Total de visualizações de página

quinta-feira, 19 de março de 2020

AGONIA E QUEDA DO IMPÉRIO ROMANO - SUA HERANÇA DISPUTADA

.             

Os Celtas
                      A inteira Gália está dividida em três partes, numa das quais os belgas, noutra os Aquitânicos, e, na terceira, aqueles que, em nossa língua, se denominam Celtas, em Galli. 
                     Assim, em seu límpido latim, Caio Júlio César inicia a longa narrativa de suas campanhas além dos Alpes. Com fria exatidão, César demora-se em descrever cada tribo Gália, desde os belicosos Helvécios, aos Séquanos ,aos Éduos, aos Vênetos da Normandia, sempre naquele estilo impecável do homem evoluído, que observa os usos e os costumes dos povos selvagens. E realmente selvagens apareciam, então, aos olhos italianos, os habitantes da França, da Inglaterra e da Alemanha; bárbaros de língua gutural, ignaros de tudo que fosse arte, dedicados unicamente ao manejo das armas, precariamente abrigados em aglomerações de cabanas recobertas de ramos, míseros tugúrios, que contrastavam com o esplendor dos palácios romanos. 
                Na realidade, ao tempo das campanhas de César, isto é, no ano 55 a.C., os Celtas já haviam recebido, desde séculos, o influxo civilizador dos Gregos e dos Latinos. Eram, portanto, bem menos rústicos de quanto poderiam ser se o espírito comercial dos habitantes de Marselha; e a expansão romana, não tivessem contribuído para acender neles uma faísca de cultura cívica e progresso técnico. Os únicos vestígios da "civilização" dos Celtas (com este nome era designado não um povo, mas sim, um tronco racial) são esses colossais maciços quadrados e polidos, chamados dolmens, que ainda se encontram em algumas localidades da França e da Inglaterra meridional, restos de obscuras práticas religiosas, oficiadas por uma casta sacerdotal fechada e ciosíssima, a casta dos "druidas", dedicada a uma sangrenta magia, sobre a qual mesmo então não era fácil obter pormenores precisos. De seus numerosos povoados, alguns dos quais eram grandes como cidades, nada mais, porém, nos restou. Sobre eles surgiram as hodiernas cidades francesas, de maneira que a subdivisão em regiões, em departamentos, da França atual respeita, em linhas gerais, as disposições das antigas tribos célticas. Uma rudimentar agricultura, o pastoreio, uma ou outra modesta manufatura, eram as únicas atividades dos Galos. Privados de leis, presos somente a hábitos e tradições quase sempre cruéis, sem qualquer forma de escritura própria, eles vivia, à época de cristo, tal como as populações itálicas dois mil anos antes. 
              Apesar disso, podiam considerar-se civilizados, em confronto com seus vizinhos de além Reno, os Germanos, a quem haviam ensinado o uso do ferro, a fabricação da cerveja, os rudimentos do comércio. Selvagens, esses, cuja ferocidade a Itália teve ocasião de experimentar quando as duas tribos germânicas dos Cimbros e dos Teutões irromperam do outro lado dos Alpes; colossais homens louros, que pareciam ter saído das cavernas primordiais, ignorantes e cruéis, tanto no aspecto físico como nos modos, e que chegaram a causar horror aos cultos latinos. Estes, na realidade, não tentaram jamais, seriamente, a conquista das terras além do Reno, especialmente depois da severa derrota que as legiões de varo sofreram no escuro pinheiral das selvas de Teutoburgo, por obra dos Germanos de Armínio. Tácito, o historiador latino que os estudou bem de perto, admira-lhes o heroísmo em guerra, os hábitos rudes e fortes, e compara-os com a cívica moleza dos romanos. Garante, outrossim, que são autênticos indígenas de suas regiões, não originários de outras terras, parecendo-lhe impossível que alguém possa escolher, voluntariamente, a Germânia como morada. 
                É bem provável que Tácito tinha razão; os Germanos, primos dos Celtas, e pertencentes, como estes, ao grande tronco indo-europeu, tendiam mais para abandonar suas florestas nórdicas em busca dos suaves climas meridionais do que ali se estabelecerem definitivamente.  Justamente por esse fato, os que afirmam a superioridade da raça germânica (à qual pertencem também os Anglo-saxões) procuram demonstrar a contribuição essencial de seus antepassados a todas as civilizações do mundo antigo, do qual os louros salteadores nórdicos teriam construído a aristocracia dirigente. É bem verdade, ao invés, que, se civilização é, como é mesmo, sinônimo de antiguidade e de continuidade de história, ninguém é mais bárbaro, ainda hoje, do que os herdeiros de Armínio e Ariovisto. 

               A Ilha Britânica, conquistada por Júlio César, no ano 54 a.C., praticamente perdida durante os turbulentosa reinados de Nero e Calígula, fora recuperada por Tibério Claudio no ano 41 de nossa era cristã, solidamente fortificada e dotada de guarnições, por Domiciano e seus sucessores. O domínio romano estendia-se a toda a Inglaterra e daí até às elevações montanhosas da Escócia, onde o imperador Hélio Adriano mandara construir um longo sistema de diques e torres, que cortava a ilha, do  mar do Norte ao Atlântico, mais além, viviam as altivas e "selvagens" tribos escocesas, com as quais os Romanos preferiam não lidar.
                      O vale de Adriano, do qual ainda existem  alguns vestígios de ruínas, foi erigido pelas tropas romanas estacionadas na Britânia, para defender a Inglaterra das invasões dos  Escoceses. 
                Muito distante da Itália para ser inteiramente colonizada, a Britânia jamais se encontrou inteiramente com o mundo romano; assim, quando, no princípio do século V, as guarnições romanas abandonaram definitivamente a ilha, esta recaiu rapidamente na primitiva barbárie. Desunida e perturbada pelas contínuas incursões dos Escoceses, que se tornaram ousados depois da partida dos Romanos, a Inglaterra acabou por acolher prazeirosamente os rudes povos de raça germânica, os Sênones a princípio, depois os Anglos, que, no século seguinte, desabaram em catadupas sobre suas costas, ocupando bem depressa o inteiro país. Foram-se constituindo, dessa maneira, graças aos novos senhores, pequenos reinos independentes, dos quais os maiores eram o Essex, o Sussex, o Kent, o Wessex; baluarte da antiga estirpe britânica permaneceu somente o Gales, onde ela sobreviveu até hoje, com seus costumes e sua mesma língua. 
                  As primeiras luzes da civilização alí chegaram, a essa gente ainda jejuns de leis e de cultura, da Igreja de Roma, que, em 596, sob os auspícios do Papa Gregório Magno, pala enviou o monge Agostinho, com alguns companheiros, para pregar o "Verbo de Cristo". A conversão do rei Etebred e de alguns dos principais senhores, a fundação da abadia de Canterbury (que desde essa época passou a gozar de uma certa proeminência sobre as demais da Inglaterra), o difundir da educação religiosa, foram outros tantos passos para a frente, na estrada da civilização. 
                  No século IX, o rei Egberto conseguiu reunir num só reino todos os pequenos potentados da ilha; seguiu-se, depois, a restauração de uma monarquia nacional, com Eduardo, o Confessor, elevado ao trono em 1042, após a morte de Canuto, último rei Dano. A Eduardo, na falta de herdeiros diretos, sucedeu o conde de Wessex, Haroldo, que todavia, por ocasião de seu naufrágio nas costas normandas, empenhara-se em sustentar os direitos ao trono inglês do duque Guilherme da Normandia. Este, mal teve notícias da eleição de Haroldo, partiu, com suas forças, rumo à Grã-Bretanha, a fim de fazer valer suas pretensões e punir o Conde perjuro. 
                Em 1066, na planície de Hastings, as tropas inglesas e os cavaleiros normandos encontraram-se frente à frente; o choque, breve e violento como todas as batalhas da quela época, terminou com a morte de Haroldo e a esmagadora vitória de Guilherme. Tornado árbitro do destino do país, Guilherme redistribuiu títulos e terras, entregando-os aos seus companheiros; foi-se, dessa maneira, formando, em torno do soberano, uma poderosa aristocracia franco-normanda, senhora, com direitos hereditários, dos bens e da vida dos cidadãos. 
                A dinastia de Guilherme o Conquistador  se extinguiu com seus filhos, Guilherme II e Henrique I; por ocasião da morte deste último, o reino passou às mãos de um seus parente, Henrique II, da família dos Plantagenetas - era o ano de 1135. Este que havia desposado Leonora, filha do duque de Aquitânia, encontrou-se, por direito de matrimônio, senhor não só da Inglaterra e da Normandia, mas também de todo o Languedoc, ou  seja, metade da França. os reis da França, naturalmente, não viam com bons olhos esse ultra-potencial britânico e procuraram, também com o auxílio dos Papas, contê-lo ou anulá-lo. Das manobras políticas passou-se logo a vias de fato, isto é, a uma guerra aberta entre Felipe Augusto, rei da França, e Ricardo Coração de Leão, filho de Henrique II e rei da Inglaterra; a este último sucedeu o filho João (chamado, depois, "sem terra") que precisou ratificar um ato nominal de abdicação e obediência ao Pontífice. Disto se aproveitaram os Lordes, ou seja, os nobres feudatários, para conseguir ainda maior poderio, às custas do soberano; em 1215, eles obrigaram João a firmar um documento, a "Magna Cartha Libertatum", que colocava todo e qualquer ato do rei sob o controle da Câmara do Lordes. Esta data assinala a primeira vitória dos súditos contra o absolutismo real, é o primeiro esboço daquela "Monarquia Constitucional" que faz, ainda hoje, da Inglaterra o mais alto exemplo de sábia democracia. 
                    
