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sábado, 2 de maio de 2020

OS HEBREUS NA PALESTINA - DIÁSPORA JUDAICA



                O Hebreus dominavam Canaã, uma vasta área verdejante do vale do Jordão e das colinas prometidas pelo Senhor Moisés. Naquela região já viviam povos adultos e fortes, com os Moabitas, os Filisteus, os Edomitas e os Cananeus; todos esses povos tinham afinidades com Israel pela língua e pela raça, mas disputavam aos recém-chegados o terreno palmo a palmo. 
                 Moisés relembrava a antiga história de sua raça, desde quando, mil anos atrás, Abraão chegara à quela suave região, vindo de sua distante Ur, na Caldeia. Pensava nos primeiros dias, no florescer das nômades tribos de Israel, em sua imigração para o Egito, nos longos séculos de vida sob o domínio dos faraós. 
            Conta a história que finalmente reviu todos os lugares que ele percorrera à frente de seu povo, guiando-o ruo à terra de seus avós, a longa sede no amarelo deserto de Horebe, na fulgurante aparição do Senhor, entre os nimbos do Monte Sinai. Agora, a terra prometida estava ali, diante dele, e a mão do Patriarca moribundo erguia-se abençoando o povo eleito e o verde país que Deus lhes destinara. 
               Naquela época, entre 1500 e 100 a.C., os Hebreus eram governados por Juízes, isto é, Sacerdotes - Guerreiros, nomeados pelo povo, mas, para opor uma forte pressão à resistência dos adversários, era necessário um chefe verdadeiro, e eles o elegeram na m pessoa de Saul, seu primeiro rei. Por ele e pelo seu sucessor, Davi, foi levada a termo a conquista da palestina e, em Jerusalém, as tábuas da lei, supremo tesouro da nação hebraica, encontraram afinal, uma sede estável. povo nômade por excelência, os Hebreus nunca se haviam dedicado ás artes ou à arquitetura e, assim, quando salomão, filho de Davi, quis engrandecer sua cidade e edificar um templo para a glória desse Deus, precisou chamar operários e artistas fenícios, sírios e babilônios, mas, infelizmente, eles estavam rodeados de vizinhos poderosíssimos, para que pudessem conservar longamente a paz e a independência. Primeiro o Assírios, comandados por Sargão I, depois os Babilônios de Nabucodonosor romperam a propriedade de Israel. Deportados para as margens do Eufrates, os Judeus choraram as ruínas de Jerusalém e do templo. Passou, também, o domínio babilônio, ofuscou-se o poderio dos Persas e dos Selêucidas, que também haviam escravizado o pequeno reino de Judá. Em 65 a.C., as águias de ouro das legiões de Emílio Scauro, procônsul romano na Galileia, profanavam as sagradas muralhas de Jerusalém. Mas o espírito de liberdade custava para morrer entre aquele povo, que sentia profundamente sua superioridade intelectual sobre os rudes invasores. O exemplo de Judas Macabeu, que soubera expulsar os Selêucidas, animou os Hebreus, que se rebelaram contra os Romanos, massacrando-lhes as guarnições. A reação dos conquistadores foi rápida e decisiva; as tropas de Flávio Vespasiano e de seu filho Tito varreram os rebeldes da palestina, sitiaram Jerusalém  e, após uma luta sangrenta, destruíram-na. Entre o sangue e as chamas dos incêndios, tombava para sempre a grandeza de Israel, e aos descendentes de Abraão, Isaac e Jacó restavam somente os olhos para chorar, diante das ruínas do templo, a ruína de sua raça. 
                Mas a herança espiritual do judaísmo não se extinguiu, com seu poderio político. Dispersos por todos os recantos do globo, humilhados e perseguidos, os Judeus souberam conservar intacto o mais alto patrimônio da raça,aquela lei divina que estava em seus corações e que ninguém poderia ferir ou destruir. 
Rememorando fatos importantes
O templo de salomão, um dos maiores e grandiosos edifícios do mundo antigo, foi construído no ano 900 a.C. e destruído, pela primeira vez, pelos Babilônios, no ano 586 a.C. Reconstruído, foi novamente arrasado pelos Romanos  no ano 70 a.C. 
A grande emigração dos Hebreus do Egito para a Palestina foi um fato fundamental para essa raça que vivia sob um cruel sistema de escravidão, e ocorreu cerca de mil anos a.C.  
A História nos conta que na Arca estão guardados os rolos da Lei.
 A tomada de Jericó foi um dos episódios mais importantes da conquista da Palestina. 
 O Profeta Jeremias reza sobre seu povo prosternado, em Babilônia, invocando o fim m do exílio, exortando todos os judeus a confiarem em deus Nosso Senhor, o único que poderia salvar Israel dos invasores. 
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               O que mais motivou a expulsão dos Hebreus do Egito foi, sem dúvida, o fato deles serem uma raça que se multiplicava rapidamente e ao mesmo tempo se tornavam mais ricos, poderosos e unidos. esses fatos foram fatores que amedrontaram os Egípcios, e por isso, principiaram a maltratá-los, impondo-lhes fortes taxas e obrigando-os a trabalhar como escravos nas pedreiras e nas construções de pirâmides (túmulos); ai tinham de suportar as mais penosas fadigas, sempre sobre uma dura vigilância cruel dos soldados que  não lhes davam um instante de descanso. Mas, apesar de todas as perseguições, o número de Hebreus continuou a crescer. Isso levou ao Faraó a emanar um edito que dizia: "Todos os filhos varões nascidos de mulheres hebreias deverão morrer". Com prantos e preces o coração dos Hebrus ergueram-se para Deus implorando pela salvação de seu povo. E, segundo a lenda, foi assim que uma mulher da tribo de Levi teve um filho de extraordinária beleza, que conseguiu manter oculto durante três meses, mas, depois, com o pensamento em que o faraó pudesse descobrir a criança, colocou-a num cesto de vime e depositou-a entre os caniços, às margens do rio Nilo, justamente no local onde a filha do faraó costumava tomar banho. A princesa, ao ver o belíssimo menino,enterneceu-se dizendo: - "Este é certamente, um pequeno hebreu condenado a morrer". Então retirou-o da água sem saber o que deveria fazer. Ocorreu, porém, que a irmã da criança, que se ocultara nas vizinhanças, ofereceu-se para ir procurar alguma mulher que pudesse criar o menino e o devolvesse, logo que estivesse mais desenvolvido, á princesa. Com esta atitude, com a qual a princesa concordou, a criança pode voltar a viver com a própria mãe. Depois de três anos o menino foi levado á princesa que o adotou como filho dando-lhe o nome de Moisés, que quer dizer "salvo das águas". Em seguida, fê-lo educar-se na corte do faraó, como se fora um príncipe de sangue real. 
                 Mais de quarenta nos se passara quando Moisés estava vistoriando as obras quando viu um soldado egípcio bater cruelmente num Hebreu. Isso acirrou sua cólera e atirou-se contra o agressor matando-o ali mesmo. Como tratava-se de um crime Moisés fugiu e foi viver junto a um pastor  de ovelhas na Arábia, onde permaneceu vários anos e, talvez até já tivesse esquecido seu verdadeiro povo.  Certo dia, porém, ao apascentar seu rebanho nas proximidades do monte Horebe, viu uma fogueira, que ardia sem consumir-se. Curioso, já ia aproximar-se, mas, segundo a lenda bíblica, foi detido por uma voz que lhe disse: -"Não te aproximes Moisés, porque a terra que tu pisas é sagrada!" E a voz continuou dizendo: -"Eu sou o Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó. Os lamentos de meu povo, escravizado no Egito comoveram-me. É chegado o tempo em que eu o libertarei e lhe darei uma terra grande e fecunda: a terra de Canaã. Tu guiarás meu povo e serás seu chefe. Vá, pois ao Faraó e dize-lhe que liberte os Hebreus!" E assim, Moisés ficou responsável pela libertação do povo. Dirigiu-se ao faraó e disse-lhe: "- O Deus de Israel ordena-te, pela minha boca, que deixes livre o povo hebreu, para que possa alcançar a terra que Ele lhe destinou, que fica além do deserto! 
               - "E quem é esse deus de quem me falas, para que eu deva obedecer-lhe as ordens? Eu não o conheço e não libertarei te povo! - respondeu o Faraó, indignado e temeroso, só em pensar que poderia perder os Hebreus, que executavam os serviços mais duros e pesados em todo o Egito. E obstinou-se nessa recusa todas as vezes que Moisés e Aarão, por ordem de deus, foram procurá-lo. 
               Segundo a lenda, deus, então, enviou terríveis castigos a todo o povo egípcio: as águas do Nilo transformaram-se em sangue; o país foi invadido por enormes rãs; nuvens de moscas e de ainda mais fastiosos insetos atormentaram homens e animais; o gado morreu quase todo, vítimas de terrível epidemia; uma nuvem cinza, caindo sobre as pessoas, deixava-as repletas de chagas; uma espantosa chuva de pedra, misturada com fogo, matou todos os homens e os animais que encontrou pelos campos; miríades de gafanhotos devoraram, em seguida, tudo quanto sobrara da colheita, e as trevas da noite duraram três dias inteiros. Enfim, insistindo o faraó em seus propósitos insanos, todos os primogênitos dos Egípcios morreram numa única noite. destes flagelos, chamados "as pragas do Egito", ficaram isentos somente os Hebreus, suas casas, seus campos e seus rebanhos. 
                  Na mesma noite em que pereceram os primogênito dos Egípcios, todos os Hebreus, por ordem de Moisés, assaram um cordeiro e comeram-no com pão ázimo (isto é, sem fermento) e alfaces selvagens, permanecendo de pé em redor das mesas, vestidos com trajes de viagem e cajado na mão. Assim, conta a lenda, os Hebreus prepararam-se para a retirada e, em seguida, lembraram-se sempre desta última cena em terras do Egito, com a solenidade da Páscoa, repetindo, todos os anos, aquela cena, com o mesmo ritual. 

