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domingo, 2 de agosto de 2020

A CONSTRUÇÃO DA PRÚSSIA POR UM POVO GUEREREIRO



                 O historiador romano Tácito chamou de aestili as populações que, nos primeiros séculos da era cristã, habitavam a região entre  os rios Vístula e Niemen, voltada para o mar Báltico. Mais tarde, nos séculos II e II, a área sofreu a invasão dos godos, que eram povos germânicos vindos da Escandinávia. Aos godos se seguiram os borússios ou prussianos, aparentados aos letões e lituanos. 
                Pensando nos 180 mil homens bem armados e treinados na obediência cega a seu chefe supremo, o rei, o escritor francês disse em 1788:  "A Prússia não é um Estado que possui um exército, mas um exército que possui um Estado". 
                 Formavam a mais temível e numerosa força armada da época. Foi com esse poderoso instrumento que a Prússia garantiu seu lugar entre as grandes potências européias do século XVIII. 
               Originalmente os prussianos eram um povo de caçadores guerreiros e acabaram por entrar em conflito, no século XIII, com o ducado polonês da Masóvia, constituído no médio Vístula, em torno da cidade de Varsóvia. O duque da Masóvia sabia o tipo de inimigo  que tinha pela frente e, para contê-lo recorreu ao auxílio da ordem dos Caçadores Teutônicos, criada no período das Cruzadas com a  missão de dar combate aos infiéis na Terra Santa. Depois de um século de muita briga, os Cavaleiros Teutônicos dominaram a região,  que daí em diante começou a prosperar. 
               No entanto, a dominação teutônica apoiava-se na força das armas e numa organização de tipo feudal, que reduzira os prussianos à servidão. Eram inevitáveis as revoltas internas, promovidas pelos nobres proprietários de terra e pelos comerciantes das cidades. Isso,somado aos conflitos com a Polônia, abalou o poderio teutônico no século XV. Resultado: a Polônia, defrontou-se com um inimigo enfraquecido por convulsões internas saiu ganhando. Quando a paz foi assinada em 1466, a Ordem Teutônica teve que ceder as regiões da Pomerélia, Mariemburgo, Kulm e Ermland, incorporadas à Polônia com o nome de Prússia Real; e foi obrigada a aceitar a suserania polonesa sobre o restante de suas terras, a "Prússia Oriental", ou seja, aparentemente autônoma, a área era apenas um feudo, vassalo do rei da Polônia. 
              Em 1525, finalmente, toda a Prússia era transformada num ducado hereditário sob suserania polonesa. Quem promoveu essa modificação foi um alto dignatário prussiano, o Grão-mestre Alberto de Hohenzollern ou de Brandemburgo, como passou a denominar-se, ao concluir a paz de Cracóvia com o Rei Sigismundo da Polônia. 
               Esse ducado passaria como herança, em 1618, a joão Sigismundo de Brandemburgo. Nasceu, assim, o Estado brandemburguês-prussiano, que incluía, além do Eleitorado de Brandemburgo, tipo de Estado que tinha direito a voto na eleição do imperador, e do Ducado da Prússia, pequenos territórios ao longo do curso inferior  do rio Reno (Clèves, Mark, Ravensberg). Mas o novo Estado , sem consistência territorial, uma vez que suas diferentes áreas não tinham fronteiras comuns, pois não possuía plena independência. E os Hohenzollern eram duplamente vassalos: do Imperador do Sacro Império Romano-Germânico (pelo Eleitorado de Brandemburgo) e do rei da Polônia (pelo Ducado da Prússia). 
                A união com o Brandemburgo ligou o destino da Prússia ao dos Estados alemães. A região alemã não conhecera o movimento que,nos séculos XV e XVI, levara à constituição de grandes Estados nacionais centralizados pelo poder monárquico, em outras áreas da Europa (Portugal, Espanha, França, Inglaterra). Manteve, à semelhança de península itálica, a feição herdada do período medieval: um mosaico de pequenos domínios, onde predominavam os vínculos feudais. Ao todo, eram mais de 360 Estados, diferentes em extensão, recursos e sistemas de governo. 
