Mas um passaporte não era difícil de forjar. Não havia proibições nem decretos intransponíveis. Impostos, taxas e quintos eram sonegados á coroa. De todo modo se burlava o Governo e suas determinações. As dificuldades de fiscalização ainda continuam até hoje, e o tráfico e burla fiscal é incalculável. 
                   Durante sete anos (1674 x 1681), Fernão Dias Pais, acompanhado de seu filho, Garcia pais, de seu genro, Manuel da Borba, e de dezenas de índios e negros, embrenharam-se pelos sertões da parte centro-sul do Brasil. Não descobriu as esmeraldas e prata que buscava, mas abriu caminho pára outras expedições e contribuiu para a formação dos principais arraiais mineiros.
              A região fascinava os sonhadores do ouro. Em 1693, o paulista Antônio Rodrigues Arzão entrou pelos sertões das Gerais á procura de índios para escravizar, e descobriu ouro. Cinco anos depois, outro paulista, o taubateano Antônio Dias de Oliveira, descobriu o precioso metal em Vila Rica, hoje Ouro Preto.  As ricas jazidas imediatamente atraíram para lá numerosas expedições. 
              Ao saber das boas notícias, Portugal respirou aliviado e criou novo alento; suas finanças minguavam inexoravelmente, e o ouro brasileiro podia não só devolver à metrópole o passado esplendor, como ainda levá-la a um fausto maior. Mas o Brasil, como colônia, continuou pobre até o século XVIII. As pessoas, estas sim, ficavam cada vez mais ricas. Segundo o historiador português Pinheiro Chagas, "a metrópole fazia quanto podia, não para enriquecer e desenvolver a colônia, mas para sugar os recursos desse vasto território, tomando sempre a maior cautela em não deixá-la crescer em opulência e bem estar". 
                O trato de todo um século com metais preciosos foi escola para muitos homens, que se tornaram aptos a reconhecer os maiores tesouros, só descobertos na última década do século XVIII. 
              Durante o século XVIII a febre do ouro tomou conta de todos. Não havia quem não se embrenhasse nos sertões á procura de fortuna. O Brasil conheceu, então, um esplendor que assombrava a própria Europa. A Colônia, agora enriquecida, já não dependia tanto da metrópole. O monopólio comercial da coroa ia aos poucos dando lugar a uma participação de lucros. 
               Politicamente começa a correr o desejo de cortar os vínculos que prendiam o Brasil a Portugal. Nas Minas Gerais, centro do ouro, formou-se um inquietante núcleo de conspiração e revoltas contra a coroa. 
                Profundas modificações sociais se efetuaram. Na época da cana-de-açúcar havia praticamente só duas classes sociais: o o senhor e o escravo. O ouro criou uma terceira, intermediária, formada de pequenos mineradores, artesãos, comerciantes, intelectuais e funcionários da administração. O trabalho escravo também se diferenciou: às vezes se fazia afastado do proprietário, às vezes sob suas vistas, às vezes até por conta própria. Vila Rica, núcleo minerador dos mais famosos , foi o centro de grande desenvolvimento. Ali se concentraram os intelectuais que no último decênio do século XVIII organizaram a Inconfidência. 
                A população brasileira, do século XVII ao XVIII, crescera dez vezes com multidões que provinham de toda parte da colônia e do exterior, e se concentravam sobretudo nas regiões auríferas. A abertura de uma ampla frente de povoamento promoveu o desenvolvimento das vias de comunicação por terra. As Minas ficaram ligadas a São Paulo, Rio de Janeiro, Goiás, Mato Grosso, Bahia e a zona da bacia do Prata, de onde recebiam grandes levas de muares. Em 1763, a sede política da colônia foi deslocada de Salvador para o Rio de janeiro, a fim de controlar mais de perto as atividades na zona do ouro e usufruir prontamente seus benefícios. 
              Ao terminar o século XVII, a febre do oura havia passado. Os grande veios não mais produziam como antes. Desta época de glória faustosas igrejas e imponentes edifícios, atestado permanente das áureas grandezas do Brasil colônia. 
                  O ouro do Brasil ainda continuou a despertar a esperança e ambição nos últimos anos. Novas jazidas foram descoberta e atraíram multidões como na Serra pelada. Mas a época das grandes aventuras acabou. Hoje, a produção de ouro é constante, regulada por exploração industrial das jazidas. 

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domingo, 29 de março de 2020

