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quinta-feira, 14 de maio de 2020

A GUERRA DO ÓPIO ENTRE CHINA E INGLATERRA



                
                Para iniciarmos este estudo é importante saber o que é o ópio.
               O ópio é uma palavra grega (ópion); no latim(opiu) e quer dizer suco de papoula. Dela se pode extrair muitas substâncias farmacológicas; também chamada de "Papyer Somniferum" é muito conhecida como a Papoula do Oriente. Hoje muito produzida no Afeganistão que a produz e exporta como droga. Em muitos países subdesenvolvidos, muitas vezes por falta de opções os camponeses  são levados a trabalhar no cultivo de plantas (hoje consideradas ilícitas) como a papoila, que está na base da produção industrial do ópio. 
               O uso do ópio mascado ou fumado, que se espalhou no Oriente, provoca euforia, seguida de um sono onírico; o uso repetitivo conduz ao hábito, à dependência química, e a seguir a uma decadência física e intelectual, uma vez que se trata de um veneno  estupefaciente. Os alcaloides que ele contém é largamente utilizado na medicina (morfina e papaverina), como sonífero analgésico. 
              Pois foi exatamente esta bela flor que provocou uma guerra, no início do século XIX  entre os chineses e ingleses.
                 A Índia e a China, extremamente populosas, exerciam enorme atração sobre os mercadores ingleses. Mas, enquanto a Índia comerciava abertamente, o Governo chinês não demonstrava interesse algum pelas mercadorias européias. Os negociantes ocidentais adquiriam na China artigos como seda, porcelana e, principalmente chá, que alcançavam bons preços na Europa. Mas não conseguiam colocar nenhum de seus produtos. O comércio sí sofria muitas restrições. Somente duas cidades podiam entrar diretamente em contato com os mercadores estrangeiros: Cantão e Ourga. E todas as operações comerciais deviam ser feitas através de determinados negociantes chineses: os co-hong.
             Esse comércio limitado, unilateral, era pouco rendoso para a Inglaterra, e isso desequilibrava a balança entre os dois países. A compra de mercadorias  chinesas absorvia asa reservas britânicas de ouro. Os ingleses estavam viciados em chá e não podiam mais ficam sem ele. Por outro lado, sem vender seus produtos, os ingleses não eram compensados. 
            Só um produto comerciado pelos mercadores ingleses tinha grande aceitação entre alguns chineses: o ópio, narcótico extraído das papoulas, que produz efeito adormecedor sobre o cérebro, mas vicia. 
               A Companhia das Índias cultivava, então, o ópio na Índia e incrementava o seu consumo na China, vendendo-o em grandes quantidades a mercadores chineses independentes. 
              Inicialmente era permitido uma pequena importação de ópio, mas em 1800, o governo Chinês percebeu que 20% do seu povo estava sendo completamente viciado e proibiu tal comercio. 
                Mas os números demonstravam que mesmo com o contrabando, que logicamente encarecia o produto, era muito compensador, e os chineses continuavam se viciando cada  dia mais. Em 1831, o comércio oficial de cantão não ia além de 7 milhões de dólares, e o comércio paralelo (ilegal), na ilha de Lintim, atingia 17 milhões, onze dos quais referentes á venda de ópio. 
               O comércio de ópio tomava proporções alarmantes, assustando o imperador chinês.
               A primeira iniciativa foi tomada enviando uma mensagem á rainha da Inglaterra que assim se expressava: ""-Pensamos que essa substância perniciosa é fabricada clandestinamente por artifícios maquinadores que dependem de vossa nação. Seguramente, Honrada Soberana, vós não ordenastes e cultura e a venda dessa planta", escrevia o Comissário Extraordinário do imperador chines à rainha Vitória, que governava a Inglaterra naquele ano de 1839. 
              A Companhia das Índias Orientais possuía o monopólio do comércio com o Oriente desde 1733. Mas, em 1833, o Parlamento Inglês retirou-lhe esse direito. As relações comerciais com a China entravam, portanto, em nova fase, e precisavam  ser novamente regulamentadas. Nessa oportunidade o vice-rei de Cantão, por intermédio dos co-hong, pediu aos diretores da Companhia que nomeassem, como no passado, um chefe conveniente para vir a Cantão organizar as trocas comerciais. O governo britânico designou o Lord Napier, que não aceitou os co-hong como intermediários; queria que os negociantes ingleses desfrutassem, na China, de ampla liberdade de comerciar. 
             Aguçavam-se as divergências: os ingleses teimavam em ampliar suas vendas, enquanto os chineses se abstinham das transações consideradas desnecessárias. 
             Diante da Obstinação de Lord Napier, o vice-rei de cantão percebeu numa proclamação a insistência dos ingleses. Ordenou, portanto, aos empregados da feitoria de cantão  que a abandonassem imediatamente, proibindo à população, sob pena de morte, o fornecimento de víveres aos ingleses. Para certificar-se de que as ordens estavam sendo cumpridas, enviou tropas à localidade. 
             Lorde Napier tinha uma frota inglesa á sua disposição e ordenou o desembarque de um destacamento para proteger o direito ao comércio. O vice-rei de cantão respondeu à violação cercando o destacamento inglês. Lord Napier, reconsiderando sua atitude, retirou-se com a frota para Macau. 
             Apesar da calma aparente, os ânimos estavam exaltados. As cartas que Lord Palmerston (o membro mais importante do Gabinete Inglês de Assuntos Estrangeiros) recebia de Napier descreviam as atitudes chinesas como "castigo" infligido à Inglaterra, e recomendavam que jamais se negociasse m com os chineses, sem ameaçá-los. 
             Resolvido a combater energicamente o envio de ópio para seu país, o soberano chinês nomeou Lin Tse-Hsu para Comissário Imperial Extraordinário, dando-lhe, inclusive, a prerrogativa de Grande Almirante. Investido de plenos poderes, Lin Tse-Hsu ordenou aos mercadores chineses independentes que extinguissem o tráfico, exigindo-lhes a entrega de 20 mil caixas de ópio inglês. Numa cerimônia pública queimou todo o ópio apreendido, demonstrando ao povo chinês o quanto o Governo abominava aquele vício. Foi por essa ocasião que o Comissário Imperial escreveu à rainha Vitória, supondo que o governo inglês ignorasse o contrabando. Mas estava enganado; aquele governo apoiava integralmente o tráfico dessa poderosa droga que destruía a saúde e a vida de 20% dos chineses. 
              Desde 1773 vigorava na Inglaterra a "Lei de Regularização", pela qual a Companhia das Índias Orientais ficaria sujeita à administração de um governador nomeado pelo Parlamento inglês e sua contabilidade era também submetida ao exame do Tesouro real. Portanto, o Parlamento tinha perfeito conhecimento do tipo de comércio exercido pela Companhia. 
             O estopim da guerra foi o assassinato de um súdito chinês por marinheiros ingleses embriagados. O Comissário Imperial exigiu que o criminoso lhe fosse entregue, e o Superintendente inglês recusou-se. Indignado com o desrespeito à autoridade imperial, Lin Tse-Hsu ordenou ma expulsão de todos os ingleses de cantão. Era o fim das esperanças de expansão comercial. Imediatamente a Inglaterra respondeu com o bombardeamento de Cantão, marcando o início da "Guerra do Ópio", em março de 1839. 
                 Os modestos juncos chineses, barcos movidos a vela, não podiam oferecer grande resistência á frota inglesa, composta de possantes veleiros clíperes, fragatas e navios mercantes.  Sob o comando co Capitão Elliot, e mais tarde do Almirante William Parker, as forças britânicas tomaram portos importantes da costa chinesa. Em 21 de janeiro de 1841 apossaram-se da ilha de Hong-Kong, na região sudeste, de extrema importância estratégica. Não demoraram cair as cidades de Amoy, Tighai e Chusan.  Em 13 de junho do ano seguinte os ingleses ocuparam Xangai e ameaçam Pequim. 
            Vendo-se derrotados, em 29 de agosto os chineses assinaram o Tratado de Nanquim. O acordo regia, pelo espaço de 100 anos, as relações comerciais da China com o Ocidente. Cinco portos foram abertos aos ingleses: Xangai, Ningpo, Fu-Tcheu, Cantão e Amoy. Garantindo o direito de comércio, em cada porto estaria constantemente ancorada uma belonave britânica. Foi abolido o monopólio dos co-hong, a China foi obrigada a pagar indenização pelo ópio inutilizado e a ceder Hong-Kong. 
             O fim da Gerra do Ópio garantia á Europa, principalmente à Inglaterra, vasto mercado para a colocação de seus produtos. 
               Conhecendo a história fica mais fácil entender porque existe tantos ressentimentos dos chineses contra alguns países. Também podemos perceber que o tráfico de drogas não é um crime praticado apenas por bandidos; muitas vezes tem algum poder estatal por traz. 
               Hoje as drogas mais traficadas são a maconha e a cocaína, mas não pensem que isso continua porque os governos não conseguem vencer os traficantes; eles simplesmente não querem essa vitória.  
As Papoulas

                Dentre as flores que desabrocham nos campos de trigo, quando as messes já se mostram louras e maduras, há uma que, pela sua viva cor, parece mais satisfeita que as demais, em festejar a proximidade da ceifadeira. Esta é a papoula, uma planta que os camponeses não desejariam nunca ceifar devido ao vermelho vivo  de sua corola, que contrasta com o negro dos pistilos, possui uma das mais belas flores, uma das mais vivazes de quantas florescem em estado espontâneo entre o trigo, embora para eles fosse inútil. 
               A papoula (papaver rhoeas) é uma planta daninha, muito comum na Europa, na Ásia menor e na África Setentrional. Nos países mediterrâneos, da mesma família, são conhecidos o "papaver alpiunum", de flores brancas ou cruzadas que cresce nos declives dos Alpes e dos Apeninos, o "papaver hybridum" e o "!papaver dumbium", todas espécies estas que, tal como a papoula comum, brotam espontaneamente e que, com ela, tem em comum, mais ou menos variadas, a estrutura da haste e das folhas, o número e a forma das pétalas, a conformação capsular do fruto (chamado cápsula ou cabeça de papoula) e as sementes oleígenas. Outra espécie, os "papaverum somníferum" ou dormideira, em suas variedades "album", e "nigrum", é, para os homens, uma coisa bem preciosa, mas, também, infelizmente, bem mais perigosa. Essa planta, que não conhecemos em cultura espontânea, é cultivada, desde há muito, em toda a Ásia e na Europa, mas, talvez depois dos ensinamentos quanto ao emprego dela faziam os Hindus, os Persas e os Chineses, já no século XV, adquiriu inúmeros cultivadores em terras mais civilizadas. 
                 O "papaver somniferum" ama as localidades cálidas e, sem vento, é planta anual, que cresce rapidamente (na Europa, é semeada em fevereiro-março e suas flores aparecem em maio) destaca-se dos demais pelas enormes e cândidas flores e sua altura incomum, que pode alcançar metro e meio Quando as pétalas caem e os frutos começam a amarelecer, o cultivador, sem arrancá-los da planta, pratica nas cápsulas uma longa incisão, de onde brota um látex de cheiro nauseante, que, ao contato com o ar, logo escurece e se contrai e que será apresentado ao comércio, manipulado com folhas de papoulas, sob o nome de "OPIO". O ópio, mais abundante na variedade "álbum", contém muitas substâncias, e de vários efeitos (morfina, laudanina, codeína,tebaína etc.) que, se usadas em doses mínimas e separadamente, constituem um medicamento indispensável para certas doenças nervosas (insônia, hemicrania, cólica, tosse etc.), mas que, quando administrados em doses excessivas, conduzem, inevitavelmente, o indivíduo à loucura e, mesmo, à morte. 