              O Sacro Império, cujos domínios não se reduziam aos territórios alemães, era governado da Áustria pela família dos Habsburgos. Mas as diversas políticas e a debilidade militar da maioria dos Estados tornaram a região alemã alvo do interesse de algumas nações européias, em expansão econômica e territorial. A França, por exemplo, conseguiu subtrais a Alsácia em 1648 e o Estrasburgo em 1681 do domínio dos Habsburgos. Já a Suécia, interessada no controle do Báltico, tomou a Pomerânia Ocidental em 1648. Pelo  leste, a ameaça vinha da Rússia, que estava em plena expansão. Com esse cenário iniciou-se a ascensão da Prússia, primeiro em aliança e a seguir em conflito com os Habsburgos. 
               Não se pode negar que, realmente, a grandeza prussiana foi obra dos Hohenzollern, a partir de Frederico Guilherme, o Grande Eleitor, que governou de 1640 a 1688. No seu governo, alargaram-se as fronteiras do Brandemburgo-Prússia, que recebeu a Pomerânia Oriental, os antigos bispados de Miden e Halberstad e o Ducado de Magdeburgo, ao seu concluída a Paz de Vestfália, assinada em 1648, ela pôs fim à "Guerra dos Trinta Anos", travada entre os Habsburgos e os Bourbons, este da França. 
            Enquanto procura dar mais coesão aos dispersos territórios dos Hohenzollern,  Frederico Guilherme consegue em meio de guerras e tratados pôr fim à suserania polonesa sobre o Ducado da Prússia. E com uma hábil política de alianças, obtém sucessos militares, que transformam o Brandemburgo-Prússia em líder dos Estados protestantes alemães. A exemplo das grandes nações  européias, sonha com a criação de um grande império colonial; para isto estabelece  entrepostos comerciais na Guiné. Mas essa realização teve vida curta. 
               No plano interno, o esforço de Frederico Guilherme é voltado para a construção de um Estado forte; com ele, nasce a monarquia  absoluta prussiana. Formou um exército que em pouco tempo se tornou o primeiro da região alemã, e com apoio nele dobrou impiedosamente as resistências locais ao absolutismo. 
              A obra de Frederico Guilhermne sobreviveria à sua morte. Foi continuada por seu filho e sucessor Frederico, que reinou de 1688 a 1713. Excelente político, Frederico, em troca de apoio militar ao imperador Habsburgo, obteve que este o reconhecesse  como rei da Prússia. E a 18 de janeiro de 1701, fez-se coroar em Koenigsberg, com o nome de Freedrico I; a partir de então todos os territórios do Brandemburgo-Prússia passaram a chamar-se simplesmente Prússia. 
             O dinamismo da região, nessa época, contrasta com a estagnação dos outros Estados germânicos. Enquanto cresce a população urbana, a Academia de Belas-Artes e a Academia de Ciências de Berlim transformam esta cidade em importante centro cultural. 
                À vida faustosa e alegre da corte de Koenigsberg, Frederico Guilherme I, sucessor de Frederico I, preferiu a austeridade de seu gabinete de trabalho em Berlim. Honrando a tradição dos Hohenzollern, foi um incansável defensor do estado forte prussiano, que governou com mão-de-ferro de 1713 a 1740. 
             Um grande problema era o estado territorialmente disperso. Para superá-lo, criou uma administração burocrática exemplar, dividida em departamentos especializados. O numeroso corpo de funcionários era regido por uma disciplina férrea e por um devotamento absoluto ao Estado. 
                 No tempo de Frederico Guilherme I, a economia prussiana cresceu a passos largos. A agricultura beneficiou-se da recuperação das terras pantanosas do leste, totalmente colonizadas, e da abolição da servidão em todas as propriedades da coroa. Com uma política protecionista, o rei taxou pesadamente as importações, ao mesmo tempo em que estimulava a exportação. Com isso, beneficiou o comércio e a produção locais, possibilitando por outro lado a acumulação de moeda nos cofres do Estado. 