OS FENÍCIOS - HOMENS QUE ADORAVAM O MAR

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                Os fenícios foram o povo marinheiro mais ativo de toda a antiguidade mediterrânea. Eles foram os primeiros que ousaram  navegar ao largo, além das Colunas de Hércules, só com o auxílio das estrelas; tão famosos no seu tempo que Salomão, rei de israel, ao dispor-se a construir naves para seu próspero reino, mandou buscar construtores navais na cidade fenícia de Sidom de Tiro e contratou marinheiros escolhidos entre aquele povo. 
                   Para os povos que habitavam os países do Mediterrâneo, principalmente para os gregos, os Fenícios sempre constituíram um enigma mais ou menos misteriosos. os helenos não podiam compreender de que maneira esse diminuto povo se transformado numa potência que se estendia por toda a região entre o Gibraltar e a costa do Líbano, mas que, afinal, não parecia detectável em parte alguma, o que lhes parecia ainda mais incompreensível.   Em vez de de manifestar através da presença de poderosas cidades ou da posse de grandes extensões de terra, essa potência era perceptível apenas através de um denso entrelaçamento de rotas marítimas, assinaladas pelas esteiras que seus frágeis barcos deixavam nas águas. 
                      É verdade que no ponto final de algumas dessas rotas existiam baluartes modestos, não mais que povoações cercadas por um muro, construídas quase sempre em enseadas bem protegidas contra os ventos. Ao se passar de barco diante desses baluartes, podiam-se distinguir alguns armazéns de mantimentos, casernas, torres fortificadas, a sede do comando local, que era também o prédio que mais sobressaía entre os demais, e, às vezes, também um templo. No conjunto, porém, nada havia que se comparasse, nem de longe, com as metrópoles mercantis dos gregos. Em lugar algum se divisava sequer uma fachada de mármore, nem colunas, nem  estátuas coloridas de deuses. 
                 Contudo, acreditava-se que os porões dessas edificação acinzentadas estavam abarrotadas de mantimentos e riquezas maiores do que nas arcas de muitos reis.
                     A única certeza que se tinha era a de que eles pertenciam a um mundo completamente diferente do dos gregos. Eram orientais, mas evidentemente formavam dentre desse grande grupo um pequeno círculo exclusivo, que se guiava por regrar próprias e inescrutáveis. Não costumavam falar de si mesmos. Eles vinham, faziam seus negócios e tornavam a desaparecer. Era sobretudo essa seu estilo de viver que deixava todo mundo perplexo. 
                     Por tudo isso eram odiados e esse ódio, tendo de ser contido , transformava-se em escárnio e menosprezo. Mas eles eram, sobretudo, temidos, principalmente porque era tão difícil entende-los. 
                     Onde quer que eles se instalassem, mesmo nas suas grandes e suntuosas cidades situadas na costa do Líbano, os fenícios viviam mais no mar do que em terra firme. Suas comunidades se voltavam e se orientavam sempre para o lado das águas. A terra lhes servia, de uma certa forma, apenas como uma espécie de base que podia ser abandonada a qualquer momento, para mergulharem de novo no seu verdadeiro elemento.  
                    Não poucos capitães helênicos tinham sido obrigados a sufocar na garganta o grito de saudação á vista de uma costa virgem, ao verificar que por detrás de algumas rochas escondiam-se típica edificações da gente de Tiro e Sidom. O s fenícios tinham se instalado no Bósforo, na Itália, na Sicília, no litoral da Espanha e do Norte da África. Seus agentes assumiram funções de conselheiros juntos aos tronos dos monarcas egípcios e sopravam seus conselhos nos ouvidos de reis assírios, babilônicos e persas. Cooperavam até mesmo com os etruscos, um povo tão estranho como eles próprios. Onde quer que se estivesse, parecia impossível escapar à sua presença. Tanto que, por fim, se tornara corriqueira a ideias de que eles estavam envolvidos em todos os complôs dirigidos contra os gregos, pouco impoetando que os tivesse insuflado.
                 Pode ser que até mesmo "Alexandre - o Grande", que era genial para entender coisas que pairavam no ar, não tenha despendido o tempo necessário para compreendê-los completamente. Não obstante, ele conhecia suas intenções, pelo menos num determinado ponto. Ele sabia em que se baseava uma parte de sua autoconfiança e de sua convicção de serem diferentes dos demais povos; o mar era aliado dos fenícios. A existência humana encontra suas raízes no solo terrestre, não nas águas. A atitude de Alexandre mostra um sinal de fraqueza, pois, afinal, os seres humanos, em vez de anfíbios, são animais terrestres. 
              Alexandre teria percebido que no mar, e aliados às águas, os homens de Tiro eram realmente invencíveis, pelo menos em relação aos meios de que ele dispunha. Em terra firma, ao contrário, eles ficariam incondicionalmente à sua mercê. 
                Para resolver o problema, mesmo contra a vontade de seus soldados, Alexandre mandou construir um dique ligando Tiro à costa libanesa.
                    O aterro necessário levou seis meses para se completar, ao cabo do qual os soldados abandonaram as picaretas e voltaram a empunhar suas espadas. 
                 Alexandre não apenas conquistara uma cidade, mas também destruíra um mito, e certamente tinha disso plena consciência. Tanque que, embora costumasse tratar seus prisioneiros com relativa benevolência, resolveu estatuir um bárbaro exemplo em Tiro. Ao longo do litoral da ilha foram levantadas duas mil cruzes e nelas imolados igual número de homens da cidade. Trinta mil crianças, mulheres e pessoas idosas foram postas á venda, tornando-as escravas. O ato era de vingança, mas, ao mesmo tempo, calculado. O mundo inteiro deveria ficar sabendo que os fenícios, senhores do mar, tinham sido vencidos por ele. o senhor da terra firme. Passara a existir um único ídolo: Alexandre da Macedônia. 
                   Contudo, o mito criado em torno desse povo, por volta de 332 a.C., já perdurava há quase mil anos. Alexandre - o Grande, morreu de uma peste em 323 a.C. O grande conquistador foi eliminado, provavelmente, por um frágil mosquito que lhe transmitiu um vírus invencível. 
                Fica a pergunta: como seria o mundo se Alexandre não tivesse extinto esse tão glorioso povo do mar?
            Descrever-lhe todas as proezas, falar de todas as lendas que circulavam sobre o antiquíssimo povo Fenício tornaria a história do Homo Sapiens bem longa. Basta recordar que suas cidades costeiras (Os Fenícios possuíam um império construído sobre portos, e frotas, mas, não um grande domínio territorial, como Tiro e Sidom, foram, no segundo milênio a.C., as mais civilizadas de todo o mundo conhecido. 
                  Suas caravanas percorriam a Ásia até a Índia e o Tibéte, seus navios circunavegavam a África, arriscavam-se até a Inglaterra e a Islândia, e todos os objetos raros ou preciosos chegavam ao Mediterrâneo por seu intermédio. 
                  Foi um povo muito habilidoso, tanto nas artes como na carpintaria e marcenaria. Foram eles que, sob o reinado do grande rei Hiram de tiro, construíram o templo de Salomão, em Jerusalém; também foram eles que, quase três mil anos antes de Ferdinand e Lesseps, cavaram um canal entre o mar Vermelho e o Mediterrâneo, no mesmo percurso do moderno Canal de Suez.
                  Infelizmente, dos Fenícios restaram ainda menos sinais que os Hititas; suas cidades de Sidom e Tiro ainda estão em pé, é verdade, mas o povo de navegadores, que as tpornara poderosas e famosas, dispersou-se, sem deixar vestígios, entre os inumeráveis povos da Ásia. 
                Por muitos séculos antes de cristo, esse povo dominou o comércio do Mediterrâneo.  Os gregos os chamavam Phoiniques - que significava vermelho púrpura. E, de fato, na cidade de Tiro, fabricava-se a famosa tinta púrpura, obtida das glândulas de um marisco chamado "múrice" e usada como corante de tecidos. A si próprios, porém,  parece que os fenícios chamavam cananeus; sendo sua terra de origem. Eram semitas, portanto, parente dos hebreus. E sua língua era muito semelhante ao hebraico. Esta é a sua história. Aqui veremos como foram suas viagens pelo mundo desconhecido de então, suas vitórias e conquistas, e também como foram derrotados e dominados; e finalmente como desapareceram. 
             Partindo da região do Sinai (na parte asiática do Egito de hoje) os fenícios se instalaram, por volta de 3.000 anos a.C. numa estreita faixa de terra da S´[iria atual, entre as montanhas do Líbano, o Mediterrâneo, o rio Eleutero (Nahr-el-Kebir) e o Monte Camrlelo. A área, montanhosa, é pouco adequada á agricultura; os fenícios logo compreenderam a situação e voltaram-se para o mar, tornando-se excelentes navegadores. Com o cedro das montanhas do Líbano fizeram embarcações.  Suas gravuras foram encontradas num túmulo egípcio de cerca de 1.500 a.C. Audazes, empreendedores, eles distribuíam pelo Mediterrâneo ( e até bem mais longe) as  mercadorias do mundo inteiro. No ano 814 a.C., aproximadamente, fundaram Cartago, na África do Norte - centro que se tornou importante e chegou a desafiar Roma. 
               No século VII a.C. navegaram em torno do continente africano; partindo do golfo de Suez e retornando por Gibraltar. 
                  A independência das cidades fenícias desenvolveu nelas variadas  práticas políticas. Algumas eram dirigidas por monarcas, mas estes se viam obrigados a dividir o poder em "Conselhos de Anciãos" ou com as Confederações das Cidades".  Noutras havia mesmo regimes republicanos, estando o governo a cargo de juízes temporários - os sufetas. 
                 Havia, porém uma desvantagem nessa falta de unidade política; os fenícios passaram a lutar internamente, tornando-se presa fácil dos adversários.  os egípcios, ,por exemplo, dando-se conta disso, conquistaram a Fenícia por volta de 1600 a.C. depois também os hicsos dominaram o país, o que ocorreu por volta do século XIV antes da era cristã. 
               Libertada dos egípcios, nem por isso a Fenícia teve paz. Sidon, sua cidade maior e mais rica, foi arrasada pelos filisteus - povo que habitava o litoral da Palestina. Daí, por quatro séculos, Tiro passou a ser o principal centro fenício, fundando muitas colônias. Quando Hiram  era rei dessa cidade e salomão rei de Israel, desenvolveram grande comércio. 
               Havia, contudo, outras ameaças, principalmente a da Assíria. No século XI a.C., à procura de uma saida para o mar, os assírios ocuparam a cidade fenícia de Arad. Para deter a expansão, os fenícios propuseram o pagamento de tributos àquele país. Com isso mantiveram por algum tempo a ilusão da independência.  Um escrito assírio do ano 876 a.C. registra que os habitantes de Tiro, Biblos e Sidon eram obrigados a pagar "grande quantidade de ouro, chumbo, bronze e marfim, 35 vasos de bonze, algumas vestimentas de cores vivas e um delfim". 
               Quando Sargão II era rei dos assírios, estes tornaram a atacar a fenícia. O país procurou aliados, untando-se a egípcios e hebreus. Em vão. Todas as cidades caíram no cativeiro. Mas nos séculos VII e VI a.C., também os assírios foram conquistados pelos babilônios; no reinado de Nabucodonosor, Assíria e fenícia foram unidas sob o cetro desse novo império. Quando a babilônia, por sua vez, foi conquistada pelos persas no tempo do rei Ciro, a Fenícia passou a pertencer aos novos dominadores. Duzentos anos depois veio Alexandre da macedônia e conquistou a Pérsia. 
                 Segundo o arqueólogo brasileiro Bernardo de Azevedo da Silva ramos, os Fenícios estiveram no Brasil. É que existe uma gravação numa pedra do morro da Gávea, no Rio de Janeiro. Realmente a pedra existe e a gravação também. A tradução, se verdadeira, significa que os fenícios estiveram por qui há cerca de 2.800 anos. Contudo, apesar das evidências, não existe consenso a respeito.  O Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas aceita totalmente as evidências e a afirmativa daquele estudioso. Já os Instituto Histórico e geográfico do brasil opõe dúvidas; diz que as supostas inscrições podem ser resultado de fenômenos naturais, chama Bernardo ramos de "visionário".  De qualquer modo, mesmo outros autores acham possível que povos antigos tenham chegado até nós na antiguidade. Assim, porque não os fenícios que, indiscutivelmente eram muito corajosos e audaciosos, além de serem grande navegadores.  Pode ter acontecido que, nas suas incursões pelo Atlântico, levados por correntes marítimas, por aqui tenham aportado. Coragem para isso certamente não faltava a esses fundadores de tantos núcleos de civilização.  
           


            Apesar de rudes, os fenícios tinham uma cultura bem avançada para sua época. O alfabeto, como nós o conhecemos, deve-se aos fenícios. Antes deles, cada palavra era representada por uma figura ou imagem; com eles, os sons passaram a ser representados por símbolos, como são atualmente. Também a esse povo se deve a descoberta , pela posição dos astros, é possível orientar a navegação. 
                Eram hábeis artesãos. Produziam cerâmica, objetos de vidros jóias. Foram famosos por seus trabalhos em metal, tais como ouro, prata e cobre, que comercializavam juntamente com objetos e escravos trazidos do Egito, Pérsia, Índia, Babilônia, Arábia e outras regiões. O célebre templo de Salomão, de que fala a Bíblia, foi construído com o auxílio de fenícios. 
                 A religião dos fenícios divinizava as forças da natureza; isto nos mostra seu avançado pensamento. Contudo incluída o sacrifício de vidas humanas nos seus rituais pela natureza. Com o tempo, cada cidade fenícia passou a ter sua divindade particular, denominada genericamente de Baal. Estas cidades gozavam de independência, embora pagassem impostos aos centros da vida religiosa em Sidom e Tiro. 

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sexta-feira, 27 de março de 2020

O SISTEMA DE ESCRAVIDÃO HUMANA





                E escravidão, ou escravismo, é a prática social em que um ser humano, pela força, assume direitos de propriedade sobre outro ser humano designado por escravo. 
             Desde os tempos mais remotos, em algumas sociedades, os escravos eram legalmente definidos como uma simples mercadoria ou como despojo de guerra.
                É errôneo imaginar que somente os negros africanos foram usados como escravo. Desde a mais antiga civilização houve o sistema de escravidão. Na China muitos escravos morreram construindo a Grande Muralha; também no Egito eles escravizavam pessoas na construção das pirâmides. Na América, os Incas e Astecas utilizavam os escravos vencidos na guerra para fazer sacrifícios aos deuses. Em nossos dias, a escravidão é feita principalmente pelo sistema econômico e, em muitos casos, também social. Muitas mulheres são usadas e vendidas como escravas sexuais. 