               Por esta razão, e por iniciativa de Teodoro Roosevelt, então presidente dos Estados Unidos, na Conferência de Haia em 1912, os países europeus, americanos e asiáticos estabeleceram um controle atentíssimo, na cultura da papoula, e limitaram a produção do ópio unicamente às necessidades farmacêuticas, condenando, com leis severíssimas, aqueles que fizerem, ilicitamente, uso dele ou o expuserem à venda. 
              As sementes do "papaver" somniferum" são comestíveis; na Europa, mediante processos especiais (moenda das sementes e sucessivo esmagamento de sua farinha em prensa) extrai-se a substancia oleosa de que são riquíssimas e a qual, oportunamente refinada, é posta, depois, à venda sob o nome de "óleo de sementes". 


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quarta-feira, 13 de maio de 2020

A EUROPA DEPOIS DA REVOLUÇÃO FRANCESA




             Entre 1755 a 1810 o mundo ocidental viu-se agitado por movimentos liberais. Buscavam mudar a ordem estabelecida pelos governos de caráter absolutista, ou tornaram-se independentes de certas forças tutoras aristocráticas, com é o caso da Suíça. Em um e outro lado do oceano, a Revolução estendeu-se como uma onda difícil de frear. Esses movimentos inspiraram-se nas ideias iluministas, especialmente nas expressadas por Rousseau. Além disso, o sistema absolutista estava passando por uma profunda crise. Sua queda apresentou-se praticamente como inevitável. Esta época ficou conhecida como a Era das revoluções. 
                Durante todo o desenvolvimento da revolução, o povo parisiense teve um destacado papel. Apesar de não participar diretamente no governo da França revolucionária, suas manifestações influenciaram marcadamente as decisões políticas. 
               No dia 14 de julho de 1789 o povo tomou de assalto a fortaleza da "Bastilha". Este edifício foi construído no século XIV e era o baluarte do absolutismo e um símbolo do Antigo Regime. Segundo alguns autores, os revolucionários pretendiam apoderar-se das armas que se encontravam no edifício. Entretanto, estas não existiam, e a importância do fato reside no seu simbolismo. Este acontecimento é recordado a cada 14 de julho,que é o dia nacional da França.
                    Enquanto na França a queda da monarquia se delineava bem próxima, o crescente rumor do tumulto popular chegava a abalar os soberanos da Europa, dentro das paredes seguras de suas cortes. Estava patente, já a todos, como as ideias de liberdade e de igualidade, que até então tinham sido consideradas somente como interessantes proposições filosóficas ou projetos utopistas de inocentes eruditos, tinham calado no ´[intimo do povo, a quem séculos de ignorância e servidão não haviam privado de capacidades lógicas e de aspirações a uma sociedade melhor: o povo havia-se rebelado, tornara suas as doutrinas dos reformadores iluministas, interrompendo-as segundo as próprias possibilidades e os próprios interesses, compreendera que havia sofrido, durante inúmeras gerações, uma colossal série de injustiças e estava firmemente decidido a por-lhe cobro no mais breve tempo possível. O ruir da Bastilha provocara, em toda a Europa, ecos sinistros; urgia por um paradeiro em tempo à maré avassaladora, para que, depois de haver submergido, na França, todos os vestígios da velha ordem, não extravasasse além das fronteiras. Áustria e Prússia puseram-se em movimento, certas de que derrotariam facilmente uma nação que parecia presa da mais ampla anarquia; vive-versa, não fizera mais do que apressar a obra de reorganização dos órgãos centrais franceses que, diante do perigo comum, encontraram a nação mais firme do que nunca. O exército, isto é, o povo, não combatia mais, como no passado, contra inimigos desconhecidos e por motivos que ele ignorava; cada soldado tinha a sensação de bater-se pela sua casa e por aqueles direitos que acabara de conquistar. A Assembleia Constituinte da França terminara seus trabalhos em setembro de 1791; e a ela sucedera a primeira Assembléia Legislativa que, todavia, não parecia estar em condições, seja pela estatura política de seus expoentes, seja pela natureza de suas relações com o soberano, de assegurar firme direção ao país. Já a situação, doutro lado, fugia sempre mais ao controle central; de todos os lados, surgiam pequenos ditadores locais, as massas populares obedeciam aos demagogos que as manobravam e atiravam-se, com cega violência, ora ora numa ora noutra direção, segundo o bafejo dos ventos políticos mutáveis. 
                  Em 20 de junho de 1792, a Europa assistira incrédula o povo atacando em massa os palácio das Tulherias, e os verdadeiros responsáveis pelo Estado não mais podiam mover um dedo para detê-lo. Com fúria bestial, a plebe transpôs portas e portões, interrompeu os átrios, massacrou os Suíços que residiam, fiéis às ordens recebidas, matou os heroicos oficiais da Guarda, que tentavam, sozinhos, deter a avalancha. Pelas ruas de Paris, enfurecida a selvagem represália da Comuna, que prendia e mandava para a guilhotina centenas de pessoas, sob a acusação genérica de "inimigos do povo". 
            A coerência ideológica e administrativa diferenciou  o império dos demais então existentes, em especial o dos Habsburgos e o Otomano. Para os habitantes da França, Itália, Alemanha, Espanha e Países baixos, significou uma nova e frequentemente traumática experiência de viver em um Estado moderno.
               Todo esse movimento permitiu o surgimento de um grande militar: Napoleão Bonaparte. Quando tornou-se primeiro cônsul e chefe da República Francesa em novembro  de 1799, Napoleão tinha apenas 30 anos. Aos 28 já era general do exército revolucionário, ascensão facilitada pelo caos reinante da guerra contínua entre a França e a aliança de potências anti-revolucionárias, lideradas pela Grã-Bretanha, Áustria e Rússia.
                A contribuição mais importante de Napoleão Bonaparte para a história da Europa moderna não reside na sua brilhante carreira militar, mas na criação, na Europa Ocidental, de um império governado segundo preceitos introduzidos pela Revolução Francesa. Porém, Napoleão demonstrou audácia e habilidade política, explorando suas vitórias militares no norte da Itália em 1796/7. Desenvolveu uma linha pessoal e eficaz de ação diplomática, negociando a paz com os austríacos derrotados. Assim, criou no norte da Itália a República Cisalpina. Apoiado numa reduzida classe social de italianos patriotas pró-franceses e, quando possível, em abastados proprietários rurais, o novo Estado de Napoleão buscava seguir o modelo da França republicana. Desde o início de sua carreira política, a essência do pensamento de Napoleão previa a imposição das instituições francesas nas áreas que passava a controlar. 
                Em 1799, Napoleão chegou  ao poder da França por meio de um golpe organizado por políticos influentes com o propósito de reforçar, e não destruir, o moderado regime republicano que governava a França desde 1795: o Diretório. Quatro anos depois os acontecimentos militares viraram-se contra a França e os políticos republicanos temiam que o regime não resistisse a outra derrota militar ou ao ressurgimento da contra-revolução. A elite política, temendo a restauração do republicanismo extremado, com a reeleição do terror, optou por um executivo mais forte centrado no exército. 
              O general Napoleão Bonaparte tinha, então, 31 anos de idade; nasceu na Córsega e alcançou a fama conduzindo as forças revolucionárias francesas em um ataque relâmpago sobre o norte da Itália, além de invadir o Egito. Seu governo autocrático como primeiro cônsul (1799 x 1804) e como imperador (1804 x 1814) foi aceito pelo povo francês depois do caos do último período da revolução. Durante seus primeiros anos no poder justificou as esperanças  de um governo sadio ao introduzir medidas que formariam o alicerce permanente da maioria das instituições francesas Uma lei administrativa de 1800 reorganizou os departaments pelos quais a revolução dividiu a França, reduzindo o poder de seus conselheiros eleitos localmente e colocando um prefeito para representar a autoridade central em cada parte do país. A "Concordata" de 1801 pôs fim à disputa surgida entre a França revolucionária e a Igreja. O Estado tomava controle dos bens temporários da Igreja enquanto o papa se limitava à direção espiritual. A lei da educação de 1801 criou as escolas secundárias estatais, nas quais havia bolsas de estudo e onde a educação estava orientada para a formação de funcionários e oficiais do Exército capacitados. O Código Civil de 1804 teve ainda melhor recepção entre os franceses, sendo mais tarde conhecido como "Código Napoleônico", confirmado a igualdade perante a lei e os direitos de propriedade emanados da Revolução. Permitiu-se aos membros da antiga nobreza compartilhar os benefícios desta legislação, desde que aceitassem o novo regime. Napoleão consolidou a tal ponto os objetivos mais concretos da revolução, que estes se tornaram inalteráveis inclusive depois de sua queda, ainda que, ao  fazê-lo substituísse  a liberdade individual pela eficiência como objetivo do esforço humano. As funções do Parlamento reduziram-se ao mínimo e a atividade administrativa ocupou o lugar da política. A França passou a ser um país de lavradores e proprietários agrícolas, com o pesado fardo de uma burocracia na qual os homens talentosos podiam competir por postos e recompensas. 
             Logo a elite militar uniu-se aos burocratas, porque a paz que Bonaparte conseguiu no princípio de sua carreira durou pouco e entre 1803 e 1814 esteve constantemente em guerra. Os exércitos franceses, que haviam mostrado seu potencial durante a Revolução, alcançaram seus maiores resultados devido ao gênio administrativo e brilhante liderança de Napoleão como general. Ao abandonar a antiga estratégia militar do cerco, Napoleão procurou derrotar as forças inimigas no campo de batalha depois de manobrar melhor que elas para dividi-las e com isso superá-las em número. Conseguiu vitórias avassaladoras sobre a Áustria, em Austerlitz (1805); Prússia, em Iena (1806); e Rússia, em Friedland (1807), dando-lhe a supremacia na Europa. Uma invasão relâmpago da espanha em 1808 trouxe uma força naval expedicionária britânica a La Coruna, e novamente as hostilidades austríacas em 1809 produziram outra rápida vitória dos franceses em Wagram. Os êxitos militares foram acompanhados por uma agressiva diplomacia. Anexavam-se os territórios na fronteira com a França; a Suíça passou à "proteção" francesa; os príncipes governantes da Alemanha Ocidental aliaram-se a Napoleão em troca da expansão de seus estados; a Espanha, o nordeste da Itália, Nápoles e Westfália transformaram-se em reinos- satélites dirigidos por membros da família Bonaparte; as terras polonesas arrebatadas da Áustria e Prússia receberam como grão-duque um candidato nomeado por Napoleão. Somente a Áustria e a Prússia, muito menores, conservaram uma precária independência junto à enigmática Rússia.
            Napoleão nunca estava satisfeito, e insistiu que todos os seus governantes títeres, inclusive os mais distantes, estabelecessem instituições no estilo francês, caso houvesse alguma possibilidade, e adotassem seu código. Sua intenção era levar a cabo uma revolução social nas regiões mais retrógradas, como a Polônia, e também aproveitar os recursos de todo o império às necessidades da França. O êxito das novas instituições para criar uma sociedade fundamentada na riqueza e no mérito, e não em convenções e privilégios , foi maior nos Países Baixos, nas regiões às margens do reno e no nordeste da Itália, onde, por muito tempo, o feudalismo vinha desmoronando e os exércitos da Revolução Francesa assentavam as bases das idéias francesas, mas em nenhuma parte o resultado foi desprezível. Além disso, a influência de napoleão não se limitou ao continente europeu. Suas reformas, de inspiração secular e, portanto, não ligadas ao cristianismo, foram adotadas como modelo por Maomé (Mohammed) Ali, do Egito, e pelo sultão otomano Mahmud II no século XIX. O "Código Napoleônico" passou a ser modelo às reformas legais na América do Sul e no Japão. 