O Reino da Espanha
                 Roma e seu povo mergulham na escuridão e, aos poucos, vão se desagregando ante a notícia do imprevisto golpe de Anibal da Espanha. Esta nação, até então dividida em duas zonas de influência, entre Cartagineses e Romanos, entrava, assim, oficialmente, na História; seis séculos de domínio romano deviam,mais tarde, assimilá-la completamente aos usos do Império. 
                Suevos e Visigodos, depois, saquearam o país, sem encontrar oposição, e acabaram por ali se instalar, exatamente como ocorreram na Itália com os Godos e os Longobardos. Também aqui, como na península italiana, os bárbaros eram uma pequena minoria, com relação aos nativos, mas eram uma minoria armada, que podia impor-se, senão sobrepor-se, aos vencidos. Prevaleceram, não sem luta, os Visigodos sobre os Suevos e fundaram um daqueles reinos romanos-barbáricos, que floresceram, naqueles tempos, nos velhos domínios imperiais. Todavia, a rude inexperiência germânica e os dissídios políticos e religiosos minavam a base dos conquistadores Visigodos, que sobreviveu mais de dois séculos - de 474 a 717 - sobretudo pela ausência de fortes inimigos externos. Quando em 711, o chefe árabe Tarik desembarcou em Caple (a moderna Gibraltar), o fim do  reino barbárico ficou assinalado. Desbaratado um exército visigodo, em "Xerez de la Frontera", os cavaleiros do Profeta avançaram rapidamente, favorecidos pela rivalidade entre os chefes inimigos e pela inércia da população hispano-romana, que constituía a enorme maioria, à qual os novos conquistadores vinham prometendo liberdade de culto e de instituições. Quando, porém, os Espanhóis percebem que os novos amos eram pouco maleáveis, especialmente em matérias de religião, começaram a emigrar em massa para regiões do oriente e do norte, mas impérvias e menos expostas a invasões. A princípio, a Espanha não foi mais do quer uma província do Califado de Damasco; mais tarde, porém, as discórdias entre as tribos e a distância da capital favoreceram a autonomia dos emires, tanto que,em 912, o emir de Córdova, Abd-el-Ramann III, da dinastia Omníade, proclamou a si próprio Califa. 
               Entretanto, a desforra dos Cristãos se ia processando; o reino de Navarra, a cavaleiro dos Pirineus, a resistência às incursões árabes, e o pequeno reino das Astúrias, junto ao Golfo de Biscaia, ia-se dilatando para o ocidente, à custa dos maometanos. Afonso II, Ordonho II, Afonso V, rei das Áustrias, arrancaram, pedaço a pedaço, ao Califado de Córdova, num século de batalhas, as regiões de Castela e Leão, ao passo que, sob o reinado de Sancho Garcez, a Navarra, conquistou terras além do Ebro. 
              Naqueles séculos, ao fim do primeiro milênio, a história da Espanha se nos apresenta em contínua mutação; contudo, entre continuados dissídios internos, a ofensiva cristã ganhava terreno lentamente; Badajoz, Sevilha e Toledo caíram uma após outra, sob crescente hegemonia do rei de Castela e leão, que avançou suas fronteiras das margens do Tejo, isto é, nos territórios do moderno Portugal. Herói da arrancada cristã foi um jovem guerreiro, Rui Dias de Bivar, denominado "Cid  Campeador", que, amparado numa audácia legendária e por uma prodigiosa fortuna, não sofreu jamais uma derrota em toda a sua movimentada carreira de guerra. 
                  Impelidos pelo fanatismo religioso e pela avidez do saque, não satisfeitos ainda com as conquistas que os haviam conduzidos à Síria, à Palestina, ao Egito e à África setentrional, no ano de 711, os Árabes invadiram a Espanha e, após destruir o reino dos Visigodos e tentar penetrar na França, estabeleceram-se na península ibérica. Esplêndidos cultores da arte, ótimos agricultores, tenazes no espírito de colonização, eles souberam, de início, conservar solidamente unidas as populações que, sobretudo nas localidades meridionais, foram gradualmente se arabizando. Quando, em sua pátria, a dinastia dos Omíades substituiu a dos Abássidas, e a capital foi transferida de Damasco para Bagdá, os Árabes da Espanha, cujo poder era, acima de tudo, devido ao último Omíade, fundador do "califado de Córdova", sentiram-se sempre menos ligados ao poder central e formaram alguns califados independentes. Sua força, embora ainda ameaçadora e expansível, diminuiu, então, notadamente, devido ás discórdias internas, que bem depressa surgiram entre os vários califas; e a nobreza espanhola católica disso se aproveitou para reagir e iniciar a gradual reconquista das terras invadidas. 
                  Em fins do século XI, estavam em mãos espanholas os reinos de leão, Castela, Navarra e Aragão, mas ainda muitas terras se encontravam em mãos dos inimigos. A situação política, aliás, não estava muito clara. Do lado dos Árabes, as discórdias entre os diversos califas minavam-lhe o poderio; do lado espanhol, a ambição de alguns grãs senhores fazia com que estes, no intuito de adquirir maior riqueza e poder, às vezes se aliassem com o inimigo. A população ibérica, se bem que sentisse desejo de ficar livre, sob soberanos espanhóis ou católicos,  nem sempre estava pronta para reagir contra o estrangeiro. A reconquista da Espanha, realmente, só muito mais tarde se completaria, pelos fins do século XIV, graças a Fernando e Isabel, soberanos de Aragão e Castela, mas este definitivo triunfo foi preparado por homens como Cid, isto é, homens que, na confusa situação política de então, sempre agiram com a ideia precípua de resgatar a própria terra das mãos do invasor, em nome fé católica e do próprio soberano, sem se importar com vantagens pessoais. 
              O avanço espanhol foi contido, por algum tempo, pela intervenção dos mouros da África que, em 1086, em Zalaca, infligiram uma séria derrota nas tropas de Afonso VI de Castela; mas, poucos anos depois, castelhanos e aragoneses iam novamente para diante e retomavam a lenta conquista dos territórios do califado árabe. 
                   À época em que viveu o guerreiro Rodrigo Dias, (mais conhecido como "El Cid" ou "Cid, o Campeador".) a Espanha atravessava um dos mais críticos momentos da reconquista; e Cid foi o hidalgo que, com seu valor, não só soube, frequentemente, levantar a sorte da Instável fortuna espanhola, mas também ser aquele que concentrou no soberano e na população a vontade de uma terra liberta do invasor e unida na mesma fé religiosa; por essas razões, ele
mereceu que suas proezas fossem perpetuadas e transmitidas á posteridade, transfiguradas pelos poetas, os quais, de sua figura, fizeram o símbolo do heroísmo que compeliu os espanhóis a combater contra os infiéis dominadores. Muitos séculos se passaram, e as escassas notícias históricas de sua vida, até nos chegadas pelas crônicas escritas pelos seus contemporâneos, acrescentaram-se vários episódios legendários. Rodrigo Dias - El Cid - nasceu em Bivar, na pequena nobreza de burgo e, em sua primeira mocidade esteve a serviço de Fernando I, rei de Castela e leão.   Embora tenha realmente existido, já se tornou um personagem de lenda. Conta-se que foi expulso por Alfonso VI, devido a uma conspiração palaciana, onde teria participado com outros membros do palácio. Alguns episódios lendários, verdadeiros uma não, inspiraram o dramaturgo Guilherme de Castro a compor o belíssimo drama  teatral "El Cid". Contudo, é certo que sempre gozou de plena confiança de Fernando I, tanto que este, ao morrer, nomeou-o conselheiro de seus filhos. Quando, em 1065, segundo a vontade do defunto soberano, o reino foi dividido entre os cinco filhos. Rodrigo passou a servir o mais velho, Sancho, ao qual coubera o governo de Castela.
               Apesar do ódio de raça e de religião, a longa permanência dos Árabes na Espanha não deixou de produzir seus frutos; a ela devemos grande parte das antigas instituições culturais espanholas, as melhores jóias da arquitetura medieval, os famosos artesanatos de Córdova e de Toledo, que difundiram pela Europa preciosos couros finamente trabalhados e belíssimas lâminas damasquinadas. Mas, a função histórica do islã ia chegando ao término; tal como na Espanha, assim, em toda a Europa amanhecia o renascimento da latinidade, longamente comprimida sob o pesado domínio barbárico. 

O surgimento do Sagrado Império Romano


                      Acampados sob os escombros da grandeza latina, a  Germânia foi fundamental para reacender a chama do ideal "Sagrado Império Romano", que eles mesmos haviam apagado. Agora era necessário continuar aquela obra de civilização que Roma construíra durante séculos. Extinta, entre as discórdias de princípios e prepotências de nobres, a dinastia carolíngia, também a autoridade imperial se tornou letra morta; foi somente com Otão I, duque de Saxônia e rei da germânia, que ela ressuscitou, com o florescer da monarquia alemã. Otão preocupou-se, antes de mais nada, em fortificar a autoridade do rei em seu próprio país, submetendo os feudatários recalcitrantes, em alargar sua influência no exterior, subjugando a Dinamarca e esmagando os Húngaros, na batalha de Lech no ano 955. Poucos anos depois, em 962, por ocasião de uma descida sobre a Itália, provocada pela Papa, que via os direitos eclesiásticos sempre mais desprezados pelos feudatários, Otão entrava triunfalmente em Roma, e ali recebia a coroa de Carlos Magno. Último da dinastia saxônia foi Otão II, cuja vida mereceria uma longa descrição, ambientado naquela Roma medieval, ensanguentada pelas facções, povoada ainda pelas grandes sombras imperiais. 
              Deslumbrado ante o imenso revérbero da romanidade, que ele sonhara reeditar naquele mundo perdido, sentiu-se chamado a governar os romanos, débeis herdeiros do maior grande povo da Europa, rumo a um novo porvir de domínio. Talvez nunca como então o velho mundo latino esteve tão perto de fundir-se com a impulsiva mocidade germânica. Mas, a absurda tentativa, somente concebida por um jovem entusiasta, todo absorto em sua esplêndida utopi, fracassou devido à hostilidade dos nobres alemães e pelas incompreensões dos senhores romanos, que pensavam mais na própria ambição pessoal do que no futuro da pátria. Quando o desiludido imperador morreu, no ano 1002,  ele contava apenas 22 anos de idade, o trono imperial permaneceu vago por algum tempo, caindo, em seguida, o poder da dinastia Sálica. Foi então, com Conrado I e, mais ainda, com seus sucessores Henrique II e Henrique IV, que o Império, organismo agora poderoso, mais firme do qualquer outro reino europeu, veio a esbarrar de encontro à autoridade papal: os imperadores, de fato, arrogavam-se o direito de nomear seus próprios bispos, que eram, além disso, titulares de feudos, ao passo que os pontífices reclamavam para a Igreja tal privilégio.  A "luta pelas investiduras", que gravou profundamente a história italiana, teve seu momento mais dramático no episódio de Canossa e, seu epílogo, no acordo de Worms em 1122, de onde o poder imperial saiu abaladome os feudatários receberam vantagens. 
               Extinta a dinastia Sálica, ei-las,  frente a frente, disputando a primazia alemã e o império, duas grandes facções: aquela chefiada pela família Hohenstaufen de Suábia e aquela guiada pelos Wolf da Baviera, da qual tomou o nome, na Itália, o partido Guelfo, que hostilizava os Suevos. Conquistaram o poder, os Hohenstaufen. Enquanto os dois primeiros soberanos desta família, Frederico I e Henrique VI, conservavam firmemente seu poder alemão, procurando, ao mesmo tempo, salvar os territórios além dos Alpes, que se iam gradualmente esfacelando. Frederico II, quando da dinastia de Suábia, desprezou a Germânia e preferiu manter sua corte na Sicília. Isto acelerou a desagregação do Império, isto é, o fracionamento da germânia em muitos pequenos estados independentes, dando-lhes aquela forma política  que, mais ou menos, conservou até fins do século XIX.  Assim, nem Conrado IV nem seu filho Conradino, último dos Hohenstaufen, encontraram na Germânia aquele apoio de que necessitavam. Conradino, abandonado por todos, morreu na Itália, decapitado por Carlos de Anjou. 
                 Com o fim dos Suevos, seguiu-se um período confuso, de anarquia, chamado "o grande interregno", que durou de 1250 até 1273, mas, já surgia, em terras germânicas, um novo astro, destinado a um mais duradouro esplendor: a dinastia dos Habsburgos. 

O Reino da França
                         No princípio do século V  Império Romano já estava em franca desagregação. Os últimos fantasmas de soberanos, desaventurados herdeiros dos Césares, apareciam e despareciam na sombria corete de Ravena
                 O "Juízo de deus", para o qual se apelava na Idade Mádia, a fim de resolver processos insolúveis, consistia em submeter o acusado a uma prova, da qual, se inocente, devia sais ileso. Mulheres acusadas de feitiçaria eram obrigadas a caminhar descalças sobre brasas ou imersar em água fervente; par os nobres recorria-se aos duelos, em campo fechado, na presença de juízes, entre eles o sábio abade Suger, conselheiro dos reis Luiz VI e Luiz VII.
                  Quando Hugo Capeto subiu ao trono da França, estávamos no anos de 987. O território sobre o qual ele reinava nominalmente se encontrava dividido em muitíssimos departamentos autônomos. Dos castelos fortificados das colinas, os feudatários exerciam seu poder incondicional, desprezando a autoridade soberana. 
           Como sabemos, Hugo Capeto sucedia aos últimos e já desautorados monarcas do trono Carolíngio, que se haviam deixado sobrepujar pelo prepotente feudalismo franco. Ele, que era o mais rebelde entre os feudatários, que chegava até a depor o próprio soberano, achou de bom alvitre precaver-se contra igual perigo e fez sentir que o reino da França era novamente capaz de fazer valer seus direitos. Não era esta, todavia, uma tarefa que se pudesse cumprir em poucos decênios; nem Hugo Capeto nem seu filho Roberto II conseguiram tal intento, embora alcançando o apreciável resultado de conquistar para a monarquia muitos feudos menores e o grande ducado de Borgonha. 
               Os reis da França, é verdade que a contragosto, tinham sido obrigados a manter em seu próprio reino um temível foco de rebelião e de guerras; o ducado da Normandia, dominado pelos poderosos conquistadores noruegueses. Sob o reinado de Filipe I, quarto soberano da dinastia dos Capetos, os Normandos da bretanha recomeçaram seu impulso expansionista, conquistando a Itália meridional, sob as insígnias de tancredo de Altavila, e Inglaterra, com o séquito de Guilherme, "o Conquistador". Esta última tentativa veio criar um estado de fato e de excepcional gravidade; na verdade, o rei da Inglaterra passou a ser, contemporaneamente, vassalo do rei da França - como duque de Normandia - e a possuir, de direito, uma importante cabeça de ponte no continente. As consequências logo se fizeram sentir, sob o reinado de Luiz VI, filho de Filipe, que precisou defender seu próprio território da invasão de Henrique I, da Inglaterra, apoiado pelos Normandos e por alguns senhores do condado de Anjou. A luta, surda durante o reinado de Luiz VI e de Luiz VII (que tiveram o abade Suger, o mais precioso dos conselheiros), deflagrou abertamente, com a morte de Henrique II, Plantageneta, rei da Inglaterra; Filipe II Augusto, um dos maiores soberanos que a França já tivera até então, conseguiu fazer com que seu sucessor, João Sem Terra, abdicasse; despojou-o de seus feudos franceses e coligou, contra os Plantagenetas, muitos de seus vassalos. Contra ele, marcharam o rei deposto e o Imperador da Germãnia, mas, perto de Lille, Filipe Augusto enfrentara as tropas confederadas, derrotando-as. Seu triunfo foi devido não só à sua hábil política exterior, mas também á habilidade com que soubera atrair para seu lado o povo e senhores. Filipe Augustodesfrutou, com vantagem para a coroa, até a cruzada contra os Albigenses - hereges que negavam a ressurreição de cristo e que pululavam no sul da França - que o Papa iniciara em 1208. Os Albigenses tinham seu máximo sustentáculo no mais poderoso feudatário do sul, Raimundo VI, conde de Tolosa. Filipe Augusto, para não tomar parte abertamente nos horrores de uma guerra civil, confiou a direção das operações a Simão de Montfort, um de seus fiéis, o qual devastou a a Provença e o Languedoc, (região administrativa) varrendo, em pouco tempo, os hereges e seus aliados e,o que é mais importante, ampliando os domínios da coroa até ao Mediterrâneo. 
                   Luiz VIII, "o Leão", sucedido em 1223 ao pai, consolidou as conquistas já feitas e apoderou-se do  condado de Blois; seu filho, Carlos, que ele investiu no condado de Anjou, foi aquele que tanta influência teve no destino da Itália meridional. 
                Ao morrer Luiz VIII, a coroa passou para seu filho, que era ainda uma criança, tanto que a mãe, Branca de castela, conservou a regência durante dez anos. A rainha, mulher forte e hábil, soube dominar os  turbulentos e administrar sabiamente o estado, de modo que, quando, em 12356, Luis IX assumiu o poder, encontrou em suas mãos um organismo sólido e organizado. Deste rei que a Igreja venera sob o nome de São Luiz.