A escravidão em Roma
                 Na Itália, o  costume teve suas origens durante as vitórias romanas sobre povos vizinhos da península itálica no século VII a.C. Nessa época, porém, a divisão das terras ainda em pequenas propriedades não exigia grande contingentes de mão de obra. Contudo, ela passa a se fazer cada vez mais necessária, á medida que progride a conquista da península e se modifica a estrutura econômico-social (século IV a.C); as terras concentram-se nas mãos de poucos patrícios (classe nobre,dos grandes proprietários) e muitos camponeses são desviados de suas atividades agrícolas para trabalhos bélicos. Por isso, os escravos passam a ser encarados como a mão-de-obra disponível, que pode ser encaminhada para fazer o trabalho nos latifúndios. Roma prossegue as conquistas. Grandes extensões da Europa, Ásia e África, sucessivamente, caem sob seu domínio. E muitos de seus habitantes são levados à península, escravizados. 
                No século I a.C. , uma segunda fonte aumentou o fluxo de escravos: o comércio, exercido por piratas de escravos trazidos da Áfreica, Espanha, Gália e sobretudo da Ásia Menor. E a condição de escravo podia decorrer também da servi poenae, punição aplicada entre os próprios romanos, pela infração de certas leis; emanava, além do mais, do direito paterno de vender os filhos; era também prerrogativa do credor, em relação ao devedor insolvente (direito que só muito mais tarde foi extinto). 
             O historiador inglês Blair calculou a proporção de três escravos para cada cidadão livre, durante o período que se estendeu a conquista da Grécia (146 a.C) ao reinado de Alexandre Severo (222 - 235). Com base nessa proporção, o número total de escravos durante o reinado de Cláudio (41 - 54) é estimado em 20.832.000. 
                A consciência da força coletiva foi despertada nos escravos pela vida em grupo. As primeiras manifestações de revolta contra o cativeiro arrebentam na Itália Meridional e na Sicília. 
             Por três vezes, com intervalos de trinta anos, um incidente doméstico suscitou uma grande sublevação. Essas revoltas, alimentadas inclusive pelo exemplo de violência dado pelas próprias autoridades, foram chamadas "guerras servis", porque sua repressão implicou em verdadeiras operações militares. E, para fazer frente à ameaça que elas representavam para a ordem social e a civilização romana, mas de uma vez facções aristocráticas colidentes se aliaram. 
                 As duas primeiras rebeliões partiram da Sicília para pontos da Itália Meridional. A primeira foi liderada por Euno, de 136 a 132 a.C., e derrotada pelo Cônsul Rupílio. Como uma música de fundo, uma série de revoltas parciais prepararam a segunda grande sublevação (104 a.C.). Comandada por Trifo e Atênio, foi tão infrutífera quanto a precedente. 
                A terceira "guerra" eclodiu na própria Itália. O líder era Espártaco, escravo trácio. Desde 73 a.C., ele vinha insuflando a ideia libertária entre seus iguais, até granjear 70 mil adeptos, entre os quais muitos celtas e germanos.Compreendendo que a permanência na Itália na condição de rebelde significava a morte, conduziu seus homens a verdadeira liberdade; abriu-lhes caminho pelo Norte da Itália para suas terras natais.  Entretanto, ultrapassada a Gália Cisalpína (no extremo Norte), Espártaco inexplicavelmente retornou à Itália Meridional.
            Foi quanto bastou. Crasso confinou-os à extremidade da península, enquanto Verres defendia a Sicília. No ano 71 a.C. terminara a luta e começava a caça aos rebeldes. O resultado foram 6 mil cruzes da Via Apia, a ornamentar o regresso vitorioso do general, que mais tarde se tornaria Consul. 
              Quando estourou a Terceira Guerra Civil, conhecida como a "Revolta dos Escravos",  a viagem do comandante Marco Licínio Crasso  tinha sido lenda; ela fazia paradas frequentes. Fora precedido pelas tropas que deveriam preparar as cruzes para sua chegada; ele próprio viajava com os prisioneiros, divididos em grupos, mantidos próximos uns dos outros por compridas cordas. Diante de seu exército, estendia-se a estrada, interminável e franqueada por cruzes vazias; atrás de seu exército, em cada cruz estava pregado um homem. Crasso não tinha pressa. Aproximava-se tranquilamente da capital, interrompendo a marcha três vezes por dia. Durante as paradas, tirava-se a sorte para a sucessão de prisioneiros a crucificar entre aquela etapa e a sucessiva. O exército fazia 15 milhas por dia, e a cada dia deixava atrás quinhentos crucificados, como marcos vivos da estrada. (citação do romance Espártaco, de Arthur Koestler).
               Foi na Via Ápia, no ano 71 a.C. entre Cápua e Roma, 6 mil cruzes assinalavam o fim de uma insurreição, que por três anos ameaçara a República Romana. Frustrara-se o levante de 70 mil escravos comandados por Espártaco. Os corpos expostos, crucificados, eram advertência de roma a novas tentativas de libertação.
          Aos cidadãos romanos, entretanto, o espetáculo não despertava nenhum sentimento humano mais profundo. Não havia porque lamentar escravos, meras "coisas" cujo destino era vontade do "dono", seu senhor. Prisioneiros de guerra que, poupados à morte, passavam a ser patrimônio do estado. Constituíam, portanto, assim como o resultado dos saques, bem vendáveis a particulares.  
                O fim da escravidão era coisa inconcebível. Quase todo trabalho produtivo nos domínios romanos era obra de escravos. 
                  Em Roma os escravos eram divididos em "servi publici", de propriedade  do estado, e "servi privati", de propriedade dos cidadãos. Os primeiros serviam aos magistrados em trabalhos como os de mensageiro, serventes de cortes baixas, prisões, limpeza de esgotos e manutenção de aquedutos. O mesmo valia para as províncias romanas. 
                 Os servi punblicis eram de duas espécies: os que compunham família rústica e os que formavam a família urbana. Os primeiros trabalhavam no campo, chefiados pelos "villicus", também escravo. Ocupavam-se com a criação de gado, o preparo da comida, a confecção de roupa e instrumentos, bem como assistiam seu senhor praticar esportes rurais. A maioria,entretanto, era aproveitada no pastoreio, atividade que ocupava, permanentemente, o homem que devia se alimentado o anos todo. No mais, cuidavam das hortas e pomares que cobriam grandes extensões da península a partir do século a.C.
                A família urbana era composta pelos servos incumbidos dos afazeres domésticos na cidade: alimentação, asseio, conforto e entretenimento do amo. Os mais belos eram destinados à guarda dos senhores, em suas andanças; os mais fortes, ao transporte de liteira; os mais diligentes e cortês, à função de mensageiros. O desenvolvimento dos hábitos luxuosos exigiu cada vez mais escravos, diversificando suas funções até o exagero de haver criados exclusivamente para friccionar o amo após o banho, ou cuidar de suas sandálias. 
                 Médicos, secretários, bibliotecários, copistas, preparadores de pergaminho, filósofos, pedagogos, preparadores, contadores, gerentes e agentes de comércio dependiam da aristocracia. O mesmo ocorria com atores, mímicos, malabaristas e gladiadores, este eleitos entre os prisioneiros mais treinados na guerra; geralmente samnitas, gauleses e trácios, que eram alimentados e frequentavam escolas especiais. À medida que o gosto pelos jogos sangrentos se aguçava entre os romanos, cresce o número de escravos gladiadores. 
                Pelo que se observa, a única atividade que restava aos romanos, além da guerra, era a de ser amo
                A forma de tratar os escravos tinha suas normas e peculiaridades especiais. 
               Em De agricultura, um tratado de economia, Catão fixa em trinta o número de escravos da propriedade ideal. E estipula certas normas para seu tratamento que são: cuidar que não morram de fome, de trabalho extenuante ou por excesso de espancamento. os escravos eram um capital que devia ser preservado. Quando envelhecidos ou doentes, deveriam ser vendidos, não apenas com "as velhas carroças e ferros velhos", mas também com "os bois que também estavam ficando velhos". 
             Nos primeiros tempos da escravidão, as leis outorgavam ao amo o domínio total sobre o escravo, e subtraiam a este o direito de propriedade. Assim, tudo que ele eventualmente possuísse era, por direito,  do amo. Na prática, entretanto,  era-lhe permitido acumular proventos, ou parte da própria produção, formando o que se chamava de "peculium" (pecúlio). A união entre escravo e escrava não tinha efeito legal, sendo considerada como simples coabitação, que o amo tolerava, mas podia desfazer a qualquer momento. E o direito penal era extremamente severo quando se julgava um escravo. 
                 Uma pequena diferença se fazia sentir entre o tratamento dispensado aos escravos rústicos e urbanos; os amos eram mais benévolos com estes. Em ambos os casos, no entanto, o único limite à arbitrariedade  dos senhores era seu próprio interesse econômico. 
                    Em Roma, a libertação só era admitida se conquistada por meios pacíficos ()manumissão); por outorga do próprio senhor, ou mediante pagamento . Se a manumissão se efetuasse por testamento, ou outro documento comprobatório, era justa; se nenhum documento a comprovasse, era minis justa. Em ambos os casos, a situação do escravo liberto não era muito clara. Só foi definida em 19 d.C., pela Lei Norbana que, com restrições, equiparava sua condição à dos colonos latinos; o liberto permanecia ligado ao senhor, por obrigações como a "obsequium" (deferência) e o "officium" (ajuda). A negligência no cumprimento destas obrigações acarretava, inclusive, a perda da liberdade. Nem o liberto nem seus filhos tinham direitos civis. Só em determinadas condições tornavam-se cidadãos. 
                 Muitas vezes, a manumissão mediante pagamento era de interesse do amo, que podia, assim, comprar escravos mais novos. O número de manumissão cresceu, até que os imperadores as limitassem; no ano 2 d.C. foram proibidas; em 8 d.C. a Lei Fúria Canina estabeleceu em cem o número de escravos libertos por testamento. 
                 Os libertos seguiam dois caminhos: fundiam-se à massa imensa de desocupados sustentados pelo estado, ou integravam à população, influindo em seus costumes e cultura. 
               A partir do século I, cada vez mais foram surgindo objeções morais á escravidão, a ponto de ela ser considerada incompatível com as leis da natureza. Os ideais igualitários do cristianismo endossaram tal concepção.  a cessão das guerras de conquista punha paradeiro ao fluxo de escravos. E as manumissões diminuíram o número dos já existentes. 
                 Mas a escravidão só terminou realmente com a transformação econômica radical, que esfacelara o Império Romano. E com o aparecimento das relações feudais, onde o trabalho produtivo era basicamente reservado aos servos que se encontravam vinculados á terra.
                 À escravidão sucedeu uma pseudo-liberdade, a servidão. O escravo simplesmente trocaria de amo; em vez de cervo do homem, seria servo da terra. 