              Por sorte, para Napoleão, praticamente não existia nessa época um sentimento nacional na Alemanha nem da Itália. Apesar do ressentimento criados pelos abusos econômicos da França, muitos jovens dos territórios anexados ou aliados valorizavam as oportunidades de fazer carreira que foram abertas através das instituições napoleônicas e com a fusão de Estados insignificantes em unidades territoriais maiores. 
              Estas campanhas, que terminaram com uma aliança instável entre a Rússia, na "Paz de Tilsit", em 1807, estenderam o domínio francês à Europa Central. Nessas áreas foram criados reinos satélites; os Grão-Ducado de Berg, governado pelo próprio Napoleão; o Reino de Westfália, administrado por seu irmão, Jerônimo; o Grão-Ducado de Varsóvia; uma limitada restauração da Polônia; na Itália, enquanto o Reino de Nápoles ficou sob as ordens de seu irmão mais velho, José, restou a Napoleão o governo do Reino da Itália, ao norte. Luiz, outro irmão Bonaparte, tornou-se rei da Holanda, reino instituído em lugar da República Batava, o mais antigo Estado-satélite da França. 
           Tais governos presenciaram tentativas de introdução dos aspectos mais importantes do sistema administrativo francês. Na prática, isto significa investidas contra os privilégios feudais da nobreza, a posição ocupada pela igreja na sociedade e as arraigadas tradições nacionalistas. Reformas de inspiração francesa foram também adotadas nos pequenos Estados alemães leais a Napoleão: Baviera, Baden, Württemberg, Nassau e Saxônia.        
             Em 1807, a tentativa de derrotar a Grã-Bretanha levou a expansão francesa à fase seguinte, com consequências desastrosas. Para executar o plano de guerra econômica contra a Grã-Bretanha (o sistema continental) Napoleão foi levado a realizar novas anexações entre 1808 e 1811, primeiro na costa do mar do Norte, até Hamburgo, e na Itália Central - Toscana e Estados Papais. As exigências do bloqueio também o forçaram a intervir diretamente na Espanha, onde em 1808 foi criado um novo reino satélite sob a tutela de seu irmão José. Murat, cunhado de napoleão, assumiu o governo de Nápoles. Essas anexações não foram tranquilas como as anteriores, mas constituíram um império exterior, onde as instituições francesas não chegaram a se tornar uma realidade e as reformas foram combatidas. Na Espanha a extensão do território e a presença de um exército britânico em Portugal dificultaram a ocupação militar francesa, disseminando a resistência armada da população. Nos Estados Papais, a deposição do papa não só causou a excomunhão de Napoleão, mas gerou uma resistência passiva em massa à introdução de instituições francesas de governo. na costa do mar do Norte, o contrabando, fomentado pela Marinha britânica, atingiu proporções alarmantes. As resistências à convocação militar geraram um banditismo quase generalizado. Em 1809, o Estado-cliente da Baviera defrontou-se com uma revolta popular no Tirol, provocada pela introdução de uma série de reformas de modelo francês; na Itália Central e em áreas rurais perto de Veneza, irrompiam diversas rebeliões, embora sem coordenação. A única resistência popular importante á invasão francesa partiu da Espanha, onde a guerra de guerrilhas dos camponeses incentivou um exército britânico sob o mando de sir Arthur Wellesley (depois duque de Wellington) a desembarcar em Portugal em 1809 e abrir caminho lutando pela Espanha até o sul da França em 1813. Os principais inimigos de Napoleão no continente europeu foram os reis dinásticos da Áustria, Prússia e Rússia. os três, por conveniência, aliaram-se em algumas oportunidades a Napoleão, mas a ambição insaciável deste último levou-o, finalmente, a invadir a Rússia em 1812, e sua derrota fez com que os três  monarcas se unissem contra ele. O dinheiro para manter as forças militares desta aliança provinha basicamente da Grã-Bretanha, o inimigo mais persistente da França. 
              Quando Napoleão lançou a desastrosa invasão da Rússia, em 1812, motivada pela recusa do czar em apoiar o bloqueio anti-britânico, a hegemonia francesa ficou seriamente comprometida em todo o império, com exceção do seu núcleo interior - a própria França, a Renânia e o noroeste da Itália. Mas em 1814 até mesmo a França , exaurida financeiramente e esgotada pelo esforço do bloqueio, voltou-se contra napoleão. Seu breve e audacioso retorno ao poder, em 1815 - os cem dias - terminou com uma fragorosa derrota para os aliados, em Waterloo, embora sua impopularidade na França tenha sido transitória. 
             O rápido colapso do sistema estatal napoleônico entre 1812 e 1814 não é capaz de encobrir a influência fundamental da administração francesa na evolução da Europa moderna. Até mesmo adversários do imperialismo francês na França Ocidental abraçaram os princípios que norteavam suas reformas e não escondiam a admiração pela eficiência do estado napoleônico. Os liberais espanhóis, enquanto resistiam ao cerco francês ao porto de Cádiz, redigiram uma Constituição de inspiração francesa. No início do século XIX, reformistas espanhóis, alemães e italianos conceberam o estado moderno em termos essencialmente napoleônico. Por outro lado, a população européia aprendeu a desconfiar deste mesmo modelo, identificando-o com o serviço militar obrigatório, ateísmo e opressão. O período entre 1799 e 1814 presenciou o surgimento de um conjunto de situações que o "Congresso de Viena" não conseguiu eliminar. 
Tentativa de revolta na Polônia
         O século XIX assinala, em todo o mundo, o despertar do espírito nacional e independentista. A Bèlgica também, numa breve  e quase incruenta revolução, que é apoiada pela França e pela Inglaterra, torna-se independente da Holanda.  
            As nações que não possuem limites naturais bem definidos - essencialmente, mares ou cadeias montanhosas - estão sujeitos, mais do que as outras, a invasão, desmembramentos, reivindicações de territórios de parte dos vizinhos. Casos típicos, na Europa, são oferecidos pelo contínuo remanejamento de fronteiras entre os povos de língua alemã, pelas repetidas invasões sofridas pela Hungria, pelos retalhamentos da Polônia. Esta última, especialmente, situada sobre uma interminável planície, cujos únicos pontos firmes são os rios, todos vadeáveis, e algumas baixas gibosidades colinosas, circundada como é por poderosos e belicosos vizinhos, Russo a oriente, Alemães a ocidente, Austro-Húngaros ao sul, tem sido objeto, no decorrer dos três últimos séculos, de tantas cobiças e de tão repetidos desmembramentos, a ponto de não ter nunca conseguido assumir um configuração territorial estável. Quando subiu ao trono Estanislau Poiatowski, o protegido da Rússia, na constituição polonesa, foram efetuadas algumas reformas, mas, que a mutação dos tempos aconselhava com urgência. O País, de fato, era dirigido por um regime marcadamente feudal, no mais restrito sentido da palavra. As reformas, como sempre acontece, provocaram descontentamentos; disso se aproveitou a Rússia para intervir com aspereza e restaurar as condições precedentes. 
           A violência, ainda exercida por vias diplomáticas, irritou os patriotas poloneses, provocou a formação de bandos armados e, afinal, mergulhou o país na guerra civil, além do conflito com a Rússia. Acreditando ter chegado a ocasião favorável, a Turquia, por sua vez, atacou o império do Tzar, mas sofreu uma série clamorosa de derrotas, que a Áustria, preocupada em ver a Rússia tornar-se senhora do Oriente Médio e dos Balcãs, impeliu Catarina a abandonar suas conquistas meridionais, o que, cedo ou tarde, teria provocado intervenção de toda a Europa, e a compensar-se sobre a Polônia. Esta foi, então, repartida em três partes, que Áustria,Rússia e Prússia dividiram entre si como bons amigos. O governo polonês ficou nominalmente senhor de cerca de dois terços do território (nominalmente, porque, na prática, recebia ordens de Moscou). Como se vê, o hábito de tratar os povos como mercadoria de troca estava no auge também no século do iluminismo. Tudo isto aconteceu em 1772. Cerca de vinte anos depois, uma aliança de países da Europa contra a Rússia dava aos Poloneses a possibilidade de reafirmar a própria independência; mas foi um escasso sucesso, porque, um ano depois, a Rússia anexava a si, com a violência, metade do país, impondo de novo sua vontade ao governo de Varsóvia. Não ainda conformados, os poloneses insurgiam-se, pouco depois, em 1794, sob o comando do general Kosciusko, valente defensor da independência e um dos heróis da guerra de libertação americana. Mas, Rússia, Áustria e Prússia caíram-lhe logo em cima. Infelizmente, o valor e a justiça de uma causa por que se combate, em geral, nada podem contra a esmagadora superioridade de forças. 
          A legião polonesa chocou-se contra  o enorme exército russo, comandado pelo feroz ma hábil Suvarov, e foi derrotada. Kosciuszko, ao tombar ferido de morte, teria exclamado: "Finis Poloniae!" como para significar que, com ele, se extinguia o último hálito de independência.  De fato, a Polônia foi, em 1795, definitivamente repartida entre os vencedores e desapareceu do rol das nações livres. A morte de Kosciuszko, na batalha de Maciejowice, assinalou o fim da revolta polonesa e de qualquer esperança de sacudir o jugo estrangeiro. Repartida entre a Rússia, a Prússia e a Áustria, a Polônia, pouco depois, desaparecia da carta geográfica, seus patriotas partiram para o exílio e,por mais de um século, a nobre nação teria que suportar o peso não leve do governo tzarista. Sabemos com o Napoleão, ao aproximar-se do Vístula, suscitou as esperanças dos Poloneses que, por um momento, viram nele o provável libertador; como um corpo de Poloneses, comandado por um Poniatowski (sobrinho de Estanislau), participasse da expedição à Rússia, foi literalmente destruído durante a retirada. Em 1815, o Tzar Alexandre proclamou-se rei da Polônia e, pelo menos inicialmente, pareceu disposto e inclinado a conceder uma certa liberdade (compatível com a concepção algo restrita que os Russos tinham da liberdade), as bem cedo se demonstrou tão reacionário e duro quanto os seus predecessores, e as sociedades secretas começaram a surgir, na Polônia, bem como nas demais nações européias submetidas ao domínio estrangeiro. 
            Na Itália, na Grécia, na Espanha, os liberais e os independentes levantaram-ser; as revoltas, exceto a grega, foram logo sufocadas, mas já indicam, agora, a quem sofre o jugo da Santa Aliança, que os tempos estão maduros. Em 1830, os Franceses sacodem o absurdo jugo de carlos X; pouco depois, os Belgas, com a ajuda da França e da Inglaterra, tornam-se independentes da Holanda; confiando talvez no auxílio estrangeiro e no bom senso dos Russos (Alexandre I falecera em 1825), os poloneses revoltam-se e atacam o palácio do governador, que a muito custo consegue salvar-se da ira popular. Mas esta também, como todas as outras revoltas polonesas, estava destinada a permanecer estéril de qualquer duradouro resultado. O primeiro sucesso, bem explorado, teria podido causar a expulsão, pelo menos parcial, dos Russos, naqueles momentos, militarmente exaustos por uma das habituais guerras contra os Turcos. Entretanto, as primeiras vitórias foram seguidas por inexplicáveis contemporizações e por inúteis manobras diplomáticas, de modo que, poucos meses depois,os Russos podiam reorganizar suas forças e abafar definitivamente a revolta. Os cárceres, então, encheram-sede patriotas, os patíbulos e os pelotões de execução trabalharam a fundo. E uma vez mais a tirania triunfara sobre as ideias de liberdade. 
