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sábado, 9 de maio de 2020

INDO EUROPEUS - POVOS GERMÂNICOS E SUA LIBERTAÇÃO

Estátua de Armínius em Lippe - Alemanha
           Rumo ao sol, enxames de agricultores-guerreiros migram para terras férteis e com menos bosques do sul mediterrâneo, por causa de explosão demográfica ocorrida durante o período neolítico e a idade do Bronze;  a pequena faixa de terras cultiváveis e a imperfeição das técnicas agrícolas da pré-história provocarão a expansão dos povos. 
               A marcha rumo ao sol, cuja roda simbólica aparece gravada na rocha, será, por isso, a constante dos povos do norte da Europa. Musset não crê possível, sem recorrer à utopia, "determinar uma aparência arqueológica da proto-história a qualquer grupo linguístico". Porém admite, sob reserva, que seja identificada, com a cultura germânica primitiva, "uma certa civilização da fase recente da idade do Bronze que, saindo do núcleo na Escandinávia meridional, começa a se dispersare pela costa, entre o Oder e o Véser". 
              Os indo-arianos, os Italiotas, os Trácio-frígios e os Celtas estão, durante esse estágio, já instalados - ou ocupados com suas conquistas. Os Germânicos, por sua vez, ganham o espaço vital. Por volta do ano 1.000 a.C., apossam-se da grande planície européia, desde o Ems até à Pomerânia central. Aproximadamente em 800 a.C., alcançam, a oeste, a Vestfália e, a leste, o Vistula. E, em cerca de 500 a.C., chegam ao baixo Reno, à Turíngia e à Baixa-Silésia. O mundo celta, efêmero senhor da Europa central, apenas provisoriamente, impede a expansão germânica. Esta última lucra com a sua dispersão. Os homens do Norte em contato com os povos mediterrâneos. 
              Por volta do ano 320 a.C., o foceu Pythias empreendeu um périplo de exploração comercial, em busca de âmbar e de estanho. Traçou sua rota até ao Báltico e, conforme Ludwig Schmidt garante, até à embocadura do Ems. Pythias foi o primeiro a diferenciar os Germanos dos Celtas. Políbio e Estrabão o considerarão mentiroso. Porém, o filósofo Posidonios publicará, nas vérperas da conquista romana da Gália, o relato de suas viagens através do Ocidente; dele se origina a teoria segundo a qual o termo Germanos designa om conjunto dos povos instalados entre o Reno e o Vístula. Um terceiro grego. Timágenes, ensinará a Tácito o que o historiador romano dirá sobre as origens do termo. 
                 A Germânia de Tácito reunirá César (De Belo Gálico), Tito Lívio (História Romana). Plínio (História Natural), e desenvolverá as observações pessoais do autor. " A obra imortal de um romano", dirá Grimm na sua Deutsche Mythologie,"veio se situal na história alemã como uma aurora". 
          Segundo Estrabão, o nome Germanos é um vocábulo latino de germen, o germe". Portanto, Germani indica aqueles que estão unidos pelo sangue. 
                Quanto às tradições dos povos do norte, elas engrandecem a marcha rumo ao sol. Nas proximidades do ano 550 a.C., o ostrogodo Jordanes compõe a lenda histórica do povo godo, com o título: De origine actibusque Getarum (ou Gética); ela é, na realidade, um resumo dos 12 livros perdidos da Grande História dos Godos, encomendada a Cassiodoro pelo rei Teodorico. 
               Jordanes relata a partida dos Godos da Escandinávia, o estabelecimento no norte da Alemanha, e as Grandes rotas do continente. Deixando Scandza (Escandinávia) guiados por um rei, abordam o delta do Vístula e, aí, dispersam os "Rúgios insulanos"; a seguir, submetem os Vândalos, no caminho para o mar do Norte. 
              No grande movimento que leva os Germanos na direção da Pomerânia e do litoral báltico, aparecem sucessivamente os Skires e Bastarnas da Escandinávia. A seguir, no século III da nossa era, os Lugos e os Vândalos saídos da Jutlândia; os Celtas repelidos descem rumo ao Sul. O avanço da confederação germânica dos Suecos, na Saxônia-Turíngia, empurra os Celtas para além do Reno, na primeira metade do século II. 
                A partir do ano 400 a.C., início da idade do Ferro germânica, o avanço maciço dos povos em marcha provocou uma cisão entre o ramos oriental e o ramo ocidental. Uma linha de demarcação começa nas ilhas dinamarquesas, remonta o Oder até à sua confluência com o Neisse e se prolonga para o Sul. Os emigrantes que se embrenharam na direção leste (Vândalos, Lugos, Burgúndios, Rúgios ) estão destinados a uma expansão bem menor do que a dos germanos do Elba; estes, estreitamente ligados ao núcleo germânico e constantemente reforçados com a chegada de novos povos, transformam-se, no século II antes da nossa era, na poderosa confederação dos Hermiones. É no momento em que eles ocupam a Alemanha céltica que surge o termo Germani, e não é coincidência; a confederação é dominada pelos Suevos, Sueboz - "O verdadeiro povo", "os da mesma raça". 
                Apesar das suas dimensões, o país só pode, portanto, possuir uma população muito dispersa. Talvez dois milhões de habitantes, entre o Reno e o Elba. Ou seja, 25.000 por tribo, segundo Hans Delbruck. desde o neolítico, cultiva-se o trigo, a cevada, o milho. as tribos acrescentam a aveia e o centeio. Praticam criação. "É sua unica riqueza, aquela que mais lhes agrada", diz Tácito. Portanto, o vestígio da sociedade primitiva é pastoril; O alfabeto (Uthark) rúnico começa pelo F, pronunciado fehu,aproximando-se do alemão Vieh: "Rebanho". Os Germanos alimentam-se de carne, leite e queijo. A cevada fornece a cerveja. 
                Logo que um espaço cultivável permite a um grupo se fixar, a sua população aumenta. Quanto mais restrito é o espaço, mas rápido é o superpovoamento, o que provoca a emigração, se não de toda a tribo pelo menos dos seus elementos mais jovens e mais combativos. É difícil para os Germanos tornarem-se camponeses; eles deverão ser guerreiros. "Nesse solo rebelde", diz Reynold, "eles adquirem o amor pela terra. Mas não pela deles. Nas jóias bárbaras se entrelaçam linha fantásticas. "Wilhelm Worringer as interpreta (Formproblem der Gothik); entusiasmo apaixonado, vitalidade, inquietude. Entre o mundo germânico e o mundo romano, o choque vai durar seis séculos. 
              A questão indo-europeia provoca polêmicas. Como ponto de partida, o estudo comparativo das diversas línguas desse período histórico e a reconstituição de uma "língua comum", núcleo de todas as outras. Ou, mais precisamente, de um sistema de concordância entre as línguas indo-europeias conhecidas, remontando à época em que elas eram quase idênticas. Quanto ao "povo original", segundo Karsten, seu berço "só pode estar situado" no centro da Europa, e seu aparecimento "numa época pré-histórica muito remota". Baseando-se na linguística e na antropologia, Lahovary chegou à conclusão de que "no neolítico tardio os indo-europeus estavam instalados, grosso modo, ao norte e a leste do Reno, desde o Danúbio superior e os Cárpatos, aproximadamente, até ao Duna e no curso superior do Dnieper, na direção do Leste, onde esbarravam com os Fino-asiáticos". 
               Corolário, apresentado pelo mesmo Lahovay, no "Os Povos Europeus": " À medida que nos distanciamos do seu centro de dispersão européia, suas conquistas mostram-se menos completas e menos duráveis. Por isso, em todo o noroeste da Europa e numa parte da Europa central, temos simultaneamente, pelo menos desde a idade da Pedra Polida, povos do tipo nórdico, uma civilização e uma organização social indo-européias e uma língua, dou dialetos, também indo-europeus. Na Europa meridional, na península ibérica, ao sul da Itália, na Grécia, encontramos a língua, a organização social, as antigas crenças indo-européias (até o cristianismo); no entanto, antes da  nossa era, a grande maioria dos conquistadores do Norte que as tinham trazido já haviam sido absorvidos pelos povos pré-arianos dessas regiões.  Dos três elementos fundamentais (o sangue, a civilização e a língua) cuja presença constatamos no norte da Europa, entre o Somme e o Dnieper, em geral, somente dois são encontrados no Sul. Anteriormente, já nos territórios ainda mais distantes, da Pérsia e da Índia, somente a língua havia conseguido substituir  como testemunho da antiga conquista pelos Nórdicos, com uma parcela muito modificada das crenças e da organização social... 
                A força decrescente dos deslocamentos que haviam levado os Nórdicos a territórios longínquos, muito antes da nossa era, nos fornece por si só uma indicação importante quanto à pátria primitiva dos Indo-europeus, sobre a qual tanto se escreveu, e que originou as hipóteses mais contraditórias e menos comprovadas. Portanto, é evidente que esta pátria deve ser procurada na região onde a influência indo-européia se manifesta mais intensamente e sob aspectos mais variados."
               Na perspectiva de Lahovary, o núcleo germânico não pode ser "indo-europeizado", na medida em que se misturou com a área inicial dos indo-europeus. Para apoiar esta teoria dos "deslocamentos" setentrionais, o antropólogo suíço cita os trabalhos do professor Kalima, da Universidade de Helsinki; este constata que as contribuições mais antigas recebidas pelas línguas fino-ugrianas das línguas indo-européias (anteriores ao ano 2.000 a.C.) provém do indo-iraniano, ramo oriental do indo-europeu. Portanto, que os futuros indo-arianos, antes da sua marcha sobre o Afeganistão e o noroeste do Industão, através da estepe russa e iraniana, estavam na vanguarda do impulso dos Nórdicos na direção do Sudeste, na terceira fase do neolítico. 
               Valendo-se, também, dos estudos dos pré-historiadores poloneses Jazdezewski  e Antoniewicz, ou da escola antropolégica de Czekanowski, lahovary salienta que os Nórdicos introduziram-se no noroeste da Polônia saindo da Alemanha oriental, futuro centro de difusão da civilização "lisaciana", e se espalharam na direção do leste e sudoeste polonês; "Não se pode cogitar", diz ele categoricamente, "nem do ponto de vista da antropologia nem da arqueologia pré-histórica, de uma migração, durante o neolítico, partindo das estepes meridional ou da Ásia central, na direção do centro e do norte da Europa. As escavações realizadas na Polônia e na Maróvia são suficientes para provar que justamente no sentido oposto que se efetuou, nessa parte do nosso continente, a migração dos Indo-europeus."
                O indo-europeu comum, língua sintética reconstituída, comporta, por outro lado, termos designando a fauna, a flora e o clima de regiões temperadas, ou melhor, úmidas e frescas. Encontram-se no seu vocabulário palavras domo faia e olmo, que crescem em solo de aluvião e não existem além do Dnieper e da Crimeia; abelha, cuja criação é impraticável na estepe; salmão, inexistente no Mediterrâneo, no mar Negro e no mar Cáspio, porém abundante no Báltico e no mar do Norte. os indo-europeus antes de se dispersarem conheciam a agricultura, desconhecendo, porém, a videira. Portanto, conclui Lahovary, seu núcleo de origem só podia se localizar ao norte e a oeste da zona das videiras e das estepes, numa região úmida e com bastante bosques, situada na bacia fluvial do mar Báltico e do mar do Norte. 
                Para orientar a grande dispersão do "povo das origens" (Urvolk), ele propõe esse esquema: no limite oriental e sul-oriental do bloco indo-europeu, os "indo-arianos"; os "proto-Hititas" como ramo meridional; o grupo "celta-italiota" a oeste e sudoeste do núcleo inicial; os "Germanos-bálticos-eslavos" ao norte desse território, sem dele se afastarem muito, até aos primeiros séculos da nossa era. A dispersão dos indo-europeus se realizará obedecendo a estes quatro eixos. 
                 Por volta dos ano 20 a.C., os Cimbros,os Teutões e os Ambrões abandonaram a Dinamarca, onde grassava a fome e a deterioração do clima. Na mesma direção dos seus predecessores vândalos , seguiram a rota terrestre que conduzia ao baixo Oder. Passando entre os Suevos do Elba central e os Vândalos-burgúndios já estabelecidos, foram repelidos pelos Celtas Boiens, na Boêmia-Morávia, e atacaram os da Noréia, nos Alpes orientais, em 113 a.C. De volta ao vale superior do Danúbio, entraram na Gália através da planície suíça. Divididos em três bandos, derrotaram os Romanos em 109, 107 e 105 a.C., no eixo do Ródano, e saquearam Gália central e a Aquitânia.  expulsos da Espanha pelos Celtiberos, foram finalmente refreados pelo cônsul Marius; primeiro os Teutões, em 1023 a.C., perto do Aix-en-Provence; em seguida os Cimbros, em 101 a.C., na planície do Pó. Fuga dramática, seguindo um itinerário ilógico, e que só teve como consequência agitações e invasões locais. 