A escravidão nas Américas
                 Desde a sua introdução no continente americano, a presença do escravo caracterizou as extensas plantações de produtos destinados à exportação. E foi o que ocorreu no Brasil, nas Antilhas e no Sul dos Estados Unidos. No entanto, quando esse tipo de agricultura não era a atividade econômica básica, a mão-de-obra escrava não se adequava satisfatoriamente, e tendia a perder importância no quadro geral da economia. 
           No Brasil, quando o açúcar, que então era a monocultura de exportação, entrou em decadência, surgiram outras atividades como a mineração de ouro em Minas Gerais; ao mesmo tempo diminuiu o número de escravos. 

                 A expansão marítima dos países Europeus, a partir de século XV, na qual se incluem a descoberta e a colonização do Brasil, foi apenas um capítulo importante da história do comércio europeu. A meta era o Oriente e suas especiarias tão valorizadas nas capitais do Velho Continente.
                 Com este espírito os portugueses aportaram em terras do Brasil. E foi com certa decepção que olharam as novas terras, parcamente habitadas por tribos primitivas. Eles, também, esperavam encontrar ouro, e essa foi outra decepção, porque os índios brasileiros não conheciam este metal tão cobiçado no Velho Mundo. 
               Mas à decepção do primeiro momento,seguiu-se a descoberta de uma mercadoria muito valiosa. Espalhado por larga faixa da costa brasileira, lá estava o pau-brasil, do qual se extraia um corante muito usado em tinturaria. A primeira ocupação do território brasileiro foi consequência de exploração dessa madeira de cor avermelhada.
                  As feitorias - entrepostos comerciais à beira-mar, próximo das matas onde se encontrava a árvore cobiçada - raras vezes eram estabelecimento permanentes. De modo geral, os portugueses fixavam-se numa determinada área até que se esgotassem as reservas naturais, mudando-se em seguida. 
                Esta exploração rudimentar quase não deixou rastro. Não serviu para fixar qualquer núcleo de povoamento. Sua única consequência foi a destruição impiedosa das florestas nativas. Por isso, a decadência da exploração do pau-brasil foi rápida. Em alguns decênios esgotava-se o melhor das matas costeiras, e o negócio perdeu todo o interesse. 
               Os nativos (índios) da colônia foram aproveitados no trabalho pesado desde os primeiros dias.  E foi graças á presença de tribos no litoral brasileiro que a empresa do pau-brasil se desenvolveu. Sua cooperação era facilmente obtida em troca de tecidos, peças de vestuário (principalmente coloridas), miçangas e rosários cristãos que os nativos gostavam de usar como colar; também foices, facões, canivetes, facas, panelas, e outras quinquilharias. Dessa forma não havia propriamente uma escravidão, mas uma troca de produtos. Os indígenas conheciam bem o local e iam para as matas devastando-as; e em seguida abandoavam aquele local e iam para outro, e assim foram destruindo as madeiras de pau-brasil até quase sua extinção. Mas chegou um momento em que os próprios portugueses resolveram agir e impedir essa devastação insana criando leis e proibindo a derrubada dessa preciosa madeira. 
                   Nos primeiros anos do século XVI, Portugal via o Brasil apenas como um entreposto comercial, mas as incursões de franceses e ingleses fizeram com que mudasse de ideia: ou se colonizava a nova terra ou ela passaria a ter outro dono. Era importante produzir algum produto que tivesse fácil aceitação na Europa para que fosse exportado. Colonizar significava plantar e produzir. Foi, assim, que iniciou-se o cultivo da cana para produzir açúcar para os nobres europeus. Significava também trazer colonos portugueses, pela sedução do lucro fácil com pouco trabalho. 
                  Atraídos pelas promessas de uma empresa lucrativa, o colono português jamais pensou em fazer o trabalho pesado. Veio para a colônia com empresário de um negócio rendoso, mas só a contragosto como trabalhador. Outros trabalhariam em seu lugar. 
                  Um circunstância reforçou esta mentalidade: o caráter da agricultura tropical. O cultivo da cana só é lucrativo em laga escala , isto é, em grandes unidades produtoras, reunindo um número avultado de trabalhadores. Para cada proprietário, deveria haver sempre muitos trabalhadores, que eram subordinados e sem propriedade.
             Por outro lado, era escassa a população de Portugal. A falta de braços na metrópole era tão grande que, em meados do século XVI, parte de seu território ainda se achava abandonada, a tal ponto que já fora introduzido o trabalho escravo. 
                    Mas quem trabalharia? De início pensou-se nos índios nativos. 
              Com a mesma benevolência - usando os métodos anteriores da troca de produtos europeus por mão de obra - de início os indígenas aceitaram trabalhar na lavoura de cana. Mas, à medida que afluíam mais colonos, ia decrescendo o interesse dos índios pelos objetos insignificantes com que eram pagos os seus serviços.
              O índio, por natureza nômade, adaptara-se bem ao trabalho esporádico e livre da extração do pau-brasil. (eles já costumavam derrubar as árvores para fazer suas plantações e, dessa forma, o trabalho não lhe era estranho).  O mesmo não acontecia com a atividade  organizada e sedentária como a agricultura, sujeita aos rigores da disciplina. 
                   Ao s poucos tornou-se necessário forçá-lo ao trabalho, manter vigilância para impedir sua fuga. Daí para a escravidão foi um passo. Não eram decorridos ainda trinta anos do estabelecimento da agricultura na colônia, e a escravidão do índio já estava consolidada. 
                 Forçados ao cativeiro, os indígenas resistiram, defendendo-se valentemente, guerreiros que eram. A princípio fugiam para longe dos centros coloniais. Mas logo tiveram de enfrentar os colonos que iam buscá-los onde estivesse. Com esse fim foram organizadas expedições especiais, com as "Entrada Paulistas" que avançavam pelo sertão de fugitivos ou, com esse pretexto, aprisionavam os nativos para utilizá-los nas lavouras. 
                  Acuados, os indígenas revidavam à altura, assaltando os estabelecimentos dos colonos brancos. E quando obtinham uma vitória não deixavam pedra sobre pedra, destruindo tudo e todos os que lhes caíam nas mãos. O núcleos de povoamento ao sul dos atuais Estados da Bahia e espírito Santo nunca puderam organizar-se normalmente devido às constantes incursões dos nativos. 
               Esta luta durou dois séculos. E causou tantas perturbações para a atividade da colônia que a coroa portuguesa foi obrigada a interferir. Contudo, a sua atuação foi quase sempre dúbia: permitia a escravização de prisioneiros de guerras "consideradas justas", e nunca conseguiu evitar na prática que os colonos continuassem a praticar excessos, do que resultou o extermínio de boa parte da população nativa. 
                No século XVIII, o Marquês de Pombal, primeiro-ministro português, procurou pôr um ponto final nos conflitos, considerando que os nativos jamais se renderiam. Criou-se uma legislação que garantia certos direitos aos nativos e estimulava os casamentos mistos. Mas a situação de fato pouco se modificou. Enquanto faltassem braços para a lavoura, o índio seria perseguido, com o amparo da lei contra ele.
            Um fator, porém, foi decisivo para a substituição do trabalho indígena: sua baixa produtividade. Além da resistência tenaz que opôs à escravidão, o índio era mau trabalhador, de pouca resistência física e,portanto, baixíssima eficiência. Sua civilização era muito primitiva. Não sabia trabalhar metais, apenas atingira o estágio da pedra polida, e só conhecia técnicas muito rudimentares de cultivo.  Não podia, por isso, adaptar-se à técnicas requeridas para altas produções nas grandes lavouras. Nesse momento a escravidão negra foi a solução alternativa. 
                     Os portugueses já estavam preparados para a substituição do índio pelo negro. Desde meados do século XV traficavam com negros escravos adquiridos nas costas da África. Serviços domésticos, trabalhos urbanos pesados e mesmo uma parte da agricultura eram incumbências de escravos, na metrópole portuguesa. Também nas ilhas da Madeira e Cabo Verde, colonizadas na segunda metade do século, o grosso do trabalho era realizado por braço escravo. 
                 Não se sabe ao certo quando apareceram pela primeira vez no Brasil. Há quem diga que vieram já na primeira expedição oficial de povoadores, em 1530. Mas, na segunda metade do século XVI, já eram numerosos.  
                   Na verdade, o comercio de escravos começou com os portugueses, seguidos pelos holandeses, franceses e britânicos, com a instalação de feitorias na costa, onde eram comprados os escravos. Entre 1450 e 1870, pelo menos 11,5 milhões de africanos foram capturados para a venda, dos quais talvez 10 milhões tenham sobrevivido aos horrores da travessia para as Américas. A maioria dos escravos era originária da costa oeste da África,mas por volta de 1800 a África Oriental contribuía não só para o sistema atlântico, como enviava escravos para a Índia e o mundo muçulmano. Nem isso fez a tradicional rota transaariana declinar.  
             A troca do braço índio pelo negro, que se prolongou até o fim da era colonial, foi rápida em algumas regiões - as mais ricas e importantes, como Pernambuco e Bahia, onde a lavoura canavieira exigia sempre mais trabalhadores - e lenta em outras áreas. Contra o negro havia um forte argumento: seu custo. Não que eles fossem caros na África. Mas morriam em grande número durante a viagem para o Brasil. Mal alimentados, amontoados nos porões dos navios, nas piores condições de higiene, somente uma parte dos cativos alcançava seu destino. Seu valor foi, assim, sempre muito alto no mercado colonial. Só as regiões mais ricas e florescentes podiam pagar o seu preço.  As zonas mais pobres tiveram que se contentar com o trabalho dos nativos, caso dos territórios da Amazônia, Pará, Ceará, Maranhão e São Paulo, que só conheceriam o escravo negro no século XIX.
                  O comércio de escravos enriqueceu os traficantes  europeus. No século XVIII, em São Domingos, América Central, um negro era revendido por um preço seis  vezes maior do que era comprado pelo traficante na costa ocidental da África. Esse lucro enorme foi a causa da deportação de aproximadamente oito milhões  de homens negros, naquele século. Em 1770, a Inglaterra dominava o tráfico negreiro, com uma poderosa frota, composta de cerca de duzentos barcos, seguida plea França, Portugal, Holanda e Dinamarca. 
                 Nas missões religiosas tudo foi diferente. À escravidão sumária e brutal realizada pelos colonos, os jesuítas opuseram a segregação dos nativos nas reduções - aldeias de indígenas dirigidas por religiosos, espalhadas por diversos pontos do território da colônia. 
                   Com paciência e habilidade, conseguiram induzir os indígenas ao trabalho, ensinando-lhes costumes e técnicas dos brancos. As missões m chegaram a ser bastante prósperas, desenvolvendo a agricultura e o artesanato. 
               Mas as companhia religiosas, sobretudo a Companhia de jesus, a mais a mais importante, não estavam empenhadas na obra de colonização portuguesa. Tinham objetivos religiosos e materiais próprios, chocando-se frequentemente com os colonizadores, que invadiam as missões para apresar os indígenas. 
              A luta entre jesuítas e colonos, em torno da escravidão dos nativos, abrangeu os primeiros séculos da vida da colônia. Só terminou, na época de Pombal, a A Companhia de Jesus foi definitivamente expulsa do brasil. Isso se deu, naturalmente, pela pressão do colonizadores que precisavam a mão de obra nativa. 