Restauração da Monarquia na França
                Depois de Napoleão I foi restaurada a Monarquia. Luiz XVII, surgido na França graças aos exércitos russo, ingleses e prussianos, encontrava-se, debelado o último reduto bonapartista, às voltas com uma situação não muito simples nem feliz. Atrás dele tinham voltado os emigrados, que haviam acumulado, em vinte anos de exílio, um ódio irredutível por tudo quanto soubesse, ainda que muito distante, a democracia, direitos dos homem e assim por diante; reentravam, muitos deles, para vingar-se daqueles que lhes guilhotinaram os parentes, lavar as humilhações, reconquistar os bens desapropriados. A burguesia, tornada muito forte sob o império iluminado de Napoleão e agora único e verdadeiro árbitro dos destinos do país, estava farta de guerras, sangrada economicamente pelos enormes sacrifícios que lhe haviam imposto as permanentes guerras do grande Corso; as guerras custam dinheiro, muito dinheiro, e tinham sido, justamente eles, os mercadores e os artesões da França, a fornecê-lo. O povo, de sua parte, embora estivesse desiludido pelas consequências do grande terremoto revolucionário, desencantado, e não mais muito seguro de que uma era de bem-estar se pudesse abrir para a humanidade somente massacrando a classe dirigente,estava todavia, bem cônscio de seus direitos. Ainda que cansado e ensanguentado como se achava (a campanha da Rússia e a guerra da Espanha, principalmente, tinham aberto um largo vácuo nas classes jovens), estaria disposto a lançar, ainda uma vez, a vida de seus filhos e seus bens nas barricadas, desde que não perdesse as grandes conquistas trazidas pela Revolução.
        O rei era um homem bondoso, como o tinha sido seu irmão, mais disposto a conceder do que a negar e, apesar das aparências, não tão cego para pensar que vinte e cinco anos de história pudessem ser cancelados com uma penada. Assim, assistiu ao curioso fenômeno de um rei que se esforçava em acalmar os demasiado acesos fervores dos monárquicos, de um rei em nome do qual se  cometiam homicídios e abusos (foi o chamado "terror  branco", desencadeado contra os ex-revolucionários e bonapartistas) e que tudo teria feito para contê-los ou repará-los. Reação houve, naturalmente, sobretudo nos primeiros anos; depois, o bom senso prevaleceu, embora por breve tempo, sob os ministérios de Richelieu e de Décazes. Os movimentos da Grécia, da Itália, da Espanha, confirmavam os realistas furiosos na necessidade de esmagar pela raiz a ideia liberal, que parecia germinar a cada repressão sanguinolenta. Apóstolos da liberdade, vinte anos antes, os Franceses não se cobriram certamente de glória, ao debelarem a revolução espanhola, em 1823; no local do Trocadero, combateu também Carlos Alberto de Sabóia Carignano, para lá enviado pelo tio, Carlos Félix, para limpar a consciência, bastante embebida de idéias liberalizantes. 
          Os rebeldes espanhóis defendiam-se denodadamente, na fortaleza de Trocadero, contra as tropas da Santa Aliança. E foram justamente as tropas francesas que assumiram o encargo de debelar os fautores daquelas ideias liberais, que na França tinham recebido a crisma de sua validade e universalidade.
            A Revolução de julho (1830) foi o fruto da política insensata dos dois epígonos dos Borbões, Luiz XVII e Carlos X. Humilhada por leis absurdas, a burguesia, nascida dos grandes dias da Revolução Francesa, insurgiu-se e orientou ao assalto o proletariado de Paris, varrendo do trono os anacrônicos representantes de uma época já superada.
           Se Luiz XVII tinha sido um soberano discretamente equânime, tanto que era obrigado, frequentemente, a conter os ministros em seus excessos reacionários, bem diferente foi Carlos X, seu irmão, que lhe sucedeu no trono em 1824. Desde o começo, o novo rei deu provas de suas intensões; a coroação, na catedral de Reims, revocou o fausto medieval que caracterizava aquela de Luiz XVI; da Cãmara foram eliminados todos os deputados não muito ligados; leis anacrônicas tentaram restaurar na França, naquela França que ouvira ecoar os ardentes discursos do Rebesbierre e de Mirabeau, usos já sepultos pelo tempo. Logicamente, a oposição, expulsa do parlamento, reorganizou-se, mais ampla e mais perigosa, entre o povo, nos clubes, nas sociedades secretas. Também na política externa, salvo a esporádica participação na guerra da Grécia, a favor dos rebeldes(participação que fora aconselhada por outros motivos que não de benevolência pelos revoltosos), Carlos X conduziu-se como reacionário; em harmonia com a tendência colonialista do século, deve considerar-se o início da expedição à Argélia, o primeiro passo para a restauração, ou melhor, a criação do império colonial francês.
            Até 1830, todavia, o rei e seus ministros não entraram em choque aberto contra a constituição e o Parlamento, mesmo interpretando muito livremente as normas constitucionais; mas quando, justamente naquele ano, a Câmara tentou impor ao trono a própria autoridade, o soberano lançou fora bruscamente sua máscara, muito transparente,aliás, de monarca constitucional e revelou-se como era na realidade, o mais retrógrado entre os soberanos absolutos. As ordenações reais, dissolvendo a Câmara esquiva, privam a maior parte dos eleitores de seus direitos;  medida inaudita, que não podia deixar de provocar indignação popular. Provavelmente, o rei pensava que a burguesia não se teria lançado ao torvelinho de um revolução e, sobretudo, que não  encontraria nas classes operária e camponesa, pouco atingidas pelas providências, a massa de choque necessária. Entretanto, a revolta ocorreu, imediata, e foi um fenômewno quase exclusivamente parisiense; povo e burguesia tomaram armas, e o rei, ainda uma vez, foi obrigado a fugir da capital (julho de 1830). Foram os liberais - marquês de La Fayette, o duque de Broglie, o banqueiro Laffitte - que se tornaram senhores da situação; foram eles que obrigaram o rei a abdicar, e colocar no trono, em seu lugar, o filho do guilhotinado Filipe "Egalité", Luiz Filipe de Orleans. 
           Luis Filipe de Orleans, herdeiro de um ramo colateral, jura fidelidade à nova constituição. Luis Filipe foi chamado o "rei burguês", devido à simplicidade de seus hábitos. 
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A Arte  Medieval  na França
                   Cinco séculos de quase absoluto silêncio criador sucederam-se à queda do Império Romano do Oriente.; somente na Itália se continuava, embora esporádica e toscamente, a produzir algo de novo, a escrever, a construir. Na França, a primeira nação européia, excluindo-se a Itália, que criou uma arte própria, surgiram, no século XI, as primeiras Igrejas românticas, escuras e maciças, no estilo da basílicas do século IX. Os arquitetos, que havia esquecido as áureas regras de Vitrúvio, (Grande arquiteto romano, que escreveu um "Tratado de Arquitetura) tinham sido obrigados a erigir paredes de enorme espessura, para garantir a estabilidade do edifício, (que frenquentemente ruía devido a erros de cálculo); isto conferia às catedrais românticas aquele aspecto de solidez, que as distingue, ainda hoje, das demais construções. 
            Os erros serviram de guia; gradualmente, também os arquitetos franceses elaboraram seu próprio estilo e elevaram, cada vez mais alto, suas construções, delineando, assim, aquele estilo gótico que fez escola na Europa e que deu maravilhosos exemplos de arquitetura sacra. Essas catedrais, enormes com relação aos edifícios que as circundavam, absorviam, muitas vezes, por vários decênios, as economias e os trabalhos de uma inteira cidade, chamando de toda parte escultores, técnicos em vitrais, entalhadores; assim, a par da arquitetura, prosperou,naquela época, na França, a escultura, enquanto bem escasso relevo teve a pintura, reduzida a bem poucas decorações de altar e preciosas miniaturas de livros, ricas de cores vivas e ingênuos detalhes (basta recordar Dante, que dizia "quel l'arte ch'alluminarè chiamata in Parisi").
             Os castelos franceses da renascença eram, geralmente, construções enormes, em que os adornos do século quatrocentos se sobrepunham à severa arquitetura militar de origem. 
               As construções de imponentes catedrais góticas empenhavam, quase sempre, por muitos decênios, as economias citadinas mobilizando legiões de pedreiros, canteiros, escalpelizadores, vidraceiros e escultores. 
              Nascia, naqueles últimos séculos da Idade Média, o idioma francês, produto da fusão de elementos latinos com o primitivo idioma céltico; floresciam na Provença, delicados poetas, os trovadores, que alegravam as cortes feudais, com suas elegantes canções, baladas e trovas, acompanhadas suavemente pelo alaúde. Bertrand de Born, Arnaud Daniel, Jaufrée Rudel, Bernard de Ventadorn, versejadores de aristocrática pureza, que eram conhecidos também nos países vizinhos. Alguns deles estiveram nas cortes italianas, como Rambaldo de Vaqueiras, e contribuíram para o impulso da lírica peninsular até então presa aos esquemas latinos. Naquela época, floresceram igualmente os longos racontos cavalheirescos, onde se descreviam as proezas dos Pares de Carlos magno ou dos Cavaleiros da Távola Redonda, narrativas originárias da Bretanha e da Provença, e aquele famoso Roman de la Rose, uma espécie de alegoria de mais de vinte mil versos, composto, nos meados do século II, por Guilhaume de Lorris e Jean de Meung e trazido para o italiano por um tal Durante, que alguns chegaram a identificar com Dante Alighieri. 
             Essa notável riqueza artística e literária poderia fazer-nos pensar num período medieval gentil e cortês, como os imaginavam os Românticos do século passado;  na realidade, porém, como já vimos, arte e literatura eram apanágio dos feudatários, ao passo que a burguesia e a plebe jaziam na mais completa ignorância, sobrecarregados de taxas e trabalho, contentando-se, quanto à arte, em admirar os arabescos e os anjos esculpidos nas fachadas dos templos, a assistir, na praça das aldeias ou nas ruas das cidades, aos mistérios (espetáculos sacros, representados por atores nômades) ou ouvir, boquiabertos, um cantastorie, que descrevia as façanhas de Reinaldo ou de Orlando. Mas, já a burguesia começava sua desforra espiritual: as Universidades, surgidas imitando as italianas, criavam, na França, uma aristocracia do pensamento, que logo iria contrapor-se validamente àquela das armas.Alegres e despreocupados, de bolsos vazios, os universitários vagavam pela França cantando suas canções e discutindo teologia e direito. Nascia, com eles, a nova Europa, livre das brumas medievais, pronta para receber o vento fresco da renascença. 
                A arte de miniaturar os grande livros de pergaminho prosperou na França; os livros, escritos a mão, quase sempre sobre pergaminho, eram um gênero de luxo, reservado somente aos nobres e às bibliotecas. Esplendidamente miniaturizados (uma arte tipicamente francesa) eram, via de regra, verdadeiras obras primas, de valor inestimável. 
              O Sorbona, isto é, a faculdade de teologia de Paris, congregava, na Idade Média, a elite da mocidade estudiosa da França. Lembremos que os moços universitários foram os pioneiros da Renascença Francesa. 