                 Há mais de 2.000 anos a história dos Judeus tem associado a dispersão externa à coesão interna. Desde a destruição do primeiro Templo e o exílio na babilônia, em 586 a.C., a Judeia foi absorvida por uma sucessão de impérios poderosos: babilônico,persa, ptolomaico, selêucida, romano, bizantino e finalmente os impérios islâmicos, culminando com os dos turcos otomanos. Mas a dispersão decisiva dos Judeus ocorreu no Império Romano. Após uma crescente tensão religiosa, política e nacionalista, a primeira " Revolta dos Judeus" ocorrida entre os anos 66 a 73 d.C. quando rompeu o poder Romano na Palestina, mas logo perdeu força. As legiões romanas capturaram Jerusalém em 70 d.C. e destruíram o templo. Três anos depois, após longo cerco, caiu Massada, o último baluarte dos fanáticos, às margens do mar Morto. Mas a segunda grande "Revolta dos Judeus ocorreu entre 1342 e 135 d.C., liderada por Bar Kokhba, causou danos maiores á estrutura da vida judaica na palestina. 
              As revoltas reprimidas com dureza, além das medidas de Adriano para "desjudaizar" Jerusalém após o ano 135 d.C., deterioraram a posição dos judeus na Judeia. Mas no restante do mundo romano o status legal e econômico e a viabilidade das comunidades permaneceram incólumes, estimulando a migração da Palestina (onde os judeus não eram maioria desde o século II e outros judaicos do Oriente, Mesopotâmia e Alexandria, em direção às costas oeste e norte do Mediterrâneo. 
              A capacidade de recuperação do judaísmo depois de duas grandes derrotas infligidas pelos romanos pode ser atribuída à evolução da religião judaica após a destruição do primeiro templo em 586 a.C. e ao surgimento de uma fé descentralizada baseada na sinagoga e na oração comunitária. De um lado, com as sinagogas surgem novos líderes locais, os rabinos. De outro, a religião e a lei civil judaica foram codificadas, primeiro com o Mishnah, compilado perto de 200 d.C., e depois, na Palestina e babilônia, por meio do Talmude, resultando de discussões sistematizadas. As duas obras são hoje a base da religião e da vida comunitária judaicas. 
           As comunidades judaicas desenvolveram-se pelo oeste e norte do Império Romano.  Uma comunidade judaica surgiu no século II a.C. em Roma e, no século I d.C., estavam estabelecidas em diversas partes da Itália (Nápoles era a mais importante). A presença dos judeus na Espanha remonta ao século III; ao norte, instalaram-se em Colônia pelo menos a partir do século IV. 
             A mudança no centro de gravidade do mundo judeu do Oriente para o Ocidente foi um processo longo. Culminou na Alta Idade Média, quando os judeus do Oriente Próximo e África do Norte se fixaram no sul da Itália, Espanha, França e Alemanha. Na Espanha, a época de ouro dos judeus começou com o primeiro califa Omíada de Córdoba, Abd al Rahaman III, no período de 912 a 961, e continuou no governo cristão até os tumultos anti-semitas de 1391. Acredita-se que a vida judaica tenha se mantido nas margens do Reno após a queda do Império Romano no Ocidente. A comunidade adquiriu proporções significativas por volta do século X. 
              Apesar do massacre na Primeira cruzada, nos anos 1090, os séculos XI e XII foram a época de ouro dos judeus alemães no período medieval. Mas a crescente presença judaica no Ocidente gerou reações. O papel econômico das comunidades declinou e, após o Terceiro e Quanto Concílios de Latrão, de 1179 e 2015, a Igreja Latina intensificou a hostilidade ao judaísmo. Lembrando que Jesus era Judeu. 
               Várias expulsões da Europa Ocidental começaram na Inglaterra em 1920, embora o povo judeu fosse então bem reduzido. Um golpe mais contundente foi a expulsão da França em 1394. Massacres e perseguições periódicas na Alemanha levaram a uma migração palestina de judeus alemães (asquenazitas) do vale do reno para o leste, estabelecendo as bases do  povo judeu moderno da Europa central e Oriental. Praga se tornou um centro judaico importante no século XI e recebeu imigrantes do oeste e sul da Alemanha no século XIII. No século XIV, Viena era o principal centro judaico em terras alemães. Comunidades judaicas surgiram em Cracóvia Kalisz e outras cidades no oeste e sul da Polônia no século XIII e, mais a leste, em Lvov, Brest-Litovsk e Grodno, no século XIV. O período de imigração mais intensa do Ocidente para a Polônia e Lituânia ocorreu do final do século XV e ao longo do século XVI. 
             Essas manifestações, aliadas aos pogroms (violentos ataques) na Espanha em 1391, foram seguidas pelo estabelecimento da Inquisição para enfrentar o criptojudaísmo na Espanha. A expulsão geral dos judeus da Espanha em 1492, Portugal em 1497 e Provença em 1498, mudaram definitivamente o  peso da balança de oeste para leste. 
               No fim do século XV e início do século XVI, houve expulsão das cidades livres da Alemanha Imperial, como Nurembergue em 1499, Ulm em 1499 e Regensburg em 1519 e também dos principados luteranos como a Saxônia em 1537, Brunswick e Hannover em 1533. A maioria dos exilados vindos da Alemanha se fixou na Polônia e Lituânia. Os judeus espanhóis e portugueses expulsos (sefarditas) foram para o Império Otomano 3e norte da África. No fim do século XVI, alguns migraram para Roma, Veneza, Livorno e outras áreas do norte da Itália. 
                As comunidades judaicas polonesas, lituanas e otomanas floresceram no século XVI e início do século XVII. Mais tarde, as condições se deterioraram na Polônia e Turquia. Após a deflagração da "Guerra dos 30 Anos" entre 1618 e 1648, judeus do centro-oriental e leste da Europa, assim como do Oriente Próximo, se fixaram em áreas da Europa Ocidental, com a permissão das cidades comerciais e de governantes principescos. 
               Comunidades surgiram no Ocidente e principalmente no norte da Itália, Alemanha, Holanda e, a partir de 1650, na Inglaterra e colônias britânicas no Novo Mundo (no Caribe e depois na América do Norte). Pequenos grupos migraram da Alemanha para a Dinamarca e Suécia. Nas cidades da Europa Central, como Viena, Berlim, Hamburgo e Budapeste, as comunidades judaicas cresceram nos séculos XVIII e XIX, como resultado da imigração de países situados a leste, especialmente a Polônia.
               Nos séculos XVII e XVIII, algumas comunidades judaicas maiores, mais ricas e culturalmente mais sofisticadas existiam em Amsterdã, Hamburgo, Frankfurt, Livorno, Veneza e Roma, seguidas por Berlim e Londres. Amsterdã, com comunidades "sefarditas" (refere-se à Península Ibérica) e "asquenazitas" (Europa Central) importantes, era um dos principais centros judaicos do Ocidente, especialmente nas áreas de comércio, finanças, publicação de livros. A população sefardita de Amsterdã chegou a 3.000 habitantes (1,5% da população da cidade) no fim do século XVII. A população asquenazita superou a sefardita antes do ano 17600 e chegou a ser cinco vezes maior no final do século 18, quando as duas comunidades somavam 10% (20 mil habitantes) da população da cidade.  
                Mas até 1940, o maior segmento do povo judeu continuou a residir no Leste Europeu, com concentração no leste da Polônia, que por fim se tornou a faixa ocidental do Império Soviético. Apenas populações judaicas muito pequenas existiram na Hungria e Romênia em 1700, embora tenham crescido rapidamente nos séculos XVII e XIX pela imigração da Polônia e do território Tcheco. Sob os governos dos czares, a maioria das populações judaicas do Império Russo estava confinada nas áreas a oeste (de povoamento judaico limitado), antigas partes da Polônia, Lituânia e Ucrânia. Os judeus só podiam se estabelecer na Rússia propriamente dita com permissão especial. 
                 A preponderância demográfica dos judeus no Leste Europeu teve fim com a ocupação nazista e o holocausto: na Polônia, ex-Checoslováquia e e áreas onde o assentamento judaico era permitido, a vida das comunidades foi, em grande parte, destruída. Populações judaicas importantes sobreviveram apenas no interior da ex-União Soviética, Romênia e Hungria. 
Os livros dos Judeus
               Mesmo com todo o tumulto da época, os judeus mantinham o seu tradicional amor pelas letras, e o papel que representaram na literatura da época foi grande. A esse período pertencem as mais primorosas partes da Bíblia. Em fins do século III um poeta judeu (ou talvez poetiza) compôs o divino Cântico dos Cânticos; ali encontramos toda a arte do verso grego, desde Safo até Teócrito, enriquecida por algo impossível de ser encontrado em nenhum autor grego dos tempos - uma intensidade de imaginação, uma profundeza de sentimento e uma devoção idealística bastante forte para exaltar em amor tanto o corpo como a alma, e para transformar a própria carne em espírito. Os judeus helenísticos, parte em Jerusalém, parte nas outras cidades do Mediterrâneo Oriental e em maior número em Alexandria, escreveram - em hebraico, aramaico ou grego - obras primas como o Eclesiastes, p Livro de Daniel, parte dos Provérbios e Salmos e a maior porção da Apócrifa. Escreveram histórias como as Crônicas, novelas como Ester e Judite e idílios de família como o Livro de Tobit. Os Soferim modificaram a escrita hebraica dos velhos assírios, transformando-a no estilo sírio até hoje conservado. Como a maior parte dos judeus do Oriente Próximo falavam naquela época mais o aramaico do que o hebraico, os eruditos explicavam as escrituras em breves targuns aramaicos, ou interpretações. Abriram-se escolas para o estudo do Torá, ou Lei, e para a explicação do código moral à adolescência; tais explicações e  comentários, passados do professor para o aluno através de gerações, iriam formar, em época posterior, a maior parte do Talmude. 
               Em fins do século III os letrados da Grande Assembléia haviam completado a publicação da antiga literatura e terminado o cânon do Velho Testamento; a seu ver a era dos profetas estava finda e com ela a correspondente inspiração. O resultado é que muitas obras desse tempo, repleta de sabedoria e beleza, perderam a coima da inspiração divina e caíram na infeliz categoria de Apócrifa. (O Velho Testamento Apócrifo, literalmente oculto, são os livros excluídos do cânon judeu do Velho testamento como não sendo de inspiração divina, mas que foram incluídos na Vulgata Católica Romana).Os dois livros de Esdras talvez devam algo de sua superioridade literária aos tradutores do rei Jaime; mas dificilmente poderemos atribuir-lhes o tocante relato de como Esdras pediu ao anjo Uriel que lhe explicasse por que os maus prosperavam, os bons sofriam e Israel padecia na escravidão; ao que respondeu o anjo, em vigorosa imagem, não ser dado à parte compreender ou julgar o todo. 
                  O prólogo do Eclesiástico o dá como tradução grega, terminada em 132, dos discursos escritos em hebraico duas gerações antes, pelo avô do tradutor, Jesus, filho de Sirac. Esse "Joshua ben Sirac" fora tanto erudito como homem de negócios; depois de ver muita coisa pelo mundo, em viagens, decidiu transformar sua casa em escola; e a seus discípulos deixou esses ensaios sobre a sabedoria da vida. Joshua denuncia os judeus ricos que abandonaram sua crença para melhor figurarem no mundo gentio; adverte os moços contra as cortesãs que por toda a parte os assediam; e indica a Lei como sendo ainda o melhor guia para evitar os males e abismos do mundo. Não é, contudo, puritano. Ao contrário dos Chassidins, não condena o prazer inofensivo; e protesta contra os místicos que rejeitas a medicina alegando que todas as moléstias tendido vindo de deus, só por deus deverão ser curadas. O livro é fértil em epigramas, dos quais o mais conhecido é o da vara e dos meninos. "O numero de surras aplicadas  por sua mãe conta", diz Renan, "deve ser incalculável. É nobre livro, mais sábio e bondoso que o Eclesiastes.
                No capítulo vinte e quatro do Eclesiástico lemos que "A sabedoria é o primeiro produto de Deus, criada no início do mundo". Aqui e no primeiro capítulo dos Provérbios encontram-se as primeiras formas da doutrina dos Logos - o Saber como um "demiurgo", ou criador intermediário, incumbido por deus de traçar o mundo. Essa hipostatização (realidade abstrata) do saber como inteligência personificada torna-se a ideia dominante da teologia judaica nos últimos séculos anteriores a Cristo. A seu lado crescia rapidamente a concepção da imortalidade pessoal. No Livro de Enoc,aparentemente escrito por vários autores, entre os anos 170 e 66 a.C., na Palestina, a esperança do céu se torna necessidade vital; o êxito da perversidade e o infortúnio de um povo piedoso e leal não podiam ser suportados senão à força de esperança; sem ela a vida e a história pareceriam obra mais de Satã que de Deus. Um Messias viria estabelecer na terra o reino dos Céus e premiaria os virtuosos com a eterna felicidade depois da morte. (As pessoas parecem estar presas na Idade Média, e continuam vivendo de esperanças como na velha Palestina). 
                  No Livro de Daniel todo o terror da era de antíoco IV encontra eco. Por volta de 166, quando os fiéis estavam sendo perseguidos com furor, e inimigos ainda maiores ameaçavam o grupo macabeano, um dos chassidins (provavelmente) decidiu reacender a coragem do povo com a descrição dos sofrimentos e profecias de Daniel no reinado de Nabucodonosor, na Babilônia. Cópias do livro circularam secretamente entre os judeus; foi considerado como obra de um profeta que vivera 370 anos antes, suportara torturas maiores que as infligidas por Antíoco, seria vitorioso e preconizara triunfo id~entico para sua raça.  E mesmo que os virtuosos e fiéis não encontrassem prêmio aqui, teriam a recompensa no Julgamento Final, quando o "Senhor" os acolhesse no céu, onde a felicidade é eterna, e lançasse às torturas do inferno os que os haviam perseguido. 
                 Em resumo, o resto dos escritos judaicos desse período pode ser classificado como mística ou imaginativa literatura de instrução, edificação e consolação. Para os Judeus de períodos anteriores a vida na terra fora o bastante, e a religião não constituía uma fuga do mundo, e sim uma dramatização da moral pela poesia da fé; um Deus poderoso, a ver e governar todas as coisas, recompensaria a virtude e puniria o vício na terra. O Cativeiro abalara essa crença, a restauração do templo a renovara; mas tudo ruiu aos golpes de Antíoco. O pessimismo passou a agir em campo aberto; e nos escritos gregos os judeus encontravam as mais eloquentes exposições das injustiças e tragédias da vida. Entrementes, o contato dos judeus com as ideias persas de céu e inferno, da luta entre o bem e o mal e do triunfo final do bem, proporcionou uma válvula para a filosofia do desespero; e talvez a concepção da imortalidade com que o Egito inoculara Alexandria, bem como as ideias que alimentavam os mistérios da Grécia, tenham cooperado para inspirar aos judeus dos períodos grego e romano essa consoladora esperança que os sustentou através de todas as vicissitudes do seu templo e do deu estado. Desse judeus e dos egípcios, persas e gregos, a concepção da recompensa e do castigo eternos iria fluir para uma nova fé ainda mais forte, e auxiliá-la a vencer um mundo em desintegração. 
              