              Mas a grande preocupação do monarca,que lhe valeu o apelido de "Rei-sargento", foi o poderio militar prussiano. Enquanto a população total do estado não ultrapassava dois milhões de pessoas, seus efetivos militares chegavam a 83 mil homens. Para ter ideia do que isso significava, considere-se que, na mesma época, a França , dez vezes mais populosa, tinha um exército de 160 mil homens, apenas. Com essa força , Frederico Guilherme I participou da Guerra de Sucessão da Espanha, conflito que começara em 1701 e só terminou em 1714, e que opôs os Habsburgos à França na disputa do trono espanhol. Como saldo dessa participação, a Prússia recebeu pelo Tratado de Utrecht  (1713) a região da Gueldria. 
               O exército de Frederico Guilherme I envolveu-se ainda na Guerra do Norte, entre a Suécia e os estados do litoral báltico (Dinamarca, Rússia, Saxônia e Polônia). E graças a isso obteve, com a Paz de Estocolmo, a posse da Pomerânia Ocidental (ou Pomerânia Sueca) e sobre a vizinha região de Stettin. 
               Mas, se eram muitas as satisfações vindas das vitórias que ampliavam o mapa prussiano, o "Rei-sargento" também tinha desgostos. O maior de todos: seu filho Frederico, um rapazinho franzino, que detestava a vida militar e evitava a companhia do pai. Preferia o convívio com a mãe e a irmã, junto das quais ouvia música, tocava flauta e lia os últimos livros dos romancistas, poetas e filósofos franceses. E por isso o velho Frederico Guilherme I chamava-o, com desprezo, de "francesinho". 
              O rei temia pelo futuro da Prússia, mas sem razão. O "francesinho" subiria ao poder em 1740, com o nome de Frederico II, e ele logo provaria que era da mesma estirpe dos Hohenzollern. E com uma vantagem sobre seus antecessores; era homem cultíssimo . 

              Frederico II, chamado de o Grande, é com siderado como um dos principais representantes do despotismo esclarecido - doutrina que contestava a teoria do poder divino dos reis. Os déspotas esclarecidos - uma das marcas do século XVII na Europa - justificavam o poder absoluto, mas desde que pautado pelos preceitos da razão. todos eles foram reformadores e amigos e protetores dos intelectuais. 
               Frederico, o Grande, não fugiu à regra. promoveu grandes reformas jurídicas, aboliu a tortura, deu liberdade religiosa a seus súditos, terminou com a censura sobre a imprensa, ampliou o movimento de colonização, protegeu os intelectuais (entre os quais o pensador francês Voltaire). 
               O início do reinado de Frederico II, que os historiadores chamariam de "o Grande", tinha dado a impressão de que uma era de paz iluminada se abriria para a Pérsia; na verdade, a primeira metade de seu reinado, durante cerca de quarenta e seis anos, foi uma guerra contínua. No ano 1740, morria o imperador Carlo VI e, em base da "pragmática sanção", que autorizava a sucessão em linha feminil, subia  ao trono Maria Teresa. Era evidente que muitos príncipes europeus fariam oposição; Frederico resolveu invadir imediatamente a Silésia, para ocupar algumas terras sobre as quais os Hohenzollern se achavam com direito, oferecendo a Maria Teresa, em compensação destas perdas, seu apoio militar contra os adversários. De fato, poucas semanas depois, durante uma festa da corte, enquanto nada fazia prever sua intensão, o rei deixou secretamente Berlim, alcançou as tropas e marchou para a fronteira silesiana. Maria Teresa recusou, porém, negociar com o invasor, de modo que Frederico se encontrou automaticamente em aliança com os Franceses, que avançavam do Ocidente; a campanha durou pouco mais de um anos; foi uma sequência de brilhantes vitórias prussianas e terminou com a conquista  total da Silésia de parte de Frederico II. Após um início tão fulgurante de sua carreira de chefe de estado e de comandante de exércitos, o rei da Prússia devia esperar uma adequada reação de parte dos potentados europeus, interessados em manter o equilíbrio de forças em uma região densamente povoada e sem limites naturais, como era a Alemanha.  Realmente, esta reação, chefiada por Maria Teresa, que via ameaçados de perto seus domínios, não se fez esperar; Inglaterra, Áustria, Holanda e saxônia uniram-se para trancar as nescedouras veleidades expansionista de Frederico. Este, que sofrera notável desfalque em seu potencial bélico, na última campanha, considerou , todavia, oportuno tomar a ofensiva e, em poucos choques vitoriosos, debelou um por um seus adversários, obrigando-os à paz; os príncipes alemães, que tinham contado humilhar o rei da Prússia, degradando-o para o título de marquês de Brandeburgo, tiveram que se arrepender e e admitir que ninguém, naquele momento, poderia competir com ele. Mas, assim que ficou livre dos pesados encargos de guerra, Frederico dedicou-se àquelas atividades para as quais se sentia mais inclinado. Reformou o exército sobre bases mais elásticas, desembarcou, ulteriormente, a burocracia estatal e a justiça. Infelizmente, enquanto Frederico estava entretido nessas obras de paz, seus ex-adversários, em nada tranquilizados pelos tratados assinados com ele, começaram novamente a movimentar-se, a armar soldados e a estreitar secretamente alianças. 