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terça-feira, 12 de maio de 2020

A REVOLUÇÃO FRANCESA - CAUSAS E CONSEQUEÊNCIAS



                Durante o reinado de Luiz XIV, a cidade fora enriquecida de palácios e monumentos, jardins luxuriantes de vegetação floresceram às margens do Sena; poetas, pintores, cultores de letras acorreram de toda parte, atraídos pelo fausto da Corte. A revolta do povo com as mordomias absurdas só aumentava dia a dia. O Rei Sol, ainda não satisfeito com o palácio de seus avós, mandou construir o de Versalhes, no lugar onde ficava o cassino de caça de Luiz XII. Sobre aquele terreno, outrora paludoso e insalubre, situado a poucos quilômetros de Paris, formou-se, como que por encanto, uma pequena cidade, circundada de maravilhosos parque ew jardins, alegrada e animada por espelho de lagos e chafarizes, e gargalhar de regatos. Naquela cidade de sonho, encontram asilo naquela época, nada menos dezoito mil nobre literatos. Mantida às do povo ativo e laborioso da vizinhança, a Corte entregava-se ao ócio, a jogos e festas, alternando as caças com récitas de gala. (Fazendo um paralelo - Brasília não está nada longe da antiga França Feudal).
               
               Não era mais o tempo em que o povo parisiense podia, nas assembleias, pesar com sua opinião nas decisões do rei.  Luiz XIV impusera seu domínio absoluto. 
             - "Isso é legal porque eu quero! - L'État cèste moi!" - eram suas frases preferidas. E o que o Rei Sol dizia, perante todos os nobres conselheiros, a pomposa corte de Versalhes, onde viviam como pássaros em gaiola de ouro, era mesmo lei, e a eles só restava obedecer. 
              Cresceram as injustiças e as vexações, choveram as taxas e os impostos, diminuíram os direitos do bravo povo da França, durante os reinados de Luiz XV e Luiz XVI; e, se Luiz XIV, embora na dureza de seu governo, havia excitado uma iluminada política exterior, seus sucessores não foram capazes de adornar-se ente os olhos dos súditos com qualquer mérito particular. 
               E as diferenças entre os privilégios da nobreza e os do clero com respeito ao "Terceiro Estado", a bancarrota financeira do Estado e a debilidade demonstrada pelo monarca Luiz XVI para manejar esta situação, junto com a força adquirida pelas ideias iluministas, propiciaram o movimento revolucionário que eclodiu em julho de 1789 com a simbólica "Queda da Bastilha".
                 O perigo da revolução começou a desenhar-se em setembro de 1715; nesta data  morria Luiz XIV, a quem os cronistas franceses chamavam de "Rei Sol", um rei  que não tinha por certo qualidades para dirigir um país, mas que, apesar de tudo, usufruía dos últimos reflexos da glória de Richelieu e de Mazarino, de maneira a dar aos seus súditos menos exigentes a impressão de resplender com luz própria.  Subia ao trono um menino de cinco anos, bisneto do defunto soberano, sob o nome de Luis XV; a regência fora confiada ao Duque de Orleans, um homem corpulento, mas algo curto de intelecto, que,certamente, não poderia levar a França a melhor sorte, tanto a nação já estava comprometida pelos desacertos de Luiz IV. De fato, as tentativas de instaurar uma sólida política financeira, isto é, de operar aquele reerguimento da economia de que o país tinha tanta necessidade como do ar, fracassaram uma após outra; contribuíam para criar o caos econômico a incompetência dos ministros (o próprio banqueiro Law, um escocês que conquistara a confiança do Regente, revelou-se um parlapatão), as enormes despesas da corte, as loucas especulações dos príncipes, a indiferença de quem deveria arcar com o peso das responsabilidades. As intrigas da corte misturavam-se à política interna e até àquela externa embaraçando-lhes e variando-lhes o curso de maneira imprevisível; homens sem qualquer valor alcançavam cargos altíssimos, devido ao favor do soberano; compravam os postos de comando ou os obtinham por meio de recomendações; uma classe privilegiada, constituída de nobres e clero, espremia sistematicamente o povo e delapidava milhões; as coisas se tornaram cada vez piores depois do advento ao poder do soberano, tornado maior de idade; Luis XV era homem de inteligência viva, de discreta cultura, mas não teve nunca nem vontade nem força para intervir eficazmente na política de seus ministros; ou talvez visse muito bem onde e como estivessem precipitando as coisas e considerava já inútil qualquer tentativa para salvar um barco que fazia água por todos os lados. "Depois de mim, o dilúvio" é a frase que os historiadores lhe atribuem, frase impregnada de um sorridente cinismo, que pode ser apreciada por algum particular, mas que faz estremecer um chefe de estado. As intrigas da corte, dirigidas por poderosíssimas favoritas do Rei, multiplicaram-se as despesas e as dívidas tornaram-se ainda mais imponentes. As guerras de sucessão, polonesa e austríaca, e a guerra dos "Sete Anos" reduziram o prestígio militar e político da França. 
               Com a morte do Delfim, Luiz XVI, que era seu neto, encontrou nas mãos um país à beira da bancarrota, uma nobreza indolente, uma plebe irritada e sediciosa; a única classe que revelava uma robusta vitalidade era a burguesia, nutrida pelo pensamento iluminista, que estava derrubando um após outro os fetiches da época feudal. Luiz XVI, filho do Grande Delfim da França, era um rapaz culto, bastante esperto, mas tímido e de caráter manso, ao contrário da esposa, que era, ao invés, ardente e impulsiva; ele ocupava-se com geografia, ciências naturais e tinha até aquilo que os americanos chamam de "hobby", um trabalho manual, com que se distraia nas horas de lazer. No início de seu reinado, recebido favoravelmente por todas as camadas sociais, ele confiara as forças da França a um hábil ministro, Turgot, que estabelecera um vasto programa em todos os setores da administração pública. Todavia, as eternas intrigas da corte fizeram com que somente dois anos depois, em 1776, Turgot fosse demitido e substituído por Jacques Necker. Este, que soube quanto de bom havia no programa de seu predecessor, ficou logo em posição desfavorável perante a nobreza, devido a certas suas públicas revelações quanto às despesas da corte (cerca de sessenta milhões de francos, de então) e, em 1781, teve que demitir-se. A dispensa de Necker fez ainda mais agradar o descontentamento que lavrava entre a população, que já não mais sofria o jogo feudal, agora cônscia de seus direitos e aspirante a uma mais larga justiça distributiva. 
                 Os ministros que se seguiram, Calombe e Loménie de Brienne, ligados aos interesses das classes privilegiadas, aumentaram o dissídio entre o povo e a coroa, tornaram irremediável a anarquia do erário, arruinaram, em poucas palavras, tudo quanto Turgot e Necker tinham iniciado; de todos os lados, reclamavam-se reformas, tanto pelos chefes populares como pelos intelectuais, até que o Rei, debatendo-se entre as opostas correntes, viu-se obrigado a convocar os Estados Gerais, supremo congresso da nação francesa. A última convocação remonta ao ano de 1614, mas bem diferente era, em 1788, a atmosfera em que os representantes da aristocracia, do clero e do terceiro estado se preparavam para deliberar sobre os destinos de seu país. As eleições de deputado à suprema assembléia foram tumultuadas; cidades e campos, e a própria Paris, já viviam em um clima de revolta. O rei e a corte assistiam, se não indiferentes, certamente como estranhos a esta explosão de ideias e de sentimentos desde muito tempo contidos. Até que, em 1788, o descontentamento do povo explodiu de maneira tangível, com demonstrações de cortejos pelas ruas de Paris. 
               O período do reinado de Luiz XVI (1774 a 1792) assiste às últimas e frustradas tentativas de conciliar os interesses em conflito . Enquanto o monarca ensaiava tímidas  tentativas de controlar a crise, a aristocracia e o Terceiro Estado (burguesia e povo); cada vez mais irreconciliáveis, preparavam-se para o confronto final, que acabou eclodindo.
                "Mas, eles não tem pão? Ora,  porque não comem bolos?" Esta frase atribuída a Maria Antonieta fê-la passar para a história como um modelo de falta de visão dos problemas sociais e de cinismo. A rainha da França, com a revolução nas ruas, achava possível que o povo escolhesse entre pão e bolos. 
               A simples possibilidade de que a esposa de Luiz XVI haja pronunciado realmente tais palavras, seja por insensata frivolidade, seja por pura ignorância, bem demonstra o abismo existente na França entre as classes sociais, no exemplo representadas pelos seus extremos: a nobreza (da qual a rainha era um expoente) e a população pobre de Paris. 
                Dir-se-ia que os nobres (inclusive o alto clero), a burguesia, o povo das cidades e os camponeses viviam em mundos diferentes. Presa aos seus interesses particulares, a nobreza era incapaz de perceber as aspirações das outras classes, insensível ao que se passa fora de seu próprio círculo social. Detentora de todos os privilégios, recusava-se a abrir mão de qualquer deles, até que lhes foram tomados pela força no último decênio do século XVIII. 
              O final do século XVIII foi uma época de transtornos em muitas partes do hemisfério ocidental, atribuídos, direta e indiretamente, à efervescência das ideias conhecidas como Iluminismo, reflexo das necessidades e tensões de uma sociedade em transformação. Tais ideias baseavam-se no novo conhecimento científico do século XVII, engendrando uma nova fé na razão e no progresso. Por um lado, isto levou a uma resistência à autoridade e a uma afirmação dos direitos humanos, expressados na famosa declaração de Jean-Jacques Rousseau de que o homem nasce livre, mas em todas as partes está acorrentado. Por outro lado, as novas ideias foram uma inspiração para os monarcas, que, no final do século XVII, começaram a concentrar o poder em suas próprias mãos e a governar mediante agentes burocráticos nomeados por eles. Governantes centralizadores e iluministas  como José II da Áustria (1780 x 1790) ou Frederico II da Prússia (1740 x 1786) inspiravam-se nos filósofos racionalistas como os enciclopedistas, para quem o governo era uma ciência que leva à eficiente satisfação das necessidades. Entretanto, suas atividades centralizadoras encontraram resistência em todos aqueles que tinham interesses criados no Antigo Regime: Igrejas, agremiações e corporações e, sobretudo, a aristocracia. Seus líderes recorreram às teorias de Charles Montesquieu e Burke para demonstrar que a sociedade era uma formação orgânica e seus agrupamentos tradicionais não só conferiam direitos inalienáveis a seus membros como produziam um equilíbrio de poder que resguarda os indivíduos da tirania. isso e o desejo de autonomia das províncias deram origem a um descontentamento. Ficou claro, que a efervescência não se deteria aí. 
               O mais provável era que ocorresse uma rebelião nas origens onde a aristocracia podia contar  com o apoio dos camponeses; mas na Europa Oriental estes últimos ainda eram servos, e era pouco provável que se rebelassem para apoiar os latifundiários, que eram seus opressores diretos. Contudo, as inovações também desagradavam aos camponeses, que às vezes lutavam tenaz,mente para conservar sua forma de vida tradicional, como o fizeram na Rússia sob o domínio de Pugache e na Hungria de José II. 