              Porém, em 75 a.C., os Suevos Hermiones, por sua vez, inciaram a marcha e se encontram com César. este lhes fornece um efetivo de 120.000 cabeças, ou seja, excluindo mulheres e crianças, restavam de 25.000 a 30.000 guerreiros. Sete povos, 100 pagi marcham com um "rei federal" a quem César concederá o título de rex Germanorum, rei dos Germanos: Ariovisto. 
            O chefe dos guerreiros suevos (suábios) tomou a iniciativa e o comando da emigração. Ele não planeja enfrentar Roma; seu objetivo é se estabelecer em terra gaulesa. Assim que atravessou o Reno, sua confederação recebeu o reforço de inúmeros Bárbaros. 
             O exército de Ariovisto aterroriza os espiões de César; eram homens de uma estatura gigantesca, de uma valentia incrível, com um treinamento também incrível. Entra-se em pânico assim que eles olham para o inimigo. Ninguém foi jamais capaz de enfrentá-los. 
               A confederação veio para intervir no conflito que envolve os Gauleses Éduos e Sequanos. Estes últimos cometeram o erro de recorrer a Ariovisto, cujo nome parece celta e que fala o gaulês. Logo que chegou, o rex Germanorum exigiu o primeiro terço das terras; em seguida, o segundo. Os Éduos, então, enviaram como embaixador a Roma um amigo de Cícero: o filósofo druida Divitiac. "-Caso se deixe Ariovisto com liberdade de ação", declara ele, "arrastará atrás de si todos os germanos, conquistará toda a Gália e em seguida lutará contra a Itália. 
              Para César o raciocínio é elementar; a anarquia gaulesa demanda um dirigente; é preciso, portanto, impedir que este dirigente seja germânico. Em 58 a.C., César e recebe do comício, pelo período de cinco anos, o pro-consulado, na Ilíria e na Gália Cisalpina. O Senado acrescenta a Gália transalpina, isto é, a província (a Provença, mais o Delfinado, a Savoia, as Cevenas e o Languedoc)  e os aliados da Gália independente. Éduos e Sequanos, Gauleses da Borgonha e do Franco-Condado reconciliam-se com o medo de Ariovisto, que pressiona os Helvécios no alto Reno e vem acantonar-se perto de Belfort. 
              Conforme seu hábito, o procônsul quer ganhar tempo. Encontra-se com ariovisto nas margens do Reno, e o censura por haver traído a amizade romana; (um ano antes,l o Senado conferiu ao Germano o título de amicus populi romani, (amigo do povo romano). 
              Ariovisto repele as condições de César e diz à sua tropa: " - Comigo ninguém ainda combateu se ser derrotado. Caso césar sinta este desejo, que combata! Então ele verá que espécie de heróis são os invencíveis Germanos que, preparados desde a juventude para o manejo das armas, há 14 anos não dormem debaixo de um teto!"
              Esta última característica é verdadeira, pelo menos no que se refere à sua guarda pessoal, instituição típica da realeza germânica. Entretanto, a partir de setembro de 58 a.C., César ataca na Ilsácia entre Fecht e o sopé dos Vosges. Ao fim de uma batalha especialmente violenta, Ariovisto vê-se obrigado a atravessar de novo o Reno. Por sua vez, César o atravessará em 55, 54 e 53 a.C. Estas manobras dissuadirão os Germanos de se envolverem nas revoltas gaulesas de 52 e 51 a.C. 
              Terminada a conquista das Gálias, as legiões estarão nas margens do Reno, frente aos Germanos ocidentais, que combaterão, desde Augusto até Maximiniano, o Trácio, os imperadores romanos. Porém, serão os Germanos orientais que desencadearão a ofensiva, no século II da nossa era. Conflito em três etapas. 
               A primeira fase, inciada com a batalha de Aix-en-Provense, será terminada quando Cláudio levar as legiões para trás do Reno e quando Adriano proteger-se no limes, a linha de fortificações da fronteira. Ou seja, quando os Romanos, após 50 anos, renunciarem ao "grande plano" de Augusto: a penetração da Germânia.
             A segunda fase, aquela da defensiva, terminará, no Oriente,  quando os Visigodos esmagarem, em Andrinopla, o exército imperial, no dia 9 de agosto de 370 d.C.; no Ocidente, no dia 31 de dezembro de 406 d.C., quando os Alanos, os Suevos e os Vândalos, em massa, atravessarem o Reno. 
             Na terceira fase a História sofrerá uma reviravolta, quando os Germanos dividirem entre si os restos do império. Germanos tiveram que enfrentar o expansionismo romano. 
                No dia 24 de agosto de 410 d.C., os Visigodos liderados por Alarico invadem Roma. 
              A cidade não tinha defesas. Dois anos antes, como prêmio da sua fidelidade ao império, o leal Stilicho havia sido assassinado, a mando do imperador Honorius, depois de haver, por três vezes, salvo a Itália. Uma conspiração de Galla Placidia , filha de Teodósio, e uma rebelião dos últimos elementos romanos do exército contra os componentes germânicos venceram a resistência de Stilicho. Honório havia dado ordens para retirá-lo da igreja onde se havia refugiado, em Ravena. O vândalo foi decapitado, assim como sua mulher e seu filho. Stilicho era ariano; a hostilidade dos católicos o destruiu, assim como destruirá Teodorico e o reino vândalo da África. 
             Nos seus "Nouveaux récits de l'historie romaine"(1864), Amadeu Thierry evoca a cavalgada dos Visigodos em direção à Urbs abandonada: "A marcha de Alarico indo invadir Roma sem resistência, no meio do silêncio da Itália, tinha algo de lúgubre e de misterioso. Ele mesmo parecia tomado por uma agitação crescente, á medida que se aproximava dos muros consagrados pela glória, pelo poder, e pelo respeito do mundo inteiro. Foi invadido por uma espécie de embriaguez sacrílega, que despertou em sua alma os instintos do Bárbaro, o orgulho da destruição, a ambição de terminar sob o fio da espada os destinos de uma cidade que se julgava eterna, finalmente a ideia de um saque estranho, único na história, o saque dos tesouros do universo, aí acumulados durante 10 séculos. Ao calor desses pensamentos inflados, sua imaginação exaltava-se; pensava ouvir, ouvia vozes que o haviam perturbado outrora na Panônia, na solidão dos bosques sagrados..." 
              Vindo dos Apeninos, uma anacoreta apresenta-se a ele e suplica-lhe para não "atentar contra a Cidade do gênero humano"; -"-Marcho contra minha vontade, responde Alarico. Existe alguém que me impele e grita sem cessar: Vá conquistar Roma!"
               Os Germanos não incendeiam a cidade. Pilham-na e a evacuam após três dias. Alarico morrerá três meses mais tarde, na Calábria. os homens da sua Gefolgschaft dar-lhe-ão uma das mais estranhas sepulturas em que descansa um rei godo: deviam o curso de um pequeno rio calabrês, o Buxentius (atualmente Bussêncio). No seu leito pedregoso, cavarão o grande fosso retangular ritual. Aí depositam Alarico, sua frâmea, sua longa espada, jóias, objetos para viagem e, com cereteza, o seu melhor cavalo, de acordo com o costume do Norte. Depois farão as águas voltarem para o leito do rio. E, a seguir, matarão os prisioneiros empregados nesse trabalho, para que nenhum italiano possa conhecer o local. Com o retorno do rio sobre a sepultura termina o  estranho ritual.
               Armínius (Armínio) chefe Germânico da tribo dos Queruscos, filho do chefe guerreiro Segimero. Foi comandante militar treinado pelos romanos; chegou a obter a cidadania romana, mas regressou à sua terra Germânia, onde veio reunir as tribos e expulsar o exército romano; sem ele os povos germânicos localizados a leste do Elba teriam sido romanizados; teriam tido, portanto, o mesmo destino dos seus compatriotas estabelecidos nas províncias romanas da alta e da baixa Germânia. Efetivamente, tem-se o direito de duvidar de que os germanos orientais houvessem sido capazes de representar o papel de protetores e conservadores da nacionalidade alemã. Armínio se nos apresenta com a primeira encarnação consciente do sentimento nacional (Volksgeist), e isto numa época em que entre os Germanos existia apenas um vago sentimento de dependência comum. Os sucessores por ele obtidos têm como causa essencial o seu  próprio talento. Assim, como foi pela força coativa da sua personalidade e pelo poder da sua palavra que conseguiu reunir elementos divergentes do seu povo, foi pelo seu gênio guerreiro que conseguiu alcançar a vitória - com guerreiros indisciplinados e mal equipados - sobre o exército bem superior do império universal de Roma, então no auge do seu poderio. Que a educação e o treinamento que ele havia recebido no serviço imperial tenham tido, nisso, uma influência, ninguém o pode negar. Durante muito tempo os Germanos celebraram a memória de Armínio através de cantos heroicos, porém, eles não chegaram até nós. O que dele sabemos, devemos aos próprios Romanos. Eles não negaram ao seu perigoso inimigo o reconhecimento dos seus méritos e ergueram-lhe um monumento digno nestas palavra do grande historiador romano Tácito: "Com certeza, ele foi o libertador da Germânia e atacou não o povo romano no seu início, como haviam feito outros reis e outros chefes, porém no apogeu da sua prosperidade." 
                  A era das ofensivas limitadas se incia com Vespasiano, que restaura a baixa Germânia e reforma, ativamente, de 70 até 79, as operações na alta Germânia. Entre 83 e 96, Domiciano romaniza o Neckar e o Jura Suábio, onde instala, em grande quantidade, colonos galeses: "A ralé dos gauleses", diz Tácito amargamente, "todos aqueles a quem a miséria conduz à audácia, apossou-se de uma terra cujo direito de propriedade era incerto; a seguir traça-se um limes, levam-se as guarnições um pouco mais adiante, e ei-los transformados em ponta de lança do império, e parte integrante de uma de nossas províncias."
                 Os Germanos livres, contemporãneos de Tácito, julgam que estão destinados a entrar na órbita do Ocidente romano, se bem que viviam ainda fora das suas fronteiras (ultra veteres terminos). Considerados como protegidos, os gentes externae só têm como condição obrigatória viver de acordo com a paz imperial. Em Roma, ninguém conhece o Estado verdadeiro do interior da Germânia, no fim do século I da nossa era. A atenção voltada para as agressões dos Sarmatas e para a expansão dos Dácios, a Urbs, a Cidade, não desconfia das agitações dentro do mundo germânico. 
                   O despertar é violento. Em 88 e 92, os Germanos , Quadros e Marcomanos se revoltam no Danúbio, aliados aos Iranianos; os Sarmatas Iaziges. O imperador Domiciano, pessoalmente, com a célere vigésima primeira legião vinda da germânia, apoiada pelos vexillationes retirados das cinco legiões da Mésia, os enfrenta, com dificuldade. por ocasião da sua morte (18 de setembro de 96), nove legiões defendem a fronteira da Panôma, a mais ameaçada do império. Rota luta desesperadamente para manter-se. Tácito constata: "Roma não mais combatia por suas fronteiras, mas apenas pela posse de suas províncias." Nesse caso,a da Iliria. 
                 Entretanto, o motivo escapa a Tácito. Roma não percebe que, se o sangue corre no Danúbio, é por causa das migrações internas do mundo germânico. Segundo Reynold: "Retirando-se para a fronteira do reno e do Danúbio, o império deixava aos Bárbaros um vasto espaço para congregação, de onde podiam dirigir-se tanto na direção oeste como na direção leste, contornando o obstáculo dos Alpes e agarrando a Itália numa tenaz. A posição central da Germânia permitia esta manobra na fronteira interna, enquanto que os Romanos deviam se dispersar numa fronteira externa sinuosa, da Grã-Bretanha até o mar do Norte. 
            De 101 a 1023, depois de 105 até 106, Trajano enfrenta os Dácios; nesse meio tempo, fortifica o médio Danúbio. A destruição total do reino dácio corresponde ao desejo de transformar o Danúbio na principal fronteira europeia do império. Efetivamente, a partir de 90 é nesta fronteira que os Germanos atacam, e não no Reno. Lá, visam, "não mais aos limes e à margem de um rio, mas aos acampamentos das legiões e às próprias províncias. Depois de 106, Roma está em melhores condições para expulsar os Germanos da Boêmia. Mas o apogeu da expansão romana na Europa . Por toda parte,  as legiões esbarram nas instáveis fronteiras germânicas. A partir de 150, sofrerão diretamente as consequências das inquietações do interior da Germânia. Entre Roma e os Bárbaros louros, já não existe a barreira de outros povos. 