  Depois de um longo período de paz e prosperidade, o mundo romano mergulha numa crise no século III A pressão dos germanos pelo norte, e a do recém-criado Império Sassânida da Pérsia, pelo leste, provocando a queda do governo civil, depois do assassinato do imperador Alexandre Severo em 235 d.C. Os exércitos das diversas províncias procuravam converter seus próprios comandantes em imperadores, e destruíam a economia.  No Ocidente, os gauleses libertaram-se do domínio romano e formaram seu próprio império, sob Póstumo, entre os anos 259 e 269 d.C. No entanto, no leste, os sassânidas invadiram a Síria, derrotaram e capturaram o Imperador Valeriano, saquearam Antioquia, a terceira cidade do mundo romano, e promoveram a criação de um Estado oriental independente, governado pela "imperatriz"Zenóbia de palmira. Simultaneamente, o império foi atacado pela peste que, no decorrer dos quatro séculos seguintes, irrompia periodicamente.  
               A desvalorização da moeda e a inflação somaram-se à angústia geral, exacerbada por uma balança comercial adversa, que provocou a saída desmedida de ouro para o Oriente. A inflação atingiu níveis gravíssimos, inclusive de uma perspectiva atual: uma medida de trigo que no século I d.C custava 6 dracmas no Egito, aumentou para 200 no ano 276, para 9.000 em 314 e para 78.000 no ano 334 e, mais adiante, chegou a mais de 2 milhões. Não é surpreendente, portanto, que os protestos contra os impostos tenham se tornado endêmicos. Nas fronteiras se chegou inclusive à deserção para o lado dos bárbaros. Foi necessária a ação de uma série de imperadores fortes, entre os anos 268 e 284, para reverter a onda de invasões e restituir a ordem interna. 
                Quando Diocleciano assumiu o poder em 284, era evidente que todo o império não podia se manter unido nas mãos de um só governante. Para descentralizar o império, Diocleciano dividiu o poder, conservando a parte oriental e cedendo para Maximiano, que havia sido promovido á dignidade  de Augusto, a parte ocidental, cada um com seu respectivo César como subordinado. As províncias foram reorganizadas em quatro prefeituras e doze dioceses. Extinguindo com isso o principado, os civis haviam sido derrotados pelos militares. Ainda mais, era necessário encontrar uma nova estrutura para a autoridade imperial; sob a influência de ideias  orientais, o Princeps  converteu-se em Dominus, isto é, em amo ou governante absoluto à frente de uma grande burocracia. 
                  O centro de gravidade se inclinava para o Oriente e, no ano de 330, o imperador Constantino fundou uma nova capital e cidade cristã em Bizâncio, rebatizada Constantinopla. Uma reforma do sistema tributário deu origem a uma breve melhora econômica. A crise foi adiada, porém não superada. Embora, teoricamente, o império fosse governado de forma conjunta, vagarosamente se dividiu em duas metades, oriental e ocidental., e as províncias mais afastadas caíram nas mãos de invasores bárbaros. 
                   A riqueza e o prestígio do Império Romano, inclusive na sua época de decadência no Ocidente, atraíram os povos que ficavam além das suas fronteiras. Alguns chegavam simplesmente para se estabelecer sob a proteção do regime romano, outros para saquear. Alguns generais bárbaros ambiciosos, dos quais o império dependia cada vez mais, exerciam uma influência considerável. O fim do império não foi um colapso espetacular produto das invasões dos bárbaros, e sim um declínio gradativo. No século V, o governo romano do Ocidente se enfraqueceu a ponto de a própria capital ficar exposta a ataques. O saque de Roma pelos visigodos de Alarico em 410 marca o fim de uma era; porém durante o século V os bárbaros ajudaram tanto a sustentar como a destruir aquilo que restava do Império Romano do Ocidente.  O Exército que venceu Átila, rei dos hunos, nos campos Cataláunicos, ao norte da França, em 451, pode ter tido tantos godos e hunos na qualidade de mercenários e aliados com o Exército que enfrentava. No fim do século, o Império Romano do Ocidente havia desaparecido e tinha sido substituído por uma série de reinos bárbaros: os visigodos na Espanha e no sudoeste da França, os francos no norte da França, os ostrogodos na Itália e os vândalos no norte da África. 
                  Em princípio do século V, entre as tribos de raça  germânica que, em massa, transferiram-separa além do reno, rumo às ricas terras de Roma. 
               O império estava em plena desagregação. Os últimos fantasmas de soberanos, desaventurados herdeiros dos Césares, apareciam e desapareciam na sombria corte de Ravena, sacudidos pelas conspirações e pelas rivalidades dos chefes bárbaros. A Britânia, a Espanha e Átrica  estavam perdidas irremediavelmente; na Gália, as migrações bárbaras tinham-se sucedido gradualmente de maneira que, pouco a pouco, os recém-chegados, de raça germânica, haviam-se, em parte, misturado ás populações célticas e aos próprios Romanos. Estes recém-vindos eram os Francos; não mais civilizados do que os Hunos e os Vândalos, mas, justamente pelo caráter pacífico de sua invasão, foram melhor tolerados. Ao princípio do século V, os Francos, instalados nas Gálias, estavam divididos em dois grupos de tribos: os Sálios e os Ripuários, que combatiam asperamente entre si. 
                 Dos primeiros reis francos, Faramundo, Clodião, Meroveu, Childerico, conhecemos-lhes somente os nomes, a nós transmitidos pelas lendas. O primeiro soberano que deixou claros sinais de sua passagem foi Clodoveu, que viveu entre os anos 465 e 511. Originário de uma tribo sálica, soube abrigar, sob seu cetro, todos os povos de sua raça. 
           Convertendo-se ao cristianismo, com todo seu povo, Clodoveu recebeu de Anastácio, imperador de Bizâncio, o título de Cônsul, o que lhe conferiu uma espécie de investidura oficial, dando-lhe, e a seus descendentes, o governo seguro dos territórios gálicos. Foi este o primeiro ato de constituição daquilo que, depois, com o decorrer dos séculos, se transformaria num dos mais poderosos estados da Europa, pois, em Clodoveu, já se encontrava, em germe, o espírito de Carlos Magno e de Luis, o Santo. Depois de sua morte, o reinado caiu num longo período de lutas civis, que o fracionaram nos reinos menores da Áustria, de Orleãs, de paris, de Soissons, de Borgonha e da Aquitânia, que se reagruparam, mais tarde, em duas grandes regiões: a Áustria Oriental e a Nêustria Ocidental. Sobre todos estes pequenos e grandes domínios, reinavam os descendentes de Clodoveu, combatendo, entre si, para se apoderarem do poder central; na realidade, esta dinastia merovíngia (assim denominada devido ao seu fundados, Meroveu) não soube criar nada de estável, de modo que, devido aos últimos seus expoentes, desfibrados pelo ócio da corte, mereceram o apelido de "reis mandriões". 
                Aos poucos, o poder efetivo fugiu-lhes das mãos para passar às de seus ministros, "os mestres do palácio", o primeiro dos quais e que assumiu verdadeira autoridade de soberano, foi Pipino de Heristal (684 - 714), mestre de palácio de Childerico II, rei da Áustria. Seu filho, Carlos Martelo, o vencedor dos Árabes, e o filho deste, Pipino, o Breve, consolidaram a supremacia da casa. Este último, num golpe de estado, apoderou-se definitivamente  da coroa, depondo o último rei merovíngio, Childerico III (751).
                 Mas quem conduziu ao supremo fastígio o poder da nova dinastia foi o filho mais novos de Pipino, o Breve, Carlos, o qual, com rápidas investidas, abateu, um após outro, o reino dos Longobardos, na Itália, dos Bávaros e saxões, na Alemanha, quebrou o orgulho dos Árabes, rechaçando-os para além dos Pirineus. No ano 800, nascia, graças a ele, uma estrutura política destinada a durar mais de mil anos: o Sagrado Império Romano, herdeiro consagrado do império dos Césares, que assumiu a tarefa de congregar sob o cetro e autoridade de um árbitro supremo, todos os povos cristãos da Europa. Em Carlos, que mais tarde foi denominado Carlos magno, vislumbramos, ainda hoje, o cérebro mais alto da Idade Média, a figura mais sólida, a primeira grande personalidade surgida so choque entre as jovens forças germânicas e a milenar sabedoria latina. 
              Entretanto, no Oriente, o regime romano e suas tradições sobreviveram à crise do século V, e no século VI experimentou uma breve recuperação durante o reinado de Justiniano (527 - 565 d.C.) O imperador tentou inclusive reconquistar algumas regiões do Império do ocidente que haviam caído nas mãos dos bárbaros e conseguiu recuperar o norte da África e a maior parte da Itália. Porém, estas vitórias foram apenas passageiras e os efeitos da tensão que essas aventuras militares provocou no Império Oriental obscureceram os últimos anos do seu reinado. Seus sucessores tiveram de enfrentar outra série de crises, como a ocupação das províncias dos Bálcãs pelos avaros, os assaltos dos sassânidas e o inexorável avanço do Islão. Porém, apesar de ter sido despojado de todas suas províncias orientais, o Império Bizantino sobreviveu contra toda adversidade mais de mil anos, até que os turcos conquistaram Constantinopla, em 1453.  
             Dois séculos depois do colapso do Império do Ocidente, a monarquia bizantina conservava as instituições romanas e continuava usando o latim nas cortes. Apesar do grego ter substituído o latim e da administração pública estar menos concentrada, o Império Oriental reuniu as duas obras monumentais do Direito Romano: os códigos de Teodósio e de Justiniano. O Oriente também conservou e transmitiu para o mundo moderno o legado do mundo antigo . Inclusive no Ocidente sobreviveram muitas tradições romanas, principalmente através da Igreja Cristã. Desde Nero, no século I a.C. até Diocleciano, no fim do século III, os imperadores romanos haviam perseguido de forma intermitente a nova fé. O cristianismo, porém, começou a se difundir, e durante o reinado de Constantino (312 - 337, numa extraordinária mudança política imperial, tronou-se a religião oficial do mundo romano. Os templos dos deuses antigos foram fechados ou transformados em igrejas do cristianismo; construíram-se basílicas nas cidades do império e a nova religião atingiu até os bárbaros além das fronteiras imperiais. A Igreja Cristã copiou inclusive as estruturas organizacionais do Império Romano. As dioceses refletiam as divisões administrativas de Diocleciano; os bispos tinham suas sedes nas principais cidades  e se reuniam em sínodos nas capitais provinciais, e os sacerdotes dos grandes centros metropolitanos recebiam uma dignidade especial. Roma, a Sé episcopal de São Pedro, tinha procedência em "dignidade", mas não em autoridade, e seus bispos compartilhavam a hierarquia e o poder com os de Antioquia e Alexandria, que em seguida se somaram aos de Constantinopla no ano 381, e Jerusalém no ano 451. Até fins do século IV não foram encontradas expressões claras de primazia papal. 
                Quando o poder centralizado do Império do Ocidente ficou destruído, foram os chefes da Igreja, os bispos, que se tornaram figuras-chaves da sociedade. Eles foram muito hábeis e até converteram muitos bárbaros invasores. O destino de Roma era ser um grande centro cristão, e já na época de Constantino teve início a construção de magníficas igrejas. Com a queda do Império Romano, a Igreja Católica Apostólica Romana ficou sendo a maior herdeira e estendeu seu domínio por todo o mundo.  Nos países católicos, em qualquer cidade, por menor que seja, sempre tem uma igreja subordinada  Vaticano. 
                 Durante toda a Idade Média,e para além dela, já erigida em sede papal, Roma manteve parte da sua antiga importância, mas a sua população diminuiu consideravelmente. Era apenas uma modesta cidade com algumas dezenas de milhares de habitantes quando foi eleita capital da Itália unificada em 1870. 
                 A decadência do Império deteriorara profundamente a sua estrutura organizacional e nem mesmo a honra de Teodósio, o Grande, valeu para contê-la. Nascido na Espanha, Teodósio fizera-se notar pela vitória obtida na Penônia sobre os Sámatas, em 378, e por haver combatido valentemente os Visigodos. 
                 Morto o imperador do Oriente, Valente, o Imperador do Ocidente, Graciano nomeou Teodósio como sucessor. Não se passaram muitos anos e Teodósio, após ter derrotado dois usurpadores do trono do Oriente, encontrou-se senhor de todo o Império. Infelizmente, morreu pouco depois, no ano 395, deixando no trono do Ocidente seu filho Honório e, sobre o do Oriente, outro seu filho, Arcádio. Teodósio foi general valorosíssimo, prudente administrador, severo repressor de rebeliões. O Cristianismo deve-lhe o famoso edito de 380, que declarava a fé em Cristo religião oficial. 
                O não esteve à altura do pai. Arcádio, no Oriente, conseguiu, graças ao destino  favorável, conservar quase imune seu território às invasões dos bárbaros. Mas o mesmo não aconteceu no Império do Ocidente, contra o qual se lançaram, em invasões sucessivas, as tribos góticas.
                Os primeiros ataques levados a efeito por Alarico, rei dos Godos, em 402 e, em 405, pelo reis dos germanos, Radagásio, foram tornados sem efeito por Estilicão, um general vândalo, fiel "condottiere"   de Roma. Mas o usurpador Honório, receando que Estilicão lhe desejasse usurpar o trono, condenou-o à morte, tirando assim de Roma o único general capaz de enfrentar os bárbaros.
                 O inepto Honório, bloqueado pelo medo, em Ravena, capital do Império Ocidental, não se mexeu nem mesmo quando Alarico, em 410, chegou a a Roma com os seus Visigodos, expugnando-a e saqueando-a terrivelmente. 
           O sucessor, valentiniano II, sobrinho de Honório, não foi melhor do que o tio. Na verdade, com inveja do valorosíssimo general Écio, que, no ano de 451, batera Átila e seus Hunos nos Campos Cataláunicos, mandou matá-lo, eliminando, assim, o último defensor do Império. Surgiu um dissídio entre Valentiniano e o Patrício Máximo Petrônio; este armou uma conspiração, na qual tomaram parte dois correligionários de Écio, que trucidaram o monarca. Era o ano 455. E com ele se extinguia a descendência de Teodósio. 
                Subiu ao trono Máximo Petrônio, que desposou,à viva força, a viúva do defunto imperador Valentiniano III, Eudóxia. Segundo a legenda, foi ela quem chamou em seu socorro Genserico, rei dos Vândalos. Este bárbaro não permaneceu surdo ao apelo; da África, onde residia, desembarcou em ´Ostia, em 455, e efetuou um segundo ataque, em Roma que foi mitigado graças à obra corajosa e eloquente do papa Leão I, o mesmo que, três anos antes, conseguira induzir o feroz Átila a retirar-se, sem ir além do já atingido rio Míncio. Esta dos Vândalos foi a terceira das invasões barbáricas levadas a efeito na primeira metade do século V. Bastam estas três  primeiras invasões para demonstrar a debilidade do Império, que agonizava, tendo no trono dois imperadores inexpressivos, obrigados a valer-se de soldados mercenários de origem barbárica e, por isso, mais favoráveis aos seus co-irmãos invasores do que ao governo do qual recebiam dinheiros e honrarias. 
                  O esfacelamento do Império do Ocidente chegava ao seu epílogo no ano 476, que via o chefe de uma tribo barbárica, o hérulo Odoacre, depor o último imperador, Rômulo Augusto. Sem sequer haver o simulacro de uma eleição feita pelo Senado ou uma aclamação feita pelo povo, um bárbaro assumia o poder. Ele dirigia uma instância ao imperador que ocupava o trono de Bizâncio, afirmando querer governar a Itália em seu nome e declarava que ficaria satisfeito, depois, em receber não o título de rei, mas simplesmente aquele de patrício romano. 
                   O Império Romano terminou deixando sua herança aos papas. 
                   Na ruína do poderio romano, algo permanecia ainda do antigo esplendor: a herança que a cidade dos Césares perpetuava aos posteres. As legiões vitoriosas desapareceram, os "condottieres" famosos jazem em seus sepulcros, o formidável unitário esfacelou-se em tantos territórios autônomos, mas o nome Roma permanece como símbolo de força, de justiça, de civilização. 
                Antes que Justiniano, no século IV, ordenasse aos mais competentes contemporâneos que compusessem o "Corpus Juris", grandioso monumento elevado à justiça e projetado sobre os séculos vindouros, e antes ainda que Teodósio II, no ano 453, coordenasse, em um código único, o "Codex Theodosianis", as leis promulgadas por Constantino e pelos seus sucessores, a vida civil dos povos subordinados a Roma tinha sido regulada por leis, que dezenas e dezenas de cônsules, tribunos, edis, pretores, tinham ditado e que o Senado havia aprovado. Em todo o domínio latino, Roma governava com leis imparciais, talvez severas a respeito das infrações e dos crimes, mas iguais para todos. 
               Desde o Campidoglio até à última choupana perdida no meio das lindes da Penônia, o homem que declarava com orgulho Civis Romanus sum!" (eu sou cidadão romano!)queria, significar que gozava dos mesmos direitos e estava sujeito aos mesmos deveres de qualquer súdito do Império. Nem devemos esquecer a obra de unificação dos povos europeus e o progresso intelectual promovidos pela língua latina, bem como o perene testemunho de Roma, representado pelos monumentos civis e militares e por outras muitas obras públicas - arenas, pontes, aquedutos, mausoléus, estátuas, etc. que conservavam por longo tempo a lembrança de Roma entre as populações mais distantes. 
                Caído o Império do ocidente, os vários povos retomavam sua independência primitiva, mas não podiam esquecer os benefícios recebidos daqueles que os haviam encaminhadona senda da civilização e do progresso. De todo este conjunto  de leis, idiomas, obras, é, pois, formada aquela que se denominou a Herança de Roma, que se resume, afinal de contas, na difusão européia daquela ideia estatal orgânica, que atingira, no limiar da Idade Média, o máximo desenvolvimento. 
                As legiões romanas espalharam-se por todos os países e terras ocupados naquela época. Muitos de seus monumentos permaneceram, assim, para testemunhar o poder da Urbe. Entre eles está a "Casa Quadrada" de Nimes, que lembra bastante o Templo da Fortuna Viril, em Roma. 
                        Em todos os pontos, ruínas de aquedutos,pontes ou templos, construídos por arquitetos e operários latinos, ainda hoje recordam aos povos a força de expansão de Roma. É importante lembrar, como exemplo, as ruínas do Templo de Baco, em Baalbek, na Síria. 