               Na Europa Ocidental, uma reação semelhante dos camponeses diante do poderio estrangeiros nas revolução belga teve certa importância. Por outro lado, os camponeses poloneses tinham poucos incentivos para apoiar a nobreza nas insurreição de 1791 e 1794 e o mesmo aconteceu na Irlanda, onde os nacionalistas de classe média, que contavam com o descontentamento dos camponeses em relação aos latifundiários ingleses, sentiram-se fraudados e sucumbiram frente às forças armadas britânicas por não chegar-lhes ajuda da França. Em compensação, os camponeses sérvios, que se insurgiram em 1804 na primeira revolta nacionalista dos Bálcãs, resistiram durante três anos até serem subjugados pelos exércitos reorganizados do sultão. 
                 As revoluções aparecem em grande escala pela primeira vez nas colônias inglesas da América. Recorrendo à filosofia de Locke sobre o direito natural, os colonizadores negavam-se a pagar impostos estabelecidos por um parlamento em Londres no qual não estavam representados. Em 1775, a disputa chegou a uma guerra declarada. Os homens moderados que mantiveram a antiga estrutura da sociedade foram substituídos por outros com objetivos mais democráticos e a guerra pela independência nacional ganhou apoio em todas as camadas sociais, incluindo pequenos agricultores, trabalhadores das cidades e a numerosa burguesia. O exemplo norte-americano para os rebeldes nos Países Baixos, assim como na França, cujas tropas lutaram no lado norte-americano durante a guerra. Mas na Holanda  e na Bélgica, as facções estavam muito divididas entre objetivos reacionários e progressistas e no êxito  frente à intervenção estrangeira. 
            A burguesia de Paris, que mais de perto pudera ver o esfacelamento da Corte, deu o exemplo. Atrás dela movimentaram-se as outras regiões da França, arrebatados pelo mesmo vendaval revolucionário. O Terceiro Estado, que abrangia os operários, os artesãos, os trabalhadores rurais, os homens de profissões liberais, os comerciantes, e que contava em seu seio a fina flor dos intelectuais, homens ilustres, cultos, estudiosos, espíritos amantes da justiça, reivindicou, afinal, seus direitos postergados. 
                No final do século XVIII, os sistemas econômicos e culturais das sociedades americanas eram mais evoluídos e complexos do que os regimes que as governavam. No centro e leste da Europa, governantes esclarecidos se empenhavam em instituir sistemas de governo mais centralizados e burocráticos em sociedades ainda basicamente feudais. Várias revoluções na Europa Ocidental me no Novo Mundo originaram sistemas políticos de governos abertos, sujeitos à prestação de contas, regidos por constituições escritas e com assembleias eleitas. ainda que raramente democráticas. Em outras regiões, governantes como José II e catarina a Grande da Rússia, viram fracassar reformas frente aos poderes da nobreza e estruturas econômicas feudais predominantemente agrárias. A assim chamada era das revoluções foi limitada geograficamente e serviu para distanciar ainda mais a Europa Oriental da Ocidental. 
               Grã-Bretanha e França (os dois principais estados da Europa Ocidental no final do século XVII) tinham economias desenvolvidas, com crescente mercado doméstico para as indústrias e comércio ultramarino em expansão. Eram também centros do iluminismo e os principais filósofos (embora não se manifestassem abertamente sobre política nem pregassem a revolução) com frequência aludiam ao distanciamento entre as necessidades da sociedade e a capacidade dos governos de atendê-las. 
                 A Grã-Bretanha possuía o sistema político mais avançado, calçado em um único parlamento nacional, que conferia certa representatividade ao governo, e um eficiente sistema fiscal. Já a França tinha sociedade e economia modernas, mas o governo dependia de um sistema tributário medieval. No último quarto do século XVIII, a monarquia  francesa tentou reformar o sistema fiscal, mas fracassou: interesses de setores como a nobreza e os proprietários de terras combinaram-se ao temor  de que uma monarquia financeiramente forte se tornasse despótica. Já a Grã-Bretanha evitou crise semelhante no plano interno, mas as tentativas de reformas administrativas nas treze colônias Norte Americanas geraram confrontos que culminaram na Revolução Americana. Isso se deu nos anos 1775 a 1781 com a independência dos colonos. Essa independência se deu porque os colonos foram forçados à rebelião por um Estado no caminho da tirania. A partir de então os colonos americanos ergueram estruturas políticas próprias, forjando um novo Estado; voltaram-se para os filósofos políticos do iluminismo, em especial Montesquieu, buscando formas de governo com equilíbrio entre os poderes; com a elaboração de uma Constituição escrita e formal, instituindo um regime de governos eleitos, os revolucionários norte-americanos promoveram o progresso da cultura política ocidental.
                  Uma revolução  Holanda em 1787/ 88 repetiu os acontecimentos da América do Norte. A frágil estrutura federal da república Holandesa parecia ameaçada por propostas de reforma do exército apresentadas pelo seu governante, o "stadholder" (um vice-rei e uma província da Holanda). O temor do despotismo motivou revoltas nas províncias e fez surgir um movimento patriótico, que exigia independência e participação. 
                Na França, em 1789, uma crescente crise financeira precipitou acontecimentos semelhantes , embora mais conturbados. Confrontado por uma oposição resoluta a seus planos de reforma fiscal. Luiz XVI convocou os Estados gerais, assembleias de representantes eleitos de todo o reino que não se reunia desde 1614. Esta medida trouxe um novo grupo para o centro da vida política francesa. A indecisão de Luiz XVI face a uma colheita desastrosa, sublevações no campo, falência iminente e, acima de tudo, o conflito hostil entre deputados da nobreza e da plebe criaram uma lacuna de poder logo preenchida pelos estados Gerais, agora a autoproclamada Assembleia Nacional. Colocando-se á frente dos acontecimentos, o organismo aboliu os privilégios fiscais (o que reduziu o poder político da nobreza, da Igreja e de muitas cidades e províncias) e criou um sistema administrativo uniforme com a extinção das antigas províncias e Assembleias locais. Em 1791, foi criado um Estado centralizado com uma nova Constituição baseada em uma monarquia limitada, em parceria com uma Assembleia eleita, fundamentada na riqueza. Cessava aí o consenso entre os revolucionários. Entre 1791 e 1799, a Revolução Francesa foi marcada por dissensões violentas na nova classe política, com questionamentos sobre o grau de democracia da Constituição, a validade da monarquia e, fundamentalmente, sobre a continuidade da revolução. Enquanto isso na América do Norte divergências semelhantes evoluíram de forma, em geral, tranquila. 
                Na França três fatores precipitaram a violência: Luiz XVI tentou emergir como centro de oposição à Constituição; muitas formas, especialmente as que afetavam a Igreja, eram impopulares no campo; e, acima de tudo, as outras potências européias logo interviram para tentar deter a Revolução que se aproximava e tirar partido de uma França debilitada. Tudo contribuiu  para jogar por terra o pacto de 1791. 
                 Em 1792, a França estava em guerra com Áustria e Prússia e, em 1793, com a Grã-Bretanha. No mesmo ano, Luiz XVI e a Constituição deram lugar a uma República com um governo de guerra apoiado em nova Convenção Nacional, eleita por sufrágio masculino universal. Dissensões levaram os revolucionários a uma guerra civil. E, após vários expurgos do governo e abandono da Constituição democrática de 1793, houve um consenso que permitiu a Napoleão tomar o poder em 1799 como ditador militar comprometido em proteger as novas classes políticas, embora privando-as do poder. 
                A diversidade na composição e nos interesses das diversas camadas sociais explica porque a Revolução Francesa atravessou diversas fases, à medida que os acontecimentos favoreciam a ascensão de uma  ou outra facção ao poder. 
              Além do mais, a maior parte dos interesses em jogo não era necessariamente contrária á existência da monarquia, desde que constitucional. Luis XVI perdeu seu trono em 1792 e pouco depois sua cabeça em 1793 devido à sua própria incapacidade de definir-se diante da Revolução. Com eleito, se ele favoreceu a burguesia nomeando Turgot ministro das Finanças em 1774, impediu que as reformas se completassem demitindo-o bruscamente em 1776. Seguiu escolhendo ministros reformistas (Necker -  de 1776 a 1781; Calone de 12783 a 1787; Brienne de 1787 a 1788 e novamente Necker  que seguiu até à revolução), mas permitiu que a oposição da nobreza reduzisse  a nada o programa dos ministros. A convocação dos estados Gerais para 1789 representou a derradeira tentativa de conciliação. O falatório dos tribunos serviu apenas para demonstrar que suas divergências  eram profundas demais. Sem esperar pela conclusão dos parlamentares, esgotou-se a paciência popular. A 14 de julho de 1789, o Terceiro Estado(Povo) passou às armas, atacando a ´risão da Bastilha  e iniciando um novo período da história da França. 
              Foi a Queda da Bastilha, em 14 de julho de 1789, o sinal para a revolta. A velha e tétrica prisão, onde enlanguesciam os primeiros espíritos revolucionários, era o símbolo do despotismo. A seguir, vieram os turbilhonantes dias de outubro, quando a massa do povo parisiense, onde havia milhares de mulheres famintas, avançou sobre o castelo de Versalhes e, após invadi-lo, obrigou o rei a voltar a Paris. A Revolução Francesa estava em marcha. 
                Quando em 12 de setembro de 1792, numa atmosfera ainda rubra de lutas e sangue, foi proclamada oficialmente a República Francesa, e os princípios de um governo democrático, segundo o qual os homens devem ser livres e iguais em seus direitos de liberdade, de propriedade, de segurança pessoal e de resistência à opressão, foram enunciados, pela primeira vez, no antigo berço da monarquia francesa, o mundo inteiro compreendeu que os dramáticos dias que os cidadãos de paris haviam vivido, não pertenciam somente à história de uma cidade, mas assinalavam o advento de uma nova ordem de coisas, um novo mundo. 
               O processo revolucionário francês é, sem dúvida, o mais importante dentro do agitado panorama político do século XVIII. Foi, além disso, um dos mais polêmicos. A historiografia preocupou-se constantemente dele e são milhares os escritos que apresentam a Revolução Francesa como uma grande façanha ou, ao contrário, como um acontecimento pernicioso e até desnecessário para a França e à cultura ocidental. 
                 É difícil elucidar os motivos que conduziram a esta obsessão pelo tema. Muitos são os fatores que se aglutinam em torno da França e da Revolução, apresentando-a como um tema apaixonante e extraordinariamente complexo. 
                 A monarquia absolutista francesa chegou com Luiz XIV e a sua máxima expressão de grandeza e centralização. Seu sucessor, Luiz XV (1715 x 1774), teve, entretanto, menos êxito. Apesar de o esplendor de sua corte não ter diminuído em relação à época do Rei Sol e ninguém ter questionado o seu absolutismo, a maioria de suas iniciativas em política exterior fracassou. A infrutífera participação da França na Guerra dos Sete Anos e na contenda pela sucessão Austríaca significou ao país mais poderoso da Europa perder seus territórios na Índia e na América do Norte.  
               A humilhação destas derrotas foi parcialmente compensada pelo bem-sucedido apoio da França à revolução das colônias inglesas entre 1776 e 1783, embora a sua independência de nada tenha servido para recuperar o que perderam em 1763. Pelo contrário, investiu-ser uma quantidade de dinheiro considerável, proveniente do Tesouro do Estado. A França encontrava-se em meio a uma crise financeira de grandes proporções, acentuada pelo crescimento populacional e pela subida dos preços, especialmente dos alimentos, que em algumas regiões se quadruplicou durante o século XVIII. Para evitar a bancarrota, o governo de Luiz XVI (1774 x 1793) chamou uma sucessão de conselheiros especializados que recomendam uma ampla gama de soluções, como, por exemplo, elevar os impostos (que recaíam principalmente no "Terceiro Estado"), ou reduzir os gastos. Todas as tentativas foram inúteis e não foi possível equilibrar o orçamento. Finalmente o governo tentou uma nova saída: cobrar impostos dos setores que estavam isentos: a nobreza e o clero. 