            


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quinta-feira, 23 de abril de 2020

A CIVILIZAÇÃO NA EURÁSIA



                As primeiras civilizações surgiram nas férteis áreas, em alguns pontos espalhados pelas bacias desabitadas ou esparsamente habitadas dos principais rio da Eurásia, que desciam dos contrafortes montanhosos , onde a agricultura começou para irrigar as planícies áridas do Oriente Próximo. Sociedades complexas surgiram da necessidade de organização para controlar populações sustentadas por sistemas agrícolas das baixadas férteis. 
                 À medida que as comunidades agrícolas se estendiam das colinas para as planícies aluviais, desenvolveram-se sociedades hierarquicamente  semelhantes nas bacias dos rios Tigre-Eufrates, Nilo, Amarelo e Indus. A primeira foi a da Mesopotâmia , por volta de 3500 a.C., com influência já identificada no Egito primitivo, tendo instituído a civilização urbana em 3200 a.C.. Talvez tenha inspirado indiretamente  a civilização de Harappa no vale do rio Indus, em 2.500 a.C. 
            Essas sociedades possuíam características comuns: o desenvolvimento de cidades, a escrita, grandes edifícios públicos, além do aparato político do Estado. Em conjunto a revolução urbana levou à civilização. Os excedentes agrícolas obtidos com irrigação permitiram a urbanização porque já era possível empregar um significativo segmento da sociedade em atividades não agrícolas, como manufatura e comércio. Isso originou uma classe governante que enriqueceu com a exploração do trabalho, cobrando impostos e exercendo o controle político, militar e religioso. O governante geralmente era o sacerdote chefe ou tinha o apoio do clero. O templo era o centro e elemento importante do  sistema político. O controle centralizado fomentou um sistema legal especializado. Exército e burocracia permanentes e a divisão da sociedade em classes diferentes. O Estado mantinha  escribas, geralmente treinados e empregados nos templos. A primeira escrita foi usada na administração para acompanhar mercadorias, salários e impostos, desenvolvendo-se depois para registrar e enviar mensagens. 
                  Edifícios públicos monumentais reforçavam a autoridade do estado que detinha o controle do comércio de longa distância. Mercadorias raras e valiosas (metal, madeiras e gemas) eram sempre solicitadas e expedições comerciais eram enviadas para consegui-las. Artigos de luxo e matérias-primas importadas eram trocadas por têxteis e outros produtos manufaturados das cidades-estado civilizadas. esta atividade comercial levou à comunicação entre cidades das planícies aluviais e os centros menores dos vales ribeirinhos de regiões circunvizinhas, onde processos de urbanização ocorriam em escala menor. É difícil separar causa e efeito nesta rede de centros comerciais em expansão que formava um grande arco do Mediterrâneo Oriental ao vale do Indus. Apenas a civilização chinesa se desenvolveu relativamente isolada, protegida pelo Himalaia e a selva do Sudeste Asiático, interagindo principalmente com as comunidades de camponeses vizinhas, algumas praticando técnicas avançadas de trabalho em bronze. 
              No norte e oeste da Europa, embora o trabalho em cobre e bronze fosse praticado somente nas vilas, a população era muito pequena e dispersa para necessitar de organização elaborada. Mas há provas de ligações comerciais acompanhando os principais sistemas fluviais e a costa, indicando a importância das embarcações e da pesca. Mas a riqueza  da comunidade não era armazenada comunalmente e não havia organização semelhante a dos centros fortificados do Oriente Próximo. 
                  Nas estepes, o cavalo e a carroça deram origem a um sistema de vida móvel de pastores nômades. ao mesmo tempo, grupos de agricultores camponeses continuavam a marcha para leste acompanhando o cinturão de florestas da Rússia Central, penetrando a região ao sul dos montes Urais em 2.000 a.C. . Este movimento ao longo da floresta e da estepe inaugurou uma das principais rotas entre China e noroeste da Eurásia no fim do 2º milênio a.C.
               O contraste entre as principais civilizações e seus vizinhos (pastores nômades do norte, grupos de camponeses das florestas da Europa e da selva da Indochina) estava na centralização das economias. Como as mercadorias eram arrecadadas e distribuídas, era preciso manter um registro permanente . O desenvolvimento de sistemas de escrita é característico das primeiras sociedades urbanas e os primeiros registros escritos geralmente não eram mais do que listas do que estava guardado nos depósitos. Mas, uma vez inventado um sistema flexível de escrita, ele foi utilizado para registrar mitos, lendas e poesia, além de transações comerciais. 
              Em cada região a escrita primitiva foi pictográfica ou, mais precisamente, ideográfica, com sinais para palavras individuais ou conceitos. Logo isto se tornou incômodo e eventualmente símbolos foram utilizados para sons ao invés de ideias. As imagens adquiriram formas e significados mais arbitrários. Um sistema bem-sucedido foi desenvolvido na Mesopotâmia, onde o estilo terminado em forma retangular foi utilizado para escrever impressões em forma de cunha (cuneiforme) em placas de barro. As primeiras inscrições encontradas em Warka (antiga Uruk), no sul da Mesopotâmia, eram ideográficas e não fonéticas e, embora não se tenha muita certeza da linguagem na qual foram escritas, algumas características sugerem ser da Suméria. Mais tarde esta escrita foi adaptada para escrever outras línguas: acadiano antigo, eblaíta, amorita, babilônio, assírio, elamita, hurrita e hitita, línguas semitas e indo-européias, entre outras. 
             Os pictogramas chineses provavelmente foram uma invenção independente, mas a escrita da Mesopotâmia pode ter inspirado a usada pelas civilizações do Indus. Os hieroglifos egípcios (entalhes sagrados) talvez se inspiraram na Mesopotâmia, mas desenvolveram uma tradição própria e devem ter influenciado os centros palacianos de Creta a desenvolver as escritas Linear A e Linear B. 
             A inventibilidade dos escribas evidencia-se na criação de um sistema alfabético no início do 2º milênio a.C., que utilizou sinais hieroglíficos egípcios não para representar palavras, mas para indicar o sol da letra inicial da palavra em canaanita. Este alfabeto evoluiu para a escrita semita do Oriente Próximo (fenício, aramaico, hebreu e arábico) e foi passado anos romanos pelos gregos, até formar a base da maioria das escritas modernas européias. 
             Embora a América, a Austrália e a África ao sul do Saara ainda estivessem fora do curso principal da história mundial, onde permaneceriam durante outros mil anos, as civilizações da Europa e da Ásia (Eurásia) formavam, naquela época, um cinturão contínuo . Até 100 d.C., quando a era clássica se encontrava em seu apogeu, uma cadeia de impérios estendia-se de Roma, que abrangia toda a bacia do Mediterrâneo, através da Pátria e do Império Kushan até a China, constituindo um zona ininterrupta de vida civilizada, do Atlântico aso Pacífico. 
                Este foi o fato novo e importante na história do mundo eurasiano. A área de civilização manteve-se limitada e exposta a implacáveis pressões bárbaras e os progressos nas diferentes regiões permaneceram amplamente autônomos; com a expansão das importantes civilizações e a eliminação das lacunas geográficas existentes entre elas, porém, o caminho estava aberto para contatos inter-regionais e intercâmbios culturais que deixaram uma marca duradoura. No oeste,a expansão do helenismo criou uma única área cultural que se estendeu, durante algum tempo, das fronteiras da Índia à Grã-Bretanha; no leste , a expansão das civilizações chinesas e indiana resultou em uma espécie de simbiose cultural, na Indochina. Essas áreas culturais mais amplas proporcionaram um veículo não apenas para o comércio, mas também para a transmissão de ideias, tecnologia e instituições e, acima de tudo, para a difusão das grandes  religiões do mundo. Começando com o budismo, e continuando depois com o judaísmo, zoroastrismo, cristianismo e islamismo, a religião tornou-se um elo unificador poderoso no mundo eurasiano, com consequências políticas culturais e religiosas. 