              O Império se mobiliza na defensiva, mas não mais nas costumeiras ofensivas.
               De 117 até 160, fixa suas fronteiras. Adriano liquida com as revoltas do Danúbio; constrói na alta Germânia um limes (limitações fortificadas) monumental, cercando o território desde o Tauno até Ratísbona; porém, não é mais uma rota militar fortificada e dirigida para o exterior, mas uma fronteira de muralhas, imensa (para demarcar) "com  a preocupação de economizar, por meio de obras engenhosas e de pequenas guarnições, os efetivos dispendiosos de um exército imperial, requisitados para outras tarefas ou para guerras em outras fronteiras ainda contestadas ou mas fixadas". 
              O  Exército já é menos eficaz do que acreditam os imperadores, inconscientes do perigo germânico, no século II. Por ocasião da morte de Adriano, em 132, o limes da Ilíria garantiu o império; o da Germânia significa apenas o fim das conquistas romanas. Antônio manterá a ordem nas fronteiras demarcadas. 
                  E, em 166, o autor de "Vie de Marco Aurèle" mostra a Itália invadida "não somente pelos Marcomanos e Victoralos, como também por outros evadidos pelos bárbaros do Norte que os empurravam para a frente". Eutrópio, por seu lado, cita: atrás dos Marcomanos, "os Quados, os Vândalos, os Suevos e toda a barbárie". 
              Essa penetração germânica ficou obscura, devido a dados arqueológicos inconsistentes e ausência de textos. Uma única certeza: os Germanos orientais puseram-se em marcha, e empurraram os Germanos ocidentais. 
               Os Godos, expulsos do Vístula com o desembarque dos Gépidas vindos, como eles, da Suécia meridional, invadiram a Ucrânia. expulsos pelos Gépidas, os Burgúndios do Vístula reúnem-se aos da Pomerânia; a nova densidade do grupo o impele para o território dos Semnones, que por sua vez penetram entre os Suevos da saxônia. os dois grupos vândalos separam-se: os ocidentais (Silings) na Silésia, os orientais (Hasdings)m na Galícia, e de lá, através dos Cárpatos, até as fronteiras dácicas. Por toda parte surgem no limes Bárbaros deslocados; eles pretendem estabelecerem-se  em terras do império, sob a ameaça da espada. A conjuntura continuará incerta até 238. 
              A primeira grande "guerra germânica" desencadeia-se de 169 a 174. Marcomanos e quadros atravessa os limites do Danúbio e precipitam-se sobre o noroeste da Itália. O pânico toma conta de Roma no verão de 169. Marco Aurélio, antes de ser afastado por Pompeiano e pelas tropas da baixa Polônia, mobiliza os escravos e recruta os Germanos. No outono de 174, a brecha, aberta pelos invasores, é fechada. Porém, em 177 eclode uma segunda guerra entre os Quados e Marcomanos que termina em 180. Uma coluna de 100 pés romanos, erguida erguida pelo Senado e pela vontade do povo, fixará no bronze o sofrimento de Roma e o espantoso sucesso dos Germanos. Depois da guerra civil de 193, Sétimo Severo exerce uma enérgica vigilância nas fronteiras. Porém, é na Bretanha que terá mais  dificuldade em reprimir as tribos da baixa Escócia. De 211 até 217, Caracala, outro "imperador militar", simulando vida de soldado, combate na alta Germânia uma nova formação, os Alamanos. De 217 a 238, Severo Alexandre e depois Maximino, o Trácio, travam contra eles, os últimos combates nesta zona. A defesa externa parece restaurada por algum tempo. É uma ilusão; os inumeráveis golpes de Estado militares aumentam a desordem interna e apressam a decadência da Urbs.
                 Em 238, surgem os Germanos orientais, na longínqua região do baixo Danúbio, nas costas do mar Negro, perto das cidades gregas pônticas. São os Godos que terminam sua migração norte-sul. 
                 O mundo germânico do século II é um caos em fusão. As antigas confederações culturais mencionadas por Plínio e Tácito estão desagregadas.  
A partir do fim do século II, aparecem novas formações, de cunho mais militar: no mar do Norte os Caucos tomam o nome de Saxões; os povos da Alemanha central se reagrupam sob o nome de Alamanos; as tribos, do lado oposto ao limes do baixo Reno, formam o povo dos Francos e dão nova vida à antiga tradição da Germânia ocidental marítima. No século IV, os Hermunduros serão substituídos pelos Turíngios. No século V, aparecerão os Bávaros. 
                Paralelamente, a Escandinávia meridional é sacudida por movimentos surdos. Na Jutlândia, aparecem os Jutos e os Dinamarqueses. A partir de 285, piratas vindos da Alemanha e da Dinamarca pilham as costas da Gália, da Bretanha e da Espanha setentrional. 
                  Em meados de 250, o império se encontra diante de uma nova Germânia; a leste, a migração gótica, a oeste, os Germanos do mar do norte e aqueles e Elba, vindo reforçar e congregar os antigos Bárbaros das fronteiras. Contra estes últimos, o limes estava preparado. Mas não contra os novos povos. 
                  Começam, então, as usurpações internas dos próprios bárbaros do império. 
                  Entre o verão de 259 e o de 260, as incursões dos Alamanos e dos Francos percorrem a metade oriental da Gália. É a primeira grande invasão bárbara em país germano-romano ou galo-romano. As invasões intensificam-se em 275 e 276. Em 285, a Gália escapará, por um triz, da destruição. 
                Apesar de Roma conseguir conter a migração dos Godos, não consegue expulsar os Alamanos dos Campos Decumatas, nem os Francos do Reno e da Meuse. Então, estes povos passam , em grande número, para o serviço do império. A partir de Probus, os imperadores sistematizam a incorporação dos germanos no exército e, segundo o método de marco Aurélio, a transferência  dos vencidos (dediticii) para o interior das províncias. 
                 Assim se inicia e se acelera a barbarização da pars occidentis, o império romano do ocidente. Probus inclui 16.000 alamanos no exército da fronteira ocidental. Aureliano já engajou Vândalos no exército central de campanha. Prisioneiros e povos inteiros, vencidos, são introduzidos como colonos nas regiões conquistadas. A função dos camponeses gentliles será cada vez mais importante. Osório (VII, 41) pensa que "os Bárbaros, abandonando suas espadas, voltaram-se para a lavoura, vivendo em paz com os Romanos". De fato, seus enclaves e sua importância crescem em proporção geométrica para alcançarem a situação descrita por Camille Jullian: "Não é o Bárbaro da fronteira que terminara com o reino de Roma, através de uma conquista do exterior, quebrando as estrutura do império com um golpe de violência; é o Bárbaro do interior que desarticulará o império com uma usurpação de dentro por uma espécie de partilha antecipada da herança , em benefícios de filhos adotivos e de legatários impostos. 
               O que Tácito não pode prever é a mutação militar dos Germanos orientais. Estes aprendem com os Sarmatas, nômades iranianos saqueadores e cavaleiros, novas técnicas e uma outra tática. Quando os Godos, em 250, atacam em Philippopolis Julius Priscus, legado da Trácia e da Macedônia, portanto, um pique curto em ferro, ou "frâmea", que substitui a antiga lança germânica de ponta endurecida ao fogo, estão armados com a spatha, longa espada flexível e resistente, de lâmina de Damasco, preparada com a soldadura de diferentes aços, nas  oficinas sarmatas da Crimeia. Substituíram o grande escudo hexagonal da infantaria germânica pelo escudo oval dos cavaleiros sarmatas, de largo umbo e rebites chatos. E estas novas armas, levadas ao Norte pela "corrente cultural gótica", desde o início do século III, chegaram até Elba e ao Vístula, onde todos se entusiasmaram com as grandes espadas iranianas. Da mesma forma que se encantam com as novas fíbulas "de pés revirados", os copos de vidro ornados de filamentos, os vasos com caneluras e os objetos do artesanato pôntico. 
                   Em Roma ainda não se sabe, porém, a "longa marcha" dos Godos colocou-os por uns tempos num novo núcleo de barbarismo. Suas armas e suas jóias criando as tradições nórdicas, o cloisonné iraniano e os motivos de animais das estepes, seguem a antiga rota do sudoeste em direção ao noroeste europeu. Os Godos, sempre à procura de terras férteis  e de novos locais para se fixarem, tornam-se os novos Germanos, dos quais o império vai conhecer o poderio e as exigências. 
               Isto e´, a dos seus reis. Porque, aí também, a migração dos Germanos orientais modificou e diferenciou os seus costumes daqueles dos Germanos ocidentais. De acordo com o esquema, já conhecido, da estrutura social germânica, suas subdivisões importantes são guerreiras: a hierarquia é solidificada pelo regulamento guerreiro (Gefolgschaft, comitatus), que prende ao chefe, por juramento, um grupo de jovens combatentes. Em tempo de paz, o poder pertence à assembléia dos homens livres (antigo alemão mahal, escandinavo thing) reunida periodicamente ao ar livre nas planícies ou nas clareiras. Em tempo de guerra, e nos limites habituais, o chefe, hereditário ou eleito, detém um poder quase absoluto. 
                   Tácito, o latino, fica perplexo diante dessa democracia guerreira, totalmente alheia ao mundo jurídico e moral greco-romano. Porém, a realidade, em transformação, ainda é mais complexa do que ele o imagina. Entre os Germanos orientais, ao ritmo da marcha através da Rússia meridional, a função da realeza predomina cada vez mais: no turbilhão dos povos continentais, aqueles que o destino empurra mais longe vão privilegiar seus clãs reais e seus "mitos de fundação", para firmar-se espiritualmente no Norte primordial, enquanto que a energia germânica os projeta para frente.
               E, com a instituição da realeza - os Godos e os Vândalos terão durante muito tempo dois reis para cada povo - a Gefolgschaft muda de significação.(O dualismo da função mdivina de soberania é atestado nas origens indo-européias; daí a razão da germinação real.   A dos Germanos orientais transformam-se numa aristocracia guerreira, cujos "comitês", ligados à pessoa dos chefes, lhes concedem a precedência nas assembleias do mahal. Entretanto, nem os Godos nem os Vândalos suprimem as assembleias. Assim como os Germanos ocidentais não ignoram a Gefolgschaft. Nenhuma regra exclusiva é obedecida; somente o costume prevalece. 
              "Vê-se", diz Musset, "o abismo que separa o mundo germânico da sociedade romana: o primeiro, impulsionado por um singular dinamismo, porém unicamente rural, praticamente iletrado, sem uma verdadeira organização estatal; a segunda, um pouco decrépita, fundamentada sobre a cidade e o direito escrito, e submetida, após Diocleciano , à opressiva autoridade de uma burocracia totalitária." 
                Por trás da geografia política, os homens e a Germanização do vocabulário romano. 
                A grande "marcha dos povos" repeliu para o Oeste e para o Sul as fronteiras da germanização. Sua linha de demarcação linguística, tal como a podemos escalonar a partir do século XII, parte de Boulogne-sur-Mer e passa por Lille, Turnai, Maastricht, Ardenne, os Vosges e a porta de Borgonha, onde o frâncico cede lugar ao alemânico. 
                 Ao sul dessa linha, o onomástico franco transborda, segundo a expressão de Lot, "uma torrente de palavras no vocabulário romano": termos de combate (guerra, esgrima, espionar, vigiar, ferir) de armamento (elmo, cota, espora, estribo), de vestes e adornos (vestido, xale), de direito (banho, penhor, interpretar, afiançar, cessão, alódio, feudo) de habitação e mobiliário (banho, penhor, aldeola, torre, poltrona, banco), de alimentação (bolo, favo, assado), de diversão (dança, harpa). 
            E também termos mais profundos, correspondendo a uma visão do mundo especificamente germânica: (floresta, bosque, cerca, caniço, lúpulo, trigo, feixe, bode) ou, sobretudo, (branco, azul, louro, moreno, cinza, pálido). Com os quatro pontos cardeais Oeste, Leste, Sul e Norte. Porém, estes quatro nomes, que dispomos em flechas, orientam os mares do Norte, somente adquirirão importância depois da entrada, na Normandia, do Vikings escandinavos.