                Os dois grupos estavam dispostos a não perder este importante privilégio, ainda mais se considerarmos que, com o absolutismo dos Capetos, perderam toda a ingerência no governo. Tão profunda era a crise que Luiz XVI decidiu convocar os Estados gerais, a antiga assembléia representativa da França, que não se reunia desde 1614. 
                Esta importante convocação tornou-se realidade em maio de 1789, dentro de uma atmosfera de desespero geral, produto das más colheitas dos anos 1787 e 1788. A coroa perdeu o controle quase imediatamente. Durante três semanas houve disputas entre os três Estados a respeito da forma de votar, a nobreza e o clero eram defensores do voto por classe social; o Terceiro estado, do voto por cabeça. 
              Apoiado por alguns nobres e sacerdotes simpatizantes, a e dada a esterilidade da reunião, o Terceiro estado constituiu-se em junho na "Assembléia Nacional", exigindo garantias efetivas para os direitos básicos dos franceses, uma monarquia constitucional com uma assembléia representativa e outras reformas que aboliram os privilégios dos nobres e dos sacerdotes.
                 Este conceitos ganharam força entre os intelectuais no transcurso do século XVIII e eram perfeitamente conhecidos entre os franceses alfabetizados. 
                 Entretanto, Luiz XVI relutou em aceitar estas reformas. No princípio de julho, decidiu dissolver a Assembléia Nacional pela força, fato que, somado à impaciência do povo parisiense, contribuiu para polarizar os ânimos e agravar a situação que já era crítica.
                  No dia 5 de maio de 1789, em Versalhes, reuniram-se 1145 homens, chamados pelo Rei para deliberar quanto aos destinos da França; daquela França que, por causa da pluri-decenal incúria  de seus ministros e de seus soberanos, já marchava à deriva, como se fora uma nau desgovernada. Duzentos e setenta, entre os deputados reunidos em Versalhes, representavam a intiga e a recente nobreza da França; duzentos e noventa e um eram os representantes do clero, a segunda classe, pela riqueza e privilégios; os remanescentes 584 representavam, na assembléia, os direitos do terceiro estado, isto é, da burguesia e da arraia miúda.
                A abertura dos estados Gerais ocorria em um clima envenenado pelo ódio de classes; as primeiras sessões, em que se discutiu o sistema de votação, não fizeram mais do que aumentar o atrito, revelando o insanável dissídio entre o clero e a nobreza de um lado e o terceiro Estado do outro. Os representantes deste último, que, entre outras coisas, propunham as soluções mais lógicas, acabaram por se separarem do resto da assembléia, reunindo-se, visto que o Rei lhes vedara o acesso na sala de sessões, no recinto dos esportes (aquilo que equivaleria, em nossos dias, a uma quadra de tênis coberta); tendo constatado que eles representavam a grande maioria da população francesa, os deputados do terceiro estado constituíram-se em Assembléia Nacional e, após o discurso que o rei pronunciou, três dias depois, recusaram dissolver-se. Ante esta situação, também os demais deputados aderiram ao movimento. No dia 27 de junho era oficialmente inaugurada a Assembleia Nacional Constituinte, que se propunha reordenar pela base o regime político do País.  
             A Revolução estava em marcha antes que a corte pudesse certificar-se disso; e o povo, de que a Assembléia representava somente em parte o copo diretivo, vinha bruscamente à ribalta e vibrava um primeiro e terrível golpe. Surgia em Paris, no bairro de Santo Antônio, um enorme edifício cinzento, forte com suas catorze torres, cheio de ameias e canhões: a Bastilha. Fazia mais de quatro séculos que a gigantesca fortaleza, onde qualquer pessoa podia ser trancafiada por uma simples ordem do soberano, representava, em Paris, o símbolo do absolutismo; homens de qualquer condição, literatos, nobres, populares, culpados e inocentes, consumiram a vida e morreram entre aquelas paredes. Em Paris, na noite de 14 de julho, respirava-se ar de barricadas; a revolta dos representantes do terceiro estado tinha agido como um clarim de guerra sobre a alma dos parisienses, e a sedição estava em ato. Pela manhã, os grupos de populares,que durante a noite tinham acampado e rumorejado pelas ruas, uma multidão, verdadeira maré que, como que levada por um obscuro instinto, marchou contra a Bastilha. Aos gritos da plebe, que exigia a libertação dos prisioneiros políticos, a Bastilha Opôs o cego silêncio de suas muralhas; à primeira sraivada, aos primeiros tiros que ecoaram no gigante de pedra, as bocas de bronze dos canhões apareceram nas ameias e a metralha varreu o povo de Paris. O sangue, o troar dos canhões, os gritos levaram ao paroxismo a excitação do povo: aquela que não teria passado de uma demonstração política tornou-se assalto e fúria destruidora. Sob o ímpeto da massa, cederam, em poucas horas, as portas e os torrões da fortaleza; um rio de homens furibundos irrompeu para além dos fossos, abatendo, destruindo, matando. O governador da Bastilha, Delaunay, aguardou friamente o choque; pouco depois, sua cabeça, já decapitada, ondulava, metida em uma lança, por sobre a multidão; três dos suíços que, fiéis à ordem, tinham permanecido no posto, foram massacrados. A noite caiu sobre a vitória do povo e sobre a nova e mais grave derrota da monarquia: pouco tempo depois, no local onde fora a Bastyilha, transformado em uma grande praça, o povo de Paris dançava a "Carmagnole".
               Agora, qualquer ilusão de poder reconduz\ir as coisas à normalidade, reduzindo a revolução ao estado de um simples motim, caíra também nos ambientes mais renitentes da Corte. Procurou-se salvar o salvável; por isso, o rei tentou entender-se com o único homem que poderia salvaguardar os interesses da monarquia, sem fazer sombra aos representantes do povo, o Conde Gabriel Honorato de Mirabeau. Este, nobre de nascimento, mas despido de recursos financeiros, turbulento e malvisto aos expoentes de sua classe, fizera-se eleger deputado do terceiro estado; aqui passou a ser, pelo contraste existente entre sua condição social e suas ideias políticas, o mediador natural entre as duas potências em luta. A tentativa de conciliação deste homem, valorizado por um engenho e por faculdades tribunícia excepcionais, mas viciado pelo escasso respeito que nobreza e povo tinham por ele (era conhecida sua vida, desregrada e não imune de corrupção), naufragou quando estava para dar seus frutos; em abril de 1791, o grande tribuno morria, e a monarquia encontrou-se novamente sozinha diante da crescente e agora já incontível torrente da Revolução.
           Assim, o dia 14 de Julho de 1789, chegou-se a um dos acontecimentos mais simbólicos da Revolução Francesa: a Queda da Bastilha, um fortaleza que representava para os parisienses o baluarte do absolutismo. De alguma maneira, este fato marcou o fim da antiga ordem. 
                Durante o mês de agosto, a Assembléia aprovou uma série de decretos fundamentais que aboliram a isenção de impostos, o recebimento do dízimo, o monopólio aristocrático sobre os cargos públicos e o antigo sistema feudal. Também promulgou a Declaração de Direitos Humanos e do Cidadão, que proclamava a liberdade, a igualdade e respeito pela vida e à propriedade como os fundamentos do novo Estado. Estabeleceu a igualdade perante a lei e o imposto, a liberdade de expressão e os cargos abertos ao talento. Esta declaração foi um manifesto às classes médias que controlavam a Assembléia e a todos os liberais europeus do século seguinte. 
               A secularização da Igreja foi outra das obras da Assembléia. A Constituição civil do clero dispunha que todos os bispos e  sacerdotes fossem eleitos pelo povo, e submetidos à autoridade do estado. O tesouro público pagaria seus salários e seria exigido que jurassem à nova Constituição. Esta medida adotada pela Assembléia Nacional foi, talvez, uma das mais polêmicas, já que dividiu profundamente a sociedade e mesmo a igreja.
                Em setembro de 1791, a Assembléia deu por encerrada  sua missão ao ser proclamada a Constituição. este documento convertia a França em uma monarquia constitucional, co o rei cujo poder era limitado por corpos administrativos eleitos entre os cidadãos, com direito a voto, de acordo com o critério censitário. Além disso,  estabelecia a separação dos poderes, impondo assim uma das ideias-chave do pensamento ilustrado.  
               O ano de 1791 foi marcado por violentos distúrbios, produto do rumo que tomavam os acontecimentos. Muitos franceses fugiram do país e começaram a organizar a contra-revolução. 
                A ameaça estrangeira foi um fator fundamental para o posterior desenvolvimento da Revolução. Assumindo esta possibilidade, às vezes mais realista que outras, os revolucionários buscaram aprofundar as mudanças para assegurar os resultados da revolução, que se radicalizou a partir de 1792, deixando de lado os objetivos primitivos. 
                 O "grande Medo", os distúrbios no campo e nas cidades e a declaração de guerra à Áustria, no mês de abril, selariam o desenvolvimento posterior da revolução. 
                  Em agosto decidiu-se pela deposição da monarquia, após Luiz XVI ter protagonizado um vergonhoso episódio ao tentar fugir para a Áustria. Para os revolucionários, a tentativa do monarca de escapar da França confirmou os temores de uma grande contra-revolução orquestrada do exterior. O rei foi feito prisioneiro no Palácio das Tulherias junto com toda sua família. Julgado por traição à pátria, foi condenado a morrer na guilhotina, sentença que foi cumprida em janeiro de 1793. Em outubro deste mesmo ano, a rainha Maria Antonieta teve a mesma sorte. 
                  O período de terror iniciou-se em meio a um ambiente viciado, produto da guerra, que era então continental, e das fortes disputal internas entre os mesmos revolucionários. 
            O líder de governo jacobino foi Maximiliano Robespierre, um advogado das arrás que quis fazer da França um Estado moralista onde a razão tomaria o lugar da religião. O governo republicano deixou nas mãos do comitê da Salvação Pública os destinos da França, Suspendendo, além disso, a vigência da Constituição. Assim, a França era governada por um pequeno grupo de jacobinos que radicalizaram ainda mais o processo, ao apoiar-se na "lei dos suspeitos", para desbaratar qualquer tentativa de complô, e na guilhotina. Inclusive, fizeram com que a França adotasse um calendário próprio, marcando o seu início com o começo da República. 