As ligações comerciais, culturais e Religiosas na Eurásia
    Poucas pessoas no Oriente Próximo ou na Europa sabiam algo sobre o leste da Ásia até o surgimento da Pérsia Aquemênida no século VI a.C. A própria China era quase desconhecida até pouco antes da era cristã. Mas, embora quase não existissem provas de encontros  nos primeiros séculos, está claro que houve influências e apropriações importantes. O bronze já dava lugar ao ferro no Ocidente quando apareceu pela primeira vez na China, mas uma excelência técnica sem igual foi logos atingida nos reinos de Shang e Chou, ao longo do rio Huang (Amarelo).  A mariposa da seda é originária de Assam e bengala, mas foi primeiro no norte da China que as pessoas aprenderam a desembaraçar um fio único e inteiro a partir de seus casulo. O jade, o mais apreciado material usado pelos entalhadores chineses veio da extremidade oeste da árida e perigosa bacia do Tarim; as sementes de trigo originaram-se do extremo oeste; búfalo e aves domésticas, do sudeste da Ásia; o cultivo do arroz irrigado era comum no leste e sudeste da Ásia; as conchas de cauri, a primeira moeda chinesa, provavelmente vieram das ilhas Maldivas. Tudo isso deve ter sido introduzido por nômades e mercadores itinerantes, além das fronteiras da China.    
            O contato econômico e cultural entre os extremos do mundo antigo atingiu o apogeu no século 2 d.C.. Roma e China Han nunca tiveram relações diplomáticas formais. mas bens de luxo circulavam livremente, especialmente do Oriente para o ocidente, e mercadorias caras e não volumosas como seda e especiarias podiam ser transportadas em caravanas ou navios. Em troca, ouro e prata, a maioria em forma de moedas, eram movimentados em grandes quantidades por terra e mar. Entre as fronteiras dessas grandes civilizações, o Império Kushan do Afeganistão e do norte da Índia e o Império Parto da Pérsia fomentaram o comércio, mantendo e fortificando as estradas protegendo as caravanas e prosperando com os impostos. 
               Ao sul, no oceano Índico, até 120 navios gregos bordejavam regularmente os portos do mar Vermelho e da Índia, aproveitando-se das monções. navio árabes comercializavam pelos portos da costa noroeste da Índia, Golfo Pérsico, Litoral da Arábia (que fornecia incenso) e os mercados de  Abissínia e Somália. O Império Romano exportava vidro, cobre, estanho, chumbo, coral vermelho, tecidos, cerâmica e sobretudo moeda. O principal produto importado do oriente era incenso árabe e seda chinesa e, da Índia, pedras preciosas, musselina e especiarias, especialmente pimenta. Outras substâncias aromáticas chegaram ai Império vindas das Índias Orientais via Madagascar e Africa oriental. caravanas que iam do Império ao portos de Charax e Apólogos, no Golfo Pérsico, pertenciam e eram organizadas e acompanhadas  pelo deserto por cidadãos de Palmira, cidade cujo papel de entreposto do deserto trouxe riqueza para financiar edifícios públicos espetaculares até ser derrotada pelos romanos, em 273 d.C. . Mais ao sul a cidade de Petra desempenhava a mesma função para as caravanas que viajavam entre os portos de Leucecome Arcinoe no mar Vermelho, e Gerrha, no Golfo Pérsico.O entreposto mais importante foi Alexandria, cidade com 1 milhão de habitantes que recebia bens do Oriente dos portos de Berenice, Myos Hormus e Clysma, no mar Vermelho, que iam para o Império Romano. Também exportava produtos próprios; linho, medicamentos árabes perfumes indianos, papiro, artigos de vidro e principalmente cereais egípcios, que ajudavam a alimentar a população de Roma. 
             Finalmente, o cavalo e o camelo permitiram a transformação das estepes da Ásia central em rota comercial. Durante os esforços chineses para controlar Sinkiang, o general Pan Ch'ao, que defendia os oásis do norte e oeste contra os incursores, derrotou uma poderosa invasão Kushan por parte da Índia em 90 d.C., conduziu um exército através das montanhas de Pamir para atingir o mar Cáspio e fez contato com os partos. Com as rotas de seda do sul e norte seguras, em 97 d.C. um embaixador chinês foi enviado à Antioquia . 
              Antes disso, por quase 200 anos, caravanas ligavam os dois impérios. Havia pontos bem estabelecidos em que os comerciantes do oeste (gregos, árabes, romanos, iranianos e indianos) trocavam mercadorias com os mercadores nômades que se encarregavam dos trechos intermediários da jornada, entregando-as, por vez, aos chineses, nas fronteiras distantes. 
                No século 2 d.C., essa ligações de comércio foram consolidados quando Yüeh-chic e tocários uniram-se para criar o Império Kushan, da metade norte da Índia até parte do bloco central asiático. Mesmo sob o domínio dos aquemênidas, comércio, estradas e transporte eram temas de preocupação. A Estrada real de Dario percorria 2.700 km  bem fertilizados de Efeso a Susa; rota mais longa ligava a Babilônia e Ecbátana e Bactra (moderna Balkh), no Afeganistão. os selêucidas mantinham uma rede de comércio que se estendia sobre o planalto Pérsico a partir da nova capital Selêucia. Quando a Báctria se tornou independente (250 x 139 a.C.), formou a associação para uma rede de rodas de caravanas ligando Sibéria e China ao grande centro comercial da Índia. Todavia. Taxila, e à Pérsia, mar Vermelho, Golfo Pérsico e cidades-entreposto do Mediterrâneo, como Antioquia e Alexandria. Grandes empresas de comércio da Bátria mantinham filiais e agentes na China. O s partos, sob domínio de Tiridates (247 x 212 a.C.), transferiram a capital para Hecatompylos, na estrada de caravanas da Selêucia à Bátria. Os kushans, com suas "mil cidades", completavam a cadeia. 
              Mas essa cadeia não se sustentou por muito tempo. Até o início do século III d.C., a rota de 4.000 quilômetros da Síria ao Tarim encontrava-se sob pressão. Os chineses foram expulsos da bacia do tarim, interrompendo as principais rotas. Roma e China viram-se pressionadas ao norte pelo bárbaros. A demanda por produtos estrangeiros teve que ser atendida cada vez mais pela rota marítima(menos ameaçada e mais econômica para cargas volumosas), cujo tráfego havia crescido rapidamente desde que o piloto Hipalo descobrira a monção, provavelmente em 100 a.C.. Nessa época, navios com capacidade de até 500 toneladas bordejavam com os ventos das monções para os portos indianos: Barbaricum, na foz do rio Indus; Barygaza, mais ao sul; e Muziris, 320 Km ao norte da extremidade sul da Índia. No inverno, os ventos sopravam na direção oposta e os navios gregos voltavam carregados com produtos do oriente. Mercadores gregos ocasionais podem ter chegado mais a leste que Muziris ou Taprobana (Ceilão), mas, como norma, recebiam produtos chineses dos mercados indianos. O Império Chinês chegava, nessa época, até Haiphong, no sul. É provável que indianos e chineses tenham se encontrado em Oc Eo, sul do  Camboja, ponto em que os indianos embarcavam as mercadorias para oeste, transportando-as pela península da Malásia e o sul da Índia. O desenvolvimento da rota marítima reduziu o preço da seda no mundo romano e aumentou o emprego das especiarias orientais na culinária de Roma. 
             O volume de comércio do leste flutuava segundo as condições internas dos impérios Romano e Chinês e terras intermediárias.  De tempos em tempos, as guerras entre Roma e Pérsia interferiam nas rotas terrestres, enquanto desordens entre os árabes podiam impedir o embarque pela costa árabe. A partir do século 5 d.C., a progressiva conquista pelos bárbaros de províncias do Império Romano no Ocidente reduziu a demanda pelos artigos de luxo orientais naquelas áreas. As províncias orientais do Império permaneceram prósperas até o fim do século VI e a era das conquistas árabes. 
                 Todas as grandes religiões do mundo se originaram na Ásia e três delas (Judaísmo, cristianismo e islamismo) em uma área relativamente pequena da Ásia Ocidental. Igualmente notável é a concentração de grandes líderes espirituais em diferentes partes do mundo no século VI a.C. ou em um período próximo. Foi a época de Confúcio e talvez de Lao-tsé, na China; de Zoroastro, na Pérsia; de Gautama, o Buda, na Índia; do maior dos profetas hebreus, chamado o segundo Isaías (Isaías 40-55); e de Pitágoras, na Grécia. É possível que o aparecimento de civilizações que se diziam universais desse origem a religiões universais; ou então as novas religiões eram uma reação às tensões nas sociedades existentes e à necessidade de uma saída espiritual e uma fé que transcendesse um politeísmo supersticioso. De qualquer forma, o movimento em direção a uma única realidade espiritual coincidiu com a procura dos pensadores gregos de um princípio único que explicasse o mundo material. 
             O hinduísmo é a mais antiga das religiões mundiais, embora, segundo definição mais precisa, não se trate de uma religião do mundo, mas sim da religião do povo da Índia (hindu significa pertencente aos indianos). É abrangente e complexo; enfatiza a "forma certa de viver", mas admite vegetarianismo, sacrifício humano, asceticismo e orgias. Seus cultos se expressam na riqueza do comportamento externo e na devoção da meditação interior, nas crenças mais simples dos aldeãos e na obscura argumentação dos filósofos. O hinduísmo não é uma religião no sentido missionário. 
               Já o budismo, originário de um movimento reformista dentro do hinduísmo, é uma das grandes religiões missionárias. Ironicamente, embora tenha se expandido com sucesso até grande parte da Ásia, hoje não há budistas na Índia. Gautama, o Buda(significa o Iluminado), foi um príncipe indiano que viveu nos séculos V e VI a.C. e desistiu de sua posição na "Grande Renúncia". Seis anos depois, foi iluminado sob uma figueira e atingiu o nirvana, a obliteração do desejo. O primeiro marco do budismo foi o reinado do  imperador indiano  Asoka, entre os anos 274 a 232 a.C.. Após se converter  à religião, tornou-se um homem de paz e elevados princípios. Logo, o budismo chegou ao Ceilão (Sri Lanka) e Myanma (ex-Birmânia), e alcançou a China no século I ou II d.C., a Coréia no século IV e o Japão no século VI.
           O budismo é incomum por não estar centrado em um deus. Sua mensagem é a da libertação do sofrimento através da aniquilação do desejo. Essa é a doutrina que, com Buda e a comunidade, forma a essência do budismo. Houve apenas um grande cisma no budismo cerca de 500 anos após sua fundação, entre a corrente theravada, conservadora e a mahayana, universalista. O budismo theravada  é forte em Sri-Lanka, Myanma e Tailândia; já o mahayana exerceu atração mais a leste. O budismo se espalhou pela costa do sudeste da Ásia e pela rota da seda através da Ásia Central. 
                 A China possuía antigas tradições de veneração ancestral e o culto aos espíritos da natureza. A partir do século V a.C., dois sistemas tornaram-se dominantes, pelo menos entre as classes superiores. Um foi o sistema ético de Kung Futzu ou Confúcio, entre os anos 551 a 479 a.C., e o outro foi a religião mística de tao, associada á obscura figura de Lao-tsé. Tão significa "o caminho", isto é, o caminho para que o universo ou a humanidade estejam em harmonia com o mundo através da prática da quietude. Estes dois sistemas, com o budismo, constituíram as três religiões da China tradicional. No Japão, o budismo desafiou o enraizado Xinto e o culto aos espíritos no século VI d.C., e apenas no final da era Tokugawa o xintoísmo  reviveu como essência e expressão da identidade japonesa. 
                  Os judeus eram um povo pouco numeroso que, segundo a tradição, mudou da Mesopotâmia para a Palestina. Sua história documentada começou com a fuga à opressão no Egito, segundo o líder Moisés. Eles atribuíram a tal fuga a um ser divino chamado Jeová ou o Senhor com quem fizeram aliança de que seriam o seu povo e ele seria o seu deus, aliança associada às exigências simples, mas profundamente morais dos Dez mandamentos, os fundamentos da Tora ou a Lei. A princípio tratava-se de um povo único, marcado por leis sobre alimentação, circuncisão e outros costumes religiosos. O fato de ser Jeová um deus que os adotara do exterior carregava as sementes do universalismo e uma série de profetas mantiveram o desafio da probidade ética e religiosa. Os judeus sofreram continuamente a dominação política e militar de outros povos e a consequente diáspora levou-os a grande parte do Mediterrâneo e também para leste. Mais tarde, como resultado da perseguição aos cristãos, os  judeus migraram para locais ainda mais distantes. 
                 O judaísmo deu origem ao cristianismo, que se espalhou primeiro pelo Império Romano e, mais tarde, por zonas mais distantes. Também o islamismo aceita as tradições do judaísmo e cristianismo e vê Maomé (570 x 632) como um profeta da linha que inclui Moisés e jesus. O islamismo nasceu para ser uma religião missionária. De um lado, se estendeu pela África do Norte, Espanha e Europa; de outro, atingiu a Índia. 
             O zoroastrismo começou na Pérsia e está associado a Zoroastro ou Zaratustra, outra figura obscura. Ele encara a vida como uma batalha entre  as forças do bem e do mal. Sob a forma do mitraísmo, se espalhou pelo Império Romano até ser banido pelo cristianismo. Hoje é representado pela pequena seita indiana dos parses.
              Naturalmente, vários outros credos não conseguiram realizar a transição para religiões mundiais. O panteão grego, adotado e adaptado pelos romanos, reverenciava um deus do Céu, Zeus (Júpiter), e outras divindades, todas com funções especiais. Os celtas (cujo clero, os druidas, foi suprimido sob acusações de sacrifício humano), os escandinavos (cujos deuses Odin, Tor e outros deram nomes em inglês para os dias da semana) e os povos germânicos, todos tinham deuses próprios, assim como os povos da Ásia Menor. A deusa egípcia Ísis era adorada até no ocidente latino. A maioria dessas crenças despareceu, mas às vezes influenciaram as religiões que as substituíram. As práticas de seus cultos sobrevivem hoje em outras religiões. Mas apenas as religiões mundiais oferecem os vínculos que uniram áreas anteriormente separadas. 
             Não é surpresa que as grandes religiões do mundo estejam ligadas ao desenvolvimento das grandes civilizações ribeirinhas do Nilo, da Mesopotâmia, do Indus e rio da China. Poderia ser que as religiões não tivessem surgido sem essas civilizações. Mas os rios foram apenas um dos fatores que contribuíram para a disseminação das religiões. 
              Geralmente, a expansão seguia as rotas de comércio. As religiões  eram exportadas por comerciantes, soldados, administradores e viajantes comuns, assim como por missionários. O budismo se espalhou ao longo da costa do sudeste da Ásia e também pela rota da seda através da Ásia central. Os impérios Romano e Chinês eram pontos de atração e governos pacíficos ajudaram na difusão religiosa. Escritores cristãos afirmam que a paz trazida por Roma foi provavelmente destinada à expansão do cristianismo.