           França, Áustria, saxônia e Rússia teceram uma rede de tratados de mútuo socorro e, quando Frederico pediu explicações quanto àquelas manobras diplomáticas e concentração de tropas nas suas fonteiras, responderam-lhe tão evasivamente que ele, com a rapidez de decisões que o caracterizava, resolveu atacar primeiro. Em agosto  de 1756, um corpo de 60.000 prussianos entrava subitamente na saxônia, sitiava a fortaleza em que se encerrara o exército saxão e batia sanguinolentamente os reforços austríacos, prontamente acorridos. O início da campanha não poderia ser mais brilhante. O ano seguinte foi pleno de combates em todas as frentes; rodeados de inimigos, que possuíam forças pelo menos em triplo às dele e recursos praticamente inexauríveis, Frederico podia contar  apenas com seu gênio para sair vitorioso da luta. Suas manobras eram sempre as mais rápidas; movimentando-se com a massa de suas forças, ele batia os adversários separadamente, antes que eles se reunissem e o sobrepujassem pelo número; uma tática id~entica a essa, porque derivada justamente do estudo daquelas campanhas, usaria mais tarde Napoleão Bonaparte. Na terrível luta conduzida por Frederico contra toda a Europa, que o queria morto, vitórias e derrotas se alternaram durante sete anos, de 1756 a 1763. 
              Um por um, os adversários a de Frederico foram afrouxando; a paz firmada em Hubertsbourg, em 1763, ratificava o estado de fato adquirido em 1845, consignando à Prússia, definitivamente, o papel de grande potência.  Daí até sua morte, Frederico embainhou a espada, salvo por uma breve cruenta campanha contra a Áustria, em 1778; preocupou-se mais com a administração de seu país, em que se revelou sempre mais hábil e sábio; publicou numerosas obras sobre vários assuntos, interessou-se pela arte e pela filosofia, manteve correspondência com os maiores cientistas de seu tempo. Seu prestígio na Europa, depois da "Guerra dos Sete Anos", era fortíssimo; foi ele quem, depois do efêmero reinado de Estanislau Poniatowsky, conduziu as negociações que levaram à retalhação do território polonês entre Áustria, Rússia e Prússia (1772). 
              Sob a gestão de Frederico, o Grande, o absolutismo monárquico atingiu o apogeu. O rei era o primeiro juiz, o primeiro general, o primeiro financista, o primeiro ministro, mas também o "primeiro lacaio do Estado", totalmente submetido ás necessidades do estado prussiano. E meio à Europa aristocrática do século XVII, a Prússia sobressaía como Estado militar, possuidor do maior exército europeu da época. Para Frederico II, uma das necessidades do Estado prussiano era expandir-se: e o "primeiro lacaio do estado" lançou-se, com seu poderoso exército, a essa tarefa. 