              O primeiro ato político importante da República Francesa, nascida da primeira plebiscitária votação da Convenção, foi a decisão de submeter o rei a um processo regular, sob a acusação de conivência com o inimigo, de traição a dano da nação, e assim por diante. O processo, na realidade, tinha o objetivo de legitimar a morte do rei aos olhos dos estrangeiros, do país e dos próprios acusadores, porque parecia evidente, a muitos, que a própria existência de Luiz XVI, ou de seu legítimo herdeiro, constituiria um perigo constante para a República; em redor do rei exilado (na França, obviamente, não poderia permanecer) poderiam juntar-se todos os emigrados, os legitimados de todos os países, e não faltaria também, na pátria, a formação de um forte partido favorável à restauração; de outro lado, o clima envenenado daqueles dias, a exasperação dos ânimos, a ferocidade dos maiores expoentes da revolução não permitiam meias medidas; nos momentos de desordem, os Marat e os Robespierre, sempre presentes em qualquer multidão, surgiriam em primeiro plano e imprimiriam aos eventos a selvagem violência que os animavam. Orei, portanto, foi processado, reconhecido culpado, condenado  à morte por uma exígua maioria de votos (parece certo que o veredito das urnas tenha sido alterado por Robespierre, que se opôs também a um  referendum popular). Luis XVI transcorreu os últimos sombrios dias de sua breve existência com a família, na Torre do Templo; em 21 de janeiro de 1793, o desventurado herdeiro de Hugo Capeto subia os degraus da guilhotina. Como se o último freio houvesse cedido, a França, após a morte do rei, rolou sempre mais rapidamente para a desordem, em um horrendo banho de sangue. Dois homens dominavam o cenário político, diferentes em índole e aspecto, mas ambos violentos e perigosos: Jorge Danton, maciço e impiedoso, e Maximiliano de Robespierre, magro, frio e cruel. Com o inimigo às portas, a custo contido pelas milícias republicanas, com a Vendéia (região provavelmente monárquica) em aberta revolta contra o estado, qualquer providência, ainda que atroz e absurda, parecia legítima; assim foi recebido como coisa justa o tribunal revolucionário, encarregado de encher de inocentes as carretas que transportavam os condenados para a guilhotina, e o Comitê de Saúde Pública, transformado, por obra de Danton e de Robespierre, em um órgão de terror. Entre os dois chefes do povo (expoente um, Danton, do "Clube dos Coldeliers" e depois daquele da Montanha, o outro, Robespierre, dos Jacobinos, iam-se verificando atritos sempre mais graves; se, em Danton, a ferocidade era temperada e quase justificada por um caráter generoso e por um profundo amor à pátria, em Robespierre, ela aparecia em sua desumana crueza; este homem, frio como seu olhar, sem afetos nem paixões, incorruptível e desapiedado, era um asceta da revolução, dedicado ao seu objetivo, que pretendia alcançar mesmo à custa de semear seu caminho com cadáveres. Danton acabou sucumbindo ao choque, e com ele pereceram na guilhotina seus adeptos. Agora, já o terror não tinha mais limites; também Maria Antonieta foi executada,  apos um breve processo, e seu filho, o Delfim, confiado a um sapateiro, para que o criasse; provavelmente, o jovem príncipe morreu pouco depois, mas, o fato que nada mais se soube dele, criou as mais estranhas lendas a seu respeito e fez surgir, aqui e acolá, alguns anos depois, vários pretendentes ao trono, que alegavam ser o Delfim. Mortos Danton e Marat (este foi morto na banheira com uma faca, pela Carlota Corday d'Amont, jovem filiada ao partido girondino); Robespierre, chefe efetivo do Comitê de Saúde Pública, imperou no país como um ditador; o ritmo  das execuções foi-se acelerando, assistiu ao massacre de milhares de pessoas que com a política nada tinham que ver, até que se chegou, em 1794, a executar mais de duzentas pessoas por semana somente em Paris. Tempos de ouro, portanto, para os carrascos e coveiros. Era evidente (e somente Robespierre, em sua fria e sanguinária loucura, podia não perceber) que as medidas estavam transbordando; os próprios colegas do ditador sabiam que sua vida estava presa a um fio, enquanto aquele paranoico permanecesse no poder. Bastou que ele afrouxasse por alguns dias seu controle sobre a Assembléia para que esta se lhe voltasse contra, decretando-lhe a condenação à morte. Inicialmente fugiu à revolta dos deputados à Convenção refugiando-se entre amigos, no "Hotel de Ville", onde alcançado. Preso, libertado pelos seus companheiros e novamente aprisionado, o tirano subiu os degraus daquele patíbulo sobre o qual mandara à morte milhares de inocentes. 
              Como podemos ver, as tenções entre os jacobinos não se fizeram esperar. Finalmente, foi o próprio Robespierre quem perdeu a vida na guilhotina. Com sua morte, em julho de 1794, o governo do Comitê de salvação Pública e do Terror jacobino chegou ao seu fim. 
              A reação ao governo de Robespierre não tardou achegar: o chamado "Terror Branco" fez estragos no sul da França e os girondinos voltaram ao poder instaurando o governo do Diretório, em 1795. 
                     Naturalmente, os homens que o substituíram não eram melhores do que ele; a reação contra seus supértites partidários foi implacável e durou muito tempo. Os "termidoranos" (assim denominados devido ao mês em que ocorrera a revolta contra Robespierre; no calendário republicano, o mês de Julho fora rebatizado "termidor") mantiveram-se no poder pouco mais de uma ano; segundo uma lei votada pela Convenção, em 1793, lei que entrou  em vigor exatamente em 1795, a França recebia um governo estável, com um Diretório de duas Câmaras. O úlçtimo fatosaliente da época propriamente revolucionária foi um extremo ataque dos realistas à Convenção, em setembro de 1795; os revoltosos foram dispersos, a tiros de canhão, por um jovem general republicano, Napoleão Bonaparte
             O Diretório governou os destinos da França até 1799, em meio a uma corrupção generalizada. 
              Este período, marcado por campanhas militares no estrangeiro, viu nascer para a vida pública um homem que estaria destinado a desempenhar um papel destacado na França pós-revolucionária: corso Napoleão Bonaparte. 
                                Hoje,  o povo de Paris festeja a data de 14 de julho com uma alegria e pompa sem par, e danças e cantos se improvisam pelas ruas da "cidade-luz". 
              Em 1952, Paris comemorou o seu segundo milênio, com festejos poucas vezes vistos em qualquer outra parte do mundo. 
              E as águas do Sena continuam acariciando certamente a pequena ilha onde surgiu Lutécia. Palpita a vida parisiense na "Cité", totalmente reconstruída e modernizada. Todavia, quando alguém vai flanando pelas suas belas alamedas e para de repente, diante do imponente palácio da Justiça, não pode conter um gesto de emoção. É que o edifício foi levantado exatamente no local em que, em tempos que já vão longe. Constâncio Cloro erigiu seu palácio, onde o primeiro rei francês, Clodoveu, quis que fosse sua mansão. E não será talvez uma advertência para toda a França, essa coincidência, como a lembrar a todos os seus súditos que somente a Justiça tem direito de reinar como soberana incontestável? 

Como foi a tentativa de  fuga de luis XVI
               Enquanto o conde de Mirabeua, do alto de suas improvisadas tribunas, trovejava contra reacionários e mazorqueiros, procurando induzir a corte às mais amplas concessões e ao mesmo tempo conter a fúria sanguinária dos extremistas, os eventos sucediam-se, inevitáveis e definitivos, como catástrofes naturais. Em 5 de outubro de 1789, poucos meses depois  da tomada da Bastilha, o povo de Paris, excitado pela ira dos demagogos e faminto pela carestia que, na desordem geral, estava assolando a França, mandou uma sua delegação a Versalhes, a fim de conversar com o rei: uma delegação, a despeito das normas diplomáticas, muito bem armada, composta de vários milhares de homens e mulheres gritando ameaçadoramente. O própreio soberano - Luis XVI era um homem excessivamente bom e meigo, incapaz de uma ação de força - opôs-se a que as tropas carregassem e dissolvessem a multidão que as acotovelava debaixo de suas janelas; a plebe invadiu os jardins, que séculos de cuidados tinham tornado preciosos como jóias, invadiu os salões recobertos de afrescos e parou somente quando diante dos monarcas que, apesar de tudo, ainda impunham certo respeito. O rei, a rainha e a corte tomaram assim contato, dura e bruscamente, com a Revolução, e quando a maré popular refluiu o paço, eles já estavam certos de que não só seus privilégios, mas sua vida e a própria monarquia estavam em perigo. Um após outro, de cambulhada, os nobres ajuntaram quanto puderam de seus bens e fugiram para o exterior, de modo que bem cedo a família real se encontrou quase completamente isolada. Ainda por algum tempo, Luiz XVI teve a sensação de que a popularidade sua e de sua casa, não houvesse desaparecido; sua adesão à festa programada  para o Campo de Marte, no aniversário da tomada da Bastilha, provocou ovações de parte do povo, mas lhe custou humilhações às quais nenhum soberano da França estava acostumado. 
               De Versalhes, imediatamente após a invasão popular, a corte transferiu-se para Paris, para as Tulherias. Aqui, à medida que os meses passaram, o rei mais  e mais se compenetrava de que não era mais do que um prisioneiro de seus súditos. Haviam passado apenas setenta anos desde a época de ouro de Luiz XIV, mas desde esse tempo as coisas haviam mudado e as ideias revolucionárias, saídas dos restritos cenáculos dos pensadores iluministas, tinham encontrado, na França, terreno fértil. Em Paris, estava adquirindo sempre maior prestígio o clube dos Jacobinos que, nascido  com ideias reformadoras algo moderadas e inicialmente favoráveis à monarquia, na qual reconhecia uma função equilibrada, ia-se inclinando sempre mais para uma política extremista. Mirabeau, o único homem talvez que poderia tentar um extremo salvamento da instituição monárquica, pronunciou seu último grande discurso justamente no clube jacobino, mas, com sua poderosa figura, desapareceu o último aliado dos Burbons. Quando o rei pudesse contar com o esforço de Mireabeau para escoar o trono vacilante pode-se deduzir confrontando duas datas, aquelada morte do tribuno em 2 de abril de 1791, e aquela da derradeira tentativa para evitar os fatos. Já desde muitas partes chegara ao rei o conselho de refugiar-se no estrangeiro, sob a proteção das armas austríacas ou prussianas, e tinham-lhe oferecido auxílios para facilitar a fuga. O rei não quisera nunca aceitar, talvez mais pela sua natural incapacidade de tomar uma decisão irrevogável do que pelo orgulho de soberano. A morte de Mirabeau truncou as hesitações e sacudiu a inércia de Luiz XVI, mas tratava-se de uma decisão tardia, tomada sob a urgência dos acontecimentos e, por isso mesmo, mal preparada. Impelida pela ameaça agora sempre mais grave e iminente, a família real resolveu abandonar Paris a fim de refugiar-se em uma província segura. Na noite de 20 de junho, pouco tempo depois da morte do grande tribuno, a família real,disfarçada e acompanhada de pouquíssimas pessoas de confiança, saía por uma porta secundária das Tulherias, retirando-se em uma ampla carruagem. O objetivo da viagem não era aquela de ultrapassar a fronteira, mas o de alcançar o exército do marquês de Boullè, acampado perto de Montmédy. Nas primeiras horas, a fuga parecia transcorrer favorável, mas, infelizmente, em Varennes, quando se procedia à troca dos cavalos, um homem olhou para dentro das janelinhas, que estavam com as cortinas levantadas, e reconheceu o rei. A notícia espalhou-se num relâmpago; não podia haver equívoco quanto aos motivos que tinham conduzido até lá o rei e os seus, disfarçados. Imediatamente, as autoridades  locais providenciaram para bloquear a estação de muda, pediram reforços de tropas e informaram Paris. A família real foi obrigada a desembarcar e, hospedada em uma estalagem, pouco depois era entreegue à Guarda Nacional e reconduzida a Paris, sob uma boa escolta. A notícia da fuga já se espalhara por toda parte e, durante a viagem de regresso, a família real teve que sofrer os sarcasmos e os escárnios da multidão. Ao reentrar nas Tulherias, o rei sabia que os dias de vida da monarquia estavam contados. E, de fato, a Assembléia Nacional providenciou logo para suspendê-lo de suas funções. Durante três meses, enquanto não foi reintegrado, Luiz XVI foi um rei sem reinado, um monarca em exílio, em seu próprio palácio. 


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