Os Habsburgos e a Suíça

               A história da Europa, em todo o período da baixa Idade Média, é como uma imagem caleidoscópica em contínua mutação: pequenos ou grandes países nascem  ou são absorvidos por vizinhos, novas dinastias brilham com imprevisto fulgor e velhas extinguem-se; as fronteiras dilatam-se ou estreitam-se, seguindo a sorte das guerras ou das heranças soberanas. A Germânia, imenso mosaico de feudos e de influências dinásticas, foiu tal como a Itália e a França, teatro, durante muitos séculos, de contínuas modificações territoriais e institucionais, de maneira que sua história é nada menos do que o resultado de vicissitudes paralelas às de muitos países alemães. 
                De um rochedo que erguia suas torres férreas sobre as margens do Aar, perto de Zurique, surgiu, lá pelos fins do século XII, uma dura estirpe de feudatários, a quem o destino assinalava, no futuro da Europa, um excepcional papel: a família dos Habsburgos. Rodolfo I, fundador da grandeza da casa, tronou-ser rei da Germânia e logo deu a entender aos soberanos menores, desde a  Alsácia até a Boêmia, que o período fluído da anarquia terminara, e que uma poderosa força de vontade dominava novamente os povos germânicos. Para seus filhos, Rodolfo conquistou a Áustria e a Lstíria; dessa época em diante, durante mais de seis séculos, o nome dessas regiões permaneceu indissoluvelmente ligado ao dos Habsburgos, que, do reno, mudaram o centro da gravidade para o Danúbio. Viena tornou-se a capital do Germanismo oriental, o posto avançado da civilização alemã e católica no leste europeu e os Habsburgos foram a alma e o guia deste mundo, que, pouco a pouco, se foi tornando sempre mais diferente daquele nitidamente germânico, mais rude e guerreiro. Além disso, salvo algum período inicial, os Habsburgos conservaram até à era moderna o título  e o poder imperial, tanto assim que o nome de sua casa e o do Sagrado Império Romano se confundiam.  
                  O título imperial, a princípio, não era exclusivamente hereditário, mas concedido eletivamente pelos maiores senhores da Germânia, os chamados "grandes eleitores" e assim ocorreu que , por mais de uma vez, ao herdeiro por direito de sangue fosse contraposto, pela facção adversária, o soberano de outra dinastia e, após a morte de Rodolfo I, cujo filho, Alberto, precisou combater longamente para conservar o trono, e por ocasião da morte do próprio Alberto, ao qual sucedeu Henrique XII, de Luxemburgo. Os chamados "Grandes eleitores" do império se reuniam em assembleia. A sucessão do império era atribuída, além de razões de ordem dinástica, à decisão dos maiores feudatários germânicos; acontecia, por isso, que o herdeiro por direito de sangue, fosse contraposto o de outra dinastia. Estas desordens, naturalmente, não traziam proveito ao poder dos imperadores; a casa de Habsburgo saiu delas bastante abalada e sua estrela, então nascedora, ficou por algum tempo ofuscada. Devido a isso, alguns dentre os mais antigos vassalos da família aproveitaram-se da oportunidade para se libertarem do jugo austríaco e da opressão dos governadores incumbidos de administrá-los.
                  Na batalha de Sempach em 1386, Arnoldo de Winkelried, atirando-se sobre as lanças austríacas e prendendo-as num feixe permitiu a seus homens abrir uma brecha nas forças inimigas; a rebelião alastrou-se, e grande parte do território imperial se abriu definitivamente da hegemonia habsburguesa, constituindo aquele modelo de república independente, que é a Suíça. Como principiou o movimento, não se sabe bem ao certo. Embora se trate de pura lenda, é agradável, todavia, recordar que, realmente, o feroz governador Gessler houvesse ameaçado de morte a quem não lhe cumprimentasse o chapéu, pendurado numa encruzilhada. Um altivo montanhês, Guilherme Tell, infalível atirador, recusou prestar a ridícula homenagem aop símbolo do poder austríaco e, por isso lhe foi ordenado, sob penas de morte, trespassar, com uma flecha, uma mação colocada sobre a cabeça de seu filho, ainda criança; dizem que Guilherme Tell, após realizar a prova, matou o próprio Gessler, com uma segunda flecha bem atirada. 

O gesto do obscuro arqueiro teria sido o sinal de início da revolta; na planície de Ruttli, ou Gruttli, às margens do lago de Lucena, reuniram-se, numa noite de tempestade, os representantes dos cantões da Uri, Schwyz e Unterwalden e juraram defender sua independência até ao último homem. 
              Contra os insurretos, partiram várias vezes os soberanos austríacos, mas, primeiro nas gargantas de Montgarden em 1315, depois junto às  muralhas de Zurique, as aguerridas tropas germânicas sofreram fortes derrotas, graças à queles poucos , mas tenazes montanheses, que tinham resolvido vender bem caro sua liberdade. Aida por duas vezes a brilhante cavalaria imperial tentou dominar os rebeldes, mas em Sempach o  heroísmo de Arnoldo de Wikelried desbaratou a carga dos cavaleiros suevos e, em 1388, em Naefels, idêntica sorte coube ao exército de Leopoldo IV da Áustria. 
                 Com as vitórias de Sempach e Naefols, ficou estabelecida a independência helvética. E, dessas horas de perigo e sangue, nasceu realmente a Confederação Helvética, uma feliz união de homens rebeldes a qualquer autoridade estrangeira, de homens fortes como suas montanhas que, no imenso silêncio das pastagens alpestres, na vasta solidão das geleiras, sempre haviam respirado o vento da liberdade. E, durante sete séculos, a Suíça permaneceu livre e intacta, ao centro de uma Europa devastada pelas guerras, sacudida pelas ambições dinásticas, ensanguentada pelas lutas religiosas: símbolo perene daquelas fraternidade universal que deveria ser o supremo objetivo dos homens. 
                  Como vimos, a família dos Habsburgos assumiram gradualmente uma posição de predomínio entre os grandes feudatários e apoderaram-se da dignidade imperial; vimo-la adquirir imensos territórios, desde a Suíça até a Boêmia, e perdê-los gradativamente devido á rebelião dos súditos. Das lutas pela independência suíça já falamos; a Boêmia caída, com o resto do Império, sob o domínio dos Luxemburgos, depois da arrancada nacionalista provocada pelo verbo de Huss, tornara-se novamente um domínio habsburgês, mas inseguro, em que fermentavam pruridos de revolta. No extremo ponto oriental do mundo germânico, florescia, desde séculos, o reino da Hungria, que, depois do advento dos Turcos no Oriente próximo, tornara-se baluarte da cristandade contra a iminente ameaça muçulmana; e até, em 1241 sobe ao reinado de bela IV, ele sofrera a desastrosa descida dos Mongóis que, felizmente não se haviam atirado mais para ocidente. A Hungria era, então, e assim permaneceu praticamente até o século XV, um país em que as leis e a autoridade soberana não passavam de simples expressões verbais; nas cidades e nos campos, aqui mais ainda, pontificavam os senhores feudatários, donos de imensos latifúndios e de inumeráveis servos da gleba. Desde o início do século XIV, a Hungria começara a imiscuir-se na política européia, isto é, desde quando o trono passava para um ramo de dinastia de Anjou; ligada sempre aos destinos húngaros esteve a Boêmia e, ao tempo de Luis I, eleito rei em 1342, também as Polônia. 
               O rei Luis interveio também na Itália, lançando habilmente suas cartas na luta perene entre Gênova e Veneza e conseguindo apoderar-se da Dalmácia e de Treviso. Aos da casa de Anjou, sucederam-se os Habsburgos, com várias e frequentemente, desfavoráveis peripécias; as notáveis aquisições de prestígio e de território conseguidas pelos de Anjou, foram em grande parte perdidas no decorrer destas mutações dinásticas,  e o próprio progresso espiritual da Hungria, que se ressentira beneficamente em contato com os latinos da Itália, sofreu uma brusca parada.  Eis, então, os Habsburgos novamente no poder, pelo menos nominalmente, sobre vastos territórios húngaro-boêmios; dizemos nominalmente porque, como a Boêmia se encontrava angustiada pelo movimento hussista, que, praticamente anulava a autoridade dos Habsburgos, assim a Hungria se achava em contínua polvorosa devido às frequentes incursões dos Turcos. Foi então quer das nobres famílias dos magiares, guerreiros e cristãos por vocação, emergiu a grande figura de Janos Hunyadi, vovoda (Governador  da Transilvânia); vemos Hunyadi em Milão, no séquito do rei Sigismundo de Luxembrugo, já aureolado, por uma glória lendária, admirado pelos Italianos, que o denominavam "o cavaleiro branco". 
             O lendário valor de Janos Hunyadi, valente e hábil tanto na guerra como na paz, fez dele o herói nacional húngaro. Graças à sua ajuda, foram contidas as frequentes incursões dos Turcos no oriente europeu. Finalmente, vamos reencontrá-lo, já septuagenário, mas ainda animado por uma extraordinária e juvenilíssima energia, em sua última empresa, perto de Belgrado, onde inflige outra de suas muitas derrotas aos otomanos. Corria o ano de 1456; dois anos depois, tendo vagado a trono da Hubngria que, no entanto, pertencia nominalmente a Frederico II de Habsburgo. Surgia, então, o jovem rei Matias Corvino, filho de Hunyadi e com apenas 18 anos, cuja belíssima política do pai aplainara o caminho do poder. Se jamais existiu homem digno de uma herança de glória, este foi Matias Corvino, que arrancou, de fato e de direito, ao seu rival austríaco, a coroa de Santo Estêvão, invadindo a Áustria e chegando a ocupar Viena, sabendo conquistar a estima e a aliança dos soberanos europeus e do próprio Papa; rechaçou os selvagens guerreiros do sultão Maomé II das muralhas de Belgrado e conservou à distância a ameaça turca, enquanto viveu. A Hungria respirou, graças a ele, e pura atmosfera de cultura latina, onde conseguiu bibliotecas, imprensa, que então era invenção muito recente; fez leis e acima de tudo justiça tanto para o humilde como pára o poderoso. À sua morte em 1490, o reino passou para a dinastia boêmia dos Jagelons e, daí, novamente para os Habsburgos, mas o povo húngaro já se libertara das últimas incursões dos bárbaros e possuía consciência de seu próprio valor. 