                  Não havia diferença entre o trabalho do índio e o do negro importado da África. Era a mesma escravidão. Só que os indígenas africanos tinham uma cultura um pouco mais avançada que os nativos brasileiros: melhor artesanato e um sistema mais eficiente de exploração do solo, graças ao conhecimento dos instrumentos de metal.  A organização social de algumas tribos africanas já incluía a servidão. Em contato com as feitorias portuguesas na costa atlântica da África, as tribos dominadores passaram a trocar,por mercadorias, "lotes" de membros  das comunidades sob seu jugo. Assim nasceu o comércio negreiro, que se prolongou do século XV ao XIX, com características de grande empresa mercantil. Por intermédio da  tribo de contato, os lusos desmembravam os grupos subjugados, deles separando os homens, mulheres e crianças de melhor porte físico. Isto desorganizava a sociedade tribal, condenando-a a uma rápida decadência. 
             Ao chegarem ao Brasil, os negros escravizados eram vendidos. Cada comprador adquiria apenas alguns negros e, dessa forma, membros da mesma tribo eram separados para prevenir qualquer revolta organizada. Seu trabalho era fiscalizado por feitores autorizados a punir qualquer insubordinação. Sem conhecer suficientemente a terra, como a conhecia  o índio nativo, e ameaçado de terríveis castigos corporais, o negro dificilmente recorria á tentativa de fuga. E, habituado como estava a um trabalho mais sedentário, o nativo africano adaptou-se melhor que o índio ás características da agricultura colonial. 
                 O negro deu o ar de sua presença em todo o Brasil. Nas primeiras décadas do século XVIII constituíam um terço da população total da colônia. Nas extensas plantações de cana, de tabaco ou de algodão, na mineração e na indústria de charque do extremos sul, garantiu com seu trabalho o sucesso da empresa colonial. A produção de matérias-primas tropicais, que deu vida à colônia e enriqueceu a metrópole, repousou sempre no braço escravo.
                 Seu trabalho não se resumiu á grande lavoura. O escravo foi constantemente utilizado nos serviços domésticos e no pequeno artesanato que se desenvolveu à sombra das extensas plantações ou ainda nas zonas de mineração. 
                  A escravidão sobreviveu à colônia. Proclamada a "Independência", a atividade escrava continuou a ser a base mais importante de toda a produção do país. Ainda o trabalho escravo sustentou, no século XIX, o surto inicial de um novo produto de grande aceitação nos mercados europeus: o café. 
                Esse fenômeno tinha basicamente duas causas. Em primeiro lugar, mão-de-obra escrava, sem poder aquisitivo e consumindo o mínimo necessário à sua sobrevivência, não cria um mercado interno que possa absorver toda a produção que deixou de ser exportada. Assim, a economia escrava deve ter um mercado fixo no exterior (no caso, a Europa, e principalmente a Inglaterra). A Europa consumia produtos tropicais como o açúcar, o algodão e o fumo e café. Mas não compraria cevada ou centeio, por exemplo, que o próprio solo europeu produzia. Os estados do Norte dos EUA, de clima semelhante ao do Velho Mundo, dedicavam-se a uma agricultura destinada, em sua maior parte, ao consumo interno, pois seus produtos (milho, alfafa, centeiro, cevada e frutas) não encontravam mercado na Europa. 
                A outra causa da inadaptação do trabalho escravo em atividades não agrícolas é dada pela sua própria condição: os interesses de um ser humano, submetido á escravidão, são muito restritos. Ele, que não tem poder de decisão nem mesmo sobre as coisas básicas da própria vida, torna-se, para tudo, dependente das ordens recebidas. E assim, não é possível atribuir ao escravo tarefas que exijam iniciativa e decisões, mesmo porque ele não tem nenhum estímulo para tomá-las. Por essa razão sua importância econômica diminui quando das das atividades mineradoras no Brasil. Vejamos, como exemplo, que na marinha romana a tarefa puramente mecânica de remar era executada por escravos, mas os marinheiros encarregados de outras funções eram sempre homens livres. 
                Em 1850 é abolido o tráfico de escravos africanos. A partir deste momento, o negro se transforma numa peça cara e antieconômica. A lavoura cafeeira em expansão exige cada vez mais trabalhadores. Torna-se mais barato pagar um salário do que comprar e manter um escravo. A escravidão é abolida a 13 de maio de 1888. 
                Durante todo o período colonial, o branco veio para o Brasil sempre como senhor. Ou então como comerciante, estabelecido nas principais cidades do litoral, já no segundo século da colonização. Mas existiram algumas exceções.  
                  Os territórios fronteiriços da colônia passaram por dias difíceis. Despovoados, sua pose foi contestada a Portugal por espanhóis, franceses e outros povos europeus. Eram frequentemente invadidos e a coroa não tinha como  defendê-los. A única solução foi povoá-los. 
                Assim, entre 1748 e 1756, apesar de ainda existir a escravidão, incia-se o estímulo à imigração, a fim de povoar os territórios estratégicos do Rio Grande do Sul, Santa catarina e Pará. Vieram para cá famílias inteiras de colonos açorianos e madeirenses, que eram destinados à agricultura. Faziam parte da colonização por casais, realizada na época de Pombal. A todas essas famílias de colonos a coroa garantia a posse de pequenos lotes de terra e os meios necessários para a sobrevivência. 
                  Mas a imigração começou de fato com a chegada ao Brasil da família real portuguesa  e com a assinatura de um decreto, em 1808, permitindo ao governo conceder terras a estrangeiros, principalmente europeus. 
                    Entre 1884 (pouco antes da abolição da escravatura) e 1914 chegaram com regularidade as primeiras grande levas de imigrantes - italianos, espanhóis, alemães, portugueses, eslavos e japoneses. Várias cidades do rio Grande do Sul, Santa catarina, Paraná e São Paulo tiveram início com a colonização alemã, italiana e eslava. 
                Em menor escala, vieram ainda elementos precedentes do Oriente Próximo, os sírio-libaneses e os judeus. 
                Voltando os olhos para o que aconteceu em outros países, lembremos que foi com a navegação que a região chamada Nova Inglaterra, no norte do Estados Unidos, se desenvolveram. Tornaram-se pescadores e mercadores. Forneciam gêneros de primeira necessidade aos fazendeiros das Antilhas, dos quais compravam escravos, mas apenas para revendê-los no Sul dos estados Unidos. A venda ou leilão de escravos era uma atividade comum nos estados do Sul. Utilizados para trabalhos domésticos e agrícolas, principalmente nas plantações de algodão, os escravos negros eram valorizados segundo suas capacidades físicas. Nos Estados Unidos nas décadas de 1850 e 1860 apareceu grande quantidade de textos contra a escravidão, nos quais se comparavam os males das plantações com as virtudes da emancipação. Dessa maneira, os escravos nunca tiveram papel de destaque nos Estados do Norte daquele país; por ocasião da independência, seu número não atingia quatro por cento da população total. O Norte comprovara a superioridade da mão-de-obra livre em sua economia, e a escravidão é abolida em rápida sucessão nos Estados da Nova Inglaterra.  Nos primeiros anos do século XIX, praticamente em todo o Norte dos EUA não existia mais escravidão. 
                No século XVII o escravo é introduzido nas lavouras de fumo da Virgínia, e com ele a agricultura torna-se mais rentável. O poderio dos grande fazendeiros aumenta com a adoção do escravo, as culturas progridem em extensão, e os pequenos lavradores brancos, impossibilitados de enfrentar a competição, abandonam suas terras. Uma boa parcela desse lavradores expulso emigrou para o Oeste, transformando-se em "pioneiros".  Tal processo acelerou-se com o desenvolvimento da revolução Industrial na Inglaterra, onde as novas fábricas de tecidos compravam toa a produção algodoeira, estimulando as plantações da Carolina do Norte, Tenessi, Kentucky, Maryland e Virgínia. 
                Contudo, o plantio extensivo do algodão exaure rapidamente o solo, e a produção daqueles estados começou a decair, transferindo-se para outras terras como as do Alabama, Mississípi, Louisiana, Texas e Arkansas. Enquanto se dava essa transferência, as terras do Leste perdiam o valor, e seus fazendeiros eram obrigados a desenvolver outras atividades. 
               A Inglaterra, que era o grande traficante da época, já não fornecia escravos às Antilhas, e com isso os estados do Norte  (EUA) deixaram de obter rendimentos com o comércio de negros. Não foi difícil promulgar uma lei, em 1808, proibindo o tráfico negreiro, o que valorizava a mão-de-obra livre, de que dispunha em quantidade. Por sua vez, o velho Sul, cuja agricultura decadente não comportava mais escravos, com essa lei veria aumentar rapidamente o preço dos negros que possuía. Com efeito, esse preço quadruplicou entre 1815 e 1850, e os antigos Estados algodoeiros passaram a basear sua economia na criação de escravos -m estabelecida nos mesmo molde da criação de gado - que eram vendidos aos novos Estados algodoeiros. Entre 1820 e 1860, cerca de 742 mil negros foram assim negociados. E nesses estados, mais de 30% da população era escrava, enquanto os seus proprietários, os grandes fazendeiros, não chegavam aos 6%. O restante constituía-se de brancos pobres. 
               O Norte, com forte mercado interno e uma indústria nascente, tornava-se pouco a pouco economicamente mais importante que o Sul, preso à monocultura de exportação e ainda muito dependente do trabalho escravo. Isso refletia-se na luta pela conquista do poder, que era mantido pelos políticos do Sul, desde a independência. Embora em 1860 os Estados Unidos da ainda fossem uma nação agrícola, e o algodão do Sul sua maior riqueza,o Norte já contestava tal hegemonia política. O abolicionismo surge como uma arma de pressão empunhada pelo Norte, contra a economia sulina. 
                Em 1860, um nortista (Abraão Lincoln) ganha as eleições presidenciais. Os sulistas, sentindo fugir-lhes o poder e ameaçados em sua economia, pretendem abandonar a União. Onze Estados do Sul fundam os "Estados Confederados da América", que que guerrearam os demais durante cinco anos. Uma das medidas que o Norte lançou mão para vencer a Guerra de Secessão foi exatamente a abolição da escravatura em 1863. 
                   A consequência da medida, tomada nessas circunstâncias, foi que no Sul o negro livre passou a simbolizar a frustração do antigo poderio perdido, o que o tornou vítima de preconceitos raciais, dos mais ferozes que se conhecem. Por outro lado, a abolição não foi seguida de medidas que propiciassem a elevação do padrão de vida do negro norte-americano. Este permaneceu constituindo a grande massa de pobres. O negro, inculto e indefeso, sofreu discriminações, perseguições e linchamentos. 
                  As leis promulgadas após a Segundo Guerra Mundial, para equiparar os direitos civis, mostraram-se incapazes de eliminar os preconceitos. Isso motivou o surgimento de uma consciência negra a exigir igualdade de fato e disposta a lutar por ela. Mas os preconceitos e acirramento de ânimos continua até hoje. E os EUA enfrentam nos movimentos negros de hoje a pior crise social da sua história.
                   Um grande exemplo nos deu Simão Bolívar, que foi chamado Libertador da América Espanhola. Militar brilhante, homem culto, tão liberal e moderno que emancipou todos os escravos de sua fazenda, logo no início da Independência  da América Espanhola. 