               No ano em que Frederico II subiu ao trono, declarava-se uma crise por causa da sucessão da coroa austríaca. Com a morte do imperador Carlos VI, a coroa foi para Maria Teresa, filha primogênita do rei, que tinha apenas 23 anos de idade. Imediatamente, Carlos Alberto, da Baviera, e Filipe V, rei da Espanha, apoiados pela França, reivindicaram a coroa, contestando a lei de Carlos VI que outorgava às mulheres o direito de sucessão. 
              Aproveitando-se da situação, Frederico II invadiu os domínios austríacos. Em duas campanhas, que levaram o nome de Guerras da Silésia ( de 1740 a 1742) e (de 1744 a 1745), conseguiu subtrair a Silésia aos Habsburgos. Mas a revanche viria, violenta, na chamada Guerra dos Sete Anos que durou de 1756 a 1763, onde os prussianos tiveram que enfrentar a Áustria, aliada a franceses, russos, poloneses, suecos e ainda a alguns Estados alemães. 
                O exército prussiano era forte e, depois de alguns reveses contra o forte inimigo, obteve uma série de vitórias. E ao ser assinado o Tratado de Hubertsburgo em 1743, a Prússia garantia para sia a posse da Silésia. Em 1772, Prússia, Rússia e Áustria fariam a primeira partilha da Polônia, com a qual Frederico, o Grande, anexou o Ermland e a Prússia Ocidental ou real. Assim, formou-se um Estado prussiano continental, que se estendia do rio Elba ao rio Niemen. Apenas pequenos territórios do ocidente continuavam separados. 
                 No dia 17 de agosto de 1786,  Sans-Souci, (Potsdam) palácio que o monarca prussiano fizera construir no melhor estilo francês, amanhece de luto. Frederico, o Grande, morrera. Agora a Prússia será governada sucessivamente por Frederico Guilherme II (1786 a 1797) e Frederico Guilherme II (1797 a 1840). Mas os Hohensollern continuam no poder; os territórios prussianos não param de crescer. 
              Rússia e Prússia, em 1793, Áustria, Rússia e Prússia, em 1795, fazem a segunda e a terceira partilha, dividindo entre si o que restara do território polonês depois de 1772. O território prussiano quadruplica com a incorporação da Posnânia, da Masóvia e de regiões orientais até Niemen. E a ascensão de Napoleão ao trono da França em 1840 aparecia como fato auspicioso para os Hohensollern; o imperador francês entregou  a Frederico Guilherme II importantes regiões no centro da Alemanha. 
              Mas a formação da Confederação do Reno, união dos estados alemães aliados a Bonaparte, assustou o rei da Prússia, que se passou para o lado dos inimigos da França, estabelecendo com a Rússia uma aliança em 1806 (a chamada Quarta Coligação). As consequências foram desastrosas. Os franceses, no mesmo ano, invadiram Berlin e o Tratado de Tilsit (1807) acabou por retirar da Prússia a maior parte de seus territórios, além de impor pesada indenização de guerra e o acantonamento das tropas napoleônicas em solo  prussiano. 
               Napoleão, mais tarde, é derrotado pelas potências européias que se lhe opunham e, pelo Congresso de Viena em 1815, a Prússia ficaria sem as possessões de leste obtidas pela terceira partilha da Polônia e sem a maior parte das anexadas na segunda partilha. Em compensação, recebe áreas consideráveis da Alemanha Ocidental. de Subsolo rico, esta regiões e mais a Silésia possibilitaram-lhe grande desenvolvimento industrial no século XIX. Rica, industrial e, ainda, militarmente forte, a Prússia pode realizar, em 1871, a unificação de toda a Alemanha, sob sua hegemonia. 

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quinta-feira, 14 de maio de 2020

A GUERRA DO ÓPIO ENTRE CHINA E INGLATERRA



                
                Para iniciarmos este estudo é importante saber o que é o ópio.
               O ópio é uma palavra grega (ópion); no latim(opiu) e quer dizer suco de papoula. Dela se pode extrair muitas substâncias farmacológicas; também chamada de "Papyer Somniferum" é muito conhecida como a Papoula do Oriente. Hoje muito produzida no Afeganistão que a produz e exporta como droga. Em muitos países subdesenvolvidos, muitas vezes por falta de opções os camponeses  são levados a trabalhar no cultivo de plantas (hoje consideradas ilícitas) como a papoila, que está na base da produção industrial do ópio. 