Os Países Baixos
                  Nas costas da Europa setentrional, batidas constantemente  pelos vastos mares do Atlântico, um povo de camponeses e marinheiros luta, desde séculos, contra a iminente ameaça das águas, arrancando ao mar, pedaço a pedaço, a terra que deve sustentá-lo. Talvez tenha sido justamente essa perene luta contra o elemento adverso, essa permanente sensação de instabilidade, diante do cego poder, sempre pronto a atirar-se sobre seus campos e seus lares, que conservou unidos durante tantos anos aqueles homens de raça tão deferentes e tendências tão várias; e foi certamente a pobreza de sua economia e a crônica precariedade de sua situação que retardaram o desenvolvimento político dos Países Baixos, adiando-o até ao florescer da época moderna. Durante a inteira Idade Média, na verdade, depois da dissolução do império carolíngio, a região não teve uma organização unitária dividida como se encontrava em tantos feudos de diversa importância, e sua história, naquela época, assemelhava um pouco com a história italiana, com as mesmas lutas entre os senhores e a burguesia das cidades, entre oligarquia mercantil e corporações de artesões. Os condado de Flandres, de Artois, de Brabante, de Limburgo, e os feudos menores gravitaram sempre mais, entre os XII e o XII séculos, na órbita dos interesses franceses, embora permanecendo ligados, comercialmente, comercialmente, também à Inglaterra, especialmente no que diz respeito à indústria de  lã; ao mesmo tempo, algumas entre as grandes cidades da região, como Gand, Antuérpia, Amsterdã, Leyda, com a intensificação do tráfico mercantil, assumiam uma autonomia cada vez maior, elegendo uma espécie de governo próprio e libertando-se da oprimente autoridade dos feudatários. Estas cidades encontram-se, bem cedo, em condições de concorrer, seja nos privilégios portuários  sejas nos mercados,  com as frotas da Liga Hanseática, ou seja, com as cidades costeiras da Alemanha do Norte, de Hamburgo a riga, que se haviam coligado para se assistirem reciprocamente no comércio de além-mar. A liga Hanseática assumira, de fato, e também, em parte, de direito, a importância de um verdadeiro estado, de um estado sem território, mas dotado de imensas riquezas e com a frota mais numerosa que corresse os mares de então, pois nos conselhos anuais da Liga, que se desenvolviam em Lubeek, tomavam parte representantes de longínquas estações comerciais, como Bergen e Novgorod, e até mesmo observadores enviados pelos reis da França e da Inglaterra; os bancos emprestavam dinheiro à Liga a juros de 5%, índice de crédito ilimitado de que ela gozava, pois os mais poderosos soberanos a muito custo o conseguiam a juros de 12%. Contra o poderio marítimo desta liga, foram esbarrar as cidades holandesas e se, a princípio, procuraram-lhe o apoio, mais tarde obstacularam-lhe abertamente os negócios, promovendo contra a frota hanseática uma verdadeira guerra. É natural que uma região destinada a tanta properidade, não só agrícola, (as obras de engenharia, com diques e moinhos tinham estendido de há muito a região das terras conquistadas ao mar e a criação de gado progredia em escala sempre crescente) mas sobretudo comercial, constituísse um bocado apetitoso para as nações vizinhas: os reis da França, de Filipe, "o Belo", a Carlos V, procuraram, repetidamente, anexá-la, mas peripécias bélicas e rebeliões locais não deixaram nunca  perdurar tal domínio. Em fins do século XVI, o condado de Flandres, que compreendia grande parte dos territórios da Holanda e Bélgica, passou para Filipe IV, "o Ousado", duque de Borgonha e irmão do rei da França; este procurou reunir sob sua bandeira todos os condados menores e as cidades livres, às quais, todavia, foi obrigado a conceder certa autonomia; nos primeiros decênios do século seguinte, passaram, para os duques de Borgonha, o Artois, o Brabante, o Luxemburgo, a constituir um país tão vasto e poderoso que poderia competir com armas iguais com a própria França. 
                 É sabido, e também muito lógico, que a grandeza artística de um povo coincide, geralmente, com o período de sua maior prosperidade econômica. A escola flamenga deu, do s´peculo XV em diante, artistas de excepcional valor, tais como os irmãos van Eyck, van der Weyden, Merling; com eles, Antonelon da Messina aprendeu o uso das cores em óleo e introduziu-o na Itália. 
                Nas turbulentas cidades flamengas e holandesas, densas de vida nova, regurgitantes de mercadorias e marinheiros de toda parte, na corte dourada do Duque de Borgonha, uma das mais ricas da Europa, florescera, no século XV, os primeiros artistas nórdicos; ourives de técnica requintada e preciosa, miniaturistas delicados, pintores de excepcional vigor criador. Foram, a princípio, os flamengos, em contato direto com os esplendores da corte de Borgonha, que criaram uma escola; os irmãos van Eyck, em cujo atelier nasceu a pintura a óleo, Roger van der Weyden, Hugo van der Goes, Justo de Gand, Hans Nemling, aos quais se seguiram os holandeses DirickBouts e Lucas de Leyda, são artistas de tamanha estatura que podem ser comparados, sem favor, aos mestres italianos da época, de cuja benéfica influência se aproveitavam. 

                   Também a Alemanha, em fins do século XV, começava a dar sinais de vida artística e cultural. As primeiras manifestações de arte genuinamente alemã foram aquelas composições poéticas surgidas entre as confrarias de artesões, de Mestres cantores,dentre os quais famosos foram os Mestres de Nuremberg. 

A Áustria e Maria Teresa de Absburgo
                   Desde o século XII, isto é, desde quando Rodolfo de Habsburgo, elevara os destinos de sua Casa acima de qualquer outra família européia. Áustria e Império tinham sido como que sinônimos. Mesmo depois da morte de Carlos V, o soberano que enfeixava em suas mãos o mais vasto império do mundo, a coroa de Carlos Magno permanecera na cabeça dos Habsburgos. 
                A perda dos domínios espanhóis, o predomínio da monarquia francesa no Ocidente e a crescente independência e poderio dos principados germânicos, dentre os quais pontificava o Eleitor de Brandenburgo, compeliram, insensivelmente, a Áustria a dirigir suas miras expansionistas e sua esfera de influência para o sul e o oriente europeu; do oriente, porém, gravava sempre ameaçador o poderio turco, que impelira suas vanguardas ao longo do vale do Danúbio.  As diversas coalisões a que a Áustria se encontrou ligada, as numerosas guerras e guerrilhas em que se encontraram empenhadas as tropas imperiais durante o século XVII, absorveram apenas a menor parte dos cuidados dos Habsburgos; era rumo à Itália e aos Bálcãs que suas forças políticas e militares concentravam os maiores esforços. A vitória de Zenta, obtida em 1697, graças ao príncipe Eugênio de Sabóia, truncou para sempre as veleidades dos Turcos, que, catorze anos antes, haviam avançado até junto às muralhas de Viena; os Tratados de Utrecht deram ao Império, e portanto aos Habsburgos, os Países baixos e toda a Itália meridional. Esta última ficava perdida poucos anos depois; à Áustria, todavia, permanecia, na península italiana, o Lombardo-Vêneto e o controle efetivo sobre a Toscana, onde reinavam os Habsburgos-Lorena. O nome dos Habsburgos-Lorena leva a pensar naquela que foi talvez a maior figura surgida no trono austríaco, nos últimos séculos, uma mulher que soube reger, com firmeza mais que viril, um império composto  de um amontoado de povos heterogêneos, aos quais ela soube dar aquela coesão e aquele inequívoco que os tornaram um dos maiores estados da era moderna. Carlos VI, último imperador da Casa de Habsburgo, morrera em 1740, sem deixar herdeiros masculinos; com a morte de seu primogênito Leopoldo, ele elevara aquela "Pragmática Sanção" que tornando válida a sucessão, nos domínios da Casa de Áustria, também em linha feminina. estava destinada a provocar um vespeiro de lutas diplomáticas e guerra. Realmente, por força do novo estatuto, subia ao trono da Áustria uma mulher, Maria Teresa,que tinha desposado, alguns anos antes, Francisco Estêvão de Lorena; este, logo depois do casamento, tinha sido eleito Grão-Duque da Toscana, após a extinção dos Médicis, mas não permanecera na Itália por muito tempo. A ascensão de maria Teresa ao trono provocou, como se viu, a imediata reação dos príncipes europeus, entre os quais se destacava Frederico II da Prússia; na hora de extremo perigo, a rainha solicitou ajuda à nobreza húngara, que primava pela coragem e lealdade e cingido, num congresso solene, a coroa de Santo Estêvão, conseguiu arrastar para seu lado o coração e as forças do povo magiar. Da guerra da Silésia (que custou à Áustria a perda daquela rica província, que foi aumentar a grandeza do estado prussiano) e da guerra chamada dos "sete anos", que viu empenhadas as forças de meia Europa; mais do que a política externa de maria Teresa ou das campanhas militares conduzidas pelos seus generais, é oportuno acentuarmos a sua obra legislativa, que fez da Áustria um estado moderno no mais amplo sentido da palavra.  Moderno, que fique claro, somente sob o aspecto administrativo, militar e financeiro. 
                   Em muitos países da Europa, vigorava ainda o regime de servidão, no século XVII. A tentativa do governo austríaco de melhorar as tristes condições dos camponeses provocou resistência de partes dos senhores boêmios e, em consequência, uma grande revolta dos servos, na Boêmia e na Morávia em 1775.  Maria Teresa estava muito ligada às tradições feudais de sua Casa para poder admitir certas formas de igualdade, que nem mesmo a Revolução Francesa poderia impor; a servidão da gleba, inconcebível prática da Idade Média, que permanecerá quase inalterada em todos os países da Europa, com exceção da Itália, foi abolida somente pelo sucessor de Maria Teresa. A soberana conseguiu imprimir uma ordem legislativa uniforme a todos os povos diferentes pelo idioma e tradições, que viviam em seus domínios;lançou as bases de uma política honesta e regular, aquela política econômica a que a Lombardia e o Vêneto devem boa parte de seu atual bem-estar; criou escolas técnicas e grandes indústrias, libertando a produção dos bens de consumo dos entraves corporativos e da estrutura artesanal que pesava sobre eles desde muitos séculos. Em matéria de religião, Maria Teresa deu provas de ideias bem pouco liberais; apesar da caçada aos Jesuítas, devida a  um conjunto de fatores políticos, foi fervorosa católica e tornou dura a vida dos Protestantes; todavia, procurou,também, desembaraçar os sacerdotes austríacos a de uma estrita dependência de Roma e diminuir a ingerência do Papa nos negócios de seu Reino. Em 1870, quando Maria Teresa faleceu, a Áustria era, certamente, o organismo estatal mais sólido e melhor organizado da Europa continental. 