Escravidão Britânica
             Em 1807, tinha sido abolido o tráfico dos escravos, graças à eficaz ação do partido "whig", e a marinha britânica conduzira, em todos os mares, uma verdadeira guerra contra todos os navios negreiros; mas centenas de milhares, talvez milhões, eram, ainda, os homens de cor sujeitos à escravidão, em todas as parte do mundo. Pois bem, em 18233, o ministério Grey - ainda uma vez os "whigs" estavam no poder - propôs e obteve que, em todos os territórios sujeitos à coroa britânica,a escravidão fosse abolida, o que foi pontualmente cumprido, naquele mesmo ano, depois que o governo britânico pagou nada menos que vinte milhões de esterlinas aos senhores de escravos, para ressarci-los do prejuízo sofrido. Se pensarmos que, trinta anos depois, metade do povo americano enfrentava uma guerra sangrenta para manter a escravatura, mais podemos apreciar a prova de civilização dada pelos ingleses. 

Escravidão na Rússia
                  A escravidão na Rússia foi diferente. Os grandes principados e também os menores participavam do comércio internacional  de escravos. Ocasionalmente vendiam prisioneiros de guerra como escravos, por vezes com as respectivas mulheres e filhos. 

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segunda-feira, 23 de março de 2020

O MUNDO HELENÍSTICO



Helenismo vem do grego e quer dizer "viver como os gregos".
                 O período helenístico refere-se período da história da Grécia e de parte do Oriente Médio compreendido entre o morte de Alexandre magno em 323 a.C. e a anexação da península grega e ilhas por Roma em 146 a.C. 
                    Quando houve a difusão da civilização grega, a influência foi tão grande que, mesmo após a queda do império, a cultura helenística continuou predominando em todos os territórias anteriormente dominados por eles. Posteriormente os reinos helenísticos foram aos poucos sendo conquistados pelos romanos. 
                  Alexandre transformou o mundo grego ao tornar disponíveis os recursos do Oriente  Médio. Três potências principais surgiram: a primeira com a capital em Pela, correspondia ao velho reino da Macedônia, despojado das conquistas asiáticas, mas ainda dominando a Grécia. A segunda potência apareceu no Egito, cuja capital era agora Alexandria, recém-fundada por Alexandre. Um habilidoso soldado-historiador chamado Ptolomeu (Sóter ou Salvador)estabeleceu nova dinastia e estendeu seus interesses até a palestina, onde confrontou-se com o terceiro reino, o Selêucida. 
                      As riquezas dos territórios conquistados por Alexandre  atraíram milhares de gregos e macedônios, que emigraram para ocupar postos administrativos ou militares e dedicar-se à agricultura e ao comércio nas longínquas regiões dominadas. Médicos, cientistas e engenheiros, professores e filósofos juntaram-se a esses grupos , levando consigo a língua e a cultura gregas.
               Contudo, as populações nativas eram mantidas em regime de servidão, excetuando-se pequenas elites logo absorvidas e integradas ao modo de vida dos conquistadores. Daí se propagou a civilização helenística em direção ao Oriente, onde, porém, não conseguiu se estabelecer com a mesma intensidade, devido á resistência cultural dos persas, no centro do Império, e à grande diferença de cultura no extremo oriental. Na Índia, em regiões próximas ao Irã, os centros de dominação helenística, como Gandara e Cotan, disseminaram a cultura grega, que se fundiu ao hinduísmo e ao budismo. 
                 A atividade comercial desenvolveu-se excepcionalmente na Pérsia e regiões limítrofes ao centro do Império do Oriente, estendendo-se até a Síria. 
                   Do outro lado do Egeu, na Ásia, o império selêucida era o maior lote da herança de Alexandre, mas os soberanos da dinastia foram incapazes de manter sua unidade. A leste ocorreu, em pouco tempo, a separação da Bactriana e da Pártia. Incapazes de impedir e independência de outros estados, como o Ponto e a Capadócia, os selêucidas concentraram suas forças na Síria, disputadas ferozmente aos Ptolomeus, e na Anatólia. Após a morte de Antíoco IV  em 164 a.C., as lutas internas e os ataques dos partas levaram ao declínio desse império, que já estava extinto quando os romanos anexaram a Síria em 63 a.C.
                 O domínio dos Ptolomeus foi mais longe. Os três primeiros reis expandiram suas conquistas até a Trácia. Uma frota poderosa e um comércio florescente levaram o Egito ao auge de sua prosperidade. Entretanto, os reis subsequentes permitiram o declínio de seu poder, ao transferir às irmãs e esposas a responsabilidade do governo. A dinastia terminou com o suicídio da última das irmãs, a  Cleópatra em 31 a.C. caindo o Egito sob o domínio romano. 