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domingo, 12 de abril de 2020

O AVANÇO ÁRABE E A IMPOSIÇÃO DO ISLAMISMO



                   Quando se fala em Árabes, em civilização árabe, é preciso esclarecer uma coisa ; sob tal nome vai designado um conjunto de povos, diversos quanto aos hábitos e história, que a religião de Maomé acomunou, mas não amalgamou, nunca, completamente. Esse líder guerreiro tinha como objetivo único impor seus pensamentos religiosos a todos os seres viventes da terra; isso, como se sabe claramente, é uma utopia. Ele dizia "Somente Alá é deus e Maomé é profeta".    
         As religiões ainda exercem muita influência sobre os povos do mundo todo; principalmente entre aqueles menos favorecidos econômica e culturalmente. Em nome de Deus  mataram milhões de pessoas; muito mais do que todas as guerras políticas, incluindo a primeira e segunda guerras mundiais. Mas no quesito religião, os muçulmanos, embora cruéis, não superaram a Igreja de Roma quando olhamos para a "Santa inquisição", as "Cruzadas" e os "Templários". 
                 Os verdadeiros árabes, oriundos da região compreendida entre o Golfo Pérsico e o Mar vermelho, constituem, sempre, o cerne guerreiro do islã e, como compatriotas de Maomé, formaram o núcleo mais compacto. Entretanto, o imenso patrimônio de arte e cultura, que traz sua marca, não foi obra deles, mas sim de povos muito mais civilizados, que eles subjugaram, tais como os Siríacos e os Persas. Também neste caso, portanto, assistimos ao habitual fenômeno dos bárbaros, que sobrepujaram povos muito mais antigos e muito mais cultos do que eles, assimilando-lhes, em seguida, o tesouro espiritual.  
                 Mas quando as hordas germânicas, que invadiram a Europa, eram movidas somente pela sede de saque, os Árabes eram impulsionados por um objetivo bem ais elevado: a difusão de sua própria religião, o apostolado (ainda que de espada em punho) entre os povos que permaneciam imersos nas névoas da idolatria. 
             Maomé nasceu em Meca, uma cidade da Arábia Ocidental, ao redor de 570 d.C. Nessa data, Meca era o principal centro comercial da Arábia Ocidental, e era também um importante centro de peregrinação, dedicado ao culto da Caaba, a "Pedra Negra" (um meteoro que caiu naquele local, e, segunda a crença muçulmana, foi enviado por Alá). A mensagem de Maomé aos seus seguidores os convidava a deixarem de adorar ídolos e se submeter à vontade de Alá. 
             À medida que seus seguidores cresciam em número, Maomé provocou a hostilidade da aristocracia dos mercadores de meca, que temiam que a aceitação de sua mensagem significasse uma ameaça para o santuário. A hostilidade se transformou em perseguição e em 622 Maomé e seus seguidores se retiraram para Iatreb, cerca de 450 quilômetros a noroeste de Meca. A data dessa migração, ou hégira em árabe, o 16 de julho de 622, marca o começo do islã e, portanto, do calendário muçulmano. 
                Em homenagem ao profeta, Iatreb passou a chamar-se Medina, a partir da qual, no ano de 630, Maomé retornou a Meca, eliminou os ídolos e transformou a Caaba no ponto central da nova religião do islã. Este foi o primeiro passo para um incrível processo de expansão religiosa que levaria o Islã para a Espanha e a África Ocidental, e tão longe quanto a Ásia Central e a Indonésia. O desenvolvimento e a expansão inicial do islão devem ser assinalados no contexto das relações comerciais que se haviam desenvolvido no Oriente Próximo  e na Arábia durante os períodos helenísticos e romano. O surgimento do urbanismo no Mediterrâneo oriental criou uma nova e maciça demanda de matérias-primas que estimulo o comércio com todas as regiões circundantes. A Arábia do Sul foi muito importante como fonte de incenso e mirra para os altares dos templos no Egito, Síria e Levante, estabelecendo-se colônias de mercadores cristãos e judeus do Oriente Próximo nas cidades oásis da Arábia Ocidental, que constituíam pontos de paradas nas rotas comerciais. A prematura introdução do judaísmo e do cristianismo na Arábia Ocidental criou o ambiente cultural e religioso no qual desenvolveu-se o Islão, e a tolerância islâmica das duas "religiões do livro" mais antigas possibilitou que os muçulmanos conseguissem êxitos nas províncias do Oriente Próximo pertencentes ao Império Bizantino. 
            A doutrina de Maomé pugnava a "Guerra Santa", prometia o paraíso a quem morresse combatendo os infiéis. É interessante observar que os combatentes acreditavam piamente nesta promessa, tanto que até hoje não se incomodam de morrer, pois acreditam que irão imediatamente encontrar com Alá, onde viverão eternamente felizes. Isso não acontece com as demais religiões. A história nos conta que Joana D'Arc (uma rara exceção) realmente acreditava que, ao morrer, iria encontrar seu Deus que a esperava na vida eterna; ela era profundamente católica  praticante, mas não agradou aos interesses dos líderes da sua religião e, por isso, foi queimada viva numa fogueira. O que vemos é que todos,  os que se dizem fiéis religiosos,  temem diante da morte; querem viver mais do que Matusalém, que, segundo informações bíblicas, viveu 966 anos. 
             Maomé foi guerreiro muito inteligente e logo conseguiu muitos fiéis para sua causa. Instintiva e profundamente fanáticos, como todos os Orientais, os Árabes tomaram a ordem ao pé da letra e dela fizeram uma razão de vida ou morte. 
               Da Meca, a maré beduína espalhou-se, quebrando todo e qualquer obstáculo, primeiro no Oriente e mais tarde no Ocidente. Sob o reinado do primeiro Califa Abu Bekr, amigo e sucessor de Maomé, foram conquistadas a Síria e depois a Mesopotâmia (632 x 634); no reinado de Omar, segundo Califa, a meia-lua (símbolo islâmico)cintilou no Egito e na Pérsia, onde derrubou a dinastia sassânida, avançando para o Oriente, indo até ao Turquestão. Seduzidos pela nova doutrina, que pregava a igualdade entre ricos e pobres e que era um misto de judaísmo e cristianismo, os povos se rebelavam contra os feudatários sacerdotes, abrindo caminho para os cavaleiros do Islã. Assim, as verdes bandeiras do Profeta percorreram, qual uma rajada, toda a África Setentrional, que foi arrebatada aos Bizantinos, penetraram no coração da Ásia, além de Amu Daria, e chegaram até ao Vale do Indo.

              Em princípios do século VIII, o domínio dos Califas(no trono de Bagdá subira a dinastia Omíadas) abraçava todo o Mediterrâneo oriental e meridional, até ao Atlântico. Em 711, o comandante árabe Tarik varreu o último dos reinos romano-barbáricos, o dos Visigodos, estabelecendo-se firmemente na península. 
          Vejamos as data: desde 622, o ano da Hégira, isto é, ao início da era islâmica, transcorrera cerca de um século, cem anos de lutas, que deram aos Árabes um enorme poder e imensos territórios. os filhos dos cameleiros do Hedjaz apresentavam-se, de armas em punho, às portas   da Europa, irrompendo para além dos Pireneus, nas planícies de Aquitânia. Mas, aqui se verificou o choque fatal, quando foi contida, finalmente, a terrível maré muçulmana. Em 732, perto de Poitiers, os Berberes, comandados por Abd-el-Raman, encontraram-se com homens mais duros do que eles, os Francos de Carlos Martelo, e esborraram-se completamente ante os exércitos contrários. O Islã chegara ao ápice de sua expansão; a Europa estava salva deles. 
                 Finalmente chegava o fim do império dos califas. Quando os cabeludos guerreiros de Carlos Martelo, aos pés das colinas de Poitiers, contiveram o choque maciço da maré árabe, o grande impulso expansionista do islã no máximo de seu poderio. Do Oriente ao Ocidente , de Constantinopla aos Pireneus, a imensa tenaz árabe estreitava-se sobre a Europa. Territórios intermináveis, milhões de homens, cidades e riquezas, tudo havia tombado, quase sem combater, ante o rápido avanço dos sequazes do Profeta. Pequenos exércitos, de não mãos de dez mil homens, exíguos pelotões de cavaleiros de longos mantos, montados em ágeis ginetes do deserto, tinham afrontado atrevidamente grandes forças militares sabidamente organizadas.