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domingo, 3 de maio de 2020

A LINGUÍSTICA DOS INDO-EUROPEUS E SEMITAS


DISPERSÕES LINGUÍSTICAS
                As línguas do mundo moderno estão divididas em várias famílias, incluindo as indo-européias, que vão do sânscrito e persa, em um extremo, ao grego, latim, francês, alemão e inglês, no outro. A palavra "pai" ("pater" em latim, "pitar" em sânscrito), por exemplo, é pronunciada de maneira semelhante nas línguas do grupo. As mais antigas formas escritas do indo-europeu são textos do 2º milênio, da Grécia, em micênico Linear B, e da Turquia asiática (Anatólia), escritos por povos como os hititas e luvitas. Há ainda referências esparsar em textos contemporâneos da Mesopotâmia sobre a tribo Mitani, que contém nomes pessoais do indo-europeu. Pensava-se que as línguas indo-européias haviam se difundido pela Europa a partir das estepes, no 3º milênio a.C. . Mas agora acredita-se que os primeiros agricultores da Europa falavam essas línguas. 
            A disseminação da agricultura na Europa tomou dois caminhos. A sudeste, nas planícies centrais e nos vales dos rios Danúbio e reno, grupos de agricultores se deslocaram pelos vales e montanhas trazendo a nova economia e língua. Talvez no 5º milênio a.C. o indo-europeu já fosse falado em uma grande faixa da Europa, dos Bálcãs aos Países Baixos e a bacia parisiense. Porém na maior parte da Europa mediterrânea , ao sul, e a orla atlântica, incluindo a Grã-Bretanha, a oeste - a agricultura talvez tenha sido adotada sem grande deslocamento de povos. Durante o período Romano - ou bem antes - todas essas áreas também falavam principalmente o indo-europeu. Deve ter havido uma disseminação secundária do indo-europeu da Europa central para o norte, sul e oeste, provavelmente no 3º  ou 4º milênio a.C. quando inovações importantes se difundiram a partir da Europa Oriental e Central (veículos com rodas, arado, metalurgia do cobre e o uso do cavalo).
              Os contatos precisavam garantir o suprimento dessas e outras mercadorias e isso deve ter estimulado a adoção das línguas indo-européias na Europa Ocidental. A sobrevivência prolongada até bem pouco tempo da língua dos pictos, no norte da Escócia, e do basco atual, no nordeste da Espanha e sudeste da França, pode representar os últimos vestígios das línguas originais não indo-européias da Europa Ocidental.
               Existe uma diferença fundamental entre o grupo indo-europeu ocidental, com uma vida agrícola estável como agricultores europeus, e um grupo indo-europeu oriental, cujos membros se estendiam amplamente pelas estepes e áreas semidesérticas e que participaram da expansão dos povos arianos no Irã e dos indo-arianos na Índia. Alguns estudiosos argumentam que habitantes das cidades dos Indus, como de Mohenjo-Daro e Harappa, já falavam a língua indo-ariana, mas a maioria acredita que o indo-ariano chegou à Índia algum tempo depois que essas cidades foram abandonadas, no início do 2º milênio a.C.. Para o leste, os membros do grupo indo-europeu que foram mais longe alcançaram o Turquestão chinês, onde o idioma conhecido como o tócaro foi escrito no século VIII. O indo-europeu se disseminou ainda pelo oeste. Assim, durante o 1º milênio a.C., grupos conhecidos como cimérios, citas e sármatas forçaram as fronteiras do leste europeu e entraram pelo Cáucaso e noroeste da Anatólia. Muitos elementos da arte iraniana foram transmitidos dessa maneira, bem como formas aprimoradas de arreios para cavalos. 
               Os ramos oriental e ocidental do indo-europeu estão hoje separados geograficamente por uma cunha de línguas do Extremo Oriente, disseminadas em períodos posteriores de expansão e migração pelas estepes. Antes do nascimento de cristo, as estepes foram denominadas por tribos indo-européias;no milênio seguinte, várias tribos da região dos Montes Altai, na Mongólia, também adotaram o meio de vida nômade e se deslocaram para oeste. os primeiros a chegar na Europa foram os hunos, seguidos pelos seus parentes, os avaros; depois vieram tribos turcas conduzidas pelos Khazares. As tribos que chegaram á Europa foram expulsas ou assimiladas pelos indo-europeus do grupo eslavo, mas quando outros turcos seljúcidas se apropriaram do que restou do Império Bizantino, no Oriente Próximo, interrompeu-se a corrente de línguas aparentadas da Europa à Índia. 
              Na zona de civilizações urbanas, nos flancos meridionais dos montes Tauros e nos rios que daí correm, houve interação semelhante entre áreas povoadas e áreas semidesérticas, produzindo outra série de relações linguísticas que chegou à Arábia e se estendeu pela África do Norte. A distribuição das línguas semíticas reflete o caráter nômade da vida nessas áreas. As primeira comunidades urbanas dos sumérios, no 3º milênio a.C., não eram semitas, mas seus vizinhos e sucessores do 2º milênio (acádios e assírios) representam o ramo semítico do nordeste. A noroeste, na costa levantina e áreas adjacentes, estavam os canaanitas urbanizados, incluindo os arameus e hebreus,  enquanto a sudeste encontrava-se o principal grupo de língua hamítica da civilização egípcia e a sudeste os árabes nômades, que posteriormente levaram a cultura e a religião islâmica do Atlântico ao Índico. 
             No  1'º milênio a.C., língua e cultura semíticas foram levadas além da área semi-árida do Oriente Próximo, através da expansão marítima pelo Mediterrâneo. Ainda na Idade do Bronze, no fim do 2º milênio a.C., a costa levantinas e destacara como importante área mercantil e no início do 1º milênio a.C., os fenícios expandiram sua rede de comércio, estabelecendo colônias distantes de sua terra natal. Os gregos, recuperando-se da idade do obscurantismo pós-micênico, seguiram os fenícios de perto, causando rivalidade comercial e militar. Dos portos levantinos de Sidon e Tiro, os fenícios navegaram além da rede colonial grega no Mar Egeu e Adriático, fundando as cidades de Cartago em 814 a.C. e Utica na costa norte da África e Cádiz na Espanha. Foi o poder marítimo destes semitas que os romanos encontraram nas colônias do oeste do Mediterrâneo, durante as Guerras Púnicas, entre os anos 264 e 146 a.C..