PARA LER DESDE O INÍCIO 
clique no link abaixo 

OS MICÊNIOS - PRIMÓRDIOS DA CIVILIZAÇÃO GREGA

..
.
             Na história grega, toda a fase que antecede os séculos X e XII a.C., compreendendo desde os primitivos habitantes pelasgos até a decadência de Micenas, é genericamente designada com tempos heroicos ou homéricos. O nome advém do fato de que as escassas informações que sobreviveram ao período referiam-se aos feitos lendários de deuses e heróis. E um dos documentos escritos sobre a época são os poemas épicos de Homero (Ilíada e Odisseia) que, provavelmente, não foram escritos até o século VIII a.C. 
                      Ao norte da Grécia, estende-se uma região áspera e acidentada, que vai do território rochoso da Tessáliaaté o mar Negro. Era a parta através da qual as colunas de invasão irrompiam na península helênica, a via de acesso percorrida pelos Acadianaos, pelos Dóricos, pelos Persas. Ali havia um povo forte e orgulhoso, distante, em todos os sentidos, da requintada civilização de Atenas e Corinto, uma gente rude no falar e nos hábitos, resistente como as pedras de suas montanhas. Depoisda grande rajada de patriotismo, que percorrera a Grécia, à época das guerras persas, haviam ressurgido, mais agudas e spinhosas, as rivalidades entre região e região, entre cidade e cidade. Cruentas guerras haviam minado a prosperidade de Atenas, Esparta e Tebas, que se impuseram às co-irmãs, uma após a outra, exaurindo, nas lutas fratricidas, seus recursos econômicos e espirituais. 
                   Os Aqueus, eólios, jônios e dórios, povos indo-europeus, chegaram à península balcânica sucessivamente, por volta do ano 2.000 a.C. os primeiros a chegar foram os aqueus. Encontram, ao sul e na ilha de Creta, uma civilização chamada minoica ou cretense que, em contato com a sua, originou uma terceira, a chamada civilização micênica.
                      Os últimos a chegar, os dórios, impuseram seu domínio sobre quase todas as regiões da península, um século após a queda de Troia, ocorrida, aproximadamente, em 1180 a.C. Fixaram-se na Argólida e Lacônia, ou seja, na porção leste do bloco meridional da península. 
                Mesmo considerando que os aqueus tiveram uma cultura menos desenvolvida que seus predecessores minoicos, seria de esperar que maior número de documentos houvesse sobrevivido à sua época. Isso não ocorreu porque a civilização micênica foi arrasada por tribos  em estado de semi-barbárie. Os dórios, grupo de helenos que chegaram do norte, no século XII a.C., tomaram Micenas e reduziram seus habitantes ao cativeiro. Localizaram-se no sul, ocupando toda a península de Peloponeso. 
                 Com a invasão dórica, a construção de palácios monumentais cessa, e o comércio, o artesanato e as artes entram em decadência. A própria estrutura social retrocede aos níveis da simples organização familiar, ou tribal, osa clãs. Foi nessa época que se  começou introduzir o ferro, em substituição ao bronze, no fabrico de espadas, lanças e utensílios. 
                Quase simultaneamente com os dórios, outros grupamentos de tribos helênicas chegavam também à península. Os eólios permaneceram no norte, na região de Tessália, dedicando-se principalmente ao pastoreiro. Chegaram também os jônios, que foram para o leste, ocupando a Ática e a ilha Eubeia, e posteriormente chegaram até as ilhas do Egeu. Essa época ficou conhecida como a Idade Média Helênica. Nela a vida urbana desapareceu e houve enorme retrocesso social. A atividade econômica dos clãs restringia-se ao pastoreio, na tessália (eólios), e a agricultura de subsistência, no Poloponeso (dórios).  Na Ática, os jônios dedicavam-se à lavoura, mas também à pirataria. Imigrantes jônicos e remanescentes aqueus povoavam as ilhas e formavam alguns núcleos nas costas da Ásia Menor. 
                    Esses povos nunca se unificaram politicamente, mas mantiveram plena consciência de sua identidade helênica e se opuseram aos outros povos que consideravam bárbaros. 
               No fim do período, a organização em clãs patriarcais entrou em declínio. As comunidades haviam adquirido complexidade suficiente para que o parentesco se tornasse indefinido. Foi então que constituíram-se Cidades-Estado, onde surgiram novas formas de governo em lugar do patriarcado: a realeza, a tirania, a gerontocracia (governo de anciãos) e finalmente  a democracia que se iniciou em Atenas no século V a.C. Dão elas: Tebas, na Beócia (de influência eólica); Atenas, na Ática (dos jônios); Corinto, às margens do mar Jônio (primeiro dos jônios e depois dos dórios) Argos, na Argólida (dos dórios); Esparta, na Lacônia (também dos dórios; Micenas, que readquire certa importância; além de outras de menor expressão. 
                   Embora as cidade mantivessem em comum a língua e a cultura, suas condições específicas eram muito diversas. Nos períodos posteriores, elas por vezes estabeleceram aliança entre si contra inimigos externos, mas jamais puderam formular uma política conjunta, pois seus interesse eram contrários. 

               Os gregos que controlaram Cnossos pertencem a uma civilização micênica, fato conhecido pela escavações realizadas pelo arqueólogo alemão Schliemann em Micenas, no Peloponeso. Trata-se do maior sítio arqueológico da Idade do Bonze da ilha grega de Creta. Tudo indica ter sido um centro cerimonial e político-cultural da civilização Minoica. Situado próximo da cidade moderna de Heraclião,atualmente Cnossos é visitado por muitos turistas, visitam a "reconstrução" imaginativa feita a partir das ruínas que existiam no local. 
              A civilização micênica se desenvolveu de forma gradativa durante os séculos seguintes ao 2000  a.C., com alguma influência da civilização minoica. Depois do ano 1450 a.C., os micênicos deslocaram os minoicos como principal  força econômica e política da região do Egeu. Ao mesmo tempo, ampliaram suas redes comerciais desde os portos costeiros da Síria e palestina no leste  até Sicília e sul da Itália, no oeste. 
               Schliemann, o arqueólogo alemão, acreditou ter identificado o túmulo do legendário governante Agamenon, líder das forças gregas participantes nas guerras de Tróia, em Micenas. Agora sabemos que os túmulos por ele indicados tinham uma datação anterior em muitos séculos ao tempo em que viveu Agamenon. Ainda existem divergências sobre a verdade dos acontecimentos históricos descritos no relato de Homero sobre as guerra de Troia na Ilíada. A história que descreve , de um grande numero de Estados semi-independentes regidos por um senhor em Micenas, concorda com as provas arqueológicas dos palácios micênicos em Pilos, Tirinto, Esparta e Tebas. 
               A imponente muralha defensiva de Micenas mostra a importância da guerra na Grécia durante esse período. A cerâmica pintada, os afrescos, as incrustações das espadas e o marfim talhado mostram a infantaria armada com lanças compridas e escudos octogonais, às vezes com elmos fabricados com presas de javali. Um rico túmulo micênio localizado em Dendra continha uma armadura completa de bonze, um par de perneiras do mesmo metal e um elmo feito com presas de javali e com orelhas de metal. Provavelmente este era o equipamento de um aristocrático guerreiro de carro. Os carros de guerra chegaram a Micenas do Oriente Médio. Porém, o íngreme e montanhoso terreno grego não era ideal para estes veículos, assim, o translado das tropas e dos carros de guerra só foi possível quando construíram extensos caminhos, dos quais ainda se encontram ruínas nas zonas de Micenas e Beócia. As embarcações também foram essenciais para a supremacia militar micênica; foram utilizadas em expedições marítimas, como o ataque a Troia relatado por Homero. 
                