             Dezoito mil homens haviam bastado para conquistar o poderoso império Persa, não mais de quatro mil dominaram o Egito, defendido por trinta mil bizantinos, e parecia que o esvoaçar dos mantos e o cintilar das cimitarras tornassem inertes os cultos ocidentais. '
            A batalha de Poitiers, porém, quebrou o encanto. desde esse dia, inexplicavelmente, os Árabes se detiveram, recuando lentamente dos postos mais avançados, continuando a guerra, mas de preferência no mar. Aqui, eles adotaram o mesmo método, de rápidos golpes armados, que lhe haviam dado tanta sorte em terra. Era o método dos salteadores beduínos, que se atiravam de galope sobre as inermes caravanas e despareciam depois da pilhagem, na imensa poeira do deserto. Assim, entre os séculos VIII e IX, caíram em poder do islã quase todas as

ilhas do mediterrâneo, das baleares à Sicília. E  destas novas bases barbarescas saíam rápidas incursões às costas do continente. Ainda hoje são visíveis, ao longo das praias e das enseadas da Itália, as antigas torres de atalaia, de onde se dominam largos trechos de mar, destinados a avistar a distância o surgir das velas sarracenas. Muitas vezes, naqueles séculos obscuros, o povo das cidades  mediterrâneas, despertado noite alta por um angustioso bimbalhar de sinos, precisou correr para fora de casa, subir as colinas, a fim de salvar os filhos e seus bens, ou então, correr para as muralhas a fim de despejar chumbo derretido ao atirar terríveis flechas sobre os esquadrões de corsários árabes, que haviam desembarcado, de improviso, para saquear. 