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sábado, 2 de maio de 2020

OS HEBREUS NA PALESTINA - DIÁSPORA JUDAICA



                O Hebreus dominavam Canaã, uma vasta área verdejante do vale do Jordão e das colinas prometidas pelo Senhor Moisés. Naquela região já viviam povos adultos e fortes, com os Moabitas, os Filisteus, os Edomitas e os Cananeus; todos esses povos tinham afinidades com Israel pela língua e pela raça, mas disputavam aos recém-chegados o terreno palmo a palmo. 
                 Moisés relembrava a antiga história de sua raça, desde quando, mil anos atrás, Abraão chegara à quela suave região, vindo de sua distante Ur, na Caldeia. Pensava nos primeiros dias, no florescer das nômades tribos de Israel, em sua imigração para o Egito, nos longos séculos de vida sob o domínio dos faraós. 
            Conta a história que finalmente reviu todos os lugares que ele percorrera à frente de seu povo, guiando-o ruo à terra de seus avós, a longa sede no amarelo deserto de Horebe, na fulgurante aparição do Senhor, entre os nimbos do Monte Sinai. Agora, a terra prometida estava ali, diante dele, e a mão do Patriarca moribundo erguia-se abençoando o povo eleito e o verde país que Deus lhes destinara. 
               Naquela época, entre 1500 e 100 a.C., os Hebreus eram governados por Juízes, isto é, Sacerdotes - Guerreiros, nomeados pelo povo, mas, para opor uma forte pressão à resistência dos adversários, era necessário um chefe verdadeiro, e eles o elegeram na m pessoa de Saul, seu primeiro rei. Por ele e pelo seu sucessor, Davi, foi levada a termo a conquista da palestina e, em Jerusalém, as tábuas da lei, supremo tesouro da nação hebraica, encontraram afinal, uma sede estável. povo nômade por excelência, os Hebreus nunca se haviam dedicado ás artes ou à arquitetura e, assim, quando salomão, filho de Davi, quis engrandecer sua cidade e edificar um templo para a glória desse Deus, precisou chamar operários e artistas fenícios, sírios e babilônios, mas, infelizmente, eles estavam rodeados de vizinhos poderosíssimos, para que pudessem conservar longamente a paz e a independência. Primeiro o Assírios, comandados por Sargão I, depois os Babilônios de Nabucodonosor romperam a propriedade de Israel. Deportados para as margens do Eufrates, os Judeus choraram as ruínas de Jerusalém e do templo. Passou, também, o domínio babilônio, ofuscou-se o poderio dos Persas e dos Selêucidas, que também haviam escravizado o pequeno reino de Judá. Em 65 a.C., as águias de ouro das legiões de Emílio Scauro, procônsul romano na Galileia, profanavam as sagradas muralhas de Jerusalém. Mas o espírito de liberdade custava para morrer entre aquele povo, que sentia profundamente sua superioridade intelectual sobre os rudes invasores. O exemplo de Judas Macabeu, que soubera expulsar os Selêucidas, animou os Hebreus, que se rebelaram contra os Romanos, massacrando-lhes as guarnições. A reação dos conquistadores foi rápida e decisiva; as tropas de Flávio Vespasiano e de seu filho Tito varreram os rebeldes da palestina, sitiaram Jerusalém  e, após uma luta sangrenta, destruíram-na. Entre o sangue e as chamas dos incêndios, tombava para sempre a grandeza de Israel, e aos descendentes de Abraão, Isaac e Jacó restavam somente os olhos para chorar, diante das ruínas do templo, a ruína de sua raça. 
                Mas a herança espiritual do judaísmo não se extinguiu, com seu poderio político. Dispersos por todos os recantos do globo, humilhados e perseguidos, os Judeus souberam conservar intacto o mais alto patrimônio da raça,aquela lei divina que estava em seus corações e que ninguém poderia ferir ou destruir. 
Rememorando fatos importantes
O templo de salomão, um dos maiores e grandiosos edifícios do mundo antigo, foi construído no ano 900 a.C. e destruído, pela primeira vez, pelos Babilônios, no ano 586 a.C. Reconstruído, foi novamente arrasado pelos Romanos  no ano 70 a.C. 
A grande emigração dos Hebreus do Egito para a Palestina foi um fato fundamental para essa raça que vivia sob um cruel sistema de escravidão, e ocorreu cerca de mil anos a.C.  
A História nos conta que na Arca estão guardados os rolos da Lei.
 A tomada de Jericó foi um dos episódios mais importantes da conquista da Palestina. 
 O Profeta Jeremias reza sobre seu povo prosternado, em Babilônia, invocando o fim m do exílio, exortando todos os judeus a confiarem em deus Nosso Senhor, o único que poderia salvar Israel dos invasores. 
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               O que mais motivou a expulsão dos Hebreus do Egito foi, sem dúvida, o fato deles serem uma raça que se multiplicava rapidamente e ao mesmo tempo se tornavam mais ricos, poderosos e unidos. esses fatos foram fatores que amedrontaram os Egípcios, e por isso, principiaram a maltratá-los, impondo-lhes fortes taxas e obrigando-os a trabalhar como escravos nas pedreiras e nas construções de pirâmides (túmulos); ai tinham de suportar as mais penosas fadigas, sempre sobre uma dura vigilância cruel dos soldados que  não lhes davam um instante de descanso. Mas, apesar de todas as perseguições, o número de Hebreus continuou a crescer. Isso levou ao Faraó a emanar um edito que dizia: "Todos os filhos varões nascidos de mulheres hebreias deverão morrer". Com prantos e preces o coração dos Hebrus ergueram-se para Deus implorando pela salvação de seu povo. E, segundo a lenda, foi assim que uma mulher da tribo de Levi teve um filho de extraordinária beleza, que conseguiu manter oculto durante três meses, mas, depois, com o pensamento em que o faraó pudesse descobrir a criança, colocou-a num cesto de vime e depositou-a entre os caniços, às margens do rio Nilo, justamente no local onde a filha do faraó costumava tomar banho. A princesa, ao ver o belíssimo menino,enterneceu-se dizendo: - "Este é certamente, um pequeno hebreu condenado a morrer". Então retirou-o da água sem saber o que deveria fazer. Ocorreu, porém, que a irmã da criança, que se ocultara nas vizinhanças, ofereceu-se para ir procurar alguma mulher que pudesse criar o menino e o devolvesse, logo que estivesse mais desenvolvido, á princesa. Com esta atitude, com a qual a princesa concordou, a criança pode voltar a viver com a própria mãe. Depois de três anos o menino foi levado á princesa que o adotou como filho dando-lhe o nome de Moisés, que quer dizer "salvo das águas". Em seguida, fê-lo educar-se na corte do faraó, como se fora um príncipe de sangue real. 
                 Mais de quarenta nos se passara quando Moisés estava vistoriando as obras quando viu um soldado egípcio bater cruelmente num Hebreu. Isso acirrou sua cólera e atirou-se contra o agressor matando-o ali mesmo. Como tratava-se de um crime Moisés fugiu e foi viver junto a um pastor  de ovelhas na Arábia, onde permaneceu vários anos e, talvez até já tivesse esquecido seu verdadeiro povo.  Certo dia, porém, ao apascentar seu rebanho nas proximidades do monte Horebe, viu uma fogueira, que ardia sem consumir-se. Curioso, já ia aproximar-se, mas, segundo a lenda bíblica, foi detido por uma voz que lhe disse: -"Não te aproximes Moisés, porque a terra que tu pisas é sagrada!" E a voz continuou dizendo: -"Eu sou o Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó. Os lamentos de meu povo, escravizado no Egito comoveram-me. É chegado o tempo em que eu o libertarei e lhe darei uma terra grande e fecunda: a terra de Canaã. Tu guiarás meu povo e serás seu chefe. Vá, pois ao Faraó e dize-lhe que liberte os Hebreus!" E assim, Moisés ficou responsável pela libertação do povo. Dirigiu-se ao faraó e disse-lhe: "- O Deus de Israel ordena-te, pela minha boca, que deixes livre o povo hebreu, para que possa alcançar a terra que Ele lhe destinou, que fica além do deserto! 
               - "E quem é esse deus de quem me falas, para que eu deva obedecer-lhe as ordens? Eu não o conheço e não libertarei te povo! - respondeu o Faraó, indignado e temeroso, só em pensar que poderia perder os Hebreus, que executavam os serviços mais duros e pesados em todo o Egito. E obstinou-se nessa recusa todas as vezes que Moisés e Aarão, por ordem de deus, foram procurá-lo. 
               Segundo a lenda, deus, então, enviou terríveis castigos a todo o povo egípcio: as águas do Nilo transformaram-se em sangue; o país foi invadido por enormes rãs; nuvens de moscas e de ainda mais fastiosos insetos atormentaram homens e animais; o gado morreu quase todo, vítimas de terrível epidemia; uma nuvem cinza, caindo sobre as pessoas, deixava-as repletas de chagas; uma espantosa chuva de pedra, misturada com fogo, matou todos os homens e os animais que encontrou pelos campos; miríades de gafanhotos devoraram, em seguida, tudo quanto sobrara da colheita, e as trevas da noite duraram três dias inteiros. Enfim, insistindo o faraó em seus propósitos insanos, todos os primogênitos dos Egípcios morreram numa única noite. destes flagelos, chamados "as pragas do Egito", ficaram isentos somente os Hebreus, suas casas, seus campos e seus rebanhos. 
                  Na mesma noite em que pereceram os primogênito dos Egípcios, todos os Hebreus, por ordem de Moisés, assaram um cordeiro e comeram-no com pão ázimo (isto é, sem fermento) e alfaces selvagens, permanecendo de pé em redor das mesas, vestidos com trajes de viagem e cajado na mão. Assim, conta a lenda, os Hebreus prepararam-se para a retirada e, em seguida, lembraram-se sempre desta última cena em terras do Egito, com a solenidade da Páscoa, repetindo, todos os anos, aquela cena, com o mesmo ritual. 