              As tribos helênicas, de origem indo-européia, que posteriormente receberiam o nome genérico de "gregos", formaram-se talvez no note dos Bálcãs. Por volta de 2.200 a.C., os helenos dos ramos jônio,dório e eólio já ocupavam a Tessália. Mas os primeiros a se instalarem nas regiões mais ao sul foram os aqueus, que desceram do Épiro por volta de 1.600 a.C. Os aqueus combateram os pelasgos que ocupavam a região, expulsando-os para as montanhas. Embora derrotados, esses antigos habitantes da Grécia mantinham uma civilização mais desenvolvida que as de seus invasores. Após o período inicial da destruição e devastação, os aqueus passaram a assimilar algumas das características dos povos vencidos. Aprenderam a utilizar largamente o bronze no fabrico de armas e utensílios, conheceram novos processos de construção e aperfeiçoaram-se na agricultura, cultivando o trigo, a cevada, favas, lentilhas e oliva. Os trabalhos de ourivesaria, cerâmica, fundição e forjaria desenvolveram-se, chegando a constituir um ramo autônomo da produção. Construíram pelo menos uma grande cidade que deram o  nome de "Micenas.
                    O centro administrativo do reino da idade do Bronze estava colocado numa posição dominante e de fácil defesa numa importante rota comercial que cruzava o noroeste do Peloponeso. Sob a cidade encontram-se dez túmulos  tholos, câmaras de pedras no interior de um morro e cobertas por um domo na forma de abóbada, provavelmente lugar de sepultura da classe governante. No sul apenas algumas casas são tudo o que3 restou de uma grande cidade. 
               Por volta  de 1400 a.C., os aqueus já haviam consolidado sua soberania na península e iniciavam nova aventura. Lançaram-se ao mar, na conquista das ilhas do Egeu, que compunham uma civilização milenar, das mais desenvolvidas daquele tempo: a civilização minoica (egeia ou cretense).
              Logo tomam Creta, principal centro dos egeus, e destroem o palácio real de Cnossos. Os aqueus absorveram algo da cultura que destruíram e que se caracterizava por uma complexa organização social, baseada em atividades industriais e mercantis. Mas devastaram de tal modo as regiões que submeteram, que a própria localização da cidade de Cnossos se perdeu e dela, ao cabo de certo tempo, só restavam referências lendárias dentro da mitologia grega. 
               Os aqueus passaram a povoar algumas ilhas do Egeu, como Rodes e Chipre, e chegaram ao litoral noroeste da Ásia Menor, onde após dez anos de luta, e sob a liderança de Agamenon, rei de Micenas, destruíram seu último concorrente no Egeu, Troia, centro comercial e estratégico de grande importância na antiguidade. Toda a feroz batalha que então se travou foi descrita em obra épica, atribuída a Homero: a Ilíada. A exemplo do que sucedera com Cnossos, também essa cidade destruída pelos aqueus desapareceu da memória dos homens e durante muito tempo discutiu-se se ela teria mesmo existido. A pendência só terminou quando suas ruínas soterradas foram encontradas por Heinrich Schliemann por volta de 1880. 
                 Os aqueus, que incorporaram diversos elementos da cultura cretense, já haviam se desenvolvido o suficiente para construir sua própria civilização. Assim, construíram magníficos palácios em Micenas, cercando-os de sólidos muros. Em outra de suas cidades, Tirinto, a espessura desses muros que protegiam os palácios, chegava, por vezes, a vinte metros. 

                 Mas ainda assim, a civilização micênica (como ficou conhecida essa época de hegemonia dos aqueus) foi um pálido simulacro do que havia sido a florescente civilização minoica. 
                A guerra de Troia, sé é que de fato aconteceu, provavelmente se desenvolveu por volta do ano 1259 a.C. De acordo com a lenda, quando os líderes gregos voltaram, encontraram seus reinos em crise; Agamenon foi assassinado pelo amante de sua mulher. A arqueologia demonstra que os palácios micênicos foram queimados ao redor do ano 1200 a.C. e que a estrutura política e econômica da Grécia micênica fora destruída. Numa lenda posterior este colapso foi atribuído à invasão dos dórios, um povo do norte que falava grego. De fato, até que se demonstrasse que as tábuas que continham a escrita Linear B eram uma forma de grego, muitos achavam que os dórios foram os introdutores da língua grega na Grécia. porém, na atualidade, o colapso dos estados micênicos é atribuído a conflitos internos. 
              Durante mais de 200 anos, a Grécia experimentou a pobreza e um isolamento relativo, fazendo pouco comércio pelo mar. A situação começou a mudar por volta de 900 a.C., quando foram restabelecidos os vínculos com a Itália e o Levante.  A medida que crescia a prosperidade, os níveis de população começaram a aumentar novamente, favorecendo a reorganização política da Grécia clássica. O efeito da fragmentação política, aliada à unidade cultural e linguística, constituiu a característica da Grécia durante a maior parte do primeiro milênio a.C., da mesma forma que na época micênica. Montanhas íngremes dividem o país numa série de vales férteis, cada um originando um pequeno Estado.  Com o surgimento de cidades por volta do ano 700 a.C. nasceu a típica unidade política do período clássico, a chamada polis ou Cidade-Estado. 
              A pólis era uma comunidade limitada, independente e autônoma, que exigia a lealdade dos seus membros. Seu surgimento foi influenciado pela geografia grega. A Grécia, da mesma forma que a Ásia Menor, é uma região escarpada, porém no entorno da costa encontram-se planícies comparativamente pequenas, separadas entre si por cadeias montanhosas quase impossível de ultrapassar no inverno e difíceis de cruzar em qualquer época. Assim, contrastando  com as grandes civilizações do Egito, sempre associadas ao Rio Nilo, Mesopotâmia, o Vale do Indo e a China, a cultura grega surgiu numa paisagem isolada, de bacias férteis, cada uma formando um pequeno Estado. Atenas durante seu apogeu teria tido uma população de 100 mil habitantes, o que dificilmente se poderia chamar de um grande centro urbano considerando os padrões modernos. porém, Atenas era muito maior que as outras polis. Na opinião de muitos, a população dessa cidade não teria atingido 50 ou 60 mil habitantes. No século IV, Aristóteles afirmava que 30 mil cidadãos adultos livres e do sexo masculino,  excluídos os escravos e estrangeiros, formam uma cidade com 100 mil habitantes.

                      O século V a.C. foi o grande período da Grécia clássica. Entretanto, a influência política e cultural da Grécia somente veio a atingir sua máxima expressão no século IV, quando, durante as conquistas feitas por Alexandre, formaram-se colônias gregas em lugares tão afastados como o leste do Afeganistão e as fronteiras da Índia. Perto do ano 300 a.C., a língua grega já era falada desde Marselha, na desembocadura do Ródano, até na ribeira do Oxo, a mais de 4.500 quilômetros. 
               Um nimbo de glória transfigura, aos nossos olhos, a história da Grécia, iluminando figuras e lugares, com seu grande fulgor de lenda. No entanto, a vida daquele povo,que a nós parece acabada e perfeita como uma obra de arte, foi perturbada por guerras contínuas, por profundos dissídios internos, por frequentes e repetidos golpes políticos. 
               Deixamos a Hélade nos albores de sua civilização. Vamos agora em seu pleno desenvolvimento, no século VI a.C., quando já o pensamento de seus filósofos, o arrojo de seus mercadores e o poder de seus artistas a tinham situado numa posição de proeminente em todo o Mediterrâneo Oriental. Dóricos e Jônios, as duas estirpes que ocupavam, respectivamente, o Peloponeso e a África, tinham disseminado colônias em todos os pontos, desde o ao Tirreno, colônias que se tornaram, bem depressa, além de organizações comerciais de toda ordem, os mais ativos centros de cultura de todo o mundo conhecido. Mas como, na Itália meridional, a expansão grega esbarrava de encontro com o antigo poderio dos Etruscos e dos Fenícios, assim, no Oriente, ela também era contrastada pelo gigantesco império persa, que se estendia da Índia ao Egito, e no Bósforo, denominado, como suas vinte  "satrapias" (províncias), os territórios que já haviam pertencido aos Babilônios, aos Assírios, ao Hitita. Embora as colônias gregas fossem autônomas, elas também sentiam fortemente o liame da língua e da raça, que as unia à mãe pátria. Assim,quando a ilha de Mileto se revoltou violentamente contra a invasão persa, ela pediu socorro a  Atenas e o obteve. Foi esta a causa última e mais direta do grande encontro entre a luminosa civilização do Hélade e o sombrio e corrompido mundo asiático.
                A frota de Dario, monarca da Pérsia, atacou a Ática, no intuito de ferir, no coração, o nascente poderio grego, mas, na praia de maratona, onze mil hoplitas (guerreiros dotados de armas pesadas: laça, espada, capacete, escudo e couraça) atenienses e platenses, sob as ordens de Milcíades, quebraram o ímpeto da maré persa. 
Nas estreitas gargantas das Termópilas, os trezentos espartanos de Leônidas fizeram frente, durante três dias, ao infinito exército persa, deixando-se matar, resistindo até ao último homem.

A baia de Salamina foi teatro da grande batalha naval que salvou a Grécia da extrema ruína. Ali, a frota persa foi quase totalmente destruída.

              Nove anos depois, no ano 481 a.C., Xerxes, filho de Dario, tentou de novo a invasão. Com um exército enorme, avançou além da Trácia e Tessália, apresentando-se, ameaçador, às portas da Ática. Aqui,  na passagem das Termópilas, encontrou à sua espera trezentos espartanos, comandados por Leônidas. Para dar tempo ao exército grego de retirar-se para posições mais seguras, aquele pugilo (punhado) de heróis deixou-se massacrar até ao último homem, sem ceder um palmo de terreno. Enquanto a irresistível avançada de Xerxes irrompia sobre Atenas e deixava-a em chamas, Temístocles dirigia suas trirremes para cima da frota persa e, num furioso com bate, perto da ilha de Salamina, destruiu-a. Privado de seus barcos, o exército oriental hesitou; sobre ele caiu, rápido, Pausânias, o general espartano que comandava as tropas da liga helênica, e enfrentou-o na batalha campal das planícies de Platéia. Sob aquele ímpeto, o colosso persa desmoronou-se e pôs-se em fuga. Se, com as guerras persas, os gregos deram a mais alta prova de suas virtudes guerreiras, foi em campo bem diferente das armas e da política que afirmaram sua grandeza. 
               No melódico fluir das estrofes de Alceu e Safo é que encontramos o melhor de seu espírito. Nos elegantes aforismos de Górgias, na imortal vivacidade dos diálogos de Platão, vemos aquela esplêndida pureza de alma, que fazia os Atenienses olvidarem seus negócios para ouvir um debate filosófico ou uma tragédia de Sófocles. 
                    Um hálito de imortalidade dá vida às figuras esculpidas por Fídias e Praxíteles e às simples frases de Sócrates. Quem sobre na Acrópole de Atenas, quem penetra nas colossais ruínas clássicas, sente que jamais a humanidade atingiu tamanha harmonia de luzes e linhas. Dos muros da Acrópole, percebe-se, além da sombria mole do Cabo Sunio ou de Minerva, a maravilhosa cintilação do mar; o truncado pedestal da estátua de Minerva, a silenciosa Deusa da Sabedoria, parece ser o centro do mundo ideal, que a Grécia construiu e em que nós vivemos iluminados por aquela chama que brilhou nhá mais de dois mil anos atrás e que ainda não se apagou. 
Todos sabemos que foi na Grécia que surgiu a Democracia, mas muitos desconhecem que ela não durou para sempre. 
Foi Péricles quem dirigiu a construção das "longas muralhas", que, de Atenas, desciam até ao porto de Pireu. A época da sua Ditadura foi uma das mais floridas para a Grécia. 

               A maioria das cidades da Grécia clássica se estabeleceram como pequenos assentamentos ao abrigo de uma cidadela ou acrópoles co  defesas naturais  à medida que a Grécia se recuperava da Idade Escura, fenômeno seguinte à decadência da civilização micênica, aumentaram a riqueza e a segurança, começando a construção de belos edifícios. O financiamento dessas obras era feito pelo Estado e por doações privadas, o que caracterizava um orgulho cívico e refletia os aspectos mais relevantes da vida na Grécia. O templo principal era o lugar de adoração do patrono da cidade e símbolo do poder político. Muitas edificações, tais como o famoso Pártenon de Atenas, eram grandiosas e utilizavam  finos materiais de construção. O Ginásio representava a importância que a sociedade grega dava ao condicionamento físico e à recreação do corpo. O teatro e o Odeão estavam destinados às representações teatrais, à poesia e aos recitais, enquanto as cortes e as câmaras do conselho destinavam-se à discussão dos assuntos públicos e privados dos cidadãos. Finalmente, deve-se mencionar o Ágora, ou mercado, utilizado para transações comerciais. 
               O centro do poder e da cultura da Antiga Grécia residia não apenas nas cidades da Grécia continental, mas também nas cidades das ilhas do Egeu e da Jônia, na Anatólia Ocidental. No século VIII, a Jônia era o centro da cultura e da filosofia grega, tendo surgido cidades como Mileto e Éfeso, que eram centros de importância durante o Império Romano. Dessa forma, o coração da cultura grega estava nas terras do litoral do mar Egeu e nas ilhas que ali existiam, e não na Grécia continental. A partir da época clássica, o Egeu foi em muitos sentidos uma propriedade exclusiva dos gregos.
                O contato marítimo era o vínculo que mantinha unido o mundo grego, razão que explica porque seus habitantes foram excelentes marinheiros. Esta habilidade foi muito bem aproveitada em assuntos civis e militares. Muitas das Cidades-Estados dependiam em grande medida do comércio marítimo. Como consequência foram encontradas mercadorias gregas na Ásia e na Europa Ocidental, longe do ponto de origem. Nos séculos VIII e VII a.C., empreendedores comerciantes e colonizadores da Grécia fundaram uma série de novas cidades gregas desde o Mar Negro até o Mediterrâneo  Ocidental, mantendo contato com as demais colônias e com a terra natal pela via marítima.  A competência militar da Marinha grega mostrou seus resultados no século V a.C., quando a frota ateniense derrotou a dos persas em Salamina, e logo utilizou sua armada para fundação do Império Ateniense no Egeu.
                     