             Todas essas lutas eram conduzidas ou financiadas pelos fidalgos da região e, na verdade, aos poucos, o império dos Árabes, sempre dependendo nominalmente do Califa de bagá, foi-se fracionando em muitos potentados menores. Não bastava ter vencido, era necessário saber governar; e os Árabes, impelidos de repente para a ribalta da História, por um irresistível impulso religioso, não estavam preparados para a Imensa tarefa. Culturalmente, já se disse, eles eram pouco mais que bárbaros, de modo que todo o infinito patrimônio artístico e científico que lhes tem sido atribuído, na realidade pertencia aos Persas, Siríacos, Gregos e Italianos. Tiveram, todavia, o grande mérito de saber compreender a importância de quanto haviam conquistado e de assimilá-lo prontamente. 
            A religião de Maomé era uma poderosa "sugestão espiritual", que ligou voluntariamente aos novos senhores os sábios da Grécia e do Oriente, tanto que, durante muito tempo, os manuscritos da era clássica foram  Europa, tornada bárbara pelos germanos, através das universidades árabes. E, para o progresso do mundo de então, ao qual todas as civilizações do oriente contribuíram, muito atestam as maravilhosas arquiteturas espanhola e sicilianas, os fabulosos palácios de Damasco, os belos livros ricamente encadernados, os tapetes e a tapeçaria, que parecem restos de um paraíso desconhecido. No século X, a grande expansão árabe terminara; o próprio império dos califas, depois da glória da dinastia abássidas, que sucedera aos Oníades,  ia-se esfacelando aos poucos. 
             Mas o poderio do islão estava alto e glorioso; dos árabes, a Europa iria haurir os germes de sua nova história; da união entre o duro mundo romano-germânico e a sabedoria do Oriente, nasceria a flor da Renascença. 
             Sob os califas Omíadas (661 x 750), o Islã dominou a terceira parte do mundo antigo, formando assim o império mais extenso jamais vistos. As fronteiras ficaram relativamente estáveis na dinastia seguinte, os abássidas (750 x 1258, quando o comércio a distância foi incrementado e as condições pacíficas estimularam o crescimento econômico. Também um fantástico florescimento cultural que sintetizou com exito muitos dos progressos dos povos subjugados, incluindo os geco-romanos do Mediterrâneo Oriental e os persas do irã. Houve um renascimento com a construção de magníficos edifícios, com artesãos talentosos e um novo avanço do conhecimento. Os palácios do meio do deserto, na Síria e na Jordânia, incorporaram balneários e mosaicos da melhor tradição greco-romana, sendo construídos pelos descendentes diretos de artesãos que tinham usufruído da proteção bizantina. Os eruditos e cientistas islâmicos imitaram e desenvolveram o trabalho de seus predecessores greco-romanos. Em certos aspectos, efetivamente, foram os omíadas e abássida, mais que bizantinos ou europeus ocidentais, os herdeiros das artes e do saber da Grécia e de Roma. 
                Com a acensão da dinastia abássida, houve uma mudança no ambiente cultural - transferindo-se do Mediterrâneo para a Mesopotâmia e para a Pérsia. A capital omíada havia sido Damasco, mas em 766 os abássidas a transferem para Bagdá. Estrategicamente localizada à beira do Tigre, na interseção das principais rotas comerciais do oriente e Ocidente, Bagdá tornou-se um poderoso símbolo do domínio abássida. A "Cidade Circular", um complexo administrativo, tinha muralhas duplas de tijolos de barro com quatro entradas nos pontos cardeais. O califa instalou seu palácio no centro da Cidade Circular; os funcionários habitavam num anel de residências, no interior das muralhas. os mercados e a maioria da população estavam do lado de fora, ao redor do antigo centro de Al Karkh. 
                   Samarra, a capital abássida se estende 40 quilômetros ao longo do Rio Tigre, foi a capital do califado abássida de 836 a 892. A forma longitudinal da cidade deve-se provavelmente aos problemas de abastecimento de água, sem bem que isso provocou dificuldade de comunicação e falta de segurança. Não havia muralha exterior, e os habitantes (principalmente soldados e operários recrutados) estavam confinados em bairros fechados auto-suficientes. Fundado pelo califa Al-Mu'tasim, o núcleo da cidade original estava ao redor de Jawsaq-Al-Khaqani; os califas posteriores acrescentaram novas áreas. O califa Al-Mutawakkl anexou um novo setor no norte, Ja'fariyya m(859 x 861), com vários bairros, palácios e a mesquita de Abu Dulaf. Depois do seu assassinato, a corte se transferiu para o sul da cidade, onde foram construídas novas estruturas. Depois da morte do oitavo califa, Al-Mu'tamid, a capital abássida retornou novamente para Bagdá. 
                 As mesquitas, os edifícios mais importantes do Islã, existiam em todas as cidades islâmicas.  Apesar das variações, todas tinham um pátio e salão coberto para orações com um mihrab, um nicho da muralha, que indicava a direção da oração, voltada para Meca. Outra característica era o minarete, ou torre, de onde os fiéis são chamados para a oração. Uma das mesquitas maiores foi construída na Espanha, em Córdova, foi iniciada em 785 e podia alojar 5.500 fiéis; a maior de todas, porém, era a Grande mesquita, erguida em Samarra, Iraque, pelo califa Al-Mutawakkil, em 849 x 850. Se bem que, provavelmente, o mais imponente dos antigos edifícios religiosos do Islã não seja uma dessas grandes mesquitas, mas sim o santuário menor da Cúpula da Rocha em Jerusalém, ricamente decorado com mosaicos de frutas, vinho e árvores, pois considerava-se idolatria representar figuras humanas e animais num contexto religioso. 
                 No apogeu do califado abássida, as redes comerciais islâmicas estenderam-se do Sudeste Asiático até o Atlântico. É possível acompanhar as rotas das caravanas desde a Ásia Central até a China, pelas ruínas das caravaneiras (postos no caminho que forneciam comida e refúgio para os viajantes). Os árabes também dominavam os mares com suas embarcações; eram navios com aparelhos latino, fabricados com tábuas de teca ou de coqueiro costuradas com barbante de Palmeira. Eram comercializados ouro, marfim e escravos da África; uma ampla variedade de artigos, especiarias e cerâmica do Extremo Oriente; âmbar, couros e cera do Báltico, em troca de artigos de luxo, como madeiras talhadas, trabalhos em metal, objetos de vidro, testeis, azulejos e cerâmicas envernizadas. Enquanto Bizâncio lutava para se recuperar dos golpes do século VII e a Europa ainda aguardava o desenvolvimento de Estados medievais estáveis, a luz da civilização brilhava com vivacidade nas prósperas cidades do mundo islâmico. 
               No início do século IX, uma série de poderosos impérios estendiam-se desde o Atlântico até o Pacífico; carolíngio, bizantino, abássidas, a dinastia T'ang na China. Além das condições mais estáveis, existia o renascimento dos contatos transasiáticos, fatos que poderiam ter levado a acreditar numa nova era de ouro para a Eurásia. Na Europa estas expectativas foram destruídas com os acontecimentos das décadas seguintes; as incursões do viking e magiares, o colapso dos carolíngios e um novo ciclo de insegurança e decadência econômica.
               O século X marca um novo ponto crucial. No Ocidente, o Império Franco de Carlos Magno jazia em ruínas, mas os poderosos soberanos da Inglaterra e da Alemanha repeliram as ameaças dos vikings e magiares, criando reinos unificados que resistiriam às vicissitudes dos séculos seguintes. No leste, Império Abássida começou a se dividir originando reinos independentes no Egito e no Afeganistão. Não obstante, a cultura islâmica continuou florescendo e seus vizinhos do norte, os bizantinos, desfrutaram um renascimento político e econômico nesse período. Os vikings, ferozes como invasores, tiveram êxito como mercadores, abrindo novas rotas a distância sustentadas por uma rede de cidades comerciais.  
              Para os europeus, muito havia mudado e muito se havia perdido desde que Roma caiu diante os godos no século V; porém, próximo do fim do século X haviam-se estabelecido as bases para um renascimento cultural e econômico. No começo do novo milênio, a Europa do Norte começou a se livrar do pesadelo de séculos de violência e decadência e pode iniciar com maior confiança o seu caminho rumo à grandes catedrais góticas da Alta Idade Média. 
             Em 1258, o califado abássida, enfraquecido, porém sempre o símbolo supremo da unidade e autoridade para a maioria dos muçulmanos, foi derrotado em Bagdá pelas forças amplamente superiores dos mongóis. Embora o conceito do califado fosse revivido pelos otomanos no começo do século XVI, os acontecimentos  de 1258 determinaram uma nítida virada na história muçulmana. 