               Seleuco estava no comando da Babilônia quando morreu Alexandre. A partir daí, ampliou seu poder sobre a Síria e fundou a nova capital em Antioquia, às margens do Orontes, de onde sucessivos soberanos chamados Seleuco, Antíoco e Demétrio governaram. 
                   A dinastia dos Selêucidas adotou a rígida administração persa, intervindo na criação de grandes corporações de artesãos e comerciantes. 
             Essa estrutura política e administrativa foi também adotada no Império da Macedônia e Grécia, onde o ideal de democracia de certas cidades como Atenas acabou sendo definitivamente suplantadas por governos despóticos. O sistema econômico de produção e comercialização em pequena escala ali vigente foi substituído pelo desenvolvimento de grandes corporações que seguiam moldes persas. Dessa forma, a própria Grécia se orientalizou, recebendo influência dos persas e outros povos, não só no campo da administração, mas também no da arte e da religião. Multiplicaram-se seitas e misticismo e obras de arte rebuscadas e imponentes, ao gosto dos orientais. 
                A Grécia Helenística não considerou a morte de Alexandre o "fim de uma era"; considerou o início dos tempos "modernos" e como símbolo de vigorosa juventude mais do que fator de decadência; achava-se convicta de que acabava de entrar na mais opulenta fase da sua maturidade, e que seus chefes eram tão bons como quaisquer do passado, exceto o incomparável Alexandre. Sob muitos aspectos tinha razão. A civilização grega não morrera a com a liberdade grega; pelo contrário, conquistara novas áreas e espalhara-se em três direções à medida que a formação de vastos impérios derrubava as barreiras políticas. Sempre empreendedores e alertas, os gregos emigravam às centenas de milhares para a Ásia e o Egito, o Epiro e a Macedônia; e não só a Jônia tornara a florescer, mas a raça, o idioma e a cultura helênica invadiram a Ásia Menor, a fenícia e a Palestina, abriram caminho através da Síria e da Babilônia, transpuseram o Eufrates e o Tigre e chegaram até a Bátria e a Índia. Jamais o espírito grego demonstrara mais ímpeto e coragem; jamais as letras e artes gregas conquistaram mais ampla vitória. 
                Depois de Alexandre a expansão e a complexidade do mundo grego desorienta a visão unificada ou a narrativa continua.  Não havia apenas três monarquias principais - Macedônia, Selêucida e Egito;havia ainda uma centena de cidades-Estados de todos os graus de independência; havia um labirinto de alianças e ligas; havia estados semi-gregos no Egito, na Judeia, em Pérgamo, em Bizâncio, na Bitínia, na Galácia, na Báctria; e no ocidente, a Itália e a Sicília Gregas, apertadas entre a velha Cartago e a jovem Roma. O império sem raízes de Alexandre achava-se muito frouxamente unido pelos laços de idiomas, comunicação, costumes e crenças, para que pudesse sobreviver ao conquistador. Alexandre fora sucedido não por um, mas por vários homens fortes, todos ansiosos por soberania. O tamanho e a diversidade do novo reino punham de lado qualquer ideia democrática; o governo independente, como os gregos o entendiam, constava de uma cidade-Estado, cujos cidadãos se reuniam periodicamente em recinto público; e, além disso, não tinham os filósofos da democrática Atenas denunciado a democracia como o domínio da ignorância, da inveja e do caos? Os sucessores de Alexandre - que passaram a denominar-se Diadochi - haviam sido capitães macedônios, de muito habituados a governar com a espada; a democracia, a não ser em ocasiões consultas aos seus ajudantes, jamais lhes passara pela ideia. Depois de algumas lutas armadas de pequena importância com o fim de alijar os competidores mais fracos, esses homens dividiram o império em cinco partes (ano 321 a.C.) - Antípatro tomou a Macedônia e a Grécia; Lisímaco, a Trácia; Antígono, a Ásia Menor; Seleuco, a babilônia; Ptolomeu , o Egito. Não se deram ao trabalho de reunir o sínodo dos estados gregos. Desse momento em diante, à exceção de intermitentes interlúdios na Grécia e da aristocracia republicana de Roma, a monarquia governou a Europa até a Revolução Francesa. 
                 O princípio básico da democracia é a liberdade provocadora do caos; o princípio básico da monarquia é o poder provocador da tirania, da revolução e da guerra. De Filipo a Perseu, de Queroneia a Pidna ( anos 338 a 168 a.C.), as guerras das cidades-Estados somaram-se às guerras dos reinos, porque as vantagens do governo arrastavam uma centena de generais á disputa dos tronos. Na Grécia Helenística a violência se tornou tão popular e os condottieri tão numerosos e brilhantes como na Itália da Renascença.
                Com o helenismo os gregos passaram a ser não somente membros de uma comunidade local, a polis, e sim de uma cosmópolis, isto é, um mundo completamente civilizado e cada vez mais helênico. A guerra era endêmica.Durante um século, as grandes potências pós-alexandrinas  conseguiram manter um equilíbrio muitas vezes incômodo, porém essencialmente estável. Atenas, tomada pelos macedônios durante a guerra Cremonídea (267 - 262 a.C.), continuou sendo um centro cultural de importância, porém renunciou deliberadamente a qualquer ambição política de envergadura. Os principais pontos de crescimento foram as capitais mais novas: Antioquia, Pérgamo, de alguma forma Pela e, acima de tudo Alexandria. Nesta cidade, o museu, da mesma forma que a Biblioteca de Pérgamo, constituíram um centro internacional artístico e de ensino superior. Alcançaram-se grandes progressos na medicina, astronomia, matemáticas, geografia e nas ciências. Era a época do cientista e do astrônomo Erastótenes e do famoso matemático Arquimedes. 
               Na Grécia houve uma variedade de experiências políticas; diferentes formas de confederação, em particular na Liga Aquéia; e tentativas de Agis IV e de Cleomenes II, em Esparta, de estabelecer uma forma primitiva de comunismo, antes que o regime fosse destruído pela Macedônia em Selásia (222 a.C.). A segunda guerra de Roma contra a Macedônia (200 - 197 a.C.) marcou o começo de uma nova era, já que os governantes de todo o leste do Mediterrâneo foram obrigados a ajustar suas políticas ao crescente poderio romano. A provocativa aliança de Filipe V de Macedônia com Aníbal, em 215 a.C., trouxe como consequência a intervenção militar de Roma sobre a Grécia, finalizando no ano 205 a.C. com a paz de fenícia, um tratado de coexistência mútua. Contudo, a contínua expansão de Filipe, tanto na Grécia como no Egeu e ao longo do Adriático, provocou a vingança dos romanos, que impuseram uma grave derrota na batalha de Cinocéfalos (197 a.C.). Pouco depois, no ano 190 a.C., o maior dos monarcas selêucidas, Antíoco II, foi igualmente derrotado, após ter invadido a Grécia, na batalha de Magnésia, sendo desprovido de suas possessões na Ásia Menor no tratado assinado a seguir, conhecido como a paz de Apanéia (188 a.C.). 
                     A partir de então, Roma não teve rivais de importância no Egeu nem no Oriente Próximo. Foi possível aumentar o poder dos Estados de Pérgamo e de Rodes, porém, da mesma forma, era capaz de afundá-los. Passaram-se 150 anos antes que o mundo helênico fosse submetido completamente. A renovada agressão macedônica sob o governo de Perseu, filho de Filipe V, foi definitivamente controlada em Pidna no ano 168 a.C., sendo que o país ficou dividido em quatro territórios independentes. Somente no ano de 146 a.C. , depois de outros conflitos, passou a ser província romana. Finalmente, Pompeu terminou com o Império selêucida, enfraquecido por conflitos internos e pelas guerras partas, em 64 a.C. O Senado aceitou Pérgamo, surpreendentemente legado a Roma após a morte de Atalo III em 133 a.C. Ao mesmo tempo, o Egito foi rejeitado, ao ser doado à Roma num gesto retumbante de Ptolomeu Alexandre I no ano 88 a.C. Somente após a derrota de Cleópatra VII, a última dos Ptolomeus, na batalha naval de Ácio em 31 a.C., Roma dominou formal e efetivamente toda a herança de Alexandre Magno. Muito antes disso, a estrutura política da civilização grega havia sofrido uma derrota irreparável. Porém, seu legado espiritual e intelectual sobreviveu e teve influência em todos os aspectos da vida romana.
              No Império do Egito, a dinastia dos Ptolomeus adotou o sistema político e administrativo dos faraós, e a cultura helenística afastou-se consideravelmente dos padrões gregos. Desenvolveram-se cidades como Alexandria, onde ganharam impulso o comércio, as artes e as ciências.  
                   O imperialismo romano passou a ser crucial nas questões dos reinos helenísticos, mas cresceu lentamente no período final da República. A anexação direta, exceto nas regiões fronteiriças com os bárbaros, era considerada recurso extremo. Ate o ano 150 a.C. não havia um só governador romano ou exército permanente estacionado á leste do Adriático. Mas outros tipos de intervenção eram cada vez mais opressivos. 
               O equilíbrio essencial perdurou por quase todo o século III a.C. Mas com a segunda guerra em Roma e Macedônia, mudanças cada vez mais significativas passaram a ocorrer, à medida em que os governantes do Mediterrâneo Oriental viam-se forçados a ajustar suas condições ao crescente poder de Roma. 
                   Com o domínio total de Roma, termina a civilização helenística, mas sua influência, onde se misturam elementos gregos, orientais e egípcios, persistiu por muitos séculos, até o final da era romana.
                     Por muitos séculos, somente o lento caminhar dos rebanhos rompe o silêncio da colina de Hissarlik. Do seu topo, o olhar se estende pela planície até o mar, que refulge qual um imenso campo prateado. Mas, um dia, homens armados de pás e picaretas sobem a íngreme encosta pedregosa. Ei-los, como que por encanto, arrancando, do terreno revolto, torres e muralhas em ruína, delineando-se, aos poucos, o perfil de uma cidade fortificada, sepulta há milênios. Essas pedras enegrecidas, que as mãos de Henrique Schliemann recompuseram com religiosa reverência, traziam um nome famoso, um nome que atravessou os séculos como um clarão de glória  e lendas: Troia. 
                Schliemann não era um arqueólogo, mas sim, somente um entusiasta da Grécia antiga e de Homero, e procurava, com o auxílio da Ilíada, reconstruir um mundo antigo e desaparecido. Entre o espanto dos cientistas, seu método provou  ser exato. Como em Hissarlik, assim como em Micenas, ele acertou em cheio, trazendo novamente à luz do dia os restos da antiga capital dos Acaianos. Desde esse dia (as escavações de Schliemann ocorreram em 1868), ficamos conhecendo uma grande quantidade de coisas sobre os habitantes da Grécia homérica e, o que é mais extraordinário, tivemos a confirmação da substancial "historicidade" dos poemas homéricos. 