                     Todas as colônias gregas derramaram o elixir  da arte e do pensamento no sangue cultural na Espanha e na Gália, na Etrúria e em Roma, no Egito e na Palestina, na Síria e na Ásia Menor e ao longo das praias do Mar Negro. Alexandria era o porto de reembarque tanto de ideias como de mercadorias; partindo do museu e da Biblioteca, os trabalhos e ideias dos poetas, dos místicos, dos filósofos e dos cientistas gregos eram espalhados pelos eruditos e estudiosos por todas as cidades do Mediterrâneo. Roma recebeu a herança  grega em sua forma helenística; seus teatrólogos adotaram Menandro e Filemon, seus poetas imitaram os modos, as medidas e os temas da literatura alexandrina, suas artes serviram-se de técnicos e forma gregas, suas leis absorveram os estatutos das cidades gregas, e a posterior organização imperial copiou os moldes das monarquias greco-orientais: o helenismo, depois da conquista romana da Grécia, conquistou Roma, como o Oriente vinha conquistando a Grécia. Cada ampliação do poderio romano dilatava a área atuada pelo fenômeno da civilização helênica. O Império Bizantino casou a cultura grega com a asiática, e transmitiu uma parte da herança grega ao Oriente Próximo e ao norte da Eslávia (dos Eslavos). Os cristãos sírios a receberam o facho e o passaram aos árabes, que o transportaram através da África até a Espanha. Sábios bizantinos, muçulmanos e judeus, introduziram ou interpretaram as obras primas gregas para a Itália, criando primeiro a filosofia dos escolásticos e depois a febre da Renascença. Após esse resumo de espírito europeu, o pensamento da Grécia invadiu de modo tão completo a cultura moderna, que "todas as nações civilizadas, em tudo o que diz respeito a atividades do intelecto, são hoje colônias da Hélade. à exceção das forças cegas da natureza, nada se move neste mundo que não seja grego de origem. 
             A formação das cidades-Estado independentes marca o início da Idade de Ouro da Grécia. Sua submissão a império de Alexandre Magno (século IV a.C.) significaria o fim da civilização da Grécia Clássica. 
                     A criação do  Império de Alexandre desencadeou um novo período na evolução da cultura grega: a época helenística. Ainda antes da conquista de Alexandre, as comunidades assentadas no litoral do Mediterrâneo Oriental haviam experimentado uma aceleração do crescimento econômico e o comércio de uma era de prosperidade que durou até o perfeito desenvolvimento do período romano. As cidades aumentaram de tamanho até que, ao redor do século I a.C. , Alexandria teve, provavelmente, uma população superior a meio milhão de habitantes.
                Apesar da importância da época helenística pré-helênica, o período que mais se sobressai, quando pensamos a Grécia Antiga, é a época clássica do século V a.C. Qual foi a faísca que deu origem a essa explosão criativa?  A comparação com os autocráticos vizinhos do leste da Grécia poderia proporcionar uma pista. As ruínas mais impressionantes dos Impérios Assírio e Persa são os monumentais e luxuosos palácios. Em troca da Grécia clássica recebemos templos, teatros e outros edifícios cívicos, de natureza essencialmente comunal. Nos monumentos da civilização grega clássica, a ênfase não se encontra nas dinastias reinantes nem nos indivíduos, e sim no poder e prestígio da comunidade como tal. Talvez por isso, esta notável obra artística tenha sobrevivido até os tempos modernos, como característica-chave da ideologia ocidental. 

PARA LER DESDE O INÍCIO 
clique no link abaixo 
                 





AS INVASÕES DOS VIKINGS, VAREGUES, SARRACENOS E MAGIARES À EUROPA





                 Os vikings, ancestrais dos sossegados e civilizados escandinavos, entraram para a História como um povo violento. Apesar de terem feito jus à fama, pois invadiam, saqueavam e dominavam cidades do continente europeu, mantinham um sistema de vida bastante organizado e democrático . Crimes internos eram julgados e cabia ao condenado cumprir rigorosamente a punição, coisa que em nossos dias raramente acontece.
               Os vikings sempre causaram verdadeiro pavor nos europeus. "Do furor dos normandos, livrai-nos Senhor" suplicavam os povos da França Itália e Espanha lá pelos idos do anos mil. Os vikings, e depois seus descendentes, os normandos, devastaram durante três séculos  (de 800 a 1.100) as costas da Europa Ocidental com suas arrojadas incursões.
           Mas os vikings passaram à História Universal menos como um povo belicoso e mais como audaciosos navegantes, o que é igualmente bem justificado, pois, quando chegaram à Escandinávia via Dinamarca, por volta do século VII, souberam construir frotas de centenas de embarcações com as quais desafiavam os tempestuosos mares e atingiram a Islândia e Groenlândia, onde fundaram colônias agrícolas; as costas do Mediterrâneo, onde saquearam a valer; a Europa Oriental, onde estabeleceram poderosos Estados, dos     quais nasceria a Rússia; o norte da França, onde fundaram o ducado da Normandia, que viria a ser de grande importância para a história da Europa; a América do Norte, onde chegaram a fazer muita coisa, tanto que sua presença nessa região antes de Colombo é até hoje contestada. Empreenderam heroicas viagens pelo Mar Cáspio, Mar Negro, Oceano Ártico e Atlântico Norte. E guerrearam com bravura, e carregaram prata, sedas e especiarias do leste, marfim de leão-marinho e peles, do norte.
 
 A descoberta da América antes de Colombo
                 Por ter cometido assassinato, Eric, (o vermelho), foi exilado na Islândia, ilha descoberta cerca do ano 860 pelos próprios vikings e que, em pouco tempo, foi colonizada. Eric levava uma vida pacata até que, por volta do ano 982, decidiu navegar mais a oeste do oceano Atlântico. Com suas viagens, descobriu novas terras, às quais deu o nome de Groenlândia.         
               Entusiasmados com a notícia, colonos rapidamente navegaram rumo ao Ocidente. Em 999, Eric enviou seu filho  mais velho, Leif Ericson,  para a terra natal da família, a Noruega. Leif foi recebido pelo rei, Olaf I, que o converteu ao cristianismo e o incumbiu de cristianizar a Groenlândia. 
                A partir daquele momento, existem duas versões para os acontecimentos que se seguiram: a primeira conta que, na volta para a Groenlândia, Leif desviou-se de seu curso por acidente; a segunda afirma que ele voltou para a Groenlândia e lá teria comprado um barco, partindo então para explorar terras ainda mais a oeste. Ele estaria sedento por descobrir a veracidade do relado de um colega, Bjarni Herjólfsson, que dizia ter avistado uma terra montanhosa no ano de 986. 
              Independentemente da versão, o fato é que, no ano 1.000, Leif Ericson tornou-se o primeiro europeu a pisar na América. Ele fez três paradas, dando um nome a cada local que visitou. De acordo com os estudiosos, a primeira, Helluland, seria a ilha de Baffin; a segunda foi Markland, provavelmente a península do Labrador; a terceira recebeu o nome de Vinland (Terra Boa) e possivelmente corresponde à Terra Nova. Em Vinland, Ericson passou um ano com os homens que compunham sua tripulação. Quando retornou à Groenlândia, relatou maravilhado, sua aventura em um local fértil, de clima ameno e repleto de peixes.
                 Essas informações não são reconhecidas por muitos estudiosos como verdadeiras. Contudo, conta-se que,  com a morte do pai, Leif assumiu os negócios da família e encarregou seu irmão, Thorvald, de realizar a próxima expedição até as novas terras.
               Em sua primeira viagem até Vinland, Thorvald se deparou com nativos da região e, durante uma briba foi morto. Ainda assim, novas jornadas vikings foram empreendidas até Vinland, onde se constituiu um assentamento. este, no entanto, durou poucos anos, em razão dos constantes atritos com os índios e pela dificuldade de navegação na região, repleta de icebergs. 
               Na década de 1960, historiadores encontraram vestígios de uma povoação viking na Terra Nova que, de acordo com os relatos, corresponde à Vinland. Provava-se, assim, a veracidade da aventura de colonização empreendida por Leif e seus companheiros vikings. 
         A Europa Ocidental teve mais segurança contra os ataques internos a comunidades religiosas e mercadores sob o domínio dos carolíngios e dos mércios na Inglaterra.  No século VIII, mosteiros e mercados não eram fortificados nem as defesas romanas foram restauradas. Mas a riqueza atraia  invasores externos, homens que não aceitavam as sanções religiosas que protegiam os locais sagrados do Ocidente cristão nem a autoridade dos reis cristãos. Nos século IX e X a Europa Ocidental sofreu ataques de três grupos de forasteiros: sarracenos, húngaros e vikings. 
              As conquistas de Clóvis, morto em 511, e seus filhos fizeram dos francos os mais poderosos e importantes de todos os sucessores bárbaros de Roma, criando a base para a hegemonia franca que dominou a Europa Ocidental  por mais de três séculos. Mas Clóvis e não era o único governante franco; os que viviam nos vales do Reno, Mosela e Meuse tinham outros chefes ou reis. Clóvis destruiu  o poder dos rivais e uniu os francos sob seu domínio e ampliou sua notoriedade sobre os turíngios e alamanos, no leste, e sobre os visigodos, oeste; seus filhos e netos aumentaram o domínio franco a leste, até o vale do médio Danúbio, conquistaram os burgúndios e expulsaram os ostrogodos da Provença. 
             Os ataques sarracenos começaram no século VIII, a partir da Espanha islâmica e da África. Após a ocupação da Sicília, concluída no ano 827, os piratas sarracenos se fixaram na costa sul da Itália e depois no sul da Gália, de onde ameaçavam a Europa meridional. Córsega e sardenha foram frequentemente atacadas e muitos mosteiros e cidades na Itália, incluindo a própria Roma e a Gália foram pilhados; mercadores  e peregrinos eram roubados ou forçados a pagar para saírem do cativeiro. O principal responsável pela expulsão dos piratas da Itália foi o Império Bizantino. 
              O nome Viking, além do seu terrível poder de evocação, significa no masculino: o homem que frequenta as baias. E só representa a parte ocidental da gigantesca rede de exploração lançada ao mundo pela Escandinávia entre os século VII e X. 
                No Oriente, efetivamente, os Suecos varegues (mercadores itinerantes, de vârar. "garantias") colocam a expansão nórdica sob o signo do comércio, organizado num grande raio de ação. Façanha pelo menos igual à dos navegadores, e que assegura, a partir do século IX, a prosperidade dos centros de tráfico como Birka no lago Mälar, ou Hedeby, perto de Schleswig. Ajudados pelas populações eslavas, os Varegues instalaram-se na Rússia, discretamente, enquanto no Ocidente os ataques vikings são recebidos com anátemas dos "clérigos loquazes". 
                Vikings e Varegues não se lançam na direção de mundos desconhecidos por eles. Desde a idade do Bronze, a rede fluvial russa estabeleceu um circuito comercial com os núcleos germânicos. A partir do século VI, os Nórdicos conhecem o Vestr Viking, a rota do Oeste, aberta pelos piratas dinamarqueses, jutos e saxões, e ligando a Noruega, a Escócia e a Irlanda; mais ao sul, o caminho irlanda - Armórica - golfo de Gasgonhaé usado desde o baixo Império, as flotilhas monásticas sinalizam os itinerários fluviais, a rota da Espanha e do próprio Mediterrâneo é delimitada; na direção do grande Noroeste, os anacoretas irlandeses, navegando em pré-históricos coracles redondos, de madeira e de couro, descobriram a rota Erin - ilhas da Escócia - Faer Oer - Islândia.  Os Vikings vão percorrer esses mares. Descobrirão somente duas rotas costeiras: a de Trondheim ao mar Branco, e a da Islândia à Goenlândia (depois daí até ao Vinland americano). 
               No fundo dos fiordes da Noruega, com suas águas transparentes e suas margens ladeadas por pradarias verde-escuro, encimadas por florestas de linheiros, carregam Knorr e langskip de bagagens, víveres, animais e cavalos. Os homens sobem a bordo: barbudos, usam o antigo traje germânico, com calças apertadas no tornozelo, túnica larga caindo por cima dos quadris e manto preso por um broche no ombro direito, para deixar o braço livre. A espada franca está presa ao cinturão por uma tira de couro. na cabeça, os Vikings usam um capacete de ferro com proteção para o nariz, ou um elmo cônico. 
                - Ro voek over alt! Avançar!
                 O barco se distancia a golpes de remo para o meio do fiorde. A equipagem é içada no mastro de 10 metros, cravado numa peça de carvalho, na qual está preso por um "ferrolho", introduzido no trilho de montagem, a verga sustentando a vela quadrada de lã branca, que se enfuna, fazendo ranger as precárias enxárcias. 
                  O "longo-navio" deixa o fiorde. Quando m bate com seu casco nas ondas escuras do alto mar, o vigia está no seu posto, sobre o pequeno convés da frente, uma das mãos sobre a proa, onde está a carranca do monstro, colocada antes da partida. Remos enfileirados, os homens ocupam-se das manobras ou fixam seus cofres, que servem de banco de remar sobre o krappar, espaço que fica na frente e atrás do mastro;  seus escudos redondos e multicoloridos são presos com cordas amarradas nos seus pulsos e em volta de uma ripa que cobre a amurada. Os 16 buracos dos remos, perfumados nas bordas, são protegidos por discos de madeira, giratórios. No compartimento  de trás (fyrrirum), um cofre blindado é amarrado, trancado por possantes fechaduras escandinavas, contendo os grandes machados de combate de cabo duplo e as espadas longas, forjadas nas florestas francas ou em Ulfberht e Ingelri, no Reno. 
                  Instalado no convés da popa, ao lado do piloto, o chefe dirige seu olhar para a costa que se distancia. Enquanto os marinheiros-guerreiros erguem sobre estacas as tendas de couro que os protegerão dos respingos das ondas e dos vendavais. O navio aventura-se over ban svan, "na rota dos cisnes". 
              I imensa praia da ilha de Lindisfarne, ao largo dos confins anglo-escoceses, vê apontar algumas velas. Com uma rapidez surpreendente, os navios encalham, as equipagens se armam; eles saltam, pela quilha da proa, na água pouco profunda, correm para a areia branca espirrando a espuma das ondas; trepam na duna, atravessam em marcha de ataque o mato cerrado e atiram-se aos gritos sobre os indefesos monges ocupados em recolher o feno do convento, construído nesse local 100 anos antes. Angustiando de forma insuportável seus habitantes: ventos furiosos, relâmpagos, dragões de fogo voando pelos ares. Uma grande fome seguiu-se a esses sinais premonitórios, e pouco depois, no mesmo anos, as devastações dos pagãos destruíram miseravelmente, pela pilçhagem e pelo massacre, a igreja de Deus em Lindisfarne. (relato de Crônicas anglo-saxônicas).
               Exceto por alguns detalhes, a largada viking evocada linha atrás poderia corresponder à incursão de 8 de junho de 793. 
               - Thor aye!  "Pisotearam por todo o lugar santo", relatara um escritor do século XII, "e o poluíram com as máscaras dos seus passos; arrancaram os altares e apossaram-se dos seus tesouros. Mataram alguns dos irmãos, e levaram outros acorrentados, como escravos. Muitos desses infelizes foram perseguidos, inteiramente nus, e cobertos de insultos. Até mesmo, em total desespero, afogaram-se no mar."
              Alguns anos após a incursão, um escultor cristão erguera um Lindisfarne uma estrela reproduzindo a cena em baixo relevo; num lado, a imagem de uma cruz diante da qual se inclinam dois orantes; no outro, sete guerreiros brandindo o machado e a espada. esta primeira aparição dos Vikings traumatiza o Ocidente cristão. Alcuíno, ele próprio originário da Northumberland, escreve ao rei Ethelred: "Aproximadamente há 350 anos nós e nossos pais estamos habitando este maravilhoso país, e jamais aconteceu na Grã-Bretanha um horror semelhante ao que sofremos pela crueldade de uma raça pagã; e ninguém supôs que tal invasão pudesse vir do mar. Vede: a igreja de São Cuthbert foi salpicada com o sangue dos sacerdotes de Deus, despojada de seus ornamentos; este lugar, mais venerável do que outro qualquer na Grã-Bretanha, foi a presa dos pagãos..." 
               O estilo foi apresentado: os povos cristão veem perfilarem-se figuras de verdadeiros piratas, não conhecendo outra lei que não seja a do assassinato. Realmente, o norueguês, quando participa de uma expedição, não tem consciência de transgredir qualquer legitimidade: descem em terra e saquear uma fazenda para roubar o gado é somente uma forma de abastecimento, aceito pelos costumes nórdicos. Na Noruega e na Dinamarca, serão necessários a unificação monárquica e o advento do século XII para que agentes reais sejam encarregados de afastar os Vikings da costa. 
                Antes de se converterem ao cristianismo, acreditavam nos deuses germânicos. Mas, acima de tudo, acreditavam no seu próprio valor; "diga-me qual é sua fé", perguntou um viking a outro. "Creio na minha própria força", foi a resposta. 
                Os deuses vikings eram Woden (Odin), chefe de todos os deuses, o grande guerreiro, e Thor, que parece na mitologia sempre acompanhado de sua arma invencível: o martelo de pedra. No Valhalla, o paraíso, os vikings mortos encontrariam festas, lutas, narração de histórias e, o que achavam muito bom; poderiam beber o crânio de seus inimigos e ficar em companhia dos antigos heróis.  
              No século doze, em Gol (Noruega), os vikings, havia pouco tempo convertidos ao cristianismo, ergueram uma igreja que resistiu ao tempo, embora feita de madeira. 