               O uso do ópio mascado ou fumado, que se espalhou no Oriente, provoca euforia, seguida de um sono onírico; o uso repetitivo conduz ao hábito, à dependência química, e a seguir a uma decadência física e intelectual, uma vez que se trata de um veneno  estupefaciente. Os alcaloides que ele contém é largamente utilizado na medicina (morfina e papaverina), como sonífero analgésico. 
              Pois foi exatamente esta bela flor que provocou uma guerra, no início do século XIX  entre os chineses e ingleses.
                 A Índia e a China, extremamente populosas, exerciam enorme atração sobre os mercadores ingleses. Mas, enquanto a Índia comerciava abertamente, o Governo chinês não demonstrava interesse algum pelas mercadorias européias. Os negociantes ocidentais adquiriam na China artigos como seda, porcelana e, principalmente chá, que alcançavam bons preços na Europa. Mas não conseguiam colocar nenhum de seus produtos. O comércio sí sofria muitas restrições. Somente duas cidades podiam entrar diretamente em contato com os mercadores estrangeiros: Cantão e Ourga. E todas as operações comerciais deviam ser feitas através de determinados negociantes chineses: os co-hong.
             Esse comércio limitado, unilateral, era pouco rendoso para a Inglaterra, e isso desequilibrava a balança entre os dois países. A compra de mercadorias  chinesas absorvia asa reservas britânicas de ouro. Os ingleses estavam viciados em chá e não podiam mais ficam sem ele. Por outro lado, sem vender seus produtos, os ingleses não eram compensados. 
            Só um produto comerciado pelos mercadores ingleses tinha grande aceitação entre alguns chineses: o ópio, narcótico extraído das papoulas, que produz efeito adormecedor sobre o cérebro, mas vicia. 
               A Companhia das Índias cultivava, então, o ópio na Índia e incrementava o seu consumo na China, vendendo-o em grandes quantidades a mercadores chineses independentes. 
              Inicialmente era permitido uma pequena importação de ópio, mas em 1800, o governo Chinês percebeu que 20% do seu povo estava sendo completamente viciado e proibiu tal comercio. 
                Mas os números demonstravam que mesmo com o contrabando, que logicamente encarecia o produto, era muito compensador, e os chineses continuavam se viciando cada  dia mais. Em 1831, o comércio oficial de cantão não ia além de 7 milhões de dólares, e o comércio paralelo (ilegal), na ilha de Lintim, atingia 17 milhões, onze dos quais referentes á venda de ópio. 
               O comércio de ópio tomava proporções alarmantes, assustando o imperador chinês.
               A primeira iniciativa foi tomada enviando uma mensagem á rainha da Inglaterra que assim se expressava: ""-Pensamos que essa substância perniciosa é fabricada clandestinamente por artifícios maquinadores que dependem de vossa nação. Seguramente, Honrada Soberana, vós não ordenastes e cultura e a venda dessa planta", escrevia o Comissário Extraordinário do imperador chines à rainha Vitória, que governava a Inglaterra naquele ano de 1839. 
              A Companhia das Índias Orientais possuía o monopólio do comércio com o Oriente desde 1733. Mas, em 1833, o Parlamento Inglês retirou-lhe esse direito. As relações comerciais com a China entravam, portanto, em nova fase, e precisavam  ser novamente regulamentadas. Nessa oportunidade o vice-rei de Cantão, por intermédio dos co-hong, pediu aos diretores da Companhia que nomeassem, como no passado, um chefe conveniente para vir a Cantão organizar as trocas comerciais. O governo britânico designou o Lord Napier, que não aceitou os co-hong como intermediários; queria que os negociantes ingleses desfrutassem, na China, de ampla liberdade de comerciar. 
             Aguçavam-se as divergências: os ingleses teimavam em ampliar suas vendas, enquanto os chineses se abstinham das transações consideradas desnecessárias. 