             A transformação do mundo islâmico tinha iniciado, de fato, vários séculos antes. No começo do século X, os esforços dos califas abássidas para manter a unidade política do Islã se esgotaram. Em 909, o Egito separou-se sob uma linhagem independente de califas, os fatímidas, e outras regiões, entre elas, Afeganistão e Transoxiana, logo seguiram o seu exemplo. No século seguinte houve mudanças dramáticas, quando um belicoso povo turco, os seldjúcidas, atacou o que restou do reinado abássida assumindo o controle político e deixando apenas os assuntos religiosos na mão do califa. Poderosos sultões seldjúcidas derrotaram os bizantinos em Mansikert em 1071 e iniciaram a expansão na Anatólia. 
              Porém sua hegemonia durou menos de dois séculos. Em 1423, os seldjúcidas foram derrotados pelos mongóis na batalha de Kosedag, sendo radicalmente modificado o mapa político do Islã nos anos que se seguiram.
          Depois da derrota em Alain Jalut, entretanto, os mongóis se retiraram para a Pérsia, deixando um vazio de poder na Anatólia. Bizâncio esperava  levar vantagem desses acontecimentos, mas o saque de Constantinopla pelos cruzados vindos do Ocidente em 1204 e a criação de um império latino rival na Grécia e nos Bálcãs tinham enfraquecido fatalmente o Império Bizantino. Como resultado, o território abandonado pelos nômades, localizado entre Bizâncio e os mongóis, foi logo ocupado por dez pequenos Estados turcos, que disputavam a supremacia política da região. Todos justificavam sua existência afirmando que eram ghazis, guerreiros de fé, que procuravam anexar territórios não muçulmanos para fazê-los entrar no rebanho do Islã. No começo do século XIV, um desses pequenos Estados beligerantes era governado por um chefe chamado Osman (Uthman, em árabe),  do qual deriva o nome da dinastia dos otomanos. 
          Sob Osman (1281 / 1324) o seu filho Orkhan (1324 / 1360), o Estado otomano se expandiu gradativamente às expensas de seus vizinhos muçulmanos e cristãos. Um dos maiores êxitos foi a captura, em 1326, depois de um bloqueio de cinco anos,  da cidade bizantina de Bursa. Imediatamente os otomanos a transformaram em sua capital e os primeiros sultões foram sepultados em magníficos túmulos dentro da Grande Mesquita da cidade. A elite dos otomanos fez de Bursa um centro artístico e de ensino, ao passo que os turcos se transformavam de nômades em sedentários, e seus líderes, de chefes, passaram a ser governadores. Orkhan começou a cunhagem de sua própria moeda, sinal inequívoco de independência e estabilidade, e recrutou administradores para que o ajudassem a dirigir o Estado. 
          A medida que os otomanos se organizavam melhor, os serviços dos seus eficientes soldados tinham maior procura. Em 1346, Orkhan emprestou cerca de 5.500 soldados para um nobre bizantino, João Cantacuceno, que desejava ser imperador. Depois de consegui-lo, em recompensa, o novo imperador desposou a filha do sultão. Essa associação  também possibilitou que Orkhan e seus seguidores se instalassem na margem européia do Bósforo, acontecimento crucial para a futura expansão do poderio otomano. Os turcos ocuparam Trácia e o útil porto de Galipoli , no setor europeu do Bósforo. Então Orkhan enviou rapidamente  grandes contingentes de súditos para que povoassem as ricas terras europeias que tinha adquirido. Quando morreu, em 1360, tinha duplicado sua herança, que porém continuava sendo pequena: com 30 mil milhas quadradas, o Estado otomano tinha aproximadamente o mesmo tamanho que a Irlanda, ou o Estado de Maine.  
           Entretanto, Murad I, filho de Orkhan, aumentou imediatamente seu controle sobre a Europa; em 1361 capturou Andrinopla, segunda cidade importante de Bizâncio depois de Constantinopla. Murad a rebatizou de Edirne e tornou sua capital.
             Este avanço do Islã na Europa provocou inquietação entre os Estados cristãos além dos Bálcãs. Em 1389, o rei da Sérvia e seus aliados formaram um grande exército, sendo derrotado pelos otomanos na decisiva batalha de Kosovo. Embora Murad tenha  morrido no combate, seu filho e sucessor Bajazet aproveitou plenamente a vitória. Poucos anos depois tinha anexado o reino da Bulgária (1393), arrasado com um grande exército cruzado em Nicópolis (1393) e maioria dos estados independentes  da Anatólia também tinham sido absorvidos pelo Estado otomano, que se estendia desde os Cárpatos até os Montes Taurus, abrangendo ao redor de 267 mil milhas quadradas. 
           Sob Bajazet, o império otomano desenvolvia muitas características  que o fariam posteriormente famoso. No núcleo do sistema político estavam o sultão com sua família, já que a tribo de Osman continuava sendo o centro do Estado. Estavam cercados por uma espécie de corte aristocrática constituída pelos membros da antiga elite turca e servidos pelos vizires, delegados do sultão que supervisionavam sua administração. 
            Porém, ali também havia inovações. A corte turca funcionava de acordo com um protocolo exigente, introduzido por Bizâncio (provavelmente iniciado pela esposa grega de Orkhan), enquanto o Exército dos guerreiros ghazis, voluntários de Osman e Orkhan, foram substituídos por tropas bem treinadas, recrutas especialmente entre jovens capturados nas guerras balcânicas. Foram chamado de "Força Nova"; os yeni-tcheri, conhecidos por janízaros e facilmente reconhecíveis em ação  por seus altos e emplumados chapéus. Murad também recrutou jovens cristãos dos Bálcãs e lhes ensinou a língua, a lei e a fé turcas, para que pudessem ingressas na administração otomana. 
             Porém, na Ásia, a expansão otomana foi menos popular. Em 1390 o sultão Bajazet, apelidade Yildirim - Raio - por suas campanhas relâmpagos, começou a atacar seus vizinhos orirentais, exigindo lealdade. Os governantes que não o fizeram foram depostos. Infelizmente para ele, um desses soberanos era Timur, o Coxo, conhecido como Tamerlão, descendente de Gengis khan, comandante de vastos exércitos e conquistador de um império que se estendia da Pérsia até a Índia. Em 1402 enganou Bajazet com suas manobras e atacou Ancara, principal cidade da Anatólia. Quando as forças do sultão se aproximaram,  foram arrasadas e Bajazet capturado. Os domínios otomanos na Ásia Menor foram assolados sistematicamente  e os governos depostos por Bajazet restritos às suas possessões. 
             A catástrofe de Ancara poderia ter significado o fim do governo, porém, paradoxalmente, os turcos foram resgatados por seus inimigos. Em troca de uma remuneração adequada, navios mercantes italianos transportaram os sobreviventes da batalha a salvo para a Europa. Além disso, Tamerlão morreu em 1405, mantes de conseguir criar Estados sucessórios na Anatólia capazes de enfrentar as posições dos otomanos que permaneciam intactas. A seguir, houve um vazio de onze anos, entre 1402 e 1413, quando os Estados balcânicos e os emirados anatólios aproveitaram a oportunidade proporcionada pela vitória mongol para se livrar do governo otomano. Bajazet morreu em cativeiro no ano seguinte à sua derrota. Porém, o Império Otomano se recuperou, e com Maomé II (1451 / 1481) conseguiu a mai espetacular de suas conquistas: a captura de Constantinopla em 1453. Suas grandes muralhas, de mais de 30 metros de altura, haviam suportado muitos cercos anteriores (sete dos mesmos otomanos), mas Maomé II foi capaz de assestar contra estas antigas defesas, construídas mil anos antes, a maior inovação militar do Renascimento: uma bateria de canhões. Alguns deles, como o "Canhão dos Dardanelos", atualmente em exposição na Torre de Londres, mediam quase 7 metros de comprimento e lançavam um projétil de pedra que pesava 676 libras. No dia 5 de abril, o Exército turco, com aproximadamente 150 mil homens, posicionou-se frente á capital de Constantinopla, defendia por apenas 8 mil soldados, e no dia 29 de maio, após o terceiro assalto, a cidade caiu finalmente em poder dos turcos.  
               Foi uma vitória de grande importância. No plano religioso, cumpriu com um desejo do próprio profeta Maomé que queria que um dia Constantinopla fosse conquistada pelas forças do Islã.  
                  Constantinopla, capital do Império Romano do Oriente, permaneceu por mais de um milênio como seu centro político. Apesar dos sucessivos assédios que sofreu de diferentes povos, a cidade não caiu em mãos estrangeiras até 1204. Entretanto, a conquista pelos turcos otomanos em 1453 foi a que acabaria para sempre com sua tradição latina.
           Aproveitando-se do terror produzido pela queda de Constantinopla, Maomé II empreendeu a conquista da Grécia, Sérvia e Valáquia. Pensava seriamente em invadir também a Itália, por isso conquistou, em 1480, o Estreito de Otranto. Entretanto, antes de empreender a campanha, decidiu eliminar do Mediterrâneo Oriental, enclaves latinos e apoderar-se da ilha de Rodes. E$m maio de 1481, os otomanos atacaram a ilha, porém, após dois meses de combate, tiveram de se retirar, depois de sofrer grandes perdas. 
             Parte da estratégia dos otomanos para apoderar-se de Constantinopla foi a construção de fortalezas. Em 1452 ergueram a fortificação de Rumeli-Hisar, às margens europeias do Bósforo, para cortar a comunicação da cidade com suas fontes tradicionais de abastecimento e impedir a ajuda naval ocidental. 

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