               Sabendo trabalhar a medira como poucos, os vikings construíram sólidas embarcações de fundo plano e agudo esporão (remate da proa, onde ficava a figura que servia de ornamento), capazes de navegar a altas velocidades. Embora impulsionadas a vela, dependiam mais da força dos remadores: 60 de cada lado. Os barcos vikings serviam como meio de transporte para as excursões piratas ou para as longas viagens de exploração e fins comerciais. No primeiro caso, os guerreiros colocavam seus escudos ao longo do costado. Nas viagens pacíficas, a tripulação era bem menor, entre 15 a  30 homens. Os vikings não conheciam a  bússola imantada e orientavam-se graças a uma espécie de bússola solar. De meados do século XIX a meados do século XX, os arqueólogos já desenterraram na Escandinávia cerca de 550 drakkar (nome viking para navio). Todos serviam de túmulos a chefes militares e deviam transportá-los em sua última viagem ao Valhalla, que era o paraíso na mitologia viking. Em  Gokstad (Noruega) encontrou-se, em 1880 um barco viking construído no século nono. Media 23,30 m de comprimento por 5,10 m de largura máxima e podias transportar 40 homens. O timão era um grande remo preso a um dos costados, a proa bem afilada para fender as grandes ondas de alto mar. Movida a remo, a nave também possuía mastro com vela quadrada. Como o fundo era muito chato, o barco permitia viagens em rios, o que, por sua vez, ensejava aos vikings saquear, além das cidades marítimas, também as do interior. 


              Foram encontradas, também, carretas e trenós que provavelmente eram utilizados nos trabalhos agrícolas, em fazendas  situadas às margens dos fiordes  escandinavos. É onde os vikings criavam ovelhas, cavalos e vacas; cultivavam o centeio, cereal mais adequado á regiões de clima frio. Pão, laticínios e peixe eram os principais alimentos. 
                Quando se converteram ao cristianismo, o vikings adaptaram o martelo à forma de cruz, como símbolo de sua conversão, mantendo todavia seu sentido religioso original; O martelo (chamado mjolnir, era a arma de Thor, o deus do trovão. Além de sua utilidade como instrumento, o martelo, para os vikings tinha também o valor de um amuleto, ou seja, um objeto mágico que protege seu dono contra todos os perigos.  
               Os vikings preferiam navegar a fazer literatura. Entretanto, conheciam o alfabeto e nas cortes de seus reis havia lugar para os escaldos, poetas que contavam as lendárias empreitadas de seus heróis. Esses poemas eram encontrados transmitidos de geração a geração oralmente e só muito mais tarde passaram à forma escrita, as célebres sagas
                Mas, se a escrita existia, quem a usava? Só os sacerdotes, para gravar fórmulas  mágicas nas tumbas e nos amuletos. Por isso mesmo chamava-se runa, que em viking significa mistério. Runa, porém, era o nome genérico de todas as escritas  dos antigos povos germânicos. Originalmente consistia de 24 letras, derivadas do grego e do latim. Mas seu desenho foi sendo aos poucos alterado para facilitar a lapidação de inscrições em pedras. 
                 Em matéria de linguagem, inglês moderno conserva resquícios  da dominação viking. É o caso dos nomes dos dias da semana: wednesday (quarta-feira) vem do viking, "dia de Woden; thursday Quinta-feira) era o dia de Thor. 
                 Os vikings contavam de 20 em 20. Do que oitenta, em francês, resultou em quatre-vingt,  ou seja "quatro vezes vinte". Pois durante muito tempo os vikings dominaram também a Normandia, região situada no noroeste da França atual. 
               A história Viking   foi reconstruída pelos estudiosos, principalmente pelo exame das relíquias que foram encontradas sepultadas em embarcações. 
               Para sorte do arqueólogos o hábito de muitos povos era enterrar seus mortos junto com os objetos que usaram em vida. Como o egípcios,m etruscos e citas, os vikings tinham esse costume. E, graças a ele, pode-se ficar sabendo como era sua vida, analisando os artefatos encontrados. 
               Tal como os romanos, os vikings eram muito hábeis em adaptar engenhos e idéias de outros povos a seu próprio uso e interesse. O que se pode chamar de arte viking é uma mistura de muitos estilos europeus, notadamente o carolíngio, os irlandês e o inglês, embora no seu conjunto seja uma expressão típica e exclusiva daquele povo de intrépidos navegantes. 
                Os  vikings tinham também a vantagem da surpresa quando desciam até o litoral e rios da Europa Ocidental. Mas, ao contrário dos húngaros, eram também colonizadores. Quando os noruegueses descobriram que havia ilhas no Atlântico Norte com ambiente muito semelhante ao de sua terra natal, começaram a procurar uma vida melhor além-mar. Os dinamarqueses também se fixaram em terras de ultramar, em parte porque havia mais oportunidade de pilhar e extorquir tesouros na Europa Ocidental do que na Escandinávia.
               As primeiras incursões vikings ocorreram perto do fim do século VIII. A mais conhecida foi contra o mosteiro de Lindisfarne, na Nortúbria em 793. No século seguinte, várias bases norueguesas foram estabelecidas na Irlanda, sendo a mais famosa Dublim,  fundada em 841. Desses locais, os líderes guerreiros conduziram as expedições para pilhar mosteiros e outros centros na Irlanda , Grã-Bretanha e locais mais distantes. Os ataques dinamarqueses foram contidos pelos francos a partir do ano 810, mas uma incursão ao mercado de Dorestad em 834 iniciou uma série de ataques regulares àquela localidade. Na metade do século,dinamarqueses deslocavam-se por barco ou a pé, para atacar igrejas e cidades na Grã-Bretanha e Império Franco. Apos o ano 850, se moviam a cavalo cobrindo grandes distâncias. Estabeleceram bases para facilitar os ataques e algumas se tornaram centros de colonização escandinava permanente, como os cinco burgos das "midlands" inglesas. Nessas colônias , os vikings perderam vantagens de mobilidade  e surpresa, tornando-se vulneráveis à pressão que os levou a aceitar o domínio de Franceses e ingleses e a conversão ao cristianismo. 
                 Os magiares impuseram outro tipo de ameaça.; Eram cavaleiros que se deslocavam pela planície húngara no final do século IX e em pouco tempo começaram a pilhar as regiões vizinhas, primeiro o norte da Itália, depois a Alemanha e, nas investidas mais longínquas, o centro e o sul da França. Tinham a vantagem da velocidade e surpresa. Em campo aberto, sua cavalaria era superior à dos inimigos alemães ou italianos. Mas em terreno montanhoso ou atravessando rios, especialmente ao voltar para casa com o fruto das pilhagens, eram mais vulneráveis e chegaram a ser  derrotados por governantes germanos. A ameaça terminou com a vitória de oto I, na batalha de Lechfeld, perto de Augsburgo em 955. Os líderes magiares foram executados, dando início a assimilação dos magiares pelo cristianismo ocidental. 
                Durante esses acontecimentos no Ocidente, os suecos estavam atravessando o Báltico para visitar os mercados, notadamente Bolgar no médio Volga, onde os muçulmanos ansiavam por adquirir escravos que suecos e outros capturavam nas florestas do norte da Rússia. Os líderes suecos que se tornaram senhores de locais como Kiev e Novgorod  foram influenciados pelos eslavos, mas mantiveram laços dinásticos com a Escandinávia. Os governantes de Kiev entraram em contato com Bizâncio, mas a influência deste era religiosa e cultural e não econômica. Os principais mercados para os produtos da região de Kiev eram os do leste islâmico, mais que os do sul bizantino. 
               A repentina ampliação de atividades escandinavas ultramarinas coincidiu com a crescente demanda de mercadorias que só podiam ser obtidas no norte; as morsas eram a principal fonte de marfim da Europa e as peles das regiões árticas da Escandinávia e Rússia eram muito valiosas. No início do período viking, cresceu o comércio nos mercados costeiros denominados "wics". O maior deles era Wijk, em Dorestad, mas havia outros, incluindo Quentovic, perto de Bolonha, e Hamwic, que mais tarde se tornaria Southampton. Os escandinavos eram estimulados a procurar couros, peles e marfim ainda mais longe.
                Na Inglaterra, os reis de Wesserx resistiram, especialmente Edmundo I, o Velho (899 - 924), e Athelstan (924 -939); na Gália, os governantes francos capitularam, deixando a defesa nas mãos dos nobres locais. O resultado nas duas regiões foi a fragmentação da autoridade pública e o fortalecimento do poder militar dos líderes locais; na Inglaterra, homens livres se submetiam aos senhores em troca de proteção; na Gália, lavradores perderam status para os cavaleiros que formavam uma nova "ordem"  em 10150. na Alemanha, o poder passou para os duques e margraves que guardavam as fronteiras. Desde o início do século X, devido ao poder de destruição dos sarracenos, magiares e vikings, a Europa Ocidental tornou-se um entrelaçado de condados, comunidade, principados e senhorios. E assim permaneceu por 500 anos. 