             Diante da Obstinação de Lord Napier, o vice-rei de cantão percebeu numa proclamação a insistência dos ingleses. Ordenou, portanto, aos empregados da feitoria de cantão  que a abandonassem imediatamente, proibindo à população, sob pena de morte, o fornecimento de víveres aos ingleses. Para certificar-se de que as ordens estavam sendo cumpridas, enviou tropas à localidade. 
             Lorde Napier tinha uma frota inglesa á sua disposição e ordenou o desembarque de um destacamento para proteger o direito ao comércio. O vice-rei de cantão respondeu à violação cercando o destacamento inglês. Lord Napier, reconsiderando sua atitude, retirou-se com a frota para Macau. 
             Apesar da calma aparente, os ânimos estavam exaltados. As cartas que Lord Palmerston (o membro mais importante do Gabinete Inglês de Assuntos Estrangeiros) recebia de Napier descreviam as atitudes chinesas como "castigo" infligido à Inglaterra, e recomendavam que jamais se negociasse m com os chineses, sem ameaçá-los. 
             Resolvido a combater energicamente o envio de ópio para seu país, o soberano chinês nomeou Lin Tse-Hsu para Comissário Imperial Extraordinário, dando-lhe, inclusive, a prerrogativa de Grande Almirante. Investido de plenos poderes, Lin Tse-Hsu ordenou aos mercadores chineses independentes que extinguissem o tráfico, exigindo-lhes a entrega de 20 mil caixas de ópio inglês. Numa cerimônia pública queimou todo o ópio apreendido, demonstrando ao povo chinês o quanto o Governo abominava aquele vício. Foi por essa ocasião que o Comissário Imperial escreveu à rainha Vitória, supondo que o governo inglês ignorasse o contrabando. Mas estava enganado; aquele governo apoiava integralmente o tráfico dessa poderosa droga que destruía a saúde e a vida de 20% dos chineses. 
              Desde 1773 vigorava na Inglaterra a "Lei de Regularização", pela qual a Companhia das Índias Orientais ficaria sujeita à administração de um governador nomeado pelo Parlamento inglês e sua contabilidade era também submetida ao exame do Tesouro real. Portanto, o Parlamento tinha perfeito conhecimento do tipo de comércio exercido pela Companhia. 
             O estopim da guerra foi o assassinato de um súdito chinês por marinheiros ingleses embriagados. O Comissário Imperial exigiu que o criminoso lhe fosse entregue, e o Superintendente inglês recusou-se. Indignado com o desrespeito à autoridade imperial, Lin Tse-Hsu ordenou ma expulsão de todos os ingleses de cantão. Era o fim das esperanças de expansão comercial. Imediatamente a Inglaterra respondeu com o bombardeamento de Cantão, marcando o início da "Guerra do Ópio", em março de 1839. 
                 Os modestos juncos chineses, barcos movidos a vela, não podiam oferecer grande resistência á frota inglesa, composta de possantes veleiros clíperes, fragatas e navios mercantes.  Sob o comando co Capitão Elliot, e mais tarde do Almirante William Parker, as forças britânicas tomaram portos importantes da costa chinesa. Em 21 de janeiro de 1841 apossaram-se da ilha de Hong-Kong, na região sudeste, de extrema importância estratégica. Não demoraram cair as cidades de Amoy, Tighai e Chusan.  Em 13 de junho do ano seguinte os ingleses ocuparam Xangai e ameaçam Pequim. 
            Vendo-se derrotados, em 29 de agosto os chineses assinaram o Tratado de Nanquim. O acordo regia, pelo espaço de 100 anos, as relações comerciais da China com o Ocidente. Cinco portos foram abertos aos ingleses: Xangai, Ningpo, Fu-Tcheu, Cantão e Amoy. Garantindo o direito de comércio, em cada porto estaria constantemente ancorada uma belonave britânica. Foi abolido o monopólio dos co-hong, a China foi obrigada a pagar indenização pelo ópio inutilizado e a ceder Hong-Kong. 