                 Há mais de 2.000 anos a história dos Judeus tem associado a dispersão externa à coesão interna. Desde a destruição do primeiro Templo e o exílio na babilônia, em 586 a.C., a Judeia foi absorvida por uma sucessão de impérios poderosos: babilônico,persa, ptolomaico, selêucida, romano, bizantino e finalmente os impérios islâmicos, culminando com os dos turcos otomanos. Mas a dispersão decisiva dos Judeus ocorreu no Império Romano. Após uma crescente tensão religiosa, política e nacionalista, a primeira " Revolta dos Judeus" ocorrida entre os anos 66 a 73 d.C. quando rompeu o poder Romano na Palestina, mas logo perdeu força. As legiões romanas capturaram Jerusalém em 70 d.C. e destruíram o templo. Três anos depois, após longo cerco, caiu Massada, o último baluarte dos fanáticos, às margens do mar Morto. Mas a segunda grande "Revolta dos Judeus ocorreu entre 1342 e 135 d.C., liderada por Bar Kokhba, causou danos maiores á estrutura da vida judaica na palestina. 
              As revoltas reprimidas com dureza, além das medidas de Adriano para "desjudaizar" Jerusalém após o ano 135 d.C., deterioraram a posição dos judeus na Judeia. Mas no restante do mundo romano o status legal e econômico e a viabilidade das comunidades permaneceram incólumes, estimulando a migração da Palestina (onde os judeus não eram maioria desde o século II e outros judaicos do Oriente, Mesopotâmia e Alexandria, em direção às costas oeste e norte do Mediterrâneo. 
              A capacidade de recuperação do judaísmo depois de duas grandes derrotas infligidas pelos romanos pode ser atribuída à evolução da religião judaica após a destruição do primeiro templo em 586 a.C. e ao surgimento de uma fé descentralizada baseada na sinagoga e na oração comunitária. De um lado, com as sinagogas surgem novos líderes locais, os rabinos. De outro, a religião e a lei civil judaica foram codificadas, primeiro com o Mishnah, compilado perto de 200 d.C., e depois, na Palestina e babilônia, por meio do Talmude, resultando de discussões sistematizadas. As duas obras são hoje a base da religião e da vida comunitária judaicas. 
           As comunidades judaicas desenvolveram-se pelo oeste e norte do Império Romano.  Uma comunidade judaica surgiu no século II a.C. em Roma e, no século I d.C., estavam estabelecidas em diversas partes da Itália (Nápoles era a mais importante). A presença dos judeus na Espanha remonta ao século III; ao norte, instalaram-se em Colônia pelo menos a partir do século IV. 
             A mudança no centro de gravidade do mundo judeu do Oriente para o Ocidente foi um processo longo. Culminou na Alta Idade Média, quando os judeus do Oriente Próximo e África do Norte se fixaram no sul da Itália, Espanha, França e Alemanha. Na Espanha, a época de ouro dos judeus começou com o primeiro califa Omíada de Córdoba, Abd al Rahaman III, no período de 912 a 961, e continuou no governo cristão até os tumultos anti-semitas de 1391. Acredita-se que a vida judaica tenha se mantido nas margens do Reno após a queda do Império Romano no Ocidente. A comunidade adquiriu proporções significativas por volta do século X. 
              Apesar do massacre na Primeira cruzada, nos anos 1090, os séculos XI e XII foram a época de ouro dos judeus alemães no período medieval. Mas a crescente presença judaica no Ocidente gerou reações. O papel econômico das comunidades declinou e, após o Terceiro e Quanto Concílios de Latrão, de 1179 e 2015, a Igreja Latina intensificou a hostilidade ao judaísmo. Lembrando que Jesus era Judeu. 
               Várias expulsões da Europa Ocidental começaram na Inglaterra em 1920, embora o povo judeu fosse então bem reduzido. Um golpe mais contundente foi a expulsão da França em 1394. Massacres e perseguições periódicas na Alemanha levaram a uma migração palestina de judeus alemães (asquenazitas) do vale do reno para o leste, estabelecendo as bases do  povo judeu moderno da Europa central e Oriental. Praga se tornou um centro judaico importante no século XI e recebeu imigrantes do oeste e sul da Alemanha no século XIII. No século XIV, Viena era o principal centro judaico em terras alemães. Comunidades judaicas surgiram em Cracóvia Kalisz e outras cidades no oeste e sul da Polônia no século XIII e, mais a leste, em Lvov, Brest-Litovsk e Grodno, no século XIV. O período de imigração mais intensa do Ocidente para a Polônia e Lituânia ocorreu do final do século XV e ao longo do século XVI. 
             Essas manifestações, aliadas aos pogroms (violentos ataques) na Espanha em 1391, foram seguidas pelo estabelecimento da Inquisição para enfrentar o criptojudaísmo na Espanha. A expulsão geral dos judeus da Espanha em 1492, Portugal em 1497 e Provença em 1498, mudaram definitivamente o  peso da balança de oeste para leste. 
               No fim do século XV e início do século XVI, houve expulsão das cidades livres da Alemanha Imperial, como Nurembergue em 1499, Ulm em 1499 e Regensburg em 1519 e também dos principados luteranos como a Saxônia em 1537, Brunswick e Hannover em 1533. A maioria dos exilados vindos da Alemanha se fixou na Polônia e Lituânia. Os judeus espanhóis e portugueses expulsos (sefarditas) foram para o Império Otomano 3e norte da África. No fim do século XVI, alguns migraram para Roma, Veneza, Livorno e outras áreas do norte da Itália. 
                As comunidades judaicas polonesas, lituanas e otomanas floresceram no século XVI e início do século XVII. Mais tarde, as condições se deterioraram na Polônia e Turquia. Após a deflagração da "Guerra dos 30 Anos" entre 1618 e 1648, judeus do centro-oriental e leste da Europa, assim como do Oriente Próximo, se fixaram em áreas da Europa Ocidental, com a permissão das cidades comerciais e de governantes principescos. 
               Comunidades surgiram no Ocidente e principalmente no norte da Itália, Alemanha, Holanda e, a partir de 1650, na Inglaterra e colônias britânicas no Novo Mundo (no Caribe e depois na América do Norte). Pequenos grupos migraram da Alemanha para a Dinamarca e Suécia. Nas cidades da Europa Central, como Viena, Berlim, Hamburgo e Budapeste, as comunidades judaicas cresceram nos séculos XVIII e XIX, como resultado da imigração de países situados a leste, especialmente a Polônia.
               Nos séculos XVII e XVIII, algumas comunidades judaicas maiores, mais ricas e culturalmente mais sofisticadas existiam em Amsterdã, Hamburgo, Frankfurt, Livorno, Veneza e Roma, seguidas por Berlim e Londres. Amsterdã, com comunidades "sefarditas" (refere-se à Península Ibérica) e "asquenazitas" (Europa Central) importantes, era um dos principais centros judaicos do Ocidente, especialmente nas áreas de comércio, finanças, publicação de livros. A população sefardita de Amsterdã chegou a 3.000 habitantes (1,5% da população da cidade) no fim do século XVII. A população asquenazita superou a sefardita antes do ano 17600 e chegou a ser cinco vezes maior no final do século 18, quando as duas comunidades somavam 10% (20 mil habitantes) da população da cidade.  
                Mas até 1940, o maior segmento do povo judeu continuou a residir no Leste Europeu, com concentração no leste da Polônia, que por fim se tornou a faixa ocidental do Império Soviético. Apenas populações judaicas muito pequenas existiram na Hungria e Romênia em 1700, embora tenham crescido rapidamente nos séculos XVII e XIX pela imigração da Polônia e do território Tcheco. Sob os governos dos czares, a maioria das populações judaicas do Império Russo estava confinada nas áreas a oeste (de povoamento judaico limitado), antigas partes da Polônia, Lituânia e Ucrânia. Os judeus só podiam se estabelecer na Rússia propriamente dita com permissão especial. 
                 A preponderância demográfica dos judeus no Leste Europeu teve fim com a ocupação nazista e o holocausto: na Polônia, ex-Checoslováquia e e áreas onde o assentamento judaico era permitido, a vida das comunidades foi, em grande parte, destruída. Populações judaicas importantes sobreviveram apenas no interior da ex-União Soviética, Romênia e Hungria. 
Os livros dos Judeus
               Mesmo com todo o tumulto da época, os judeus mantinham o seu tradicional amor pelas letras, e o papel que representaram na literatura da época foi grande. A esse período pertencem as mais primorosas partes da Bíblia. Em fins do século III um poeta judeu (ou talvez poetiza) compôs o divino Cântico dos Cânticos; ali encontramos toda a arte do verso grego, desde Safo até Teócrito, enriquecida por algo impossível de ser encontrado em nenhum autor grego dos tempos - uma intensidade de imaginação, uma profundeza de sentimento e uma devoção idealística bastante forte para exaltar em amor tanto o corpo como a alma, e para transformar a própria carne em espírito. Os judeus helenísticos, parte em Jerusalém, parte nas outras cidades do Mediterrâneo Oriental e em maior número em Alexandria, escreveram - em hebraico, aramaico ou grego - obras primas como o Eclesiastes, p Livro de Daniel, parte dos Provérbios e Salmos e a maior porção da Apócrifa. Escreveram histórias como as Crônicas, novelas como Ester e Judite e idílios de família como o Livro de Tobit. Os Soferim modificaram a escrita hebraica dos velhos assírios, transformando-a no estilo sírio até hoje conservado. Como a maior parte dos judeus do Oriente Próximo falavam naquela época mais o aramaico do que o hebraico, os eruditos explicavam as escrituras em breves targuns aramaicos, ou interpretações. Abriram-se escolas para o estudo do Torá, ou Lei, e para a explicação do código moral à adolescência; tais explicações e  comentários, passados do professor para o aluno através de gerações, iriam formar, em época posterior, a maior parte do Talmude
               Em fins do século III os letrados da Grande Assembléia haviam completado a publicação da antiga literatura e terminado o cânon do Velho Testamento; a seu ver a era dos profetas estava finda e com ela a correspondente inspiração. O resultado é que muitas obras desse tempo, repleta de sabedoria e beleza, perderam a coima da inspiração divina e caíram na infeliz categoria de Apócrifa. (O Velho Testamento Apócrifo, literalmente oculto, são os livros excluídos do cânon judeu do Velho testamento como não sendo de inspiração divina, mas que foram incluídos na Vulgata Católica Romana).Os dois livros de Esdras talvez devam algo de sua superioridade literária aos tradutores do rei Jaime; mas dificilmente poderemos atribuir-lhes o tocante relato de como Esdras pediu ao anjo Uriel que lhe explicasse por que os maus prosperavam, os bons sofriam e Israel padecia na escravidão; ao que respondeu o anjo, em vigorosa imagem, não ser dado à parte compreender ou julgar o todo. 
                  O prólogo do Eclesiástico o dá como tradução grega, terminada em 132, dos discursos escritos em hebraico duas gerações antes, pelo avô do tradutor, Jesus, filho de Sirac. Esse "Joshua ben Sirac" fora tanto erudito como homem de negócios; depois de ver muita coisa pelo mundo, em viagens, decidiu transformar sua casa em escola; e a seus discípulos deixou esses ensaios sobre a sabedoria da vida. Joshua denuncia os judeus ricos que abandonaram sua crença para melhor figurarem no mundo gentio; adverte os moços contra as cortesãs que por toda a parte os assediam; e indica a Lei como sendo ainda o melhor guia para evitar os males e abismos do mundo. Não é, contudo, puritano. Ao contrário dos Chassidins, não condena o prazer inofensivo; e protesta contra os místicos que rejeitas a medicina alegando que todas as moléstias tendido vindo de deus, só por deus deverão ser curadas. O livro é fértil em epigramas, dos quais o mais conhecido é o da vara e dos meninos. "O numero de surras aplicadas  por sua mãe conta", diz Renan, "deve ser incalculável. É nobre livro, mais sábio e bondoso que o Eclesiastes.
                No capítulo vinte e quatro do Eclesiástico lemos que "A sabedoria é o primeiro produto de Deus, criada no início do mundo". Aqui e no primeiro capítulo dos Provérbios encontram-se as primeiras formas da doutrina dos Logos - o Saber como um "demiurgo", ou criador intermediário, incumbido por deus de traçar o mundo. Essa hipostatização (realidade abstrata) do saber como inteligência personificada torna-se a ideia dominante da teologia judaica nos últimos séculos anteriores a Cristo. A seu lado crescia rapidamente a concepção da imortalidade pessoal. No Livro de Enoc,aparentemente escrito por vários autores, entre os anos 170 e 66 a.C., na Palestina, a esperança do céu se torna necessidade vital; o êxito da perversidade e o infortúnio de um povo piedoso e leal não podiam ser suportados senão à força de esperança; sem ela a vida e a história pareceriam obra mais de Satã que de Deus. Um Messias viria estabelecer na terra o reino dos Céus e premiaria os virtuosos com a eterna felicidade depois da morte. (As pessoas parecem estar presas na Idade Média, e continuam vivendo de esperanças como na velha Palestina). 
                  No Livro de Daniel todo o terror da era de antíoco IV encontra eco. Por volta de 166, quando os fiéis estavam sendo perseguidos com furor, e inimigos ainda maiores ameaçavam o grupo macabeano, um dos chassidins (provavelmente) decidiu reacender a coragem do povo com a descrição dos sofrimentos e profecias de Daniel no reinado de Nabucodonosor, na Babilônia. Cópias do livro circularam secretamente entre os judeus; foi considerado como obra de um profeta que vivera 370 anos antes, suportara torturas maiores que as infligidas por Antíoco, seria vitorioso e preconizara triunfo id~entico para sua raça.  E mesmo que os virtuosos e fiéis não encontrassem prêmio aqui, teriam a recompensa no Julgamento Final, quando o "Senhor" os acolhesse no céu, onde a felicidade é eterna, e lançasse às torturas do inferno os que os haviam perseguido. 
                 Em resumo, o resto dos escritos judaicos desse período pode ser classificado como mística ou imaginativa literatura de instrução, edificação e consolação. Para os Judeus de períodos anteriores a vida na terra fora o bastante, e a religião não constituía uma fuga do mundo, e sim uma dramatização da moral pela poesia da fé; um Deus poderoso, a ver e governar todas as coisas, recompensaria a virtude e puniria o vício na terra. O Cativeiro abalara essa crença, a restauração do templo a renovara; mas tudo ruiu aos golpes de Antíoco. O pessimismo passou a agir em campo aberto; e nos escritos gregos os judeus encontravam as mais eloquentes exposições das injustiças e tragédias da vida. Entrementes, o contato dos judeus com as ideias persas de céu e inferno, da luta entre o bem e o mal e do triunfo final do bem, proporcionou uma válvula para a filosofia do desespero; e talvez a concepção da imortalidade com que o Egito inoculara Alexandria, bem como as ideias que alimentavam os mistérios da Grécia, tenham cooperado para inspirar aos judeus dos períodos grego e romano essa consoladora esperança que os sustentou através de todas as vicissitudes do seu templo e do deu estado. Desse judeus e dos egípcios, persas e gregos, a concepção da recompensa e do castigo eternos iria fluir para uma nova fé ainda mais forte, e auxiliá-la a vencer um mundo em desintegração. 
              
            


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