            Os Acaianos eram um povo rude e belicoso, que invadiu a Grécia nos princípios do II milênio antes de Cristo, impondo-se facilmente aos indígenas, cultos e uma forma de civilização, mas de maneira pacífica. Provinham, como quase todos os bárbaros, do norte, do Epiro ou da Tessália, e, como todos os bárbaros, sofreram o influxo poderoso da civilização, que os haviam sujeitado pela força das armas, e adotaram-lhe o idioma e os costumes. 
             Homero nos descreve seus palácios, muito mais semelhantes, na verdade, a enormes barracões do que a mansões reais, seus hábitos simples (lembrem-se de Laerte,o velho rei de Itaca, que lavrava seus campos junto às praias), seus bárbaros banquetes. Aliás, o rochedo de Tirinto e os sepulcros de Micenas, desenterrados por Schliemann, apresentam-nos um quadro bastante precioso de sua vida. Eram essencialmente guerreiros que, na Grécia, viviam como os feudatários medievais e que realizavam, de quando em quando, grandes expedições além-mar, para saquear e arrasar as ricas cidades do Egeu. 
              A Guerra de Troia (ocorrida no século XII a.C., isto é, quando a civilização micênica estava em seu fastígio ), foi um desses episódios. A jovem civilização acaiana competia com a mais antiga potência asiática, em cuja defesa acorreram tropas de todo o Ocidente, desde a Trácia até a Capadócia. 
Relações entre o povo acaiano e o cretense existiram, sem dúvida, e de natureza bem estreita, pois, com toda probabilidade, os navios de Minos cruzavam arrogantemente as costas da Grécia, impondo aos rudes guerreiros da Ática e da Argólida sua civilização infinitamente superior. Mas o poderoso cretense desabou de improviso, por causas ignoradas, e quiçá por obra dos próprios Acaianos. E assim penetraram, dominando o Egeu, os fortes conquistadores da Hélade. 
               Cerca do ano 1.000 a.C., irromperam, sempre do norte, os guerreiros Dóricos, que suplantaram subitamente a já decadente civilização micênica, recebendo-lhe a herança e confundindo-se de tal maneira com ela que, durante muito tempo, se acreditou que Acaianos de Dóricos não passavam de dois grupos pertencentes ao mesmo tronco racial. 
                Com os Dóricos, termina a pré-história da Grécia e começa a verdadeira história. No século IX a.C., numa ilha do Egeu, talvez em Quito, um maravilhoso poeta canta os feitos de seu povo, um poeta a quem a tradição deu o nome de Homero. 
              Da divina harmonia de seus versos parece ressurgir aquela suprema criação do engenho humano, que foi o espírito da Hélade, a flama alta e altissonante, que iluminou, durante vários séculos, todo um povo e a glória das civilizações vindouras. 
                Se incluirmos na nossa herança helênica não só o que os gregos inventaram, mas o que adaptaram das culturas mais antigas e por diversas vias transmitiram á nossa, encontraremos esse patrimônio em quase todas as facetas da vida moderna. Nossa manufatura, a técnica da mineração, o essencial da engenharia, os processos de finança e comércio, a organização do trabalho, a regulamentação governamental do comércio e da indústria; tudo chegou a té nós trazido pela corrente histórica que a Grécia passou a Roma e desta a nós. Nossas democracias ou ditaduras originaram-se dos exemplos gregos; e embora a maior ampliação dos estados tenha criado um sistema representativo desconhecido na Hélade, a ideia democrática de um governo responsável perante os governados, a ideia do julgamento pelo juri e das liberdades civis de pensamento e de palavra, de reunião e de religião, foram profundamente estimulados pela história grega. Acima de tudo era nesses pontos que os gregos se distinguiam e foi isso o que lhes deu a independência de espírito e iniciativa que os levavam motejar da obediência e inércia do Oriente. 
                   Nossas escolas e universidades, nossos ginásios e estádios, nosso atletismo e nossos jogos olímpicos, nasceram na Grécia. A teoria da produção eugênica, a concepção do auto-controle, o culto da saúde e da vida ao natural, o ideal pagão do gozo livre de todos os sentidos, encontraram na Grécia suas fórmulas históricas. A teologia e a prática cristã (até as palavras são aqui gregas) filiam-se em larga escala às religiões do mistério da Grécia e do Egito, aos ritos eleusianos, órficos e osirianos; às doutrinas gregas do divino filho que morre pela humanidade e ressuscita; aos ritos gregos de procissões religiosas, cerimônias purificadoras, sacrifícios sagrados e sagradas refeições comuns; às concepções gregas do inferno, dos demônios, do purgatório, das indulgências e do céu; e também às teorias estoicas e neo-platônica do logos, da criação e da conflagração final do mundo. Até as nossas superstições devemo-las aos espectros, bruxas, pragas, maus agouros e dias aziagos dos gregos. E quem seria capaz de compreender a literatura inglesa, ou uma ode de Keats, sem possuir alguma noção de mitologia grega? 
                A nossa literatura dificilmente teria existido sem a tradição grega. Nosso alfabeto nos vem da Grécia através de Roma; nossa linguagem está inçada de palavras gregas; nossa ciência criou uma linguagem internacional formada de termos gregos; nossa gramática e retórica, até mesmo a pontuação e os parágrafos são invenções gregas. Nossos gêneros literários são gregos- o lirismo, a ode, o idílio, a novela, o ensaio, a oração, a biografia, a história e, acima de tudo, o drama; aqui também quase todas as palavras são gregas. Os termos e formas do drama moderno: tragédia, comédia e pantomima, são gregos; e embora a tragédia isabelina seja única, a comédia nos chegou quase incólume, de Meandro e Filemon, através de Platão e Tancredo, Bem Johnson e Molière. os dramas gregos por si correspondem às mais ricas porções da nossa herança. 
                  Nada nos parece mais estranho na Grécia do que a sua música; e entretanto a música moderna (até o seu retorno à África e ao Oriente) derivou dos cânticos e danças medievais e estes, em parte, se originaram na Grécia. O oratório e a opera devem algo à dança coral e ao drama gregos; e a teoria musical foi pela primeira vez explorada e exposta pelos gregos, de Pitágoras a Aristóxenes. Nossa dívida é um pouco menor na pintura; mas na arte dos afrescos pode-se traçar uma linha reta de Polignoto (pintor grego), através de Alexandria e Pompéia, Giotto e Miguel Ângelo, às interessantes pinturas murais de nossos dias. As formas e muito da técnica da moderna escultura permanecem gregas, pois em nenhuma outra arte se estampou o gênio grego com maior despotismo. Só agora começamos a nos libertar do fascínio da arquitetura grega; poucas cidades da Europa e da América não tem algum templo de comércio ou finanças cuja forma ou fachada colunar não se inspire nos santuários dos deuses gregos. Sentimos na arte grega a falta do estudo do caráter e representação da alma, e sua adoração da beleza e da saúde físicas imprimem-lhe menor maturidade do que a encontramos na estatuária egípcia ou na profunda pintura dos chineses;mas as lições de moderação, pureza e harmonia incorporadas á escultura e à arquitetura da idade clássica, constituem precioso patrimônio para a nossa raça. 
              Se a civilização grega nos parece mais "moderna" e afim da nossa do que a de qualquer outro século anterior a Voltaire, é porque o heleno amava a razão tanto quanto a forma, e ousadamente procurou explicar a natureza à luz do natural.  A libertação da ciência das garras da teologia e o independente desenvolvimento da pesquisa científica foram partes da obstinada aventura do espírito grego. Os matemáticos gregos fundaram os alicerces da trigonometria e do cálculo, principiaram e terminaram o estudo das seções cônicas e elevaram a geometria tri-dimensional a tanta perfeição, que até ao advento de descartes e Pascal essa ciência permaneceu como eles haviam deixado. Demócrito iluminou toda a área da física e da química com a sua teoria atômica. E nos simples intervalos de seus estudos abstratos, Arquimedes produziu inovações mecânicas suficientes para colocarem o seu nome entre os maiores dos anais da invenção. Aristarco antecipou a talvez tenha inspirado Copérnico; (Copérnico conhecia a hipótese heliocêntrica de Aristarco, pois a mencionou num parágrafo que desapareceu da últimas edições de seu livro.)  e Hiparco, através de Claudio Ptolomeu, concebeu um sistema de astronomia que constituiu um dos marcos da história cultural. Eratóstenes mediu a terra e traçou-lhe o mapa. Anaxágoras e Empédocles traçaram o escorço da teoria da evolução. Aristóteles e Teofrasto classificaram os reinos animal e vegetal, e chegaram quase a criar as ciências da meteorologia, da Zoologia, da embriologia e da botânica. Hipócrates libertou a medicina do misticismo e da teoria filosófica, e nobilitou-a com um código de ética; Herófilo e Erasístrato elevaram a anatomia e a fisiologia a um nível que, a não ser em Galeno, a Europa jamais tornaria a alcançar até a Renascença. Na obra desses homens respiramos a calma aragem da razão, sempre incerta e insegura, mas livre de paixão e  mito. Talvez, se possuíssemos na íntegra todas as suas obras-primas, classificássemos a ciência grega como a mais notável realização intelectual do gênero humano. 
         m Mas o amante da filosofia dificilmente cederá á ciência e à arte os costumes supremos da nossa herança grega.  A própria ciência nasceu da filosofia grega; desse destemeroso descaso à lenda, desse juvenil amor à investigação que durante séculos uniu a ciência á filosofia numa aventurosa procura. Nunca antes haviam os homens examinado a natureza de modo tão crítico, e todavia tão afetuosos: os gregos não desonraram o mundo ao concebe-lo um cosmos de ordem e, portanto, suscetível de compreensão. Inventaram a lógica impelidos pela mesma razão que os levou a produzir a estatuária perfeita: harmonia, unidade, proporção e forma originavam, a seu ver, tanto a arte da lógica como a lógica da arte. Curiosos diante de todos os fatos e de todas as teorias, os gregos não só estabeleceram a filosofia como um empreendimento próprio do espírito europeu, como ainda conceberam todos os sistemas e todas as hipóteses, pouco deixando a ser dito sobre os magnos problemas da nossa vida. Realismo e nominalismo, idealismo e materialismo, monoteísmo, panteísmo e ateísmo, feminismo e comunismo, a crítica de Kant e o pessimismo de Schopenhauer, o primitivismo de Rousseau e o amoralismo de Nietzsche, a síntese de Spencer e a psicanálise de Freud - todos os sonhos da sabedoria aparecem naquele berço. E na Grécia os homens não só debatiam a filosofia como a viviam; o tipo do sábio não o do santo ou do guerreiro, era o ideal supremo da vida grega. Através dos séculos, desde Tales, a preciosas herança chegou até nós, inspirando imperadores romanos, padres cristãos, teólogos escolásticos, heréticos do renascimento, platônicos de Cambridge, os rebeldes do Século das Luzes e os cultores da filosofia de hoje. Neste momento, por toda a terra, milhares de espíritos inquietos estão a ler Platão. 

                    

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