             O fim da Gerra do Ópio garantia á Europa, principalmente à Inglaterra, vasto mercado para a colocação de seus produtos. 
               Conhecendo a história fica mais fácil entender porque existe tantos ressentimentos dos chineses contra alguns países. Também podemos perceber que o tráfico de drogas não é um crime praticado apenas por bandidos; muitas vezes tem algum poder estatal por traz. 
               Hoje as drogas mais traficadas são a maconha e a cocaína, mas não pensem que isso continua porque os governos não conseguem vencer os traficantes; eles simplesmente não querem essa vitória.  
As Papoulas

                Dentre as flores que desabrocham nos campos de trigo, quando as messes já se mostram louras e maduras, há uma que, pela sua viva cor, parece mais satisfeita que as demais, em festejar a proximidade da ceifadeira. Esta é a papoula, uma planta que os camponeses não desejariam nunca ceifar devido ao vermelho vivo  de sua corola, que contrasta com o negro dos pistilos, possui uma das mais belas flores, uma das mais vivazes de quantas florescem em estado espontâneo entre o trigo, embora para eles fosse inútil. 
               A papoula (papaver rhoeas) é uma planta daninha, muito comum na Europa, na Ásia menor e na África Setentrional. Nos países mediterrâneos, da mesma família, são conhecidos o "papaver alpiunum", de flores brancas ou cruzadas que cresce nos declives dos Alpes e dos Apeninos, o "papaver hybridum" e o "!papaver dumbium", todas espécies estas que, tal como a papoula comum, brotam espontaneamente e que, com ela, tem em comum, mais ou menos variadas, a estrutura da haste e das folhas, o número e a forma das pétalas, a conformação capsular do fruto (chamado cápsula ou cabeça de papoula) e as sementes oleígenas. Outra espécie, os "papaverum somníferum" ou dormideira, em suas variedades "album", e "nigrum", é, para os homens, uma coisa bem preciosa, mas, também, infelizmente, bem mais perigosa. Essa planta, que não conhecemos em cultura espontânea, é cultivada, desde há muito, em toda a Ásia e na Europa, mas, talvez depois dos ensinamentos quanto ao emprego dela faziam os Hindus, os Persas e os Chineses, já no século XV, adquiriu inúmeros cultivadores em terras mais civilizadas. 
                 O "papaver somniferum" ama as localidades cálidas e, sem vento, é planta anual, que cresce rapidamente (na Europa, é semeada em fevereiro-março e suas flores aparecem em maio) destaca-se dos demais pelas enormes e cândidas flores e sua altura incomum, que pode alcançar metro e meio Quando as pétalas caem e os frutos começam a amarelecer, o cultivador, sem arrancá-los da planta, pratica nas cápsulas uma longa incisão, de onde brota um látex de cheiro nauseante, que, ao contato com o ar, logo escurece e se contrai e que será apresentado ao comércio, manipulado com folhas de papoulas, sob o nome de "OPIO". O ópio, mais abundante na variedade "álbum", contém muitas substâncias, e de vários efeitos (morfina, laudanina, codeína,tebaína etc.) que, se usadas em doses mínimas e separadamente, constituem um medicamento indispensável para certas doenças nervosas (insônia, hemicrania, cólica, tosse etc.), mas que, quando administrados em doses excessivas, conduzem, inevitavelmente, o indivíduo à loucura e, mesmo, à morte. 
               Por esta razão, e por iniciativa de Teodoro Roosevelt, então presidente dos Estados Unidos, na Conferência de Haia em 1912, os países europeus, americanos e asiáticos estabeleceram um controle atentíssimo, na cultura da papoula, e limitaram a produção do ópio unicamente às necessidades farmacêuticas, condenando, com leis severíssimas, aqueles que fizerem, ilicitamente, uso dele ou o expuserem à venda. 
              As sementes do "papaver" somniferum" são comestíveis; na Europa, mediante processos especiais (moenda das sementes e sucessivo esmagamento de sua farinha em prensa) extrai-se a substancia oleosa de que são riquíssimas e a qual, oportunamente refinada, é posta, depois, à venda sob o nome de "óleo de sementes". 


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