A expansão da Normandia
                   Aqueles ousados corsários, chamados pelos europeus de "Normandos" (ou seja, "homens do Norte") e, na sua língua "Vikings", eram originários da Escandinávia. Possuíam barcos compridos e finos, movidos por inúmeros remos e uma única vela retangular; barcos não  mais sólidos nem mais capazes do que um barco de pesca atual, todavia, em seu bordo, os Normandos realizavam travessia de excepcional percurso.
                 Em suas incursões de longo alcance, os Normandos demonstravam uma audácia, uma perícia marítima que não encontraram paralelo da história, a não ser no período áureo de Cartago. É de estarrecer, só em pensar que, com esses pequenos barcos, eles ousavam desafiar o Atlântico, atravessando-o completamente, da Normandia ao Canadá.

               Flotilhas de noruegueses lançaram-se, entre  os séculos IX e XI, sempre mais distante, rumo ao Ocidente, alcançando primeiro as ilhas "Far-Oer" e as Shetland, depois a Islândia, a Groenlândia, Terra Nova e às costas do labrador, na América do Norte. Em cada uma dessas terras, eles fundaram colônias que sobreviveram por séculos; aquela americana extinguiu-se, provavelmente, no século XIV. Outros grupos de guerreiros vikings, estes suecos, avançaram, ao invés, para o Oriente, para as grandes planícies da Rússia, até à Ucrânia; três irmãos, os príncipes Rurik, Sinav e Truvor, fundaram, no ano 862, em  redor de Novgorod, o primeiro núcleo daquele domínio normando que, concentrado em Kiew, prosperou nos séculos seguintes, até que foi absorvido pela população eslava dominante.
               Dir-se-ia que os três grandes povos escandinavos tivessem divididos, de comum acordo, as respectivas zonas de influência; realmente, como os noruegueses se dirigiram somente para as ilhas atlânticas e os suecos para a Rússia, assim os Danos (dinamarqueses), em sua grande febre de aventuras, comum a todos esses bárbaros do Norte, rumaram para a Grã-Bretanha. 
               E eles conseguiram estabelecer, bem depressa, sólidas cabeças de ponte naquela Ilha, facilitadas também pelo fato de que os Anglos, que a tinham invadido antes, sobrepujando a primitiva cepa saxônia, provinham igualmente da Dinamarca. Os reis ingleses reagiram, mas quando, em 1002, o rei Etelredo II mandou trucidar num só dia todos os Danos estabelecidos a no país, o rei Sven da Dinamarca acudiu com uma poderosa frota e,em poucos e afortunados combates, conquistou o território inteiro.  O filho dele, Canuto, ampliou os domínios paternos, conquistando a Suécia e a Noruega, que as uniu num único reino à Dinamarca e Inglaterra; alpem disso, fez de tudo para difundir o cristianismo, poderoso impulso civilizador para seus ásperos e bélicos súditos, ainda imersos em sua trágica mitologia. 
               Na França, nesse ínterim, aqueles normandos que se haviam estabelecido na península da Bretanha, que lhes fora cedida por Carlos - O Gordo, tinham, em parte, assimilado a superior cultura francesa e constituído um rico e poderoso ducado. Da Bretanha - menos conhecida pelo nome de Normandia - partiram os primeiros grupos de guerreiros normandos que, em 1016,estabeleceram-se perto de Salerno. E sempre da Bretanha partiram, alguns anos depois, os filhos de Tancredo de Altavilla, Rogério e Roberto, o Guiscardo, que, numa série de rápidas e brilhantes manobras guerreiras, conseguiram escorraçar da Ilha meridional e da Sicília, os Bizantinos e os Árabes, ali fundando o reino normando das Duas Sicílias. 
                Houve outra expedição normanda, não menos repleta de eventos, que, da península bretã, soltou velas em 1066 rumo aos alvos recifes da Cornualha. Era comandada pelo sétimo duque da Normandia, Guilherme, depois chamado de Conquistador, que iria reivindicar alguns dos seus velhos direitos ao trono da Inglaterra. 
                 Desse  momento em diante, essa nação, que permanecera até então à margem da história, ingressava no grande jogo da política européia, na qual estava predestinada a representar um predominante papel. 
                     Os povos vikings acreditavam que existia a vida depois da morte, devido a isso enterravam seus mortos com mantimentos, uma rica e esplendorosa mobília e jóias diversas. Eram os mais diversos objetos; desde agulha curvada, jarra de bronze, bacias de prata e até Machete de prata com desenhos zoomórficos. 
                  Quando mortos, os chefes vikings eram sepultados armados e estendidos ao centro de seus barcos de guerra que eram queimados, numa espécie de cerimônia de cremação. Partes de algumas dessas sepulturas foram encontradas nas cavidades das das rochas; tapeçarias e engenhos de guerra testemunham, na sua extrema sobriedade, a força e a sensibilidade artística desse bárbaros. O barco de Oseberg encontrado em 1903 sob um montículo funerário norueguês é o barco viking mais antigos= conhecido, aproximadamente do ano 800, é também um dos mais ricamente decorados, com elaborados entalhes na proa e popa. Mede mais de 21,5 m de comprimento e a proa se eleva a quase 5 metros. Botes rápidos e manobráveis com este permitiam aos vikings fazer comércio e incursões em lugares remotos. 
                  A vasta área coberta pelos marinheiros vikings torna-se evidente na descoberta de um tesouro escondido em meados do século IX em Hon, Noruega, que continha 2,5 Kg de ouro, prata e contas preciosas. As moedas são bizantinas, árabes, carolíngias  e anglo-saxônicas. Mais pistas sobre os costumes funerários vikings são proporcionadas por uma pedra do século XI, proveniente de Osla, Suécia, que a esposa e  os filhos erigiram como monumento sobra a tunda de um homem rico. Todos foram objetos saqueados pelos vikings em suas excursões. 

O Império Germânico
             As incursões dos vikings, magiares e sarracenos durante o século IX estremeceram os alicerces do Império Carolíngio, já enfraquecido pelos costume dos francos de dividir a herança. De acordo ao Tratado de Verdum, no ano 843, o império foi dividido entre os três netos de Carlos Magno. A parte ocidental para Carlos II, o calvo; a oriental para Luiz , o Germânico; e a central para o imperador Lotário I, que junto com o título obteve o domínio das cidades imperiais de Aquisgrana e de Roma. 
                Nenhum território do Ocidente cristão permaneceu imune aos ataques do exterior durante os séculos IX e X. Os magiares de sua base na planície húngara, deslocaram-se rapidamente por vastos territórios e os estragos que causaram foram de curta duração. Os sarracenos e vikings estabeleceram bases no oeste e, como consequência, foram uma ameaça mais persistente. os sarracenos finalmente foram expulsos, mas os invasores noruegueses e dinamarqueses se instalaram e conseguiram ser assimilados. Assim ocorreu também com os suecos que se deslocaram até o extremo oriental em busca de riqueza nos territórios eslavos e finlandeses. 
               Enquanto as embarcações islâmicas (embarcação de um só mastro) exploravam os mercados do Oceano Índico, um novo tipo de navegante fazia sua aparição na Europa do Norte: os vikings. Os progressos no desenho de suas naves lhes proporcionaram um novo domínio dos mares que rodeiam o  noroeste da Europa, de que se valeriam tanto para o comércio como para o saque. As embarcações vikings, rápidas e manobráveis, eram impulsionadas por velas ou remos, e tinham pouco calado, o que eliminava a necessidade de portos profundos. Os vikings se estabeleceram como agricultores nas terras estrangeiras, colonizando territórios tão distantes como a Islândia, Groenlândia e Terranova. Também instalaram feitorias na Escandinávia e outras partes do noroeste da Europa. A expansão árabe havia irrompido o comércio mediterrâneo da Europa Meridional no século VII, convertendo a Europa Norte-ocidental em uma unidade comercial independente. Isso deixou os escandinavos , anteriormente isolados do comércio europeu, em boa posição para realizar negócios com os francos, com os árabes através dos rios russos e, pelo Mar Negro, com Bizâncio. 
               A supremacia dos vikings fez dos mosteiros situados no litoral, como Lindisfarne e Iona, objetos fáceis, e não tiveram escrúpulos, por suas crenças pagãos, apar saquear as ricas, mas mal defendidas, igrejas cristãs. No início, ao redor do ano 790 d.C., apareceram mencionados como piratas nas crônicas monásticas. As incursões logo deram lugar à conquista e colonização, e os recém-chegados criaram reinos na Normandia , Inglaterra Oriental e Rússia central. Mas o contato com os ricos Estados da Europa Ocidental deu lugar a uma represália sutil: os missionários cristãos, inteligentemente, começaram a converter os vikings pagãos á fé cristã. Nos séculos X e XII, os reinos vikings foram reconquistados e absorvidos pelos reis locais da Bretanha e Irlanda. Até fins do século XI, os reinos vikings cristãos haviam se estabelecido na própria Escandinávia e a grande era das incursões vikings havia terminado. 
             Apesar de os vikings terem se destacado pelas suas incursões selvagens, seus resultados econômicos foram substanciais. Incentivaram o comércio e a indústria, revitalizaram os centros urbanos em decadência da Europa Ocidental e Setentrional e fundaram novas comunidades urbanas em partes tão remotas como a Rússia e a Irlanda, incluindo algumas como Dublim e Kiev, florescentes até hoje. 
               As terras ocidentais dos francos,que haviam estado dentro do Império Romano e nos quais era falada uma língua romance derivada do latim, se tornaram a base da França moderna. Nas terras orientais, a maioria recentemente conquistadas pelos carolíngios aos povos germânicos, era falado o alemão; estas terras seguiram outro rumo, formando um país completamente distinto: a Alemanha. A parte central do reino carolíngio, que se estendia desde os Países Baixos até a Itália, manteve-se, de início, como um reino separado. Porém, as dificuldades de comunicação, junto com a barreira natural dos Alpes,  tornaram praticamente impossível sua manutenção e começou a desmoronar-se rapidamente diante das ambições dos seus vizinhos mais poderosos do leste e do oeste. Contudo, sobreviveu como um traço permanente e curioso da geografia política da Europa, refletida hoje numa série de pequenos Estados: Holanda, Bélgica, Luxemburgo e Suíça, sem mencionar os disputados territórios de Alsácia e Lorena. 
             A Alemanha foi o primeiro país que se recuperou do retrocesso da idade obscura dos séculos IX e X. O momento decisivo foi a ascensão de Oto I no ano 936. Designado como sucessor pelo seu pai. Henrique I, recebeu o trono em Aquisgrana dos grandes feudatários laicos, ungido e coroado pelos arcebispos. Com a grande vitória sobre os magiares do Rio Lech, no ano 955. Oto I controlou os poderosos ducados da Alemanha reafirmando dramaticamente o prestígio da monarquia. Pouco tempo depois, Oto pode consolidar sua posição quando cruzou os Alpes para ser coroado imperador pelo para de Roma. No fim do século, o Império Otônida era reconhecido como a máxima autoridade a oeste do Adriático e disputava o mesmo status que Bizâncio no leste. 
                Um elemento decisivo dessa história de êxitos foi o princípio de herança indivisível estabelecido pleos reis otônidas. Dessa forma, podiam transferir o império a seus sucessores, em uma longa dinastia, ajudados pelo controle sobre as igrejas e o bispados e pelas constantes visitas aos seus territórios. No século XII era inimaginável uma divisão do império. Houve épocas em que os potentados italianos, que influenciavam na designação dos imperadores no começo do século X, resistiam à pressão que os soberanos do norte exerciam sobre eles. Porém, em meados do século XI, aceitaram a prática assimilando a soberania dos reis alemães sobre o norte da Itália, da mesma forma que na época de Carlos Magno.  Assim, a Alemanha e Itália, mais tarde unidas à Borgonha, ficaram juntas sob o controle de um único soberano por quase 300 anos, o imperador.
               Da mesma forma que o Império Carolíngio, a autoridade otônida estava intimamente ligada com a Igreja Cristã. O surgimento de grandes ducados alemães, que o imperador dificilmente podia dominar, limitou o poder imperial, especialmente quando da transferência das suas terras para seus herdeiros, os duques fundaram poderosas dinastias nobres. Mesmo assim, os bispos podiam ter herdeiros legítimos e, portanto, podiam receber bens e poderes, que voltariam automaticamente, depois da morte, para a coroa. Mas ainda, durante o século X e grande parte do século XI, o mesmo imperador era quem designava os bispos alemães, outorgando-lhes suas terras; assim, os bispados se tornaram rapidamente a recompensa esperada de servidores leais. A força da Alemanha otônida, o poder e a riqueza do bispado alemão se refletem nas grandes igrejas e catedrais românticas. Algumas dessas foram reconstruídas séculos depois, sendo que em outras, como Speyer, Hildenstein  e Santa Maria de Laah, ainda podemos admirar a grandeza do desenho romântico original. 




PARA LER DESDE O INÍCIO 
clique no